a apresentação de uma ausência (wip)
Também não percebo nada de escultura, aliás, não percebo nada de nada a não ser talvez limpar loiça, sim, isso, sei. É um pouco à Thomas Bernhard, peço imensas desculpas, mas é verdade.
Desde os três, quatro anos de idade que limpo louça, já imaginaram se tivesse começado a tocar piano com essa idade, ou a ler, ou a comer vidro ou outra merda qualquer? É mais fácil acreditar assim, não é? Desde os três ou quatro anos que limpo louça. Nas mãos, não me atrapalha nem prato nem pano nem talher nem travessa, copo ou panela ou assim. É a vida.
Mas há coisas de que não precisamos perceber patavina para gostar mesmo muito.
Por exemplo: Rui Chafes.
Por exemplo: Alberto Giacometti.
Por exemplo: no work in progress de Rui Chafes “O silêncio de… (1984-2012)” mostrado pela primeira vez agora na exposição TAREFAS INFINITAS quando a arte e o livro se ilimitam, na Gulbenkian, duas imagens sobrepuseram-se a outras.
Agarrado, vi-me sugado para um dos lados e para esses dois planos. A ambos juntou-se-lhes uma fantasmagoria.
Dicionário: “Arte de fazer aparecer fantasmas ou figuras luminosas em lugar escuro.”
E lá estava Alberto Giacometti.
Ainda que muito devagar, avancemos então.
Escreve Jean Genet: “Cabe aqui uma palavra: salvo homens em andamento, todas as estátuas de Giacometti têm os pés num bloco único inclinado, volumoso, mais parecendo um pedestal. O corpo que daí brota sustenta lá no alto a cabeça minúscula. Essa enorme massa de gesso ou bronze – em proporção com a cabeça—poderia levar-nos a imaginar os pés carregados de toda a materialidade liberta pela cabeça… mas não; há uma ininterrupta troca entre estes pés maciços e a cabeça. Nunca as mulheres se erguem da pesada lama: elas deslizarão pela margem sombria ao crepúsculo.”
Palavra. Pedestal. Corpo. Troca.
Walking Man, by Alberto Giacometti
“O silêncio de…”, Rui Chafes
E continua Genet, mais à frente: “Pés estranhos, ou
pedestais! Volto à mesma. Tanto quanto transparece aqui (à primeira vista, em
todo o caso), a uma exigência das leis da estatuária (conhecimento e
restituição do espaço) responde Giacometti –que ele me perdoe!—com a
observância de um íntimo culto segundo o qual dará à estátua base autoritária,
terrena, feudal. O efeito desta base é para nós mágico… (Poderão dizer que toda
a figura é mágica, sim, mas a inquietação, o encantamento que advêm desse
fabuloso pé boto não são do calibre do resto. Julgo sinceramente haver aqui uma
ruptura no trabalho de oficina de Giacometti: admirável em ambos os sentidos,
se bem que contraditório. Com a cabeça, os ombros, os braços e a bacia,
ilumina-nos. Com os pés enfeitiça-nos.”
Terra. Feudo. Magia. Inquietação. Encantamento. Feitiço.
Iluminação.
Pormenor de Walking Man, by
Alberto Giacometti
Pormenor de “O silêncio de…”, Rui Chafes
Agora Rui Chafes: “Só podemos aspirar aos objectos que
tenham estatuto de pensamento: uma criação que ignore o erro, o peso, a
sujidade, a impureza? Há aqui uma deficiência técnica: não conseguir impedir a escultura de ser objecto. Não conseguindo torná-la numa
existência com estatuto de pensamento, resta-nos uma existência com estatuto de
corpo, não um corpo. Só uma ideia
cria a casa. Os objectos mal feitos e sujos (em absoluto) tornam-se
insuportáveis. A escultura pode ser insuportável. O objecto que não devém ideia
é sujo e errado. Dessa deficiência técnica nasce a estranheza. Mas é um erro."
Escultura. Objecto. Corpo. Casa. Ideia. Erro.
Pormenor de “O silêncio de…”, Rui Chafes
Aprender a cumprir os limites das linguagens. Aprender a crescer os limites da ideia. Existir nos limites de linguagens e matérias. A distância
angustiante entre a matéria e o nome, entre a nossa vontade perceptiva e o
estado real do objecto testemunha a fuga
do objecto: deixa de ser para querer ser. Rigorosamente, os objectos
tornam-se discursos de ausência, de deslocação. Não há objecto, há a todos os
níveis a esperança do objecto. Ele é
a especificação da fuga. A ausência é a forma de consciencializar uma afeição.
Os objectos estão na sua deslocação. Não são produtos mas estados em movimento:
existências em fuga. A ausência torna-se válida como forma criada. No entanto,
a falta de realidade sofrida pelo objecto nunca nos faz aproximar dele. Pelo
contrário, é sempre a aparência de realidade que nos faz aproximar dele. Mas,
realmente, o que amamos é a deslocação, a ausência, a esperança do objecto. E
estamos sós com aquilo que amamos (Novalis).”
Linguagens. Matéria. Fuga. Ausência. Deslocação. Sofrimento.
Esperança. Amor.
Pormenor de “O silêncio de…”, Rui Chafes
E ainda: “Abandonar os objectos ao Mundo, como flores ou
órgãos, dispersos pelo Mundo: é essa a sua colocação. É preciso cultivar o
espaço bruto, só assim escreveremos o poema final. Há um vácuo espantoso que é
necessário preencher. Deambulamos num mundo literalmente vazio, no espaço que
fica entre corpos e ideias, nomes e objectos sem sentido, nos interstícios das
ausências. Como preencher este horrível vazio? (…) Lenz sobe às montanhas da
sua loucura e lá, entre o dia e o sonho, foge do vazio, do horrível vazio, sem
saber que não saiu do mesmo lugar.
Deseja ser uma sombra escura, ter asas de prata. Mergulha a fronte suave nas
mãos geladas, deixa o corpo cair, apodrecer como as suas flores. Sonha, como
eu, chegar a conhecer um dia o Santo Estrangeiro. Procura na terra negra uma
flor azul. E sabe, afinal, da escuridão e do frio que enchem este vazio. A
ausência.”
Abandono. Mundo. Flores. Espaço. Poema. Interstícios. Lugar.
Sombra. Sonho.
Pormenor de “O silêncio de…”, Rui Chafes
“Podemos choramingar no túmulo tão bem como no berço (Georg
Büchner). Os nomes de um lugar de
segurança, de esquecimento. Por isso se confunde o corpo amado com o túmulo: «…dizem
que é a paz que reina no túmulo, que o túmulo e o repouso são uma e a mesma
coisa. Se assim é, deitado sobre o teu seio, jazo já sob a terra. Meu doce
túmulo, a tua voz é um sino de finados e o teu coração o meu caixão» (G.
Buchner). Depois de destruído o corpo, continuar a trazer no sangue o nome
amado. E então morrer sem esforço, como uma estrela cadente, ou uma nota que se
esvai ao longe.”
Espontaneamente, dizia, vi-me sugado para um dos lados e
para esses dois planos. A ambos juntou-se-lhes uma fantasmagoria.
Dicionário: “ou figuras luminosas em lugar escuro.”
E lá estava Alberto Giacometti com Rui Chafes.
Foi isso também que vi a partir daqueles pedestais. E depois
ideias.
Por exemplo. Pés. Cabeça. Corpo. Cinzas. Ideias.
Diz outra vez Genet: “Conta-me Giacometti que teve outrora a
ideia de esculpir uma estátua e enterrá-la. (Assalta-me logo o espírito: «Que a
terra lhe seja leve.») Para a não descobrirem, ou só muito mais tarde, quando
ele próprio e a lembrança do seu nome houvessem desaparecido.
Enterrá-la, legando-a aos mortos?”
Alberto Giacometti, Place
Rui Chafes: “Começada já há alguns anos, «O silêncio de…” é
uma escultura em evolução, permanentemente a crescer. Escrevo à mão, o tempo é
meu amigo. Mas, cansado das palavras, queimo quase tudo o que escrevo e encerro
algumas das cinzas em caixas de aço, seladas. O fogo purifica e protege a vida,
permite trabalhar o ferro e reduzir a cinzas os corpos e as palavras inúteis.
Se escrever pode ser um acto de libertação, queimar as palavras também o é.
Talvez nunca decifremos o segredo do tempo que passa, nunca encontraremos uma
resposta.”
Um destes dias disseram-me “fizeste ou tens um arranhão na
testa” Aqui? Diz que sim com a cabeça. É uma cicatriz, desde que me lembro de mim que a trago comigo, e as
primeiras imagens que me lembro são do momento imediatamente anterior àquilo
que depois daria origem a essa cicatriz, aliás. Já me quiseram fazer uma plástica mas sempre achei isso plástico. É.
Termino com Genet: “Na origem da beleza está unicamente a
ferida, singular, diferente para cada qual, escondida ou visível, que todos os
homens guardam dentro de si, preservada, e onde se refugiam ao pretenderem
trocar o mundo por uma solidão temporária mas profunda. Fora de miserabilismos.
A arte de Giacometti parece querer revelar essa ferida secreta dos seres e das
coisas, para que ela os ilumine.”
posted by Luís Miguel Dias sábado, julho 28, 2012