quarta-feira, novembro 23, 2005
"-Não me digas que aquela mulher não era feliz! --disse ele, num tom de desafio.-- Todos nos esfalfávamos por ela. Ela não precisava de levantar um dedo, a não ser para comer uma fatia de tarte. A não ser para pentear os cabelos e pedir assinaturas de todas as revistas. Devem ter entrado naquela casa uns cem dólares de revistas. Cá para mim, foi por causa disso. Foi por olhar para as fotografias da gente do espectáculo. Pôr-se para ali a ler sonhos. Foi por isso que ela se fez à estrada. Todos os dias avançava mais uma milha: uma milha para diante, e voltava para casa. Duas milhas, e voltava para casa. Um belo dia seguiu sempre em frente.
Cobriu de novo os olhos com as mãos, arquejando.
-O corvo que eu lhe dei ficou maluco e foi-se embora. Ouvimo-lo todo o Verão. No quintal. No jardim. Na mata. O raio do pássaro passou todo o Verão a chamar pela Lulamae. Lulamae."
Truman Capote (trad. Margarida Vale de Gato), Boneca de Luxo, Editorial Notícias.
posted by Luís Miguel Dias quarta-feira, novembro 23, 2005