A montanha mágica

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Bastará recordar que um dia D. Manuel I responde a uma carta da filha, a Infanta D. Maria, onde diz: 'Muito me aprouve a carta que me enviaste. Mas porque não o fizeste em latim?' É essa corte que o D. Sebastião herda.




"P. - Gostaria que os seus poemas ainda fossem lidos daqui a 100 anos?

R. - Sim, mas hoje já ninguém liga ao Guerra Junqueiro, ao Antero de Quental, ao Camilo Pessanha, que são grandes poetas. Acho que sou um grande poeta numa época de tecto baixo. Não sei o que seria se tivesse nascido numa democracia.


P. - "Tecto baixo" é uma expressão que usa com frequência no documentário. O que significa?

R. - O tecto baixo não é de agora. Fomos um país realmente lindo até ao D. Manuel I. Depois, este país começa a ser uma chatice das maiores. O século XVI vai ser um século trágico, com a Inquisição... A corte estava terrivelmente separada do povinho e completamente atordoada com as riquezas das Descobertas. Os saraus eram em latim... Bastará recordar que um dia D. Manuel I responde a uma carta da filha, a Infanta D. Maria, onde diz: 'Muito me aprouve a carta que me enviaste. Mas porque não o fizeste em latim?' É essa corte que o D. Sebastião herda. Ele tem consciência de que o país do qual passa a ser rei está num terrível mau estado. O chamado povo, que hoje já não existe - somos todos burgueses, habitantes de burgos, o campo desapareceu -, nunca mais foi ouvido a partir de D. Manuel I.


P. - Isso baixou o nosso tecto?

R. - Não foi só isso. É impressionante o número de personagens ilustres que convergem no nosso século XVI até a Inquisição aparecer e pôr tudo de pantanas [a partir de 1531]. Na Literatura, na Matemática, na Filosofia, no Teatro. O Garcia de Orta, o Bernardim Ribeiro... Com a expulsão dos judeus e a Inquisição, a governação nunca mais foi do povo, passou a ser das elites. É uma situação que dura até hoje. Um tipo que sai doutor da Universidade já não fala ao porteiro. Estive na Holanda várias vezes e, numa ocasião, estava com um amigo numa casa que vendia café em pó e chega um tipo de bicicleta, arruma a bicicleta e vai para a bicha. Soube depois que esse tipo era um ministro!


P. - Em Portugal era impossível ver algo assim?

R. - Completamente. Hoje, o ministro já não fala ao porteiro. Mas o problema nem é grande. Devemos ao Salazar a resolução. Despovoou o país interior e tudo o que era braços jovens foi ganhar ordenados capazes para o estrangeiro. E lá eram muito bons trabalhadores, enquanto cá eram maus.


P. - O nosso "tecto baixo" não tem solução?

R. - Se tem, não sei qual é. Entre o fim da Monarquia e o princípio da República tivemos intelectuais enormes: Oliveira Martins, Carolina Michäelis, Joaquim Vasconcelos. Uma plêiade regia a nossa Universidade. Quando veio o Salazar, veio a imbecilidade imposta. Ele pôs na rua o que restava de bom e fez da Universidade uma coisa à feição dele."




Mário Cesariny hoje no Público.





posted by Luís Miguel Dias quarta-feira, dezembro 01, 2004

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