A 30 de Novembro de 1943, a Cruz Vermelha comunicou a sua morte em Auschwitz
junto-me, assim, a um dos destaques de hoje da assírio & alvim, a dois dos livros mais importantes/impressionantes/surpreendentes/fundamentais que, até agora, tive a oportunidade de ler.
"Tenho de viver a minha vida tão bem e tão completa e convincentemente quanto possível até ao meu derradeiro suspiro, para o que vem a seguir a mim não precise de começar de novo nem tenha as mesmas dificuldades."
"Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares."
quando, em peregrinação, encontramos a casa, um apartamento num prédio perto do Rijksmuseum, identificada apenas por uma pequena placa quase invisível no, onde Etty viveu perguntamos se... a resposta foi de quem? não sei, não é possível. a europa é um lugar mesmo muito estranho.
LMD, 2010
ainda não li mas não hesitei
Patrick Woodhouse, Etty Hillesum – Uma Vida Transformada, Paulinas Editora, 2011.
posted by luis Quarta-feira, Novembro 30, 2011
Domingo, Novembro 27, 2011
(homens feitos a falar de carburadores durante horas a fio)
LMD, sem título, 2011
deu-se o caso de se atravessarem nas minhas leituras das últimas semanas um círculo, uma lógica, um faz sentido, um anda tudo ligado, quase quase...
vamos ver se consigo dar conta, ainda que fique já dito que vai tornar-se um wip tal como outros anteriores, onde hei-de talvez um dia conseguir voltar.
talvez se torne um pouco longo mas antes assim, do que a vergonha vergonhosa de algumas notas feitas a correr sobre notas fundamentais, mas é o espaço público, os elitistas só veem telenovela.
na Parte I, ponto V intitulado Carros, de O Chalet da Memória, agora editado em Portugal, Tony Judt escreve, a respeito do deslumbramento "obsessão" que o seu pai tinha por carros: "Os vários amigos da família eram seduzidos (contra remuneração? Nunca soube) a ir fazer de «mecânicos» enquanto a mim me era confiada a tarefa, curiosamente responsável, de ver a pressão dos pneus antes da corrida. De certa forma, aquilo tinha a sua piada, embora o ambiente se pudesse tornar aborrecido (homens feitos a falar de carburadores durante horas a fio) e a viagem de ida e volta demorasse seis horas."
numa outra leitura, dias antes tinha lido, em la teologia política de Pablo, de Jacob Taubes
"el concepto griego pneuma experimenta en el horizonte de la lógica mesiánica una transformación tan radical como la del concepto pistis. Lo cual, por lo demás, también ocurre con los conceptos hebreos tradicionales rúaj y emuná. Como en el caso de pistis-fe, Taubes intenta también en el caso pneuma-espíritu de liberar al concepto de cuanto se la hido pegando anacrónicamente en el curso de la historia cristiano-occidental para compreenderlo partiendo de la situación histórica de Pablo. A la contraposición de fe y obras le corresponde en el caso del pneuma la contraposición entre el orden natural e el pneumatico. Por el principio pneuma es como Pablo conquista la libertad de desprender-se de toda atadura étnica y pasar, de este modo, más allá de Moisés. A Taubes le importa salvar el principio pneuma ante el «descrédito» del espíritu que se ha hecho manifiesto en la historia espiritual europea y han subrayado Marx, Nietzsche y Freud. Para ello, sorprendentemente, recurre al procedimiento exegético de la alegoría, rechazado por la crítica bíblica proptestante (...) Así como la lectura alegórica trasciende el sentido textual, así también la lógica pneumática supera el orden natural de lo dado. Para el programa paulino de universalización, el pneuma es la categoría decisiva a fin de lograr transcender el acervo y las pretensiones normativas de la tradición y las fronteras étnicas del pueblo de Dios."
portanto, Judt: "enquanto a mim me era confiada a tarefa, curiosamente responsável, de ver a pressão dos pneus antes da corrida". Pressão dos pneus. Pneus. Pneuma (πνεύμα).
quase ao mesmo tempo também La estrella de la redención, de Franz Rosenzweig.
Tony Judt e Franz Rosenzweig morreram vitimados pela mesma doença: esclerose lateral amiotrópica (ELA).
da introdução de La estrella de la redención, um excerto:
"Pero Rosenzweig apenas pudo enseñar un par de semestres en plena salud. Muy pronto se declara una esclerosis lateral amiotrófica que ya desde el verano del 22 le crea dificultades para hablar y para escribir. Justamente entonces --tiene 34 años-- nació su único hijo. El trabajo en que se ocupa es la traducción de los poemas de Yehudá Haleví. Las circunstancias vuelven a rebelarse. A fines de año Rosenzweig está limitado a dictar. En mayo del 23 no puede ya tampoco hablar. Desde entonces se vale de una máquina diseñada por él mismo; pero la enfermedad evoluciona rapidamente. Al parecer, los seis años últimos Rosenzweig dictaba a su mujer sólo con el movimiento de los labios."
Tony Judt: "Para quem quer continuar a ser um comunicador de palavras e conceitos, isto coloca um desafio invulgar. Foi-se o bloco de notas e o lápis, agora inúteis. Foi-se o passeio refrescante pelo parque ou o exercícuio no ginásio, onde as ideias e as sequências se encaixam como que por seleção natural. Foi-se, também, qualquer conversa produtiva como amigos próximos --mesmo na fase intermédia do declínio da ELA, a vítima está geralmente a pensar muito mais depressa do que consegue formar palavras, pelo que a própria conversa se torna parcial, frustrante, e, em última análise, em vão. Creio que dei com a resposta a este dilema quase por axaso. Já doente há uns meses, percebi que, durante a noite, escrevia histórias completas na minha cabeça. Não há dúvida que procurava o esquecimento, e trocava a contagem de carneiros pela complexidade narrativa, com o mesmo efeito. Mas durante estes pequenos exercícios, percebi que estava a reconstruir --como se fossem legos-- segmentos entrelaçados do meu próprio passado que antes nunca pensara que estivessem relacionados. Em si mesmo, isto não era grande feito: os fluxos de consciência que me levaram de um motor a vapor para a minha aula de alemão, das linhas de autocarro cuidadosamente traçadas de Londres à história do planeamento urbano do período entre guerras, eram suficientemente fáceis de lavrar e, por isso, seguiam em todo o tipo de direções interessantes. Mas como conseguiria eu recuperar no dia seguinte esses sulcos meio enterrados?"
da introdução de La estrella de la redención: "El mundo crece entrelazado con que el hombre actúe en él y lo revele. Pero este salmo de las criaturas que aún no logra pasar del tener que orar al orar efectivo y está en el límite entre gramática e liturgia, pierde toda su base de sustentación si se olvida que no estamos suponiendo la infinitud del tiempo, ni la repercusión al infinito de la acción del amor; sino que, en realidad, la prescripción de las mitsvot refiere sobre todo al más próximo y es, de hecho, descubrimiento auténtico del tercero, por cuya virtud el amor no se encierra en el egoísmo del mero gozo mutuo de los dos amantes. Rosenzweig llama «oración» fundamentalmente a la entrada en relación con lo lejano y el lejano, saltando, por lo pronto en perspectiva, más allá del próximo absolutamente próximo."
Rosenzweig: "«de la manera en que él te ama, ama tú a tu vez»."
saltemos até um dos corações de O Chalet da Memória, parte III, ponto XX - Mentes Cativas, página 175, até Czeslaw Milosz e à sua obra mais influente, A Mente Cativa.
"Mas o livro é mais memorável por causa de duas imagens. Uma é o «comprimido de Murti-Bing. Milosz Ignacy descobriu esta num romance obscuro de Stanislaw Witkiewicz, Insaciabilidade (1927). Nesta história, os habitantes da Europa Central que estão perante a hipótese de serem subjugados por hordas asiáticas, não identificadas, tomam um comprimido que lhes tira o medo e a ansiedade; encorajados pelos seus efeitos, não só aceitam os seus novos governantes como estão contentíssimos por recebê-los. A segunda imagem é a do «Ketman», que Milosz foi buscar a Arthur Gobineau e à sua obra Religiões e Filosofias da Ásia Central, na qual o viajante francês escreve sobre o fenómeno persa das identidades eletivas. Os que interiorizaram o modo de vida designado «Ketman» podem viver com as contradições de dizer uma coisa e acreditar noutra, adaptando-se à vontade a cada novo requisito das suas regras, ao mesmo tempo que creem ter preservado em si mesmos a autonomia dos livres pensadores ---ou, pelo menos, um pensador que escolheu livremente subordinar-se às ideias e imposições de terceiros. Nas palavras de Milosz, Ketman «traz conforto, acalentando sonhos sobre aquilo que poderia ser, até uma vedação permite a consolação do sonho». Escrever para a gaveta torna-se um símbolo de liberdade interior. Pelo menos o seu público levá-lo-ia a sério, se o pudesse ler. O medo da indiferença com que o sistema económico do Ocidente trata os seus artistas está disseminado entre os intelectuais de Leste. Dizem que é a melhor lidar com um diabo inteligente do que com um idiota de boa índole. Entre Ketman e o comprimido de Murti-Bing, Milosz, brilhantemente, disseca o estado mental do viajante, do idealista iludido, e do cínico servidor do tempo. O seu ensaio é mais subtil do que o de Arthur Koestler, Darkness at Noon, e menos intransigentemente ideológico do que Ópio dos Intelectuais, de Raymond Aron.
(...)
voltemos a Jacob Taubes: "que el hombre, haga y diga lo que quiera que sea, lo hace en el tiempo. Estamos, por ejemplo, sostiniendo una discussión, y quien me preside dice: en algún momento hay que terminar. A lo sumo el último día, pero cuandoquiera que sea, hay un final. No se puede discutir sin fin; llega al fin un momento en que se actúa. Quierod ecir que el problema del tiempo es un problema moral, y el decisionismo significa decir que nada dura sin fin. En algún momento tal problema o tal otro habrá de tratarse en el parlamento (no en comisiones parlamentarias), y da lo mismo para esto que lo trate el príncipe con sus consejeros secretos o que lo discuta el parlamento: lo tratarán en el tiempo y alguna vez habrán de actuar. Y quien lo niega es inmoral; en efecto, no entiende la situación humana, que es finita, y, como finita, tiene que cortar, o sea, que decidir.
(...)
Este texto, que es como el testamento de Walter Benjamin, se confronta punto por punto y directamente con las tesis de Carl Schmitt:
La tradición de los oprimidos nos enseña que el «estado de excepción» en que vivimos es la regla. Tenemos que llegar a un concepto de historia que se corresponda con ello. Se nos pondrá entonces ante la vista, como nuestra tarea, el traer el verdadero «estado de excepción»; y así mejorará nuestra posición en la lucha contra el fascismo.
Las palabras fundamentales de Carl Schmitt las introduce aquí Walter Benjamin, las toma y las cambia en su opuesto. El «estado de excepción», que en Carl Schmitt se impone dictatorialmente, se dicta desde arriba, se vuelve en Walter Benjamin la doctrina de una tradición de los oprimidos. El «tiempo de ahora», abreviatura formidable del tiempo mesiánico, determina la experiencia de la historia tanto de Walter Benjamin como de Carl Schmitt.
(...)
Carl Schmitt piensa en términos apocalípticos pero desde arriba, desde las potencias; yo pienso en términos apocalípticos pero desde abajo. Pero lo tenemos en común la experiencia del tiempo y la historia como plazo, como plazo perentorio. Y ésta es en su origen una experiencia cristiana de la historia."
Daqui tombou, para mim, há uns dias Manuel Clemente, bispo do Porto, abaixo: em entrevista/conversa à TVI, com Judite de Sousa, perguntava-lhe esta o que é que ele achava sobre a criação de um imposto excecional sobre as grandes fortunas como estava a acontecer lá fora, E.U.A, França e assim, onde alguns dos mais ricos diziam ter a obrigação de contribuir com mais dinheiro para a resolução da crise económica e financeira atual. E o bispo nunca foi capaz de dizer à jornalista que concordava com este imposto, e duas ou três vezes ela o encurralou com a pergunta. Nunca concordou com a justiça deste imposto. Não, disse sempre que era preciso estudar como e quando é que as grandes fortunas podiam aplicar esse dinheiro para ajudar a resolver a crise. Que tinha de se ver a forma. E a jornalista tentava e a resposta foi sempre igual. Comportamento ao contrário teve o arcebispo de Cantuária.
Ernst Bloch...
O que diz Giorgio Agamben em Estado de Excepção:
"O sistema jurídico do Ocidente apresenta-se como uma estrutura dupla, formada por dois elementos heterogéneos: um, normativo e jurídico em sentido estrito --que podemos aqui inscrever por comodidade na rubrica potestas-- e outro, anómico e metajurídico --a que podemos chamar de auctoritas. O elemento normativo precisa do anómico para poder aplicar-se numa relação de validação ou de suspensão da potestas. Enquanto decorre da dialéctica entre estes dois elementos em certa medida antagónicos, mas funcionalmente conexos, a vetusta morada do direito é frágil e na sua tensão para a manutenção da sua própria ordem está sempre já em processo de ruína e corrupção. O estado de excepção é o dispositivo que deve, em última instância articular e manter unidos os dois aspectos da maáquina jurídico-política, instituindo um limiar de indecidibilidade entre nomos e anomia, entre vida e direito, entre auctoritas e potestas. Funda-se sobre a ficção essencial pela qual a anomia --sob a forma da auctoritas, da lei viva ou da força-de-lei-- ainda está em relação com a ordem jurídica e o poder de suspender a norma engrena directamente na vida. Enquanto os dois elementos permanecerem relacionados, mas conceptualmente , temporalmente e subjectivamente distintos --como na Roma republicana na oposição entre senado e povo ou na Europa medieval entre poder espiritual e poder temporal-- a sua dialéctica --embora fundada numa ficção-- pode ainda de algum modo funcionar. Mas quando tendem a coincidir numa só pessoa, quando o estado de excepção, em que ambas se ligam e se confundem, se torna regra, então o sistema jurídico-político transforma-se numa máquina letal.
O objectivo desta indagação --sob a urgência do estado de excepção «em que vivemos»-- era trazer à luz a ficção que governa este arcanum imperii por excelência do nosso tempo. Aquilo que a «arca» do poder contém no seu centro é o estado de excepção --mas este é essencialmente um espaço vazio, no qual uma acção humana sem relação com o direito tem defronte uma norma sem relação com a vida. Isto não significa que a máquina, com o seu centro vazio, nãos eja eficaz; pelo contrário, aquilo que pretendemos mostrar foi precisamente que ela continuou a funcionar quase sem interrupção a partir da Primeira Guerra Mundial, passando pelo fascismo e o nacional-socialismo, até aos nossos dias. O estado de excepção alcançou mesmo, hoje, a sua máxima extensão planetária. O aspecto normativo do direito pode assim ser impunemente obliterado e contraditado por uma violência governamental que, ignorando, no estrangeiro, o direito internacional, e produzindo, no interior, um estado de excepção permanente, pretende todavia estar ainda a aplicar o direito. Não se trata, naturalmente, de repôr o estado de excepção dentro dos seus limites temporal e espacialmente definidos, para reafirmar o primado de uma norma e de direitos que, em última instância, têm nele o seu próprio fundamento. Do estado de excepção efectivo em que vivemos não é possível o regresso ao Estado de direito, visto que estão agora em questão os próprios conceitos de «estado» e de «direito». Mas se é possível tentar deter a máquina, expôr a sua ficção central, é porque entre violência e direito, entre vida e a norma não há qualquer articulação substancial. Ao lado do movimento que procura mantê-los a todo o custo ligados, há um contramovimento que, operando em sentido inverso no direito e na vida, procura sempre separar aquilo que foi artificial e violentamente ligado. Isto é, no campo de tensão da nossa cultura agem duas forças opostas: uma que institui e põe e outra que desactiva e depõe. O estado de excepção é o seu ponto de máxima tensão e, ao mesmo tempo, aquilo que, coincidindo com a regra, ameaça hoje torná-los indestrinçáveis. Viver no estado de excepção significa fazer a experiência de ambas estas possibilidades e, no entanto, separando sempre as duas forças, tentar incessantemente interromper o funcionamento da máquina que está a conduzir o Ocidente para a guerra mundial."
tanta luz, tanta luz, não é?
como se chega/caminha para uma catástrofe (segundo a segundo, fração a fração, fotograma a fotograma, palavra a palavra letra) é sempre o mais difícil de destrinçar (sim, sim, ainda que...) de qualquer presente/tempo, caraterística do tempo longo, quando dizemos isto ou aquilo, e que sem que o saibamos estamos já a contribuir para esse desenlace. E quanto mais em bicos de pé nos pomos mais tarde mais patetas somos e parecemos. Gostei muito de O Laço Branco, de Michael Haneke, por algumas razões, uma das quais pela possibilidade de ver agulhas a apontarem num globo.
conta Jacob Taubes que "una vez me contó Carl Schmitt que se vio metido por Goering, con ciertos consejeros de Estado y ciertos profesores alemanes, entre los que estaba Heidegger, en un tren nocturno, en dirección a Roma, para hablar com Mussolini. Y que Mussolini le dijo (esto era en 1934): «Salve al Estado del Partido!»"
há uns meses atrás, seis?, Mário Soares em pleno socratismo disse, em plena campanha eleitoral, com o país em forma de assim, que José Sócrates era o melhor para o partido, que era a solução para o partido e também para o país.
Jacob Taubes no fim da citação acabada de reproduzir escreveu: "No sirve para nada indignarse..."
veja-se outro exemplo da nossa marcha, escreve Agamben: "Uma das características fundamentais do estado de excepção --a abolição provisória da distinção entre poder legislativo, executivo e judicial--mostra aqui a sua tendência para se transformar numa prática de governo duradoura" :
voltando à introdução de La Estrella de la Redención, de Franz Rosenzweig: "el ápice de la verdad de la Estrella es el esfuerzo por expresar el presente como decir directo del Yo; como decir instantáneo, absolutamente impaciente pero infinitamente eficaz, en el que se exterioriza sin embages, sin ningún rodeo, sin ninguna preparación y sin ninguna premeditación, el comienzo de un diálogo. Presencia pura, lenguage naciente, contacto absolutamente directo entre Yo y Tú, eterna novedad y juventud, terremoto que conmociona e inspira --hasta romper su soledad-- al héroe trágico en que habíamos visto configurarse en nuestra historia pasada la figura del hombre metaético."
o que Tony Judt faz de uma forma magistral porque simples em O Chalet da Memória é mostrar-nos o mesmo que Agamben, mostra-nos a superfície e que ainda assim leva indivíduos em jornais a dar-lhe apenas meia dúzia de linhas e a apelidarem um seu tratado sobre os dias de hoje "destinado sobretudo aos jovens". Sim pois, porque os não jovens já não vão na cantiga... Se não fosse grave até dava para rir, mas, enfim, é o que se encontra neste nosso país de cheiro a mofo, parolo, labrego e de sociedades secretas.
quando se ouve e se lê a dizer que sou velho em novo logo ocorre um dos nossos poetas anciãos mas dos mais novos em lucidez e em energia, leia-se, Herberto Helder
"há muito quem morra precipitadamente, ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas, ninguém ainda está maduro, uns são varados por uma bala na bôca, outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora, ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica, há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água, quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte com tanto sangue à volta dela, são mortes académicas, et parce que l`on ne peut pas ne pas écrire, talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou irresistível ou arrancada, excedendo o mundo, ou uma expressão de amor obscena e dôce, então sim já se estaria pronto para as perguntas: dói? doem? onde? como? quando?
(...)"
é que chateia mesmo ler e ver defender que Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos é para os jovens, mas quais jovens? quem é que é jovem? Chateia ver tantas vezes repetidas uma badamerda? E ver alguns daqueles jovens jornalistas, em idade, tão tímidos e tão tementes a fazerem perguntas balbuciantes aos da troika, quase em devoção, quase a arrastar-se e a lamberem-lhes as botas? Ninguém se ergue a dizer que somos uma país com os ordenados assim, mínimos e médios, que as entidades patronais distribuem quase nenhuns lucros pelos trabalhadores, que... é muito bolor, mofo. mofo de mofo.
termino este texto, começado há uns dias atrás, quando na tv o fado já fede e o jornalista que está a apresentar o telejornal pergunta a Carlos do Carmo e a Mariza o que é que eles acham e assim. A RTP no fim do telejornal de merda que apresenta ainda, glória das glórias, transmite/exibe o concurso o elo mais fraco e antes o preço certo. Haja elitismo. Concertos aí das 20h30m às 21h15 minutos uma vez ou duas por semana é que não, não há tempo. Tanto mofo, tanto mofo por todo o lado.
Judt: "enquanto a mim me era confiada a tarefa, curiosamente responsável, de ver a pressão dos pneus antes da corrida".
posted by luis Domingo, Novembro 27, 2011
num destes dias recortei de jornais espanhóis alguns recortes
um deles foi este
Paul Klee, Navegación difícil, 1937
mas como não tinha cola comigo não o colei logo, deixei-o solto entre páginas
ora, quando já tinha a cola comigo e ao preparar-me para o colar vi que, e já e ainda não colei
e depois fui à procura, como não sabia o nome nem em inglês nem em alemão fui pelo nome em espanhol Navegación difícil (1937), e encontrei The diaries of Paul Klee, 1898-1918
e um pdf onde
e depois pareceu-me fazer ainda mais sentido e, mais importante, ainda mais muito mais enternecedor navegação difícil de sorriso no rosto, quase um milagre
posted by luis Terça-feira, Novembro 15, 2011
Segunda-feira, Novembro 14, 2011
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"Regarding your account: amontanhamagica1
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l'origine du monde
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houve pessoas que se deram ao trabalho de ir fazer queixa, voilá.
quando fui ver o último João Canijo na fila atrás de mim estava uma família de 5 pessoas, 3 com mais de dezoito anos e 2 aí com doze anos. viram o filme todo e à saída dei com eles a sorrirem e a passar a mão pela cabeça dos mais novos. aguentaram o filme todo sem nunca terem achado que antes deveriam proteger os miúdos...
posted by luis Segunda-feira, Novembro 14, 2011
Sábado, Novembro 12, 2011
o google e buster keaton, o expravda e o actual new york times (a partir de APR)
já muitos carateres se escreveram sobre o google e as suas mais variadas dimensões mas comigo só distraidamente aconteceu um destes dias, nunca tinha olhado para isso, cromo, sei
abri o google e enquanto estava à volta de uns papéis quaisquer lá carreguei num carater este /
não sei quantos milhões de entradas em não menos poucos segundos
dei uma gargalhada e passou-me à frente dos olhos esta cena
primeiras respostas a que objecto levarias contigo e para Ushuaia?
I máquina fotográfica, água e roupa, a bandeira da cidade, bandeira nacional, cartaz, cãmara de filmar, bolo de chocolate, cavalo e carroça, livro, mapa de Portugal com poster da cidade de, uma bicicleta, bandeira de Portugal, galo de barcelos, canivete suiço, bandeira nacional
posted by luis Sábado, Novembro 12, 2011
Outra versão: "A história é contada pelos Persas de duas maneiras”, e a segunda é: “contam então que o escudeiro tocou nos órgãos sexuais dessa égua e manteve a mão escondida nas suas calças, compridas e largas; conta-se ainda que, ao nascer do sol, quando os cavalos estavam juntos, prestes a avançar, Ebares, estendendo a mão, aproximou-a das narinas do cavalo de Dario – e o animal, ao sentir o cheiro, soprou com força e relinchou.”
Depois, olhemos para alguma investigação:
i) “este processo de designação do futuro monarca inscreve-se nas tradições de um povo adorador do sol e dado à contemplação do levantar do astro-rei, um povo de cavaleiros, para quem os cavalos eram consagrados à divindade e oferecidos em sacrifício;
ii) “entre os Persas os relâmpagos e o trovão poderiam ser interpretados como sinais do seus supremo Ahura Mazda, principal divindade do Zoroastrianismo, criador do céu;
iii) “Que a história de Dario pode ter sido adaptada dum texto assírio,sobre Sargão II;
iv) “Georges Dumézil explica que, nos tratados rituais védicos, o cavalo assume um papel essencial em dois rituais régios: o vajapeya e o asvamedha. Neste último, o futuro monarca era designado graças ao seu cavalo: se, deixado em liberdade durante um ano, o animal não fosse morto nem capturado, isso significaria que o seu dono o deveria sacrificar como oferenda, na qualidade de rei; no ritual do vajapeya, o futuro rei sacrificava a montada que o ajudara a vencer uma prova equestre.”
Ao longo da leitura dos diferentes volumes de Histórias fui também anotando as vezes em que os diferentes investigadores, historiadores, iam dizendo que Heródoto errou aqui neste dado, se enganou ali noutro, que Heródoto não sabia ou confundiu, que é muito diferente do que Heródoto escreveu e assim muitas vezes em mais coisas. Para que fique claro, os volumes de Histórias de Heródoto são um monumento, os investigadores portugueses que escreveram as diferentes introduções, notas, comentários fizeram um excelente trabalho, mas ainda faltam três volumes, e depois se calhar fazer um só livro com os nove livros, mas a certa altura, já não interessa dizer se Heródoto se enganou ou se confundiu, tal é a riqueza do que escreveu. Nas notas de rodapé, tenho dúvidas é no uso/utilização do conceito classe ou classes, que só deverão ser empregues depois de 1789 d.C.
Lembrei-me também, ao longo da leitura das riquíssimas notas de rodapé, de uma história do precioso livro de Tonino Guerra O livro das igrejas abandonadas:
O sino
"A igreja fica ao pé de um cemitério onde está sepultada uma rapariga que se chamava Unichetta. Para se ver o sino, que é o mais velho da montanha, há um campanário que deve ter metro e meio de largura com duas escadas de mão que se enfiam primeiro num buraco: daqui sai a segunda que leva lá acima. Ninguém sabe quem a fez e em que ano. Um dia veio de Santarcangelo um homem de uns oitenta anos que é explorador de palavras escritas nos livros antigos ou nas pedras. Um amigo de Pennabilli devagarinho ajudou-o a subir os degraus da primeira e da segunda escada até chegarem lá acima mortos de cansados e todos cheios de pó. Assim que o professor viu aquele sino suspenso no meio da arcada que dá para o precipício, abraçou-o e manteve-o apertado durante dez minutos como se fosse um filho que tornasse da guerra. Depois largou-o e ele e o outro desceram as escadas com todas as precauções. Mal acabou de descer, sacudiu com grandes palmadas o pó do casaco e entretanto dizia que o sino o construíra Iacobus Aretinus em 1316. Como resolveu o problema só Deus sabe, porque, do lado que se via, o sino era liso e sem datas. Soube-se um ano depois. Contou que a escrita no bronze estava do outro lado e ele lera uma letra de cada vez com os dedos. Por isso o abraçara, e não por outra coisa qualquer."
posted by luis Quinta-feira, Novembro 10, 2011
Quarta-feira, Novembro 09, 2011
Bienal del Fin del Mundo
quando na adolescência vi e mostramos, numa sala da escola secundária, Os deuses devem estar loucos 1 foi assim como estar a ter uma visão daquilo que tomara conta de mim uns anos antes, quando num sábado de manhã, ou já hora do almoço, através da tv, dei de frente em Cosmos, Carl Sagan
uooouuu
gostava de nesta altura já ter lido mais Claude Lévi-Strauss mas não
todavia..., quando li num jornal sobre a III Bienal del Fin del Mundo assomou-se-me uma pergunta: que objecto levarias contigo e para Ushuaia?
e fui à procura do que outros levaram:
se alguém quiser responder, esteja à vontade. aliás, gostava de fazer a pergunta a algumas pessoas. será que vão responder?
posted by luis Quarta-feira, Novembro 09, 2011
David Cronenberg diz no jornal público de hoje que A Dangerous Method é um filme radical uma vez que "é um filme de palavras (...) é um filme cheio de diálogos, e isso é muito radical hoje muito difícil de conseguir financiar".
verdade, é um filme de diálogos e deve ser difícil de financiar porque num tempo em que ninguém quer ouvir ninguém a não ser o seu próprio umbigo, por que é que haveria de ser fácil de financiar?
muito impressionante já havia sido Viggo Mortensen quer, embora mais, em Uma História de Violência quer em Promessas Perigosas: impressionante porque a face do homem vai mudando ao longo do filme, vai tomando diferentes feições, expressões, linhas, a mim impressionou-me muito.
muito impressionante, mas com menos intensidade, ou mais forçado, uma vez que o papel assim o obriga, agora também com Keira Knightley.
sobre os dois minutos e meio que foram mostrados de Cosmopolis, will see, will see. a primeira impressão foi de uma proximidade com Crash, o que parece fazer sentido. Cronenberg aproveitou para dizer que a fotografia final do filme não era assim, so dark, mas mais clean. na caixa de correio já recebi perguntas a saber se gravei esses dois minutos e meio, houve essa tentação mas Paulo Branco pediu/proibiu de o fazer. não gravei.
para terminar, já em casa a opção tomada foi, pela primeira vez, carregar no canal os vídeos acabados de gravar, o título dos vídeos David Cronenberg, as etiquetas David Cronenberg; Peter Suschitzky; Paul Giamatti; Sarah Gadon; Cosmopolis. Houve, de imediato, a subscrição do canal por parte de outros dois canais youtube, que me parecem ligados a Robert Pattinson, tão falado na masterclass. O número de visualizações, neste momento, é o que poderão constatar, em menos de 48 horas.
posted by luis Segunda-feira, Novembro 07, 2011
voltemos atrás no tempo, à masterclass Working with David Cronenberg.
fui sentindo/constatando que ia ser mais de entertainment do que outra coisa, mais de piadolas do que, Cronenberg é muito simpático e estava muito bem disposto.
foi diferente, muito mesmo, de Abbas Kiarostami, de Lou Reed... os minutos iam passando, as palavras e os silêncios sucediam-se de para (1, 2, 3, 4, 5), e recordava-me da conferência de imprensa de Bob Dylan em Londres nos anos 60, do Lost in Translation, do Somewhere, de Kitano, de David Lynch, de Kubrick. portanto, cheio de.
no número um desta série disse no fim e foi e não foi assim. voltemos lá, ao não foi.
não foi o que aconteceu porque não mais consegui sossegar, aqueles dois homens ali + David Cronenberg que estava quase a chegar (e o assalto, só te faltam uns meses para os quarenta anos, agora não, pois), Uma História de Violência é um dos filmes que escolheria para uma lista pequena, e a mosca que nunca mais me saiu da cabeça e o crash foi e.
e à saída do centro de congressos vi-me sem mais nem menos ao lado de cronenberg, assim mesmo, pedi-lhe perguntando-lhe se podia ser fotografado a seu lado
claro que sim, disse obrigado
no fim estendeu-me o braço despedindo-se assim, quase quarenta.
[neste momento, o jovem do computador ligado e sem auscultadores a ver episódios manga ficou sem a energia da bateria, pc off, é a vida, também já não tenho para muito mais, agora é só o som mecânico do veículo onde viajo, e a água do rio lá em baixo, mais Ozu]
posted by luis Segunda-feira, Novembro 07, 2011
o dia de ontem 3
venho para a cadeira, olho para lá uma outra vez e... e dou com os olhos em Don DeLillo (quantas horas e mais horas com os livros dele cabeça corpo mãos cérebro?)
olhei-o de um lado e depois de outro, o que me faltava de Sonny Wortziksi...
no fim da masterclass, corri de novo para a fnac e como ainda não li Americana foi este que levei, Don DeLillo passava por trás e distanciado de mim cerca de três, quatro metros, corri, abriu a porta eu abri outra e
- Mr. DeLillo, posso-lhe pedir para assinar... gosto mesmo muito dos seus livros, e estendi-lhe o livro - ele olhando para mim disse: Sim, posso, mas tem de ser rapidamente
naquele momento ficamos os dois sozinhos entre as duas portas do hall de entrada do centro de congressos do estoril, não se ouvia mais ninguém, como no fundo do mar...
estendeu-me o livro,
- muito obrigado, agardeci-lhe
e ele inclinou a cabeça e... voltou para trás
pegou-me novamente no livro e disse
- não conheço esta edição, sabe... - é a versão portuguesa - oh, oh, ok, thank you - thank you very much - bye
não sei dizer mais nada, a espécie de euforia, o desassossego perdido umas horas antes tinha tomado conta de mim, procurei o chão rapidamente
posted by luis Segunda-feira, Novembro 07, 2011
[neste momento estou em viagem e aqui ao meu lado está um jovem de computador ligado e sem auscultadores a ver episódios manga, o som quase ininterrupto de gritos femininos, de espadas contra espadas, vozes masculinas que aprendi primeiro em Kurosawa, vozes desesperadamente doces femininas, acompanham-me desde há uma hora e tal]
posted by luis Segunda-feira, Novembro 07, 2011
o dia de ontem 2
foi porque foi isso que aconteceu, vi o filme ("o homem é perigoso, tudo o que diz é poderoso, tudo o que diz leva-nos a querermos deixar o nosso caminho e passar a seguir, exclusivamente, o dele") e assisti à masterclass.
mas vi e assisti quer ao filme quer à masterclass já muito condicionado, já quase um Sonny Wortziksi; vejamos...
antes do filme começar dei com os olhos em J.M. Coetzee (quantas horas e mais horas com os livros dele nas mãos cabeça cérebro corpo?), a tranquilidade estava posta em causa
e depois, quando acabou o filme, fui imediatamente ao stand fnac comprar um livro para a seguir lhe pedir que mo assinasse. assim aconteceu. olhou para mim, pegou na caneta e assinou, despediu-se com os olhos, nem uma palavra.
posted by luis Segunda-feira, Novembro 07, 2011
o dia de ontem 1
intenções: tentar chegar ao centro de congressos do estoril e, no âmbito do lisbon & estoril film festival 11, ver A Dangerous Method, de David Cronenberg.
portanto, fui dos que optou em não ir mais cedo e para a sala ao lado ver The 4 Horseman of the Apocalypse, de Vincente Minelli.
a opção justifica-se apenas pelo desejo de assistir num lugar mais ou menos confortável à programada masterclass Working with David Cronenberg.
no último 31 de março o post dizia gosto muito de Don DeLillo mas e depois este poema de Carlos de Oliveira. tinha, naqueles dias, lido ponto ómega e achei/considerei que este poema era/é uma/a fulguração que o livro de DeLillo procura. hoje, continuo com a mesma opinião. devia ser mudado para inglês e passado a ele entre mãos.
deste vídeo e do próximo, ainda que assim, gravados em setembro de 2010, gosto muito -- são, também, muito Cosmopolis, DeLillo: um vate, orações, uma multidão, écrans gigantes, rendição, deleite e agora nem a advertência nem a castração lhe faltaram:
2/11/2011:
"Information about your video "whobyfire"
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Dario para Ebares: “Ebares, acabámos de deliberar acerca da realeza e decidimos fazer o seguinte: àquele cujo cavalo for o primeiro a relinchar, quando todos nós estivermos montados, ao nascer do sol, a esse caberá o poder real. Se realmente alguma sabedoria tens, maquina um plano, de modo a que sejamos nós a ter esse privilégio e nenhum outro.”
Ebares para Dario: “se nisso está de facto, meu senhor, a possibilidade de ser ou não tu a realeza, fica tranquilo e mantém firme o ânimo, que nenhum outro homem será rei em vez de ti, pois para tal tenho eu remédio.” As providências de Ebares: “assim que se fez noite, levou para os arredores da cidade uma das éguas, justamente a que o cavalo de Dario mais apreciava, e aí a deixou presa; depois levou para o mesmo sítio o cavalo de Dario, passeou com ele, à volta da fêmea, muitas vezes, aproximando-o dela, e finalmente deixou o macho cobri-la.”
E ao nascer do dia: “os seis jurados, segundo o combinado, para aí vieram juntos, montados nos seus cavalos. Ao cavalgarem nos arredores, assim que se aproximaram do mesmo lugar onde, na noite anterior, tinha estado amarrada a égua, o cavalo de Dario correu para o local e relinchou. Ao mesmo tempo que o cavalo assim fazia, um relâmpago partiu do céu sereno e sobreveio um trovão.”
E conclui Heródoto: “tais fenómenos fizeram triunfar Dario, como manifestações não ocasionais, ocorridas por algum acordo prévio: os outros conjurados desceram das montadas e saudaram Dario, prosternando-se.”
um excerto da excelência de O AbertoO Homem e o Animal de Giorgio Agamben, acabado de publicar pelas edições 70, na coleção biblioteca de filosofia contemporânea.
quando a parolice é muita; tinha a boca atulhada de ouro e estava inchado por todo
no correio da manhã do passado domingo, 30/10/2011, o secretário de estado da cutura sobre o fim das entradas gratuitas nos museus aos domingos de manhã
"jornalista:
- Quanto é que se vai ganhar cobrando-lhes bilhete?
secretário de estado da cultura:
- Um milhão de euros."
no mesmo domingo, 30/10/11 mas agora no jornal público:
"jornalista:
- Quanto é que se ganha com uma medida como a do fim da gratuitidade dos museus?
secretário de estado da cultura:
- Quer o número? Dois milhões."
Depois de ter lido as duas entrevistas fiquei com a impressão de que o responsável político deu respostas rápidas, transpirando confiança, assertivas e excessivas, a roçar a hybris "É preciso voltar à mesma frase ´que parte é que não percebeu? Não há dinheiro", estilo gingão, e como se pode ver parolas, "quer o número"; mas dizem que tem boa imprensa. Diz que se encontra uma vez por semana com outro parolo, primeiro ministro da república de portugal, para falarem sobre cultura, e como se pode ler mais milhão menos milhão... O estado de exceção em ação. Disse também "por outro lado, faz sentido fazer um grande Museu dos Coches", eheheheh, sem palavras.
De Heródoto: "Os Alcmeónidas eram, desde há muito tempo, pessoas ilustres em Atenas, mas a partir de Alcméon e de Mégacles, dispensou ajuda e zelosa colaboração aos Lídios vindos de Sardes, da parte de Creso, a fim de consultarem o oráculo de Delfos; e Creso, ao tomar conhecimento, através dos Lídios que consultaram os oráculos, do auxílio que ele prestara, fez com que Alcméon viesse a Sardes e, mal este chegou, deu-lhe de presente todo o ouro que ele fosse capaz de levar sobre a sua pessoa de uma só vez. Alcméon, perante uma oferta nestes termos, valeu-se do seguinte expediente: vestiu uma grande túnica e nela deixou uma prega profunda, calçou os coturnos mais largos que conseguiu encontrar e assim entrou no interior da câmara do tesouro para onde o conduziram. E, atirando-se para cima de um monte de ouro em pó, primeiro meteu à volta das pernas tanto ouro quanto os coturnos puderam aguentar; depois, encheu também toda a prega da túnica, polvilhou a cabeça com pó de ouro, levou outro pedaço à boca e saiu do tesouro, a custo arrastando os coturnos, mais semelhante a tudo que a um ser humano: tinha a boca atulhada de ouro e estava inchado por todo. Ao vê-lo, Creso não conteve o riso; e não só lhe deu tudo quanto ele trouxera como ainda lhe ofereceu outros presentes em nada inferiores àquele."
É a vida, milhão para a frente milhão para trás importa também que "faz sentido fazer um grande Museu dos Coches".
Outro exemplo do espaço público e da sua qualidade, que nos ocupa e atropela:
no último atual, 29/10/2011, semanário expresso, Clara Ferreira Alves, enviada a nova iorque, entrevista, sim, não foi conversa, Don DeLillo "o autor americano" escreve a jornalista, parolice já se vê, não pelo escritor mais por ela, adiante.
Como já falamos em impressões voltemos a elas, quando li a entrevista tive a impressão de ver uma jornalista em bicos de pé o tempo todo, olhe para mim, olhe para mim, veja, agora uma pirueta e agora... mas o mortal à retaguarda não o soube dar, esfrangalhando-se no chão.
E esse mortal à retaguarda que ela tanto almejou, quis e não conseguiu estatelou-se em definitivo nas últimas perguntas quando diz a DeLillo "Nunca explorou o tema grande da religião. Outro grande tema americano". E o escritor ainda lhe deu umas pistas mas a jornalista já dolente dos dedos dos pés não o discerniu, Cosmopolis e assim, e, assim, portanto, as perguntas anteriores deveriam ser reformuladas; aliás, até o célebre Casanova não percebeu Cosmopolis e de vez em quando ainda por lá se aventura.
E, à semelhança de outros jornalistas, como levava perguntas feitas não soube ou não quis entrar nas pistas palavras do escritor, tanta livro lido para chegar a um momento culminante, supõe-se, e...
A DeLillo voltarei amanhã.
(imagem do catálogo Angelo de Sousa y Escultura, Centro de Arte Moderna F.C.Gulbenkian, 2006)
posted by luis Terça-feira, Novembro 01, 2011