A montanha mágica

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Arte de Ser Português




Soares dos Reis, Desterrado, 1847-1889.



Depois de descrever as "qualidades da alma pátria" (génio de aventura, espírito messiânico, sentimento de independência e liberdade) Teixeira de Pascoaes, na Arte de Ser Português, descreve de seguida os "defeitos da alma pátria".
Aos defeitos já lá vamos. Antes disso, diz Teixeira de Pascoaes que as virtudes "existem hoje na Literatura, na Arte e na Poesia; tem apenas uma existência de Panteão, como os ossos de Herculano". Os defeitos "encontram-se presentemente nas pessoas dos portugueses: vivem." Diz ainda que "de resto, eu creio mesmo que o homem possui as qualidades dos seus defeitos... é possível que destes resultem aquelas, por contraste ou evolução criadora. Pode ser que o Bem não seja mais do que o Mal superiormente degenerado. Não foi assim, por degenerescência electiva, que o homem se destacou do orango?
Se admitir-mos tal teoria, o que nos não repugna, temos de olhar os nossos defeitos com esta vaga e lusitana consideração devida às coisas ruins:

Contigo, Senhor Diabo,

Antes de bem que de mal.

Ditado Popular


[ou]


Um chabo
Ao diabo
Sempre se deu...

Ditado popular"


Para Teixeira de Pascoaes "este bom senso deriva do nosso carácter espiritual e sensual. E eis a nossa comédia que se opõe, retemperando-o, ao trágico aspecto da nossa alma, dominada pelo Medo misterioso... Ao Medo, que é também o Demónio, prestamos um culto corruptor. No seu altar fantástico retine o cobre da nossa esmola..."
Vamos então aos defeitos. Antes disso dizer apenas que o que me surpreende, hoje, é a admiração de algumas pessoas quando ouvem e falam em determinados defeitos dos portugueses. Há quanto tempo escreveu Teixeira de Pascoaes sobre esta arte? Não estou admirado uma vez que nas escolas ele tem sido um pouco esquecido (um pouco?!) ou será ignorado? E depois, de repente, ficamos muito inquietos, muito abalados, ensimesmados. Certo dia assisti numa conferência, em que se homenageava Teixeira de Pascoaes e os 50 anos da sua morte, a uma breve discussão sobre o porquê do esquecimento deste insigne homem português, poeta e filósofo, (agora é que confundiste tudo, dirão alguns) e a demasiada projecção de outros. A discussão, que certamente daria para escrever resmas de páginas, não passou de uns incertos, poucos, minutos uma vez que houve pessoa de bom senso que não quis tornar aquele encontro em saber quem era o melhor, o maior e outras coisas afins. Mais do que bom senso, usou sabedoria. Embora a discussão fosse pertinente, pelo menos no que diz respeito ao esquecimento curricular de Teixeira de Pascoaes. Mas não era hora nem sítio. O sábio terminou ainda melhor, de uma forma brilhante, digo. Disse ele: "Teixeira de Pascoaes não é para qualquer um. Deixem-no estar quietinho, não o estraguem".
Os "defeitos" são, então, os seguintes: falta de persistência, vil tristeza, inveja, vaidade susceptível, intolerância e espírito de imitação.

"Falta de persistência: a obra empreendida, muitas vezes, morre no seu início.

Vil tristeza: Que tragédia, a terrível ausência da nossa alma! O sonâmbulo automatismo em que vagueia a nossa Pátria sem destino, tão aleijada e apagada de feições que é difícil reconhecê-la! Será ela? Não será?

Inveja: A vil tristeza apagou-nos o carácter, o dom de ser. Somos fantasmas querendo iludir a sua oca e triste condição. Por isso, o valor alheio nos tortura, revelando, com mais clareza, a nossa própria nulidade.

Vaidade susceptível: O português é um herdeiro esbulhado dos seus bens materiais e espirituais. Mas vão dizer-lhe que é pobre! Suprema ofensa! Não ignora a sua pobreza, porque é vaidoso, mas quer que os outros a ignorem; e serve-se para isso, de todos os meios que iludem, criando o seu drama em que é autor e actor.

Intolerância: Quem duvida do próprio valor não pode suportar a dúvida alheia que lhe diz, em voz alta e clara, o que ele mal se atreve a murmurar.

Espírito de imitação: quando o carácter adoece e se dilui, é natural que o espírito de iniciativa dê lugar ao imitativo ou simiesco."


Teixeira de Pascoaes termina, o capítulo, dizendo: "Estes defeitos, que felizmente não atingem todas as classes sociais, representam, afinal, a queda do espírito de sacrifício, a quebra da relação entre o indivíduo e o seu destino de chefe de família e patriota."

Miguel Esteves Cardoso, autor da introdução da edição de 1991 da Assírio & Alvim, de onde retirei todas as citações, diz que Teixeira de Pascoaes "nunca aceitou ser o que era, um artista de coração aberto, em viagem pelo seu país, deslumbrado como só um visionário, surpreendido como só uma visita. (...) Pascoaes não era ingénuo. Nem sequer optimista. O defeito dele não era iludir-se, porque não se iludia. O defeito dele era ouvir, ouvir tudo o que lhe diziam. (...) A vítima do livro é o autor, que continua por ler, que continua afastado dos nossos dias, que continua a bater-nos à porta, com o mesmo desejo de entrar. Nós continuamos cegos e surdos. Pascoaes continua a ver e a ouvir de mais. Um dia Portugal e Pascoaes hão-de resolver-se. Não se pode falar em reconciliações, porque Pascoaes nunca desesperou, nunca se zangou com Portugal. Portugal é que nunca lhe ligou."

Já agora, parabéns Miguel, parabéns pelos 50.

posted by Luís Miguel Dias quarta-feira, janeiro 19, 2005

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