quarta-feira, junho 11, 2003
POESIA
ÉTICA
[Linda Pastan]
Na aula de ética há muitos anos
o professor perguntava o mesmo em cada Outono:
se houvesse um incêndio num museu
quem é que salvavam, um quadro de Rembrandt
ou uma velha senhora que já não teria
muitos anos de vida? Inquietos nas cadeiras duras
sem nos importarmos muito com os quadros ou a velhice
escolhíamos um ano a vida, outro ano a arte,
e sempre a contragosto. Por vezes
a mulher tinha o rosto da minha avó
abandonando a cozinha para vaguear
no esboço de um museu meio imaginado.
Um ano, cheio de esperteza, respondi
porque não deixar a própria mulher decidir?
A Linda, escreveu o professor, evita
o peso da responsabilidade.
Neste outono num museu a sério estou
perante um Rembrandt a sério, já uma velha senhora,
ou quase. As cores
nesta moldura são mais escuras do que o Outono,
mais escuras do que o Inverno – são os castanhos da terra,
apesar de os mais radiantes elementos arderem
através da tela. Sei agora que mulher
e quadro e estação são quase um só
e nenhuma criança os pode salvar.
in Duplo Império de Pedro Mexia
posted by Luís Miguel Dias quarta-feira, junho 11, 2003