domingo, outubro 24, 2004
A SOMBRA DO VENTO
[para o Sebastião. obrigado. 1 quarto que seja seu
a palavra escondida, oculta sozinha no silêncio, pode surgirluminoso blogue. ]
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Simon Larbalestie, Between Two Worlds 01.
É noite; ainda vem longe a madrugada...
Noite negra e sinistra, porque é funda,
Qual pego, de água lívida e parada,
Que nos causa terror...
Ó noite morta,
Ó cadáver de treva! Ó mãos de gelo,
Que pousais sobre o rosto ao viandante,
À luz, já d`além-céu, do sete-estrelo,
Sete lágrimas frias do silêncio...
No meu quarto estou só; medito e cismo...
E cismo, em quê? Em névoas, claridades,
Penumbras, que se embebem, no meu ser,
Fumos de sobressaltos e saudades...
E um nevoeiro de vozes e rumores
Dilui-me num profundo esquecimento,
E sinto-me abismar, descer... e sonho...
Súbito, acordo. Quem me fala? O vento.
E tão depressa voa, que meus olhos
Mal o conseguem ver! Ó vento errante,
Para onde vais assim, nesse delírio,
Para que mundo ausente e céu distante?
Eu quisera saber para onde vais,
Quando passas, na sombra, a clamorar...
E, de repente, apagas a minha luz
E perturbas as cinzas do meu lar!
Nem olhas para mim! Não me conheces!
E lá partes! e nada te demoras,
Espírito febril, fantasma histérico,
Doido que, ao mesmo tempo, ris e choras!
[...]
Teixeira de Pascoaes
posted by Luís Miguel Dias domingo, outubro 24, 2004