domingo, maio 18, 2003
TERTÚLIA
Caro JPP, Abrupto
Quando refere que “Na tertúlia da A Montanha Mágica pergunta-se :
“Haverá esperança numa redenção do Homem? Para quem tem fé, a convicção é forte, sabendo desde logo que, a estrada para Damasco é dura de percorrer, debaixo de um sol lancinante. “
mas esta não é nem a pergunta nem a resposta de Mann .”
A questão colocada, é um ponto de partida para tentarmos reflectir, sobre o que se pode fazer nos inícios do século XXI, para melhorar ainda mais essa atitude humanista, de que fala, como sendo a única decente. Em direcção ao absoluto.
Irá o JPP argumentar “que nada se aprende , e tudo se repete , como Nietzsche defendia .”, contudo atente nestas palavras de Pascoaes, da sua obra, Duplo Passeio «Ó Nietzsche, sem o teu Anticristo, seria impossível a nova ressurreição de Cristo.» George Steiner, no Castelo do Barba Azul, explica bastante bem, como é normal, a questão da morte de Deus.
É possível, hoje, século XXI, a ressurreição de Cristo? É aqui, caro JPP, que parece divergirmos, pois achamos que já existe esse mundo novo, e ao contrário dos primeiros cristãos que se escondiam nas catacumbas, pois não tinham outra solução, hoje esse Amor existe, e manifesta-se livremente tanto na sociedade em geral (será uma minoria? Não sabemos.), como em vários domínios específicos, como por exemplo, o das artes.
Como se chega lá? Dostoiévski, no Crime e Castigo, explica um percurso.
Atente agora, neste diálogo extraído do filme, Sicília de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub, datado de 1998, (não o veja como provocação) e já editado, anteriormente aqui neste blog:
“ - Eu sou de Leonforte, lá em cima em Val Demone, entre Enna e Nicosia, sou proprietário de terras e tenho três filhas bonitas, três filhas, cada qual mais bonita do que a outra, e tenho um cavalo no qual percorro as minhas terras e então sinto-me um rei, mas não me parece que seja tudo, sentir-me rei, quando monto a cavalo e gostaria de ter outros conhecimentos, de sentir-me diferente, com algo de novo na alma, eu daria tudo o que possuo, até o cavalo, as terras para me sentir mais em paz com os homens, como uma pessoa que não tem nada que se censurar.
Não é que eu tenha algo que me censure. Nada disso. E não falo no sentido da sacristia. Mas não creio estar em paz com os homens. Gostaria de ter uma consciência fresca e que me dissesse para cumprir outros deveres, não os do costume, outros deveres e mais elevados para os homens, porque cumprir os deveres do costume não satisfaz e ficamos como se nada tivéssemos feito, descontentes connosco, decepcionados.
Não apenas para roubar, não matar, etc, e ser um bom cidadão. Penso que está maduro para outra coisa, para outros deveres, novos. O que sentimos, creio, é a falta de outros deveres, de outras coisas a fazer. Para a nossa consciência num sentido novo.
- Parece-me que tem razão. É professor?
- Não há motivo para rir, avozinho. Não há motivo. Acho que é mesmo isto. Já não temos satisfação em cumprir o nosso dever, os nossos deveres. Cumpri-los… é indiferente. Ficamos sempre mal. E eu penso que é exactamente por isto, porque estes são valores demasiados velhos, muito velhos e que se tornaram muito fáceis, que já nada significam para a consciência.
- De certeza que não é professor?
Não sou nenhum ignorante, posso ler um livro se quiser, mas não sou professor. Estudei nos Salesianos em miúdo, mas não sou professor.” (…)
Falamos, como constata, de coisas simples mas difíceis de atingir, num horizonte vasto e simultâneo. A estrada para Damasco, debaixo do sol lancinante.
Onde se defendem os valores? E que valores? Podemos citar novamente “somos todos culpados de tudo e eu mais do que todos os outros”. Que dizer desta consciência colectiva? O cimo da pirâmide, quer se seja crente ou não.
Mas também podemos estruturar os valores, que, segundo um estudo de J. M. Barros Dias, “em termos teóricos, não nos causa reticências a consideração a ter relativamente à seguinte hierarquia de valores, considerando do menos valer para o mais valer:
- valores práticos – aqueles que têm como pólos orientadores o útil e o inútil;
- valores hedonísticos – os que se norteiam em função do prazer e o desprazer;
- valores estéticos – que têm como balizas o belo e o feio;
- valores lógicos – pautados pelo verdadeiro e o falso;
- valores éticos – aqueles que consideram a esfera do bem e do mal;
- valores religiosos – que oscilam entre o sagrado e o profano.”
Ainda no mesmo estudo, “Temos de reter algo que Louis Lavelle entendeu com nitidez a respeito do tema que nos ocupa – “a axiologia é como que uma metafísica da sensibilidade e do querer” (Lavelle, 1991a:26) – e que só ocorre, em cada um de nós, quando se verifica o empenho interior, quando se manifesta o desejo. Deste modo, “o homem que intuiu o valor de justiça vive de maneira diferente daquele para quem o justo ou injusto são apenas ideias. O mesmo se pode dizer do homem que intuiu o valor de beleza, cuja vida se ressentirá sempre e se conformará de maneira diferente daquele que não teve possibilidade do intuir” (Santos, 1977:406). Ora, é o tipo de valores que pomos em prática e pelos quais nos jogamos, que determina o tipo de ser humano que somos, bem como a sociedade em que vivemos e, também, a sociedade em que queremos viver.
E para terminar as citações (que pela sua extensão, desde já pedimos desculpa), “Uma vez adquiridos, os valores permanecerão em cada um de nós, para sempre? Tal não é possível, dado que os valores mudam a partir das necessidades, dos problemas e desafios, dos interesses e das referências que, tanto a nível pessoal, quanto a nível grupal, se impõem a uma determinada pessoa/sociedade. Deste modo, os valores ou os sistemas de valores desejados impõem, aos membros de uma sociedade, a aspiração de vir a tê-los implantados nessa mesma sociedade. Temos, assim, em termos sincrónicos, a coexistência e a conflitualidade de valores, a par da permanência e da ruptura face àquilo que se acha, num determinado tempo, axiologicamente estabelecido (Rezsohazy, 1976:10)” (…)
Chegados aqui, podemos voltar ao princípio: que novo século queremos?
Com estima.
posted by Luís Miguel Dias domingo, maio 18, 2003