No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas subidas. Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos. Eles acenavam através das grades. Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!
"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente, "aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada e em cima, a uma janela, um homem, com um binóculo à frente dos olhos, espreitando para além do mar.
A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes. As moscas liam cartas microscópicas. Seis anos mais tarde, perguntei a uma dama de Lisboa: Isto é real, ou fui eu que sonhei?"
posted by luis Segunda-feira, Fevereiro 28, 2011
Ouvi esta madrugada adentro, antes, em primeiro lugar bravo! bravo! professor José Gil, está de parabéns, por ter dito esta madrugada aquilo que os telejornais e os jornais e as revistas e cada uma das aulas deste país deviam começar por dizer hoje e reflectir durante semanas: na excelência e na exactidão da sua linguagem, que não consigo reproduzir disse e mostrou o importantíssimo e crucial desfasamento entre o discurso e a realidade em que vivemos, nomeando mesmo o primeiro ministro da república portuguesa como um dos principais responsáveis, e ao dizer desse desfasamento nomeou o paradoxo da nossa instalação bem no meio dessa crise que não nos querem deixar ver mas sim infantilizar, e que depois o contacto com a realidade/o quebrar do espelho (do psiquiatra Amaral Dias, também interveniente na conversa) vai-nos ainda pôr mais nus, caso fosse preciso, ou tornar ainda mais esquizofrénicos (viram ontem o mesmo primeiro ministro a fazer aquela figura em cima dum tapete rolante com aquele esgar sorridente? Soares, Santos Sócrates? É de ir às lágrimas)
Na mesma conversa não atingindo o ponto nem querendo estar em silêncio para o tentar perceber o frade e cronista de domingo do jornal público quer é que as televisões, jornais e revistas mostrem coisas boas das diferentes dimensões da sociedade e não mostrem apenas o telejornal da desgraça (que puxem por Portugal, "eu estou aqui é para puxar por Portugal", fugindo à realidade, dizia o primeiro ministro português ao entrar no carro no fim das cerimónias do 5 de Outubro passado). Não compreendeu José Gil como também já o mostrou algumas vezes nas suas intrepretações das sagradas escrituras, sendo a que mais me chocou, sim, é a palavra, foi a última que escreveu no jornal sobre o regresso do filho pródigo.
Ora, houve naquela conversa os diferentes portugais que vamos vendo,lendo e reflectindo. Já voltamos outra vez William Wordsworth.
Herberto Helder e também Tomas Tranströmer como geniais poetas falam da necessidade de uma linguagem nova, que buscam e da qual fizeram as suas vidas. Foi isso que vi em José Gil ontem. Por isso os bravos e por isso os parabéns por nos desnudar para depois nos vestirmos outra vez.
Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras,
mas onde não há uma linguagem, dirigi-me para a ilha coberta de neve. A veação não conhece palavras. As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções.
Eu dei com vestígios de cascos de corça na neve. Linguagem, mas nenhuma palavra."
Para finalizar, se calhar mais do que quebrar o espelho talvez seja urgente quebrar a etiqueta, foi isso, e parece-me que foi isso que o professor José Gil também fez, uma vez que os cronistas da praça parecem quase todos ter pouca liberdade.
inWilliam Wordsworth (trad. Maria de Lourdes Guimarães), O Prelúdio, Relógio D`Água, 2010.
inWilliam Wordsworth (trad. Maria de Lourdes Guimarães), O Prelúdio, Relógio D`Água, 2010.
Vasco Pulido Valente, que admiro muito, teve necessidade, num destes fim de semana, de escrever sobre o que Eduardo Lourenço, que muito admiro também, uns dias à frente, chamou de "esquerda extralúcida, convicta de ser la maîtresse-à-penser do Universo".
E os dois deram uma lição, só aprende quem quer, a alguns cronistas da praça que já escrevem em letras garrafais títulos quando não é bom ter razão, isto mais do que uma vez, é de ir à jugular, de facto. Nós vamo-nos tornando ridículos como o orvalho a cair... Wordsworth.
A jactância insolente dos trintas em busca da fama e da eternidade, coisas de sempre, coisas, sim, tem feito desfilar, nos últimos dias, por esses jornais e páginas da net, um rol de... nem sei o que lhes chamar.
São alguns dos delfins (ah, Cardoso Pires! ah, Cardoso Pires!), que temos/teremos de ir aturando para tudo ir ficando na mesma.
É tão bom ter surpresas destas, já tinha visto e ouvido mas não sabia que estava no youtube, que bom, vi no blog da poesia incompleta.
À laia de nada, dei comigo, um destes dias, a barafustar silenciosamente contra aquelas vozes que dizem que não se edita nem se vende nem se atende à poesia, uma ova, o caraças, mentira. Nunca vi tantos livros de poesia editados como agora, e, acima de tudo, uma grande grande parte são bons, muito bons, excelentes.
Meritório e bastante óptimo foi a edição, o ano passado, de Resumo da poesia 2009, que a Assírio & Alvim + a Fnac por 4,90 euros colocaram nas prateleiras. Já procurei a deste ano e não a vi, terá esgotado? Acredito.
posted by luis Terça-feira, Fevereiro 22, 2011
Segunda-feira, Fevereiro 21, 2011
Winding Stair
Um destes dias logo ao começar Quinze dias no deserto americano, Alexis de Tocqueville, Angelus Novus Editores, 2010, que me tinha passado completamente ao lado, diz assim "percorríamos lugares célebres na História dos Índios, subíamos vales por eles baptizados, atravessávamos rios que ainda hoje [1831] têm o nome das suas tribos, mas, em todo o lado, a cabana do selvagem tinha cedido espaço à habitação do homem civilizado; os bosques tinham sido arrasados, a solidão ganhava vida."
subíamos vales por eles baptizados, atravessávamos rios que ainda hoje têm o nome das suas tribos...
São maravilhosos sim os nomes por eles batizados, assim, sim, tal como os dos barcos dos pescadores da póvoa de varzim e dos das caxinas, e a memória traz-nos de imediato alguns dos mais célebres e conhecidos.
Do livro de Chales Portis, True Grit, fui anotando alguns Coronel Stonehill, Yell, Yarnell Poindexter, um homem chamado Bloodworth, avô Spurling, Daggett, Rooster Cogburn, Felizardo Ned Pepper, o vapor público Alice Waddell, Frank Pequeno, Odus Wharton, Florence Mabry Whiteside, Grover Cleveland, Spotted-Gourd, Distrito Going Snake, Creek, montes Winding Stair, o nome do gato era General Sterling Price, Nação Choctaw, Coronel Stochhill, Quantrill, Moon Garrett, Haze, Wagoner´s Switch, Chickamauga, Elkhorn Tavern, Pernas Vermelhas, Shaftoe, Salt Lake City, Flathead, Fogelson, Javardo Mexicano Original, Ordem do Arco-Íris para Meninas, Capitão Boots Finch, Gaspargoo, homem chamado Smallwood, Farrell Permalee.
No filme, os irmãos Coen acrescentam mais alguns, iguais a si próprios.
E volto a Le Clézio, "Graças ao silêncio, o Índio sabe outras linguagens. Sabe falar pássaro, planta, árvore; sabe falar terra, e rio, e sol."
(Everything I have been saying here has its parallels in literature. There is, for example, Kafka's novel The Trial, which is lost in its own labyrinths. If it had been definitively finished, in a way it would have been ruined, because it is all about the endlessness of the Law. A more complicated example is Roberto Bolaño's enormous novel 2666, which links to many of his other books, and is itself made of several books. Within 2666, there is an entire novel that details murders of women in Juarez, and that list, as Bolaño knew, can never be completed. But I'll stop myself here, because looking, rather than reading, is my theme.)
e toda a noite se vê arder o ramo de fogo do poema que se depura:
in [e eu reluzo no fundo de um universo que desconheço], Herberto Helder, Ofício Cantante, Assírio & Alvim.
posted by luis Quarta-feira, Fevereiro 09, 2011
"Eis um outro tipo de lugar novo, o aparelho egoísta de MP3. Presumivelmente, foi feito para música cristã. (Risos) E em alguns aspectos é como o Carnegie Hall, ou quando a plateia tinha que ficar quieta, porque agora é possível escutar cada pequeno detalhe. Em outros aspectos, é mais parecido com a música da África Ocidental porque se a música em um aparelho de MP3 fica baixa, você aumenta, e no próximo minuto, seus ouvidos são estourados por uma passagem alta. Assim, aquilo realmente não funciona. Gosto de música pop, principalmente, a que é composta hoje, de um certo modo, é escrita para esses tipos de aparelhos, para este tipo de experiência pessoal onde você pode ouvir os pequenos detalhes mas a dinâmica não muda tanto.
Aí eu me pergunto: OK, isto é um modelo para criação, esta adaptação que fazemos? E isto acontece em outros lugares? Bem, de acordo com David Attenborough e alguns outros, as aves o fazem também. Que as aves na copa das árvores, onde a folhagem é densa, seus cantos tendem a ser bem agudos, curtos e repetitivos. E os pássaros pertos do chão tendem a ter um canto menos agudo, assim o canto não fica distorcido quando é rebatido pelo chão da floresta. E pássaros como o pardal da savana, tendem a ter um zumbido (Reprodução sonora: canto do pardal da savana) tipo chamada. E acaba que um som como esse, é a maneira mais eficiente e prática de transmitir seu chamado através dos campos e savanas. Outras aves, como este saíra, adaptaram dentro da mesma espécie. A saíra na costa leste dos Estados Unidos, onde as florestas são um pouco mais densas, tem um tipo de chamado, e a saíra do outro lado, no oeste,♫ (Reprodução sonora: canto da saíra escarlate) tem um tipo diferente de chamado. (Reprodução sonora: canto da saíra escarlate) Assim as aves também o fazem."
Ainda do Babelia 1000 mais dois textos/artigos muito interessantes, para mim, por diversos motivos: por raramente ler e ouvir arquitetos, por não estar a par da reflexão que vão fazendo sobre a organização dos espaços público e particular/privado, e, entre outras mais, saber como projetam/problematizam/reflectem sobre o futuro do planeta e assim; da luz e da sombra, da magia da sombra, da brancura; da surpresa de um raio de luz que é também sombra.
De Zaha Hadid e Patrick Schumacher: parametricismo.
De Norman Foster: más con menos.
Objectif? não la lune mas a qualidade/sustentabilidade da vida no planeta Terra.
fotografia via telemóvel por LMD, Janeiro 2011, sem título.
El posfordismo exige patrones de ordenación espacial nuevos, más variados, complejos y densamente integrados que sean inherentemente adaptables. Desde un punto de vista retrospectivo, el posmodernismo (años ochenta) y el deconstructivismo (años noventa) podrían entenderse como los primeros pasos en esta dirección. Pronto fueron sustituidos -y sus adquisiciones parciales de conocimientos y sus descubrimientos fueron conservados y elaborados- por un nuevo y poderoso paradigma y un estilo que prometen liderar una nueva ola de investigación e innovación en el campo del diseño: el parametricismo.
El parametricismo está cobrando impulso para convertirse en el primer estilo unificado mundial que puede y debe sustituir al modernismo como estilo creíble y capaz de hacer época. El parametricismo se enfrenta a ambos, a los vestigios que quedan de la monotonía modernista y al caos urbano que ha surgido como consecuencia de la desaparición del modernismo, con un orden complejo y abigarrado inspirado en los procesos autoorganizadores de la naturaleza.
La premisa del parametricismo es que todos los elementos urbanos y arquitectónicos deben ser paramétricamente adaptables. En lugar de ensamblar figuras geométricas rígidas y herméticas (como han hecho todos los estilos arquitectónicos anteriores), el parametricismo introduce elementos maleables en un juego dinámico de receptividad mutua y de adaptación contextual. Los procesos clave del diseño son la variación y la correlación. Todo componente de la arquitectura debe interconectarse con todos los demás aspectos del diseño y tener un efecto en ellos. Esto debería tener como consecuencia una intensificación generalizada de las relaciones que enriquecen y dan coherencia, y facilita que los usuarios comprendan la arquitectura y se muevan por ella.
[...]
Por ejemplo, los datos de una tabla de exposición al sol que mapee la intensidad de la radiación solar a la que estaría expuesto un edificio durante un periodo de tiempo dado pueden proporcionar los parámetros necesarios para el diseño del sistema de sombreado del edificio. A medida que estos elementos de sombreado envuelven la fachada del edificio, la distribución espacial, la forma y la orientación de los elementos individuales del sistema de sombreado se transforman y se adaptan gradualmente a las condiciones de exposición específicas de su correspondiente ubicación en la fachada. El resultado es una fachada con un patrón en continuo cambio que optimiza la protección solar. Al mismo tiempo, esta modulación adaptativa confiere al edificio una estética orgánica que está directamente relacionada con su contexto, lo que ayuda a los usuarios a comprender mejor el entorno urbano.
Es un mantra que se repetirá de distintas formas: la absoluta necesidad de que, como sociedad mundial, seamos capaces de conseguir más con menos. Eso significa que nuestros edificios no sólo deben consumir menos energía sino que deben producir cero carbono y cero residuos. Mejor todavía, deberían recoger más energía de la que necesitan para devolverla a la red eléctrica de forma que pueda beneficiar a todos.
Por desgracia, no. La razón es que, en una sociedad industrializada, los edificios consumen más o menos el 45%, de la energía, pero esa cifra sube al 75% cuando se añaden los movimientos de personas y bienes entre unos destinos y otros. La respuesta para un futuro sostenible, por consiguiente, está en la fusión entre arquitectura e infraestructuras, entendiendo por esto último una combinación de carreteras, espacios cívicos, transporte público y estructuras varias que constituyen el entramado urbano y unen unos edificios con otros. En su variante más densamente poblada, esta mezcla se llama ciudad; en su versión más extendida, se define probablemente como megarregión.
Recordemos que casi el 40% de la población mundial no posee servicios sanitarios, el 25% carece de electricidad, el 17%, de agua potable, y un tercio vive en barrios de chabolas.
Para simplificar, propongo tres posibles situaciones que es preciso abordar, enmarcadas en forma de preguntas. La primera está relacionada con el diseño de esas ciudades nuevas que están creándose desde cero. ¿Qué forma deben adoptar, si tenemos en cuenta las cosas que han superado, o no, el examen de la historia? La segunda perspectiva afecta a nuestras ciudades actuales. ¿Cómo se adaptan a los nuevos desafíos ambientales? ¿Cómo las modernizamos para adaptarlas a los cambios y las nuevas necesidades ya visibles? La tercera pregunta se refiere a las zonas residenciales de las afueras, las interminables redes de carreteras y la extensión sin fin de los barrios poco poblados a los que sirven. ¿Qué futuro tienen? Aunque restrinjamos su proliferación, sigue existiendo la realidad de su presencia actual. ¿O también ellas están transformándose empujadas por las fuerzas del cambio?
Al principio de este texto mencionaba "dos pasos importantes" y decía que el primero era comenzar por las realidades evidentes. El segundo paso nos devuelve a la bola de cristal y su mirada al futuro. Muchas voces han asegurado que, si queremos mirar hacia adelante en el tiempo, antes debemos mirar atrás. Se supone que veremos las pautas y tendencias pasadas y eso nos permitirá comprender mejor las situaciones y tener más probabilidades de éxito en nuestros planes para el futuro.
Quase toda a gente sabe que a História diz que as mentalidades são aquilo que demora mais tempo a mudar, estruturas de pensamento, de organização, reflexão, hábitos, costumes...duram mais. E parece simples confirmar isso mesmo a partir do nosso dia a dia, no nosso vagar ou na nossa pressa.
Um destes dias, ainda em 2010, no último trimestre, acho, depois de ter visto durante muito tempo no Arts & Letters Daily chamadas de atenção para ele, comprei um livro que logo na primeira frase escrita na capa diz «Um livro que pode transformar as mentalidades», tirada do The Independent.
E quase no centro diz: "Existirá uma predisposição genética para apreciar um romance de Jane Austen, ou uma canção de Sinatra ou um quadro de Seurat?"
Trouxe-o comigo.
Tem estado ali à espera e ontem peguei-lhe, decidido. Aqui há uns dias atrás, final do ano passado, vi uma recensão a ele feita pelo próprio autor. Para quem ainda não viu sai já o link.
Interessa-me conhecer uma linguagem diferente e original, ainda que quem já tenha lido alguma coisa dos últimos darwinistas fique de certa forma logo familiarizado, que entre por outras dimensões adentro e formule críticas exigentes àquilo a que estamos habituados a ouvir a ver e a aturar. Trouxe-o comigo também por causa disso.
No princípio desta semana agora a meio ouvi ainda que não muito o início de um forum na rádio nacional cujo tema era a situação política, e já agora mental, no Egito. E um dos primeiros intervenientes começou logo a falar do apocalipse e a citar a Bíblia e estava para ali já a fazer um sermão e o não sei o que lhe chamar moderador/apresentador/dono do programa em vez de lhe dar mais um minuto ou dois depois de o ter ouvido minuto e meio corta-lhe a palavra e diz que já entendemos o seu ponto de vista. Não aprendemos nada, nem queremos ouvir nada, nem ninguém, se fosse Cave ele espumava pela boca, mas assim mandaram lá uma batata quente para a boca do homem e que se cale, que vá lá para a sua freguesia. Uma tristeza.
O autor do livro é o mesmo do Arts & Letters Daily, falecido há poucos dias, Denis Dutton. Ainda não vou dizer nada mas no primeiro capítulo o autor aborda os tipos de paisagens dos calendários que todos fomos tendo/temos por casa ao longo dos anos. E onde chega? Trouxe o livro também por causa disso.
Citação: "Esta atracção fundamental por certos tipos de paisagem não é construída socialmente, mas está presente na natureza humana como uma herança do Plistocénico, os cerca de um milhão e meio de anos durante os quais os seres humanos modernos evoluíram. A indústria dos calendários não tem conspirado para influenciar os gostos mas, pelo contrário, tenta satisfazer as preferências humanas preexistentes e anteriores aos calendários. A tantalizante questão é: por que razão existe uma preferência persistente pela paisagem azul com água?"