A montanha mágica

terça-feira, novembro 23, 2004

tenho que limitar-me a descrever como amam, casam, se reproduzem, morrem e falam os meus heróis





Milton Avery, Spring Dunes, 1958.


"Sobre a mesa, entre garrafas de champagne, frascos de caviar, ramos de flores enviados com votos de saúde, viu uma coisa que a aterrorizou: um desenho livre, obviamente feito por um especialista da matéria, dos pulmões de Tchekov. Era o tipo de desenho que os médicos muitas vezes fazem para mostrar aos seus doentes o que pensam estar a passar-se. O contorno dos pulmões estava a azul, mas a parte de cima tinha sido pintada a vermelho. - Percebi que estavam doentes - escreveu Maria.
Leão Tolstoi também foi visitá-lo. O pessoal hospitalar estava impressionado por se achar na presença do maior escritor do país. O homem mais famoso da Rússia? Claro que tinham que o deixar ver Tchekov, embora estivessem proibidas as visitas que não fossem «essenciais». Com toda a deferência por parte de enfermeiras e internos, o velho homem de barba e rosto altivo foi conduzido ao quarto de Tchekov. Embora tivesse fraca opinião de Tchekov como dramaturgo (Tolstoi achava que as peças eram paradas e lhes faltava perspectiva moral: - Aonde o levam os seus personagens? Perguntara uma vez a Tchekov. - Do sofá à latrina e volta.), Tolstoi gostava dos contos de Tchekov. Além disso, muito simplesmente, gostava do homem. Disse a Gorki: -«Que homem esplêndido, magnífico! Modesto e recatado, como uma donzela. Até caminha como elas. É simplesmente maravilhoso.» - E Tolstoi escreveu no seu diário (naquele tempo toda a gente fazia um diário): - Sinto-me contente por gostar de... Tchekov.
Tolstoi tirou o seu cachecol de lã e o casaco de pele de urso e sentou-se à cabeceira da cama de Tchekov. Não se importou que ele estivesse a tomar remédios e não pudesse falar, quanto mais manter uma conversa. Tchekov teve teve que ficar a ouvir, espantado, quando o Conde começou a discorrer sobre as suas teorias da imortalidade da alma. Mais tarde, Tchekov escreveria, referindo-se a essa visita: «Tolstoi pensa que todos nós (tanto seres humanos como animais) vivemos segundo um princípio (como a razão ou o amor) cuja essência e finalidade permanecem em nós um mistério... Uma tal imortalidade não me serve para nada. Não a compreendo e Lev Nicolaievitch ficou espantado por eu não a compreender.»
Todavia, Tchekov ficou impressionado com a solicitude demonstrada pela visita de Tolstoi, mas, ao contrário deste, não acreditava, nunca tinha acreditado na vida depois da morte. Não acreditava numa coisa que um ou mais dos seus cinco sentidos fossem incapazes de apreender. E quanto à sua perspectiva da vida e da escrita, disse uma vez a alguém que lhe faltava «uma visão do mundo política, religiosa e filosófica. Mudo-a todos os meses, de maneira que tenho que limitar-me a descrever como amam, casam, se reproduzem, morrem e falam os meus heróis.»
Anteriormente, antes de lhe ser diagnosticada a tuberculose, Tchekov observara: «Quando um camponês apanha a tísica diz " Não posso fazer nada. Vou-me na Primavera, com o derreter da neve."» (O próprio Tchekov morreu no Verão, durante uma vaga de calor.) Mas, uma vez diagnosticada a doença, continuou a minimizar a gravidade do seu estado. Segundo todas as aparências, era como se achasse, até ao fim, que conseguia livrar-se do mal como de um catarro persistente. Lá para os últimos tempos, falou com aparente convicção da possibilidade de uma melhoria. Com efeito, numa carta escrita pouco antes do fim foi ao ponto de dizer à irmã que estava a «ficar gordo» e se sentia muito melhor depois de ter ido para Badenweiler."



Raymond Carver (trad. Telma Costa), Três Rosas Amarelas in "Três Rosas Amarelas", Editorial Teorema, 1988.


posted by Luís Miguel Dias terça-feira, novembro 23, 2004

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