segunda-feira, janeiro 24, 2005
As Lições dos Mestres
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Jean Baptiste Regnault, Socrates dragging Alcibiades from the Embrace of S, 1785.
«Despertar noutro ser humano poderes e sonhos além dos seus; induzir nos outros um amor por aquilo que amamos; fazer do seu presente interior o seu futuro: eis uma tripla aventura como nenhuma outra.» [da capa, também a pintura de Regnault]
"Simplificando, distinguimos três principais formas ou estruturas de relação. Alguns Mestres destruíram os seus discípulos, tanto psicologicamente como, em casos raros, fisicamente. Demoliram-lhes o espírito, roubaram-lhes a esperança e a individualidade e exploraram a sua condição de dependência. O domínio da alma tem os seus vampiros. Em contrapartida, alguns discípulos, pupilos, aprendizes subverteram, traíram e arruinaram os seus Mestres. Uma vez mais, este drama apresenta vertentes não só psicológicas como também físicas. Recém-eleito Reitor, o triunfante Wagner desprezará um Fausto moribundo, seu antigo magister. A terceira categoria é a da troca, a de um eros construído numa base de confiança recíproca e, de facto, de amor (o «discípulo amado» da Última Ceia). Mediante um processo de interacção, de osmose, o Mestre aprende com o discípulo ao mesmo tempo que o instrui. A intensidade do diálogo gera amizade no sentido mais elevado do termo. A relação pode incluir simultaneamente a clareza de visão e a insensatez do amor. Considere-se Alcibíades e Sócrates, Heloísa e Abelardo, Arendt e Heidegger. Alguns discípulos revelaram-se incapazes de continuar a viver após a morte dos seus Mestres." [da introdução]
in George Steiner (trad. Rui Pires Cabral), As Lições dos Mestres, Gradiva, 2005.
posted by Luís Miguel Dias segunda-feira, janeiro 24, 2005