o concerto, 6 de fevereiro de 1994, começou, creio, com radio friendly unit shifter, in utero, e logo a seguir aos primeiros acordes de drain you, nevermind, o dramático de cascais que já não estava preso por fio nenhum tornou-se numa bola de fogo
posted by luis Quarta-feira, Setembro 28, 2011
Terça-feira, Setembro 27, 2011
Alterando o ângulo de visão (8)
VIII – Quando em Hilandar-Athos surgiram/os primeiros tocadores de címbalos
Enquanto via pela primeira vez Poesia (2010), Lee Chang-dong, dois nomes a ele se juntaram: Heródoto e José Tolentino Mendonça. Para mim, naquele momento, eram iguais, são iguais.
Do filme Poesia:
De A noite abre meus olhos, José Tolentino Mendonça:
"A fonte do castelo de Brideshead era o lugar ideal para enterrar uma pepita de oiro se a tivéssemos
*
Quando em Hilandar-Athos surgiram os primeiros tocadores de címbalos e o seu cortejo foi saudado com pétalas perfumadas e grinaldas na Porta Alta do Templo Já lá vivia o monge Rubliev o que chamavam pintor
*
Agora tem as mãos cheias de sementes de navios os olhos fundos que encantam Sara e não há mar lagoa sequer é tudo deserto
*
Ao fundo da esplanada na mesa virada para Patmos gritei pelo anjo da revelação «ninguém no céu na terra ou sob a terra era capaz de abrir e ler o livro»
*
Todas as noites concedia-se reparar a imprevisível deambulação da alma recorria ao sortilégio de umas cartas herdadas
*
Aos poucos apercebi-me do modo desolado incerto quase eventual com que morava em minha casa
*
Se agitares tesouras numa fogueira não esqueças que me feres um avesso de lume é o meu único segredo no impreciso avanço das lâminas um anjo o descobriria
*
Lendo os seus manuscritos enquanto ele dormia aprendi, em segredo, doutrinas acerca do cânone das Escrituras Santas
*
Em tão pouco cabe a exetensão de uma vida os olhos perdemos no vasto norte
*
as mulheres sentavam-se á porta com os bordados quando passavam estrangeiros ficavam sempre a sorrir nas suas fotografias
*
O doge não me recebeu na grande praça estava então em combate num porto longínquo do oriente
*
ao final foi tudo muito simples essa sombra que tens disse-me o oficial de serviço já não és
*
Já vi matar um homem é terrível a desolação que um corpo deixa sobre a terra
*
A vida esconde-se sob uma folha trémula mas ao removê-la cuidadosamente
*
De O viajante sem sono
O mundo do poema é um mundo mineral: com o jaspe e o nácar, o coral e o osso os poemas criam por séculos e séculos formas incomparáveis
*
Se tiveres de escolher um reino escolhe o relento a noite tem a brancura do alabastro ou mais extraordinária ainda
*
A vida tem inimagináveis distâncias?"
Heródoto, Histórias:
"no séquito de Dario, havia um egípcio que tinha uma voz fortíssima como não existe outra. A este homem Dario ordenou que se pusesse na margem do Istro e chamasse Histieu de Mileto. Ele assim fez, e Histieu, em resposta ao primeiro chamamento, preparou todos os navios de forma a permitirem a travessia do exército e restabeleceu a ponte"
"é quando estão tocados pelo vinho que costumam discutir os assuntos de maior importância. Aquilo que decidiram é-lhes apresentado no dia seguinte, em jejum, pelo dono da casa onde decorre a discussão; se, em jejum, o aprovarem também, fica decidido; se discordarem, põe-se a solução de lado. Decisões que tomem em jejum, voltam a apreciá-las sob o efeito do vinho"
*
Escreve Aristóteles: "que não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verosimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) --diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular. Por "referir-se ao universal" entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e acções que, por liame de necessidade e verosimilhança, convêm a tal natureza; e ao universal, assim enetendido, visa a poesia, ainda que dê nomes aos seus personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu."
(pois bem que poderiam ser tornadas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser História (deixem lá, deixem lá), se fossem em verso o que são em prosa)
A dado passo Collingwood escreve: "A busca do eterno, por parte dos gregos, foi tão ávida, precisamente porque os próprios gregos tinham um sentido insólito e vivo do temporal. Viveram numa época em que a história evoluía com extraordinária rapidez e numa terra onde os terramotos e a erosão modificavam a superfície terrestre, com uma violência dificilmente encontrada em qualquer outra parte. Viam a natureza como um espectáculo em constante mutação e a vida humana a transformar-se mais violentamente do que qualquer outra coisa."
E logo a seguir: "sabendo que nada na vida pode persistir imutável, perguntavam-se muitas vezes que transformações se tinham produzido, exactamente, para gerar aquele presente. A sua consciência histórica era, assim, não uma consciência de tradição perene, moldando a vida duma geração após outra, segundo um modelo uniforme; era, antes, uma consciência de violentas peripécias, transformações catastróficas de um estado de coisas para o seu contrário, da pequenez para a grandeza, do orgulho para a humilhação, da felicidade para a desgraça. Foi assim que eles interpretaram o carácter geral da vida humana no seu teatro, e descreveram, na sua história, os casos particulares dessa vida."
E antes de chegarmos aqui Collingwood pergunta "o que é a história, de que trata, como procede, e para que serve" e saltemos até para que serve a história? E responde assim: "a história é para o autoconhecimento humano. Julga-se, geralmente, que é importante, para o homem, que ele se conheça a si próprio, não querendo isto dizer que ele conheça as suas particularidades meramente pessoais, aquilo que o diferencia dos outros homens, mas sim a sua natureza de homem. Conhecer-se a si mesmo significa saber, primeiramente o que será o homem; em segundo lugar, saber a espécie de homem que se é; em terceiro lugar, saber o que será o homem que se é, distinto de qualquer outra pessoa. Conhecer-se a si mesmo significa saber o que se pode fazer. E como ninguém sabe o que pode fazer antes de tentar, a única indicação para aquilo que o homem pode fazer é aquilo que já fez. O valor da história está então em ensinar-nos o que o homem tem feito e, deste modo, o que o homem é."
(mas sim a sua natureza de homem. Conhecer-se a si mesmo significa saber, primeiramente o que será o homem; em segundo lugar, saber a espécie de homem que se é; em terceiro lugar, saber o que será o homem que se é, distinto de qualquer outra pessoa. Conhecer-se a si mesmo significa saber o que se pode fazer)
Em A Leitura Infinita, José Tolentino Mendonça:
Há nestes livros bíblicos [Livros Históricos] um tratamento sofisticado das ferramentas narrativas, a começar pelo estatuto do narrador. Num relato histórico estrito, em princípio, o narrador coincide com o autor, e o ponto de vista que ele adopta é externo. O narrador bíblico, porém, não se confunde com os autores e redactores sucessivos do texto. E mais: dispõe da faculdade de omnisciência, que lhe permite variar a focalização do seu relato e penetrar o interior dos personagens, sondando o subsolo da alma. Inacessível ao historiador é também a recomposição que ele faz do tempo, com avanços e recuos. O relato histórico é constituído preferencialmente por sumários. O relato bíblico por cenas."
Heródoto antes de ser historiador é poeta, um stalker poeta historiador.
Tolentino: "Tolstoi trazia a convicção de que este tipo misto de narrativa consegue uma aproximação à verdade mais significativa do que aquela obtida pelo relato historiográfico estrito, pois permite apresentar os acontecimentos sob a forma de experiência pessoal e imediata. Enquanto o discurso histórico esbarra com a inultrapassável opacidade de factos e personagens, o autor bíblico até mesmo dessa opacidade tira partido: é precisamente nesses territórios obscuros que a ficção revela o seu poder de verdade."
E voltando um pouco atrás, "como nas novelas de Conrad, somos levados a um impressivo contacto com os personagens, mas a partir de dados fragmentários, de motivações aleatórias, hipotéticas, que parecem mesmo subtrair-nos perigosamente a toda a compreensão..."
Voltemos a Collingwood, p. 42, sobre a obra de Heródoto: "foi escrita para preservar do esquecimento pelo tempo acções gloriosas, precisamente porque --quando a sua geração tivesse desaparecido -- esse trabalho nunca poderia voltar a ser realizado".
Acções gloriosas? Muito, tanto, mais diz do que isso, mas tanto mais. Exemplos?
um destes dias distribuído numa rua/praça europeia (e ainda ofereciam meia dúzia de copos de vidro + t`shirt a condizer + uma dúzia de senhas de quermesse)
que o mundo está difícil de entender, que lhe perdemos o pé, são tantas as possibilidades, onde estamos? que tempo é este? há um nome para ele?
socorro-me de: ilusões perdidas de Balzac o processo de Kafka e também a metamorfose
Balzac, entre muitíssimas outras coisas, mas agora é por aqui, mostra-nos que a escalada subida social tem sempre à sua espera uma Mulholand Drive, mais humilde ou já se achando no topo do mundo (?) o caminho estará quase sempre armadilhado e assim defendido contra quem traz outras ideias, e que de uma forma inocente tosca e também cobarde acabará por cair
Kafka, coloca-nos à espera e nunca mais vem ninguém, ou vem mas enquanto vem e não vem a mudança já se operou e já se perdeu o ímpeto inicial, tornando-se ou não mais violento ou mais passivo, esta mudança/metamorfose opera e actua mais significativamente nos outros e não no próprio (pois percebe-se ou quase se percebe bem como se chegou ali), nos outros porque pode demorar tempo ou muito ou nunca a aperceber-se do que se passou e pior não o querer perceber
ora, o outro, os outros, o caminho armadilhado o mundo dos seres humanos e a espera à porta podia ter sido o mundo até ao início do século XXI ocidental ou até ao fim do século XX em 1989/1990/1991, não fosse mais uma vez o caso dos Balcãs e já agora todo o resto do mundo não ocidental, quantos mundos? tantos
quando se diz se passou a dizer que o mundo mudou no dia 11 de setembro de 2001 o que se quer dizer? são tantas as respostas possíveis que quase mais vale estar calado
mas no próprio dia 11 de setembro de 2001 o primeiro ministro russo e a secretária de defesa americana deviam encontrar-se e ao telefonar para a Rússia a explicar porque não poderia tal encontro realizar-se Putin terá respondido que já o sabia estou a ver/acompanhar tudo em directo
hoje parece-nos que começamos a busca por algo novo necessariamente diferente mas ainda continuamos a ver ou olhar através das mesmas lentes, ainda se acha, e é verdade, ainda se pode, mandar alguém para uma sala de espera e nunca mais o chamar, mas também parece verdade que a dimensão da metamorfose é cada vez mais incontrolável uma vez que mais pessoas muitas mais muitíssimas mais o mundo vê essa mudança em directo, e depois como é? primaveras árabes? ouvi agustina dizer que seria a televisão mas agora já não são precisos intermediários, cheios de revisionistas em directo, pcs e telemóveis pessoais, pessoas
uma pessoa levanta a cabeça e dá para rir (não fosse a tristeza e a seriedade): os artifícios, as jogadas, a tentativa de perpetuação, a hipocrisia, a mentira, toda a velhice do mundo no pior sentido; toda a falta de ilusão
ilusões perdidas? a lei da sobrevivência? a acomodação para lá do possível e do impensável?
aquilo que demora e custa mais a mudar são as mentalidades, continuaremos à procura de um nome para este tempo muitos mas muitos mais dias
mas liberdade, igualdade, fraternidade agora é: liberdade, igualdade, justiça
acabou agora [madrugada de terça-feira, 01h30m] a final do us open deste ano, 4 horas e mais uns minutos de jogo
dois desportistas de excepção, uma odisseia uma epopeia e assim colossal até cair para o lado, por exemplo: um dos pontos demorou 16 minutos a ser decidido
muitos dos sentimentos dos comportamentos das atitudes de que os seres humanos são capazes ali à vista de todos, live em directo sem intermediários
com regras e arbitragens que fazem da modalidade desportiva futebol uma merda banal e uma banalidade impensável
claro que de todos os canais que a rtp tem nenhum serviu serve para transmitir estes jogos que são ao mesmo tempo como grandes livros grandes histórias
suponho e facilmente se adivinha que estiveram a dar mostrar concursos telenovelas notícias ad nauseum programas de comentário de futebol, desporto que não existe mas que faz bem de conta talk shows com a pessoa y ou x, falar falar falar foda-se
neste início de ano lectivo não conheço quase melhor preparação do que ver dar a ver um encontro/jogo por onde se passa pela glória e pela derrota pela exaltação e pela frustração pela confiança e pela desconfiança em si próprio pela prova e pelo desafio pelo sofrimento pelo suspense pela técnica pelo treino por saber ganhar e saber perder pelo recomeçar tudo de novo pelo respeito e admiração
ontem, por exemplo, na final feminina do mesmo us open com duas desportistas de excepção houve uma que se portou menos bem e foi repreendida e voltou a portar-se mal e deixaram e depois no fim quando lhe deram a oportunidade de se redimir voltou a portar-se mal, são vezes de mais? não sei, mas parecem; foi ela quem perdeu mas nós também somos assim, teimosos e pouco humildes vaidosos
outro exemplo de desporto que vulgariza o futebol e o mostra como merda que é é o ragueby, os árbitros explicam a todo o estádio a falta que marcam e as decisões que tomam? não pode ser, a sério?
nas revoluções recentes de alguns países do norte de áfrica o que aquelas pessoas pedem é liberdade igualdade e justiça, justiça
temos noção? ou basta dizer justiça, ou é só soletrar jus-ti-ça? palhaços
por um lado apetece dizer nada por outro lado apetece dizer meia dúzia de dizeres
o estado lamentável hipócrita mentiroso interesseiro minado dinamitado infantil do nosso espaço público, pejado de maçons e de opus dei, as crónicas dos cronistas dos principais jornais semanários e diários portugueses são quase todas patéticas, um houve que de braços cruzados recuou até aos vikings para escrevinhar sobre o atentado na noruega, dizem-me que procuram a imortalidade, uma das únicas coisas que ainda vale a pena, dizem-me, a sério, surpresa das surpresas que ainda se joga e fala muito do futebol português existe? como é possível?, que paulo bento é parolo só não sabe quem o convidou para a seleção, arranjou problemas com quase todos os jogadores do sporting, que aqui ao lado em espanha se aceitou quase logo constitucionalizar palavras sobre a dívida mas que nós não aceitamos merdas dessas e a justificação do presidente da república é para lá da anedota, Ilusões Perdidas, Balzac, está lá, burgueses de merda
constitucionalizar como Miterrand fez: que uma parte dos lucros das empresas é obrigatoriamente para dividir com os trabalhadores dessas empresas, que tal? resolvia muitos problemas, não?
devia só ter dito isto o que se segue
do jornal público, 25/8/2011, reportagem de Alexandra Lucas Coelho "300 quilómetros de barco pela Amazónia X", um excerto:
"As mochilas, pousadas num tronco, já estão cheias de formigas gigantes. Estamos a voltar. Logo depois de Xuriman completar a sua religião. ´Esse Deus invisível que me ajudou muitas vezes já me deu muitas coisas. E acredito que esse Deus existe porque senão não me dava coisas, mas eu não vejo ele. Ele é um vento. Ele é um nada. Um espírito. Essa é que é a minha religião. Pego o meu lençol quando vou dormir e rezo. ´Ai senhor, mestre dos mestres, aqui estamos dando graças pela saúde, pelos amigos, todo o mundo em São Gabriel da Cachoeira, muito obrigada, boa noite.`De manhã a mesma coisa. Muitas vezes tenho recebido benção desse deus invisível."
e já agora, que não me soube manter calado, tonto, um bando de suspeitos de
"O GENDARME E O PINTOR
Estou a desenhar na praia, na fronteira. Um gendarme do Midi, que suspeita que eu seja espião, vemd e Orleães e pergunta-me: «É francês?» «Sim, certamente que sou.» «É estranho, mas não tem pronúncia francesa.»"
PAUL GAUGUIN
"OPERAÇÃO GOETHE
Surpreendido pela guerra na Suécia --se a palavra «surpreendido» é apropriada-- tivemos uma viagem incómoda, talvez mesmo perigosa, de regresso a casa, primeiro por via aérea para Londres e depois no S.S.Washington, completamente cheio. Levava comigo muitos papéis, notas de conferências e livros, objecto de enfadonho exame no distante e camuflado aeroporto de Londres. Os funcionários inspectores suspeitaram especialmente de um desenho representando a disposição dos lugares num jantar que Goethe dera em sua casa, no Frauenplan, em Weimar, em honra da querida do seu coração na juventude. Suspeitaram que o papel fosse de importância estratégica, e tive de fazer uma pequena palestra sobre o romance para convencer os funcionários da completa inocência do papel."