A montanha mágica

segunda-feira, novembro 22, 2004

E, neste sítio amável, os pinheiros
Falavam, de contentes e libertos
Dos nocturnos e torvos nevoeiros,
No céu vibrante de asas e de luz.


Teixeira de Pascoaes





[in Assírio & Alvim]



"Fala nos poetas malditos. Essa ideia dos "escritores atormentados" é mais notória na poesia?


Há uns anos fui visitar a casa de Teixeira de Pascoaes com o meu amigo [Manuel] Hermínio Monteiro, em Amarante, e o que mais me impressionou na visita foi quando vi uma espécie de cabina envidraçada onde o poeta escrevia. Quando havia tempestades à noite ele escrevia ali os seus poemas. Isso impressionou-me muito porque ele escrevia poemas atormentados pela tormenta."



da entrevista a Enrique Vila-Matas realizada por MJO e Ana Sá Lopes. Mil Folhas de 13 de Novembro de 2004.


Teixeira de Pascoaes

"Quando da publicação de Arte de Ser Português, a Phala de Outubro / Novembro / Dezembro de 1991 reproduzia este texto de Sophia de Mello Breyner Andresen, inicialmente publicado em 1953, em Cadernos de Poesia.

Teixeira de Pascoaes é um poeta à margem de tudo quanto não seja a própria poesia. Poucas obras sustentam um confronto com a sua. É uma obra inteiramente colocada em frente da eternidade. Uma obra que passa para além de todas as negações. Mesmo grandes poetas, se os lemos depois de Pascoaes, nos parecem terrivelmente homens de letras. A sua poesia é a Poesia ? por isso se falou sempre pouco e mal da obra de Pascoaes.
Desligada quase inteiramente de todas as inovações, de todas as «descobertas», de todas as escolas poéticas da nossa época, a sua poesia nasce directamente da paisagem. Ele próprio diz:

Meu espírito humano é o corpo da paisagem.

É como se nele a luz, as Primaveras, as árvores e as fontes se tivessem tornado conscientes e se tivessem tornado palavras.
Pode-se dizer que havia em Pascoaes falta de sentido crítico. Mas o sentido crítico é sempre o sentido crítico duma época e por isso envelhece e envelhecendo engana-se. E Pascoaes é profundamente filho dum país mas não é filho de nenhuma época. Ele realiza num plano universal e intemporal aquilo que nos é mais íntimo e particular: a luz, as casas antigas, a saudade, a pressença dum passado abandonado. Talvez que actualmente outros países estejam mais aptos que Portugal a receber a obra de Teixeira de Pascoaes, a compreender a que ponto ela é grande e sagrada.
Mas o perfume, a essência única da sua poesia é uma flor que floresce no jardim de Pascoaes entre buxos e musgos, cercada de solidão e luz quebrada, tendo ao lado uma fonte, ao longe o Marão e ao fundo a casa antiga com as suas janelas feitas para reflectir o luar e o poente. Uma flor ao mesmo tempo imortal e secreta:

É tudo para mim extraordinário!
Uma pedra é fantástica. Alto monte
Terra viva a sangrar como um calvário
E branco espectro ao luar a minha fonte.

É tudo luz e voz! Tudo me fala!
Ouço lamúrias de almas no arvoredo,
Quando a tarde, tão lívida, se cala,
Porque adivinha a noite e lhe tem medo.

«Um poeta é uma coisa rara e que dura pouco» dizia Rilke. Há algumas afinidades entre Rilke e Pascoaes. A obra de Rilke é mais perfeita, mais acabada. No entanto a obra de Rilke, nos seus meios, na sua estética, já envelheceu ? e a obra de Pascoaes está à margem de tudo quanto possa envelhecer. O que vive nela é a contínua emoção do Mundo:

A árvore que, primeiro, em solitária serra
Viu, tomada de espanto, o sol nascer,
Quase que a sinto em mim dar sombra e florescer
E lembro-me do tempo em que fui névoa e terra."


Sophia de Mello Breyner Andresen



in Assírio & Alvim

posted by Luís Miguel Dias segunda-feira, novembro 22, 2004

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São horas, Senhor. O Verão alongou-se muito.
Pousa sobre os relógios de sol as tuas sombras
E larga os ventos por sobre as campinas.


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