Tsonga, tal como James Blake precisou a dada altura mas não a teve, precisa de elevar a qualidade do seu jogo dar-lhe mais espessura mais inteligência táctica aguentar mais tempo trocas de bola mais maturidade ambos jogadores excepcionais precisaram, Blake, precisa, Tsonga, de um treinador novo percebo muito pouco ou quase nada mas vê-se isso
durante a adolescência vi muitos jogos de ténis e de outros desportos que não futebol nos dois canais de tv que havia, ilíadas e odisseias e moby dick`s e assim em jogos de 4 a 5 horas
hoje quando se faz zapping pelos canais gratuitos, mas muito caros de manter, o que é que se vê? quem decide o que passa? qual o critério? pouco ou nada se vê que nos desembruteça, que conte uma história
não sei como deixamos de considerar o desporto na tv como um critério importante de exemplo de luta e tenacidade e crescimento e ambição, vitórias e derrotas, e passamos a privilegiar as invasões bárbaras como o essencial e o necessário
posted by luis Terça-feira, Maio 31, 2011
Segunda-feira, Maio 30, 2011
do abc de sábado
(para ler, clicar em cima)
só um apontamento, Lydia Davis teve muito azar no sítio onde caiu em Portugal, o prefácio é muito mau, a tradução muito má, na capa do livro diz duas ou três vezes que é ex de, e até Casanova o disse; azar, pela falta de qualidade; merecia muito mais. da edição espanhola, Cuentos completos, 744 páginas, uma apresentação/recensão jeitosa, e diz, uma vez, ainda que lateralmente, que é a ex mulher de.
posted by luis Segunda-feira, Maio 30, 2011
È nesse implacável balanço entre peso e leveza, entre agrura e doçura, que os povos do sul sempre construíram, no meio do maior caos, a grandeza arcaica do seu destino
LMD, sem título, Florença, 2009.
(não sei traduzir a frase, não sei se é de índole nacionalista e xenófoba ou se é de apoio aos seres humanos que conseguem chegar a Lampedusa enfrentando o inferno, mas parece-me mais de índole nacionalista)
A conclusão diz-se já será a mesma que a introdução: a reter:
"«O mistério do mundo não está na ambição dos poderosos mas na vontade de escravidão dos pobres.»"
"Depois dessa longa estadia em França, senti de novo falta da ofuscante e excessiva luz do sul, a luz que transforma tudo o que é real numa hipérbole da realidade: o exagero de realidade, aqui, parece afinal ser exactamente a sublimação desse real. Mas não é, é apenas o desvio que exige de nós um muito maior esforço para ultrapassar a evidência da realidade. Mas o que se passa debaixo da crueza da luz do sul é uma forma de benevolência mascarada de impaciência: aceitamos as imperfeições do real com a mesma voracidade com que devoramos (ou desejamos devorar) as suas perfeições. È nesse implacável balanço entre peso e leveza, entre agrura e doçura, que os povos do sul sempre construíram, no meio do maior caos, a grandeza arcaica do seu destino. E isso não é coisa acessível à compreensão dos povos do norte, a menos que façam um grande esforço para entenderem a beleza das enormes diferenças que existem entre estas duas naturezas. Dirigi-me pois, como muitos alemães já o fizeram, a Roma. Nesta estrondosa e esmagadora cidade, excessiva no seu fatal confronto entre a extrema e desordenada vitalidade e a impassibilidade imponente e incontornável das ruínas (a permanente intrusão do passado, “a força do passado”, como diz Pasolini…),"
A primeira citação é de Maria Gabriela Llansol inA Restante Vida e a segunda citação, bem como o título, é de Rui Chafes Entre o céu e a terra (a história da minha vida)in jornal público, p2 de 15 de abril de 2011.
Anda-se de um lado para o outro, é tudo muito rápido, no princípio do filme de Fincher quase ninguém apanha nada e depois, e quando se anda de comboio as travagens e as aberturas das portas fazem um barulho/ruído de emergência em ascensão, atonal, que nos remete para perto de um abismo, e hoje, 2011 d.C., ler ou citar os Tratados de Roma de 1957 é quase o mesmo que citar algum excerto do Tratado da Política de Aristóteles. E não me parece que seja retórica, dizer isto.
Aristóteles página 133: "A alternância do mando e da obediência Vulgarmente, diz-se que o fundamento do governo democrático é a liberdade, como se não existisse liberdade senão nesta forma de governo. Acrescenta-se ainda que é para esta finalidade que tende toda a democracia. Ora um dos apanágios da liberdade é mandar e obedecer, cada um por sua vez. Desta diferente permanência ou alternância dependem a disciplina e a instituição. Se existisse uma raça de homens tão superior às outras que se considerasse como de deuses ou de heróis, e se esta superioridade se manifestasse, em primeiro lugar, pela sua estatura e pela sua aparência, e, em seguida, pelas suas qualidades e não houvesse entre os inferiores qualquer dúvida a este respeito, a melhor coisa seria que o mando por parte dessa raça fosse perpétuo e que todos se submetessem a ela duma vez por todas. Mas como, vulgarmente, não se encontra, a não ser entre os Indianos, pelo que diz Cílax, que os reis tenham uma vantagem tão nítida sobre os súbditos, torna-se necessário que todos os cidadãos mandem e obedeçam alternadamente e isto por diversas razões. Antes de mais, é essencial para haver igualdade que haja uma mesma condição entre pessoas semelhantes: seguidamente, é difícil que um governo seja duradouro se é constituído contra este princípio de equidade. Aos descontentes juntam-se os camponeses, sempre hávidos de novidades: e, qualquer que seja o número de homens colocados em lugar de destaque, nunca será o suficientemente grande para que se tornem os mais fortes.
[...]
Esta igualdade na alternância do mando e da obediência, é o primeiro atributo da liberdade que os democratas apresentam como fundamento e como fim da democracia. O seu segundo carácter é a faculdade de viver como se quer. Este direito provém também da liberdade, é mesmo nisto que se encontra toda a sua energia, porque só se é escravo quando não se pode viver à sua vontade. Daqui resulta que ninguém se deve submeter a outro, ou que isso só deve acontecer num sentido de compensação, consequência necessária da liberdade repartida por todos em iguaç medida. Supostos estes princípios, eis as màximas democráticas que daí resultam:
1º Que todos têm direito de escolher entre todos os seus magistrados; 2º Que todos têm o poder sobra cada um e que cada um deve, por sua vez, mandar nos outros; 5º Que não se deve conferir a mesma magistratura mais de uma vez â mesma pessoa, ou pelo menos, que raramente e em relação a muitos poucos casos isso se deve fazer, caso não se trate de cargos militares; 6º Que todos os cargos devem ser de curta duração ou, pelo menos, todos os cargos em que esta duração breve se mostrar conveniente; 7º Que todos devem passar pelo poder judicial, qualquer que seja a classe a que pertençam, e devem conhecer todos os assuntos, qualquer que seja a sua matéria, quer se trate de causas da maior importância para o Estado, tais como são as contas e a censura dos magistrados, ou a reforma do governo, quer, da mesma maneira, quando se trate de convenções privadas; 8º Que a Assembleia Geral é senhora de tudo e os magistrados de nada; ou que, pelo menos, só a Assembleia tem poder de decisão sobre os interesses principais e que aos magistrados só pertencem os assuntos de pequena importância; 12º Que não de deve aceitar qualquer magistratura perpétua. Se existisse alguma ainda do antigo regime, diminuir-se-iam as suas atribuições e de electiva se transformará em dependente de sorteio.
Este é o espírito de todas as democracias. O primeiro princípio em que unanimemente se fundam é o direito que fazem resultar da igualdade numérica. Quanto mais longe se leva esta igualdade, tanto mais vincada é a democracia. Pobres e ricos, todos ao mesmo nível, devolução do poder a todos, para que seja exercido por cada uma na sua vez, sem exclusão nem disparidade: assim se compreendem a igualdade e a liberdade."
Uff? Século V a. C.. Reler. Em voz alta.
De um livrinho intitulado A Construção Europeia de 1945 aos Nossos Dias, 1998, de Pascal Fontaine, alguns excertos, todas entre « », sem que entre no ou seja:
«A 19 de Setembro de 1946, em Zurique, Churchill faz um apelo à reconciliação franco-alemã e á unidade do continente (...) De 7 a 11 de Maio de 1948 realiza-se na Haia, o Congresso da Europa, onde se propõe a criação de Uma Assembleia Constituinte Europeia.»
«A 5 de Junho de 1947, o general Marshall propõe o auxílio à Europa por parte dos Estados Unidos. ao acelerar guerra ´à fome, á pobrexa, ao desespero, ao caos`. A Europa libertada está na penúria e precisa do apoio económico americano para a recosntrução do continente. Em 27 de Junho de 1947 inicia-se em Paris uma conferência que culmina a 16 de Abril de 1948 com a assinatura de uma convenção que institui a Organização Europeia de Cooperação Económica.»
Deixemos para outro lado, devido á extensão, a discussão sobre o e se o Plano Marshall...
«O fracasso da conferência de 25 de Abril de 1947, em Moscovo, sobre a Alemanha, o bloquei de Berlim em 1948, o ´golpe de Praga`, ao confirmarem o domínio dos partidos comunistas sobre os países ocupados pelo Exército Vermelho, fazem recear a ameaça de um vono conflito em solo europeu. A Alemanha passa a estar no centro da guerra fria. Os Estados Unidos querem rearmar a parte ocidental da Alemanha, de forma a inseri-la no esforço colectivo de defesa dos Ocidentais. Mas o governo francês opõe-se a um rearmamento descontrolado da Alemanha e quer conservar uma tutela sobre o Sarre e o Rur.»
Um salto, até ao papel dos pais fundadores:
«Jean Monnet (1888-1979): ocupa um lugar muito especial na história contemporânea; nem político, nem economista, de Gaulle qualificá-lo-á de ´inspirador`. A sua influência será determinante junto do mundo político europeu, que será por ele guiado na construção da Europa comunitária. (...) Conhecedor dos limites da modernização da França num quadro estritamente nacional, verifica igualmente que nem o Conselho da Europa nem a OECE seriam capazes de integrar económica e politicamente a Europa. Lança a ideia de um Comunidade Europeia do Carvão e do Aço.»
Robert Schuman (1886-1963): de origem lorena e homem de fronteira, ministro dos Negócios Estrangeiros francês, foi encarregado, pelas potência aliadas, de encontrar uma solução para a questão alemã. Assume a responsabilidade política do plano redigido por Jean Monnet.»
«Konrad Adenauer (1876-1967): chanceler da Alemanha Federal, de origem renana, quer igualdade de direitos para o seu país. Deseja igualmente ´ancorar a Alemanha ao Ocidente europeu e favorecer a reconciliação franco-alemã.»
«Estes três homens, assim como, em Itália, o presidente do Conselho Alcide de Gasperi (1881-1954), são inspirados por um ideal de paz e estão determinados a criar laços que tornarão definitivamente impensável o regresso aos conflitos intra-europeus.»
«Os Tratados de Roma (o Tratado que institui a Comunidade Económica Europeia CEE e o Tratado que institui a Comunidade Europeia da Energia Atómica EURATOM)
A 25 de Março de 1957, no Capitólio, em Roma, os representantes da RFA, da Bélgica, da França, da Itália, do Luxemburgo e dos Países Baixos assinam solenemente os tratados que instituem a CEE e a CEEA. O Tratado da CEE estabelece objectivos ambiciosos, que são enumerados no preâmbulo. Os Estados membros declaram-se: - determinados a estabelecer os fundamentos de uma união cada vez mais estreita entre os povos europeus; - decididos a assegurar, mediante uma acção comum, o progresso económico e social dos seus povos, eliminando as barreiras que dividem a Europa; - determinados a fixar como objectivo essencial dos seus esforços a melhoria constante das condições de vida e de trabalho dos seus povos; - preocupados em reforçar a unidade das suas economias e assegurar o seu desenvolvimento harmonioso pela redução das desigualdades entre as diversas regiões e do atraso das menos favorecidas, - resolvidos a consolidar, pela união dos seus recursos, a defesa da paz e da liberdade, apelando para os outros povos europeus que partilham dos seus ideiais para que se associem aos seus esforços.»
Uff? 1957. Reler. Em voz alta. Antes de mais, em próximos encontros/reuniões sintonizar nos plasmas e distribuir em press release. Como performance.
Já agora, vamos ouvir o que a Alemanha tem para dizer, hoje:
jornal público de19 de Maio de 2011: Angela Merkel "em países como a Grécia, Espanha e Portugal, as pessoas não devem poder ir para a reforma mais cedo do que na Alemanha. Todos temos de fazer um esforço, isso é importante, não podemos ter a mesma moeda, e uns terem muitas férias e outros poucas."
Com quem falará Merkel? Que assessores... Que programas de tv verá? Que autores lerá? Que filmes... Que qualquer coisa. Logo às primeiras dificuldades a sério a união europeia dá de si, e esquece tudo, por causa de eleições, por causa de protagonismo, por causa de poder, por causa, enfim, de poder... esse afrodisíaco letal. A união sempre em marcha rápida, é preciso é andar rápido, os tempos estão rápidos, Woyzeck? Cuidado com a navalha.
Büchner? Onde estás Döblin? Onde estás Fassbinder? Onde estás Schönberg?
Saberá Merkel que neste momento há milhares, talvez milhões, de portugueses, espanhóis e gregos que estão reformados e que começaram a trabalhar aos nove, dez, onze anos? Que trabalharam 40, 45 anos em condições duras? Que não foram crianças nem adolescentes? "Mais cedo do que a Alemanha?, senhora Merkel? Ganhe vergonha na cara, e reflita sobre o que foi o século XX europeu. Por um punhado de dólares vai querer arrasar o quê? Sobrará pouco. Leia os tratados de novo, e em tempos não perigosos façam o que deve ser feito e fiscalize-se e corrija-se o que há para corrigir. Mas nem assim será melhor sabe porquê?
Veja-se, um exemplo: Portugal:
no mesmo jornal e no mesmo dia diz assim, acredite-se: "Constâncio aconselha Lisboa a superar objectivos do programa de ajustamento", vice-presidente do Banco Central Europeu. O que fazer? É demasiado mau, não é? O currículo deste homem nos últimos dez anos?
Olhemos também para França: expulsão de romenos. Onde se situa a embaixada romena em Paris? Isso diz alguma coisa? Fechar fronteiras?
Itália: restabelecimento de fronteiras nacionais? no jornal público de um destes dias: Berlusconi "regressou para saudar ´a ilha libertada`, dias depois da primeira visita e da promessa de ´esvaziar Lampedusa` dos milhares de imigrantes e refugiados que ali se encontravam em condições degradantes (...) ´Viram, mantivemos a nossa palavra. Tudo está sob controlo`, disse Berlusconi, enquanto os habitantes que o tinham vindo ver ao porto aplaudiam. Uma dezena gritou ´Forza Silvio!` e ´Bravo`, descreveu o site fo Corriere della Sera (...) Já os que tenham entrado em Itália até 6 de Abril, dia da assinatura do acorde entre o governo italiano e as autoridades interinas da Tunísia, vão receber autorizações de permanência com duração de seis meses. Com estas, sustenta Roma, poderão mover-se no espaço Schengen. Paris e Berlim enfureceram-se com este anúncio: para o governo alemão, a atribuição destes vistos aos tunisinos contraria ´o espírito de Schengen`. Afirmando compreender ´certos comportamentos`da parte de líderes a braços com ´crises de popularidade`, Berlusconi disse que a Alemanha terá de aceitar ´que é preciso definir uma resposta comum da Europa` aos desembarques nos países do sul. Quanto a França, que tem ´devolvido`os tunisinos a Itália, Berlusconi defende que o governo de Nicolas Sarkozy ´deve compreender que 80 por cento destes imigrantes declaram querer chegar a França e juntar-se aos familiares e amigos`."
Em Viena, numa cidade grande demais, monumental, e quase claustrofóbica onde parece que estamos sempre a ser seguidos e só parece ouvir-se do fundo da rua os tacões de quaisquer sapatos: mas a Viena de muitos outros: vídeo contra Kadafi: ali mesmo ao lado do café Europa:
Finlândia?: "O problema de Katainen é que os Verdadeiros Finlandeses passaram de um obscuro partido tradicionalista da Finlândia profunda para a terceira formação no Parlamento graças, precisamente, à sua oposição à ajuda a Portugal, uma postura que se tornou muito popular num dos países que era até há pouco tempo um dos mais euro-entusiastas (...) De acordo com a imprensa finlandesa, a ajuda a Portugal conta por enquanto apenas com os votos favoráveis garantidos dos 44 deputados do partido de Katainen, e os dez eleitos por um pequeno partido da minoria sueca, num parlamento de 200 deputados. Em contrapartida, 63 deputados opõem-se, enquanto 83 hesitam." jornal público de 6 de Maio de 2011."
Dinamarca: restabelecimento de fronteiras nacionais? controlos permanentes? Realizador Lars Von Trier "declarou-se nazi, disse compreender Hitler e depois pediu desculpa", em Cannes, na conferência de imprensa de Melancholia.
Sintetizando, com Jacques Le Goff "A assinatura do Tratado de Roma é o culminar de um processo que surge após a Segunda Guerra Mundial, que deixou a Europa económica e politicamente destruída, e fragilizada às duas superpotências: Estados Unidos e União Soviética.
Os Tratados de Roma significaram um triunfo para os europeístas como Robert Schuman e Jean Monnet que ante a impossibilidade de consolidar de maneira imediata uma união política, desenvolveram um processo de integração que afectasse de maneira paulatina diversos sectores da economia, criando instituições supranacionais nas quais os estados membros cedem parte de sua soberania sobre determinadas competências."
De Goethe, e quase para terminar "«O público, especialmente o alemão, é uma caricatura grotesca do demos, e está mesmo convencido de que constitui uma espécie de instância ou de senado".
A terminar, palavras de George Steiner e de Maria Gabriela Llansol, do primeiro: em 2004, na sua conferência no Nexus Institute, Amesterdão, A Ideia de Europa: "mas como poderão equilibrar as proposições contraditórias da unificação económica-política com aquelas da particularidade criativa? Como poderemos dissociar uma riqueza salvífica de diferenças da longa crónica de ódios mútuos? Não sei a respostas. Só sei que aqueles mais sábios do que eu têm de a encontrar, e que a hora é tardia" e de Llansol, em A Restante Vida: "o texto é, pois, ambicioso no que se inscreve, pelas exigências que decorrem do mito final: extensão a todo o corpo zoologicamente humano da dignidade teológica das almas. Será inconcebível aí, que almas imortais acompanhem corpos hierarquizados."
posted by luis Quinta-feira, Maio 26, 2011
Quarta-feira, Maio 25, 2011
é preciso mudar é preciso mudar de vida, apregoa-se ao país povo nós. quem é que neste país consegue dizer não?
Esta capa é uma tese; é da edição de sábado passado; esqueça-se que o abc é um jornal mais conservador, mais ligado ao que defende o pp espanhol. Foquemo-nos apenas no aeiou que se mete pelos nossos olhos adentro: o líder do pp está na oposição há quantos anos? como líder? Como é que isso pode ser?
Por cá o aeiou é mais ouaie. Quantas vezes se pede e já se disse já se perguntou vai pedir o pedido de demissão? Já pensou nisso? Quando vai ser? Acha que tem condições para continuar? Muitas vezes a pessoas que estão nos cargos/lugares há meia dúzia de meses.
Os jornalistas e os fazedores de opinião de tudo e de nada os revisionistas em directo são dos que têm menos vergonha na cara, e como já estão habituados parece que lhes custa pouco pôr o país sempre a comer-se a si próprio.
Quantos anos na liderança do maior partido da oposição?
Portugal, veja-se só das últimas 72 horas:
- o presidente do actual e lastimável e mau de mais partido socialista português diz que os líderes do psd e do cds/pp serão varridos se não se entenderem com o líder político do ps depois das eleições; - Mário Soares diz que o candidato do ps é fixe e que cuidará bem do ps e do país; assim mesmo, sem vergonha nenhuma na cara, se alguma vez a teve: do partido e do país; - sr. dr. Rui Tavares, por favor, como tem parecido com o passar dos dias o sr. tem perdido alguma da vergonha na cara a que todos temos direito, por favor deixe de assinar os seus textos no jornal público como historiador, se gosta de estudar/investigar História deixe de o fazer. Tem sido mau de mais; - aqui há uns meses, naquele programa da rtp 1, de nome imbecil prós e contras, que muda Portugal todas as semanas, os antigos presidentes da república reuniram-se para dar a sua opinião à frente das câmaras e quase quase no fim a animadora de serviço saca de uma pergunta para Ramalho Eanes se ele podia servir de intermediário entre partidos e governo, para um entendimento para o orçamento, se em caso excepcional estaria disponível? e ele, esperei até ao último piscar de olhos e Eanes não resistiu e disse que havia muitas pessoas que não era preciso ele, e eu quase a levantar-me do sofá contente, e ele que se fosse preciso mediaria esse entendimento. Arre.
O jornal público como tem perdido também muita da vergonha na cara que devia ter veio logo dar uma setinha virada para cima ao líder do pp espanhol, oxalá haja reflexão, oxalá haja espelhos, oxalá consigam arranjar algum do sossego que falta em muito lá para as bandas de carnaxide. A realpolitik foi quase sempre suja.
Por falar nisso, e o povo, pá? anda a fazer performances á volta dos centros de emprego? Foda-se, pá, então, procurem é as reuniões/encontros da maçonaria e da opus dei e deixem-se de brincadeiras para a tv. É que associações secretas e democracia não conjuga bem.
posted by luis Quarta-feira, Maio 25, 2011
Terça-feira, Maio 24, 2011
Do excelente leitor e escritor que Gonçalo M. Tavares é, embora, no que me diz respeito, defenda pontos de vista diferentes daquilo que é o magma a que os seus livros chegam, de personagem em personagem a, ainda só li meia dúzia e por isso quase me devia remeter ao silêncio, mas... houve algo + uma personagem que não deixou que isso acontecesse, e ainda bem. Da tetralogia O Reino.
Numa entrevista datada de 30 de Janeiro de 2008, ao blog Orgia Literária [16/5/2011], Gonçalo Tavares a certa altura diz "os nomes das personagens surgiram naturalmente. Quando comecei a escrever o primeiro, Um homem: Klaus Klump, naturalmente, ao começar a escrever com aquele ambiente, apareceram aqueles nomes. Portanto, os nomes das personagens são coisas muito pouco explicáveis. A certa altura, quase que tinham de ser aqueles nomes e não outros, embora por vezes eu hesite em dar um nome ou outro a uma personagem."
Reter naturalmente e apareceram aqueles nomes e coisas pouco explicáveis e quase que tinham de ser aqueles nomes.
Cada pessoa ao ler livros sublinha ou o texto ilumina-se-lhe num qualquer ponto frase ou canto; normal. Do primeiro ao quarto o que se sublinhou, no primeiro temos um início?
Quando Klump chega a casa e vê que Johana foi violada e sai vai-se embora para voltar muito tempo depois e ver em cima do móvel ou da tv uma fotografia dela com outro homem e deixar ______entrar no quarto e deitar-se ao lado da sua mãe já louca que diz que aquele homem está apaixonado por ela e que a fez feliz, Johana já louca também no hospício, e ver depois Klump a dizer o que diz na penúltima e última frases do livro... Início.
E depois Walser até dar com uma mulher de cabeça coberta a sua mulher a sair de uma casa que não a deles e depois mais tarde ao reparar nas mamas de ______ e também em busca de mais uma peça metálica.
E Jerusalém: aqui estou num impasse: porque só falta este ponto, tudo o que está antes e depois já está pronto, a mancha preenchida, e o impasse é que acho que devia ler outra vez Jerusalém para poder tentar ver/fazer/apanhar melhor o que não está tão explícito, aquilo que fica da voz que fala, alto, que diz. E neste momento não o consigo fazer. Continua-se? Pois. Continua. Em Jerusalém apanhei, então, dados positivos/factos/pistas: - "Guardou o bisturi estético e pegou na sua pequena mala preta. Estava, juntamente com seis outras mulheres, num rés-do-chão da Rua Georg-Lenz. - Vou sair --disse. - São três da manhã, se não chegar até às seis é porque alguém me matou. --E dando uma risada, bateu com a porta"; - "Lanz"; - "Quando o correio chegava, os homens interrompiam os seus percursos mais ou menos descontrolados, e rapidamente tentavam chegar aos envelopes, provocando depois os que nada haviam recebido, numa crueldade que lá dentro era aceite como normal. Havia, no fundo, uma moralidade própria, uma moral sobressaltada, nunca estável, uma moral inquieta, momentânea, que se transfigurava de um dia para o outro, de uma hora para a seguinte, de uma circunstância para a oposta; esta moral do instante, esta ética directa, imediata, tornara-se uma das aprendizagens dos homens e das mulheres que frequentavam Georg Rosenberg: a navalha corta, dizia Lanz, um homem obcecado pelo trabalho, e a enfermeira Stonia respondia-lhe: claro que a navalha corta"; - "O aniversário dos doentes era utilizado como arma de pacificação, o sentido normal dos dias era interrompido e um objecto perfeitamente inesperado como um carrinho de mão poderia surgir, de repente, no jardim do Georg Rosenberg. É o teu presente, Lanz".
E Aprender a Rezar na Era da Técnica e a Lenz. Chegamos. Voilà. Lenz.
"Ele prosseguiu com indiferença, de nada lhe importava o caminho, ora subia ora descia.
"Não sentia nenhum cansaço, era-lhe apenas por vezes desagradável não poder andar de cabeça para baixo.
A princípio sentia-se oprimido no peito, sempre que as pedras desabavam assim, e a floresta se agitava debaixo dele, e logo em seguida o nevoeiro ora consumia as formas ora revelava em parte as enormes formações; algo o oprimia, procurava alguma coisa, como sonhos perdidos, mas nada encontrava.
[..]
Na manhã seguinte, com um tempo enevoado e chuvoso, chegou a Estrasburgo. Parecia estar no uso da razão, falou com toda a gente; agiu tal como os outros, mas havia nele um vazio aterrador, já não sentia nenhum medo, nenhum desejo; a sua existência era para ele um fardo inelutável. - Assim continuou a viver."
Excerto de Lenz, de Georg Büchner, edições vendaval, 2006, tradução posfácio e notas de Bruno Duarte.
Lenz: "«Um amigo de Goethe»": Jakob Michael Reinhold Lenz, 1751-1792
Lenz: Lenz, de Büchner
Lenz: Lenz Buchmman, de Gonçalo Tavares.
Lenz: «Um amigo de goethe»:
Bruno Duarte: "Goethe permaneceu para Lenz uma espécie de eminência incontornável, capaz de determinar ao mesdmo tempo a sua ascensão e a sua queda, algo que se abate sobre ele para o subjugar no limite do seu fascínio, e para o fazer caminhar arduamente na sua sombra. O texto que Goethe escreveu sobre Lenz, nas suas memórias, consegue incorporar tudo aquilo que pretende ser, um acto mnemónico de criação e uma palavra de autoridade cujo fim está em determinar não só a sua própria posteridade mas a de toda uma época que ele grava no seu nome e faz girar á sua volta. É neste quadro que o retrato de Lenz fica traçado de uma vez por todas, mas também, e de igual modo, por uma única vez isolada, que também ela fará uma espiral regressando sem fim ao mesmo nome. No seu sentido puramente formal, no modo como exibe o seu calculismo, a construção de Goethe é exemplar:
Ainda Bruno Duarte, "Lenz, dizem as crónicas e as biografias, desapareceu a partir de 1780, perdeu-se-lhe o rasto, foi dado como morto ou desaparecido (...) Celan não podia deixar esse passo sinistro e grave da biografia de Romanov --publicada na Rússia em 1901, na Alemanha em 1909--, no qual o fim de Lenz aparece descrito na sua maior crueza e no entanto sob o signo do mistério absoluto. Lenz, votado à miséria e à vagabundagem, morre na noite de 3 para 4 de Junho de 1792 numa rua em Moscovo, é enterrado por meios e por mãos anónimos, e o seu túmulo permanece até hoje desconhecido."
Lenz, de Büchner:
Ludwig Scheidl em A transmissão e fixação do texto Woyzeck de Georg Büchner, edições colibri, escreve "Georg Büchner nasceu em 1813, em Goddelau, próximo de Darmstadt do Principado de Hessen: começa a escrever em princípios dos anos 30, num tom claramente anti-romântico. É exemplo da nova orientação literária o texto político-social, mais propriamente um panfleto, que designou de ´Mensageiro de Hessen` em que se apela à revolta dos mais desfavorecidos, --os camponeses (...) Muito jovem, lê atentamente as notícia vindas de Paris, onde, em Julho de 1830, eclodiu a revolução que pões fim à política da Restauração, ou seja, ao período neo-absolutista em França. Esta geração pós-romântica conhece reclama novos modelos e programas lietrários que haverão de ser conhecidos por Realismo (...) É, de resto, este aspecto social da literatura que atrai Georg Büchner, como expressa no texto dramático Woyzeck. Numa carta à família, escrita em Fevereiro de 1834, pode ler-se:
`O aristocratismo é a forma mais vergonhosa do Espírito Santo no Homem; contra ele volto as suas próprias armas: altivez contra altivez, troça contra troça. Seria melhor saberdes de mim junto do meu polidor das botas, a minha altivez e o desprezo pelos pobres de espírito e pelos analfabetos encontrariam nele o seu melhor alvo. Peço-vos, perguntai-lhe... Não me ireis atribuir o ridículo da condescendência. Continuo a ter esperança de ter lançado mais olhares de compaixão a estas figuras sofredoras, oprimidas, do que disse palavras amargas a corações frios...`
É este o pensamento social que marca a literatura da ´Jovem Alemanha` --que precede a geração mais politizada/política dos anos 40, já num período de plena industrialização e que culmina com a Revolução liberal de Março de 1848. Esta geração virá a ser conhecida por geração de Pré-Março (Vomärz) e tem em Karl Marx um dos seus mentores. O Realismo dos anos 50 retoma aspectos da ´Jovem Alemanha` e o drama social de Georg Buchner --Woyzeck-- será o modelo do novo teatro-naturalista de base social."
"Aquilo que Büchner propõe no seu texto woyzeck, para o dizer muito simplesmente, não é um (ou vinte) espectáculos. Ele pouco tem a ver com o “teatro” e quer em 1836 quer agora a sua escrita (bem sabemos, baseada em Shakespeare, baseada no jovem Goethe, baseada em Lenz) não tem regras de cena algumas. O que Büchner propõe é um trabalho – um trabalho sobre o estar no mundo. O que Büchner propõe é o cingir a realidade até ao fantástico. Não se trata de um espectáculo poder ou não poder dar conta da “riqueza” do texto, como tantas vezes se fala a propósito dos clássicos (e nunca dos contemporâneos, os mal-amados!). Trata-se de que aquilo que Buchner propõe se não pode cumprir num espectáculo enquanto os espectáculos foram entendidos (e comprados) por aquilo que não podem deixar de ser: espectáculos que ali estão, que nos entram pelos sentidos e de que guardamos na memória tal ou tal ideia. O que Büchner propõe é radical: é transformar a história vivendo-a não do lado de fora, das “ideologias”, mas do lado de dentro, e do lado de dentro também das “ideologias”. Isso não é um espectáculo: é um programa de trabalho.
Dizia Jean Jourdheuil, depois de ter feito um espectáculo com woyzeck: “Sentimos a necessidade de voltar a pôr algumas questões abordadas à pressa aquando do nosso primeiro trabalho sobre o woyzeck de Büchner: em que é que o romantismo alemão, e particularmente Büchner, é irredutível ao trajecto de Brecht? Em que medida o onirismo e o sonho (no sentido do romantismo alemão) podem ser considerados como uma resposta, evidentemente prémarxista e préfreudiana, a uma exigência de compreensão da realidade social e da natureza humana? Em que modalidades o romantismo alemão (o passado) é susceptível de servir um trabalho artístico e político contemporâneo (o presente)? Estas perguntas baseiam-se num pressentimento: pressentimos com efeito que o romantismo alemão, desleixado quer por Brecht quer por Luckács na controvérsia dos anos 1936-1938 sobre o realismo, pode construir um elemento vivaz de tradição produtiva para os artistas contemporâneos. Assim, com Büchner, fomos levados a interrogar-nos sobre a natureza da opressão interiorizada (em que consiste? será apenas a interiorização de uma opressão exterior?), sobre as modalidades daquilo a que se poderia chamar “libertação pelo imaginário”, sobre a distância que separa a libertação no imaginário da libertação real ... Todas estas questões, sentimos a necessidade de as ruminar de novo.”"
Da cronologia que Ludwig Scheidl apresenta:
"1836 (Outono/Inverno): Büchner trabalha no Woyzeck (começa em Setembro; por altura da morte falta-lhe manisfestamente pouco para concluir o drama)
1835 (Outubro): Ocupa-se com a figura histórica de Lenz e os apontamentos de Oberlin. Escreve a novela."
Bruno Duarte: "Büchner redigiu «Lenz» provavelmente entre a Primavera e o Inverno de 1835 (...) O texto refere-se à passagem de Lenz pelos Vosges, e à sua estadia com o pastor Johann Friedrich Oberlin, de 20 de Janeiro até 8 de Fevereiro de 1778, em Waldbach (Waldersbach), uma pequena aldeia perto de Estrasburgo (...)Büchner conhecia certamente de Lenz a edição das suas obras organizadas por Tieck em 1828, mas a fonte primária para o seu texto foi o relato sobre a estadia de Lenz redigido pelo próprio Oberlin (1778)" E mais à frente "quando se afirma do texto de Büchner que se trata de uma descrição da pura interioridade, um caso isolado na sua obra eminentemente política, é preciso reflectir de novo sobre os termos deste juízo. Lenz era talvez estranho ao pensamento da revolução, mas não a tudo o
e continua Bruno Duarte "a tudo isto Büchner não podia ser de modo nenhum estranho: os seus dramas respiram o mesmo ar, estão repletos de traços fundamentais da linguagem dramática de Lenz, de O Preceptor e O Novo Menoza até à Morte de Danton, ou de Os Soldados até Woyzeck. Mas também no «Lenz» se faz sentir esta estrutura recorrente do antagonismo."
Voltando a Celan "no seu discurso O Meridiano, Celan refer-se ao «Lenz» começando pela passagem amis enigmática, e também mais comentada, do texto de Büchner: «era-lhe apenas por vezes desagradável não poder andar de cabeça para baixo» (...) Quem anda de cabeça para baixo, minhas Senhoras e meus Senhores, -quem anda de cabeça para baixo tem o céu como abismo por baixo de si.
"São ambos desapossados", continua Bruno Duarte, "mas é no modo de os erem que divergem: em Lenz a rendição não sacrificial, o seu movimento mais próprio não é o da reacção nem o da vingança sanguinária, e com ele não entra em cena nenhuma forma do anti-herói trágico. Mesmo se a cientificidade latente da psicografia está ausente dos eu texto, todo ele absolutamente distinto de um relato como o de Waiblinger sobre Hölderlin, por exemplo, Büchner não pôde evitar todas as suas apropriações e reduções possíveis da psiquiatria positivista e da doutrina dos instintos do século XIX á anti-psiquiatria, passando pela teoria da dedução da loucura individual do mal social, que consiste no essencial em traçar a génese histórica da esquizofrenia para explicar a partir daí o colapso do modelo teológico-político como condição do Cristianismo no limiar ou na antecipação da Revolução Francesa (...) O lenz de Büchner parece caminhar na penumbra do espírito, mas o seu elemento não é nunca o da inocência arrastada até ao limiar da catástofre. Na verdade, ele não é nem culpado nem inocente do seu infortúnio, mas cumpre antes incessantemente a sua própria maldição, e permanece encerrado na experiência do esvaziamento puro (...) De tudo aquilo que aparentemente separa Lenz de Büchner (o fatalismo, as paixões imaginárias, o aparente servilismo diante da monarquia), é a fixação da imagem do perseguido que mais se evidencia: em Lenz, a fuga é mais complexa, mais enredada em si própria --mas Büchner foi o primeiro a notá-lo.
Büchner morreu a 19 de Fevereiro de 1837, com 23 anos, após um ataque súbito de tifo."
"Achas que a loucura pertence a esse lado mais negro do ser humano?
É fundamental não romantizar a loucura. A loucura concreta é uma coisa muito dura, muito violenta.
Sim. Por exemplo Lenz, no último romance, tem uma ideia um pouco romântica, tem uma grande atracção pela loucura e pelos loucos.
Exacto. Mas se pensarmos no Jerusalém é evidente que os loucos são portadores de um sofrimento muito forte. Agora, por vezes, como no Jerusalém, a marca da maior violência vem das pessoas mais racionais, como o director do hospício. Provavelmente as coisas mais violentas, ou muitas das coisas violentas, vêm daí e não propriamente dos loucos. Ou seja, respondendo um pouco à pergunta, muitas vezes a violência não vem das pessoas que perderam a razão mas, às vezes, até estranhamente das pessoas que têm o total controlo da razão.
E será que podemos dizer que todos, ou quase todos, os protagonistas desta tetralogia são loucos? Isto é, há os que são vistos como loucos – como Mylia e Ernst – mas todos os outros, os mais racionais, têm uma racionalidade que está na fronteira entre a racionalidade e a loucura.
Não sei, tenho algumas dúvidas. Eu acho que é perigoso associarmos o mal, ou a possibilidade de fazer o mal, com a perda da razão. Quer seja, é evidente, nos loucos quer seja noutras pessoas, a razão levada ao extremo. Porque, precisamente, o que me parece importante é também estarmos um bocado atentos à racionalidade, porque a racionalidade é ela própria portadora de violência. Ou seja, acho que não se deve associar uma pessoa racional a uma pessoa bondosa. A razão e o bem não estão associados. Aliás, claramente o grande drama do século XX, se pensarmos na 2ª Guerra, no Holocausto, é que não há uma dissociação, bem pelo contrário, entre razão e violência extrema. Pelo contrário, razão e violência extrema estão muito ligadas. Portanto, eu diria que esses protagonistas são protagonistas muito humanos, no sentido em que não são, espero eu, ingenuamente pintados como seres magníficos e como seres humanos bondosos em qualquer situação. Até porque eu acho que todos nós somos muito condicionados pelo que nos vai acontecendo. E, portanto, a proclamação de que eu sou um homem bom, independentemente do que aconteça, é uma proclamação perigosa. Quando as circunstâncias mudam nós podemos fazer actos de que nos envergonharemos mais tarde.
O protagonista de Aprender a rezar na Era da Técnica faz uma distinção interessante entre a bondade e a competência técnica. Ele diz que por ser um bom médico e salvar vidas não significa que seja boa pessoa. O que é que é mais importante: ser bom ou ser competente?
Eu penso que isso é realmente um dos temas principais do romance. O que me parece é que há uma transferência, que não é dos últimos anos, é das últimas décadas ou eventualmente do último século e meio. É difícil precisar quando é que essas coisas começam. Mas é uma transferência da questão da bondade para a questão da competência. É evidente que para mim, neste momento, talvez seja claro e não seja muito injusto se eu disser que a maior parte das pessoas tem mais vergonha de, por exemplo, não dominar o último programa do Windows do que de mentirem. Ou seja, as questões morais começaram a diluir-se um pouco nas questões técnicas e, portanto, há claramente uma transformação de valores, onde a técnica começa a dominar. E a técnica a todos os níveis, não apenas técnica de maquinarias, realmente a técnica de competências. E nesse aspecto, para mim é claro que a moral do século XXI é uma moral completamente diferente do que era a moral, por exemplo, clássica. É evidente que há uma alteração.
É necessário aprender a rezar na era da técnica?
Isso é uma pergunta interessante. O título do livro já suscitou várias interpretações e isso agrada-me imenso. E por isso é que eu tento nunca dar uma interpretação definitiva de uma passagem do livro ou de um título, porque, para já, não há interpretações definitivas. Cada leitor tem a sua interpretação. Mas uma leitura pode ser essa, de que é necessário um contraponto para a evolução da técnica e que esse contraponto possa ser o carácter religioso. Se calhar também se pode pensar o que é isto de rezar. Será que no século XXI, no ano de 2008, fará sentido rezarmos da mesma maneira do que rezávamos há cem anos, ou há duzentos, ou há dois mil anos? É uma coisa que para mim é muito clara. Neste momento, a nossa paisagem é completamente diferente, se pensarmos em há dois mil anos então… Temos uma paisagem em que a técnica e as máquinas estão por todo o lado. Portanto, nesta nova paisagem da técnica, em primeiro lugar, será que faz sentido rezar? E depois, se faz sentido, que tipo de oração ou que tipo de reza faz sentido? Será que faz sentido rezarmos exactamente da mesma maneira? Isso é uma questão que se calhar este romance coloca. E provavelmente a forma de rezar do protagonista, do Lenz Buchmann, pode dar a ideia de que ele não reza, mas também podemos interpretar como uma outra forma de oração. Eventualmente a cena final pode ser interpretada dessa forma. Portanto, não sei se é preciso rezar ou não, o que é preciso é pensarmos se faz sentido rezar e se faz sentido continuarmos a rezar da mesma maneira. Talvez este livro ponha algumas questões sobre isso.
[...]
A paixão ou amor entre duas pessoas, na ideia convencional que dele se tem, não aparece muito na tua obra. Será que é o estado limite, sobre o qual é mais difícil escrever?
Eu acho que aparece em alguns momentos. Por exemplo, eu diria que a paixão ou o amor aparece, se calhar de uma forma não muito evidente, mas aparece e tem muita importância no Jerusalém. Há ali uma relação amorosa da Mylia e uma relação de sacrifício. No final ela, de certa maneira, sacrifica-se. Portanto, é uma personagem ligada à paixão. Aparece também no Aprender a rezar na Era da Técnica, sendo, é evidente, misturada com vários tipos de perversidade. A personagem Julia, por exemplo, hostiliza um avanço do Lenz Buchmann no momento em que este está forte, não correspondendo à paixão ou aos avanços de Lenz, e depois mais tarde, quando ele está doente, ela aproxima-se sexualmente, digamos, do homem fraco, que naquele caso está em decadência. Isso é um pormenor, mas julgo que tem muita força e muita importância no romance. Ou seja, é alguém que se aproxima do outro, quando o outro está fraco. Isto é uma forma de amor, de certa maneira. Claro que não é aquele amor padronizado em que um casal é feliz para sempre. Não é isso, mas há nos romances momentos de amor e de dedicação. Há vários tipos de amor entre casais, mas há também amor entre pais e filhos, etc. Por exemplo, podemos condenar o tom deste amor, mas há claramente uma relação amorosa entre o Lenz Buchmann e o pai. É uma relação de amor e dedicação que marca quase todo o livro. Desde o início, naquela primeira cena, até ao final, há uma quase reverência absoluta ao pai. E podemos utilizar a palavra amor para essa paixão de Lenz pelo pai. Claro que não é um amor com consequências muito agradáveis, mas nem sempre as relações amorosas têm consequências agradáveis para as outras pessoas. Portanto, eu acho que há situações de paixão e amor nos romances. Talvez não seja uma coisa sempre clara, sempre pacífica, porque eu acho que essas situações podem ser um bocado artificiais. Eu acredito que nestes livros o amor aparece em pequenos passos e vem do escuro, da perversidade. Portanto, esses pequenos actos e gestos de amor, paixão e dedicação ganham uma maior força, mas são sempre coisas de pormenor."
Luís Mourão, Colóquio Letras: "Em Aprender a rezar na era da técnica dir-se-ia que estas características se radicalizam: uma escrita despojada, o pensamento predominando ainda mais sobre a história e arrastando-a nos seus lances principais, e uma personagem, Lenz Buchmann, que é o não-herói mais conseguido da galeria de personagens do autor.
Lenz Buchmann é o homo faber da era da técnica, quer dizer, daquela época em que o fazer não é já a história de como um corpo humano se vai separando da natureza, fazendo-a em parte para si, mas a plena história de um cérebro que se auto-reconhece como tendo a «forma e a função de uma arma» (p. 22), com a qual aquele «ponto de ruptura» (p. 42) que acontecera entre homem e natureza se torna irreversível. Buchmann está tão consciente desta ruptura e das suas consequências relativamente ao que é a força e o suposto destino de domínio reservado a alguns humanos, que só pode ter um profundo desprezo pelo humanismo. De facto, a ideia de harmonia entre natureza e humano, mesmo segundo a primazia deste, e de reconhecimento mútuo entre humanos, escamoteia, para Buchmann, a luta entre humanos e natureza, entendida enquanto doença e morte, e entre humanos fortes e humanos fracos. É por isso que Buchmann é, primeiro, médico, e depois político. Mas é ambas as coisas de um modo rigorosamente não-humanista. Como médico, e cirurgião, apenas a competência o motiva. Que alguns doentes agradecidos possam pensar que é a bondade que guia os seus gestos só o pode irritar (p. 32), porque isso é precisamente não perceber quanto o seu corpo e as suas mãos são uma performance que nada deve à moral mas apenas a um domínio técnico que triunfa da natureza. Triunfa não em direcção a nada de superior, mas apenas à continuação da sobrevivência e da afirmação desses mesmos que triunfam. É por isso que Buchmann passa do exercício da medicina para a política: para que a sua afirmação não se faça sobre um de cada vez, mas sobre inúmeros simultaneamente. Que esse inúmero ele o pense enquanto corpo esperando o seu bisturi re-ordenador, como antes pensava o corpo doente como Cidade minada na sua racionalidade material, é não apenas um conseguimento ficcional de cruzamento de metáforas e sua literalização paródico-grotesca, mas também o colocar do político numa espécie de patamar de totalitarismo sem causa totalitária. Buchmann quer o poder, sabe como manobrar junto dos poderosos para o conseguir, sabe como convencer os fracos a dar-lho, mas a auto-afirmação que aí procura não visa qualquer compensação psicológica, é uma auto-afirmação humanamente imotivada, ou seja, segue apenas o preceito de sobreviver no mais alto patamar do domínio: questão de técnica com a qual o humano adquiriria uma natureza de outra ordem, agora absolutamente racional, a seu modo maquínica (e daí que a única coisa que repugne a Buchmann seja a perda de controlo, a começar pelo auto-controlo que lhe falha na excitação e no sexo, em que é ele o agido e não o faber, p. 194).
Como não-herói por excelência, Buchmann é aquela personagem capaz de extrair as mais extremas e impessoais consequências lógicas de um momento civilizacional, sendo ao mesmo tempo a sua encarnação e o seu fantoche. Todo o processo da doença, decadência e morte de Buchmann dá-o precisamente como fantoche da era da técnica. Uma simples frase assinala-o: «o cancro tinha-o a ele — o poderoso Lenz estava transformado num objecto» (p. 273). É a era da técnica, com a sua possibilidade de diagnóstico pormenorizado e de combate em múltiplas frentes, que impõe ao humano a possibilidade de um longo e exaustivo tempo de perda de controle. É também a era da técnica — como qualquer outra, aliás — que cria os avatares com os quais substitui as formas de evasão no imponderável das eras anteriores. No momento da morte, e numa cena que mereceria um longo comentário, a televisão está no lugar de deus:
«Estava, pois, só: Lenz Buchmann, deixado para trás, sozinho, com os seus olhos. A luz, essa, não parava de o chamar. Queria sentir ódio, mas não conseguia. Ela tranquilizava e chamava-o.
Depois talvez tenha existido uma pausa e de novo da televisão veio uma luz forte que o chamou pelo nome. E agora ele foi; deixou-se ir.» (p. 375.)"
Alex Ross em O Resto é Ruído escreve «Há um pouco de mim na personagem Wozzeck», escreveu ele [Büchner] a sua mulher quatro anos depois «visto que tenho passado estes quatro anos de guerra, igualmente dependente de pessoas que detesto, tenho estado acorrentado, doente, cativo, resignado e, na verdade, humilhado. Ele conhecia muito bem as versões da vida real do Doutor e do Capitão (como Büchner os designava); o bloco de notas com o esboço da peça sugere que um certo Dr. Wernisch o inspirou."
Voltemos ao texto do Teatro da Cornucópia: " Assim, como Büchner, fomos levados a interrogar-nos sobre a natureza da opressão interiorizada (em que consiste? Será apenas a interiorização de uma opressão exterior?), sobre as modalidades daquilo a que se poderia chamar “libertação pelo imaginário”, sobre a distância que separa a libertação no imaginário da libertação real… Todas estas questões sentimos a necessidade de as ruminar de novo”.
E a Bruno Duarte: "No momento em que se abandona inteiramente a si mesmo, à ânsia da cessação completa de tudo e do sono da morte, Lenz experimenta ideias inteiramente animais, é o animal selvagem dominado pela imaginação até ao limite do esquecimento de si, ao mesmo tempo que aspira a sensação de não poder escapar a si próprio, e vê-se subjugado pela lei da necessidade."
Georg Büchner, Lenz: "Na manhã seguinte, com um tempo enevoado e chuvoso, chegou a Estrasburgo. Parecia estar no uso da sua razão, falou com toda a gente; agiu tal como os outros, mas havia nele um vazio aterrador, já não sentia medo, nenhum desejo; a sua existência era para ele um fardo inelutável. - Assim continuou a viver."
Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica: "O pai agarrou nele e levou-o ao quarto de uma empegada, a mais nova e a mais bonita da casa. - Agora vais fazê-la, aqui à minha frente. A criadita estava assustada, claro, mas o estranho é que parecia que ela estava assustada com ele, e não com o pai: era o facto de Lenz ser um adolescente que assustava a criadita e não a violência com que o pai a disponibilizava ao filho, sem qualquer pudor, sem sequer ter o cuidado de sair. O pai queria ver. - Vais fazê-la à minha frente - repetia. Estas palavras do pai marcaram Lenz durante anos. Vais fazê-la."
Vou ter de voltar, um destes dias, a As Afinidades Electivas, Goethe, porque agora me fazia falta; mas diz João Barrento no prefácio citando Goethe numa carta a um compositor sobre As Afinidade Electivas "«Pus nele muito de mim, e nele escondi muita coisa»" e, mais à frente, numa carta a um diplomata "«Em As Afinidades Electivas não há uma única linha que eu próprio não tenha vivido, e o livro contém mais do que qualquer pessoa estará em condições de apreender com uma única leitura» (9 de Fevereiro de 1829)".
é preciso mudar é preciso mudar de vida, apregoa-se ao povo. quem é que neste país consegue dizer não?
como ouvi dizer aquele fragmento
no passado domingo, dia 15/5, a televisão antes de a desligar sintonizada na tvi disse Marcelo de Rebelo de Sousa ao jornalista que lhe perguntou sobre o presidente francês do fmi em nova iorque preso preventivamente agora e em primeiro lugar, disse Marcelo, agora e a ser verdade a sua carreira política acabou, assim sem pestanejar e com aquela euforia das luzes da tv, e agora e a ser verdade não disse mais uma mulher abusada e violada, nem disse que há pessoas que por terem poder acham que e fazem o que querem porque eu sou... como se o mundo continuasse a poder a não deixar de ser assim. que a vida/carreira política tinha chegado ao fim...
como li a última crónica de António Lobo Antunes na revista visão
como uma introdução ao acto de escrever e de contar histórias, que alguma nova geração de escritores portugueses podia ler e alguma menos nova também, exemplo daquele escritor que quando fala parece sempre que se está a levantar da cama e por isso lá se deixou fotografar ou no sofá é igual de umbigo ao léu e de braços abertos, mas também, por exemplo, alguns editores pois publicam os livros aos novos escritores que desde logo se lhe deixa ver aquele luz no rosto do eu tenho livros publicados, à atenção da editora que associou Eduardo Lourenço a papel higiénico, toda satisfeita da vida por achar que estava a contar uma história engraçada, em jeito de cartilha maternal
Cartilha maternal é o título dessa crónica de Lobo Antunes, fica aqui a parte final
acho que foi uma boa recensão crítica
como li uma das poucas crónicas do gato fedorento que menos gosto e menos tolero
é toda uma nova forma moderna lisboeta da televisão da arte de ser português, do dia 1 de Maio, pública, intitulada avaliação dos artistas: que e cito "um bandalho como eu sente-se embaraçado ao julgar a actuação de um grupo de dança, mas está à vontade para avaliar um político", embaraçado... mas aceita o lugar, pudera! não sejas parvo, homem! o que é que estás para aí a dizer, ai (com o sotaque de guimarães), hipotecar a tua vida, a tua carreira? ai (com o sotaque de guimarães), vai lá dizer meia dúzia de balelas e aparecer mais e conhecer mais, até porque nos centros de emprego o que te começam por dizer é que o mais importante para começar é a tua rede de contactos, por isso, não sejas parvo, nem te armes em imbecil, aparece, aceita, ai (com o sotaque de guimarães), mesmo que as pontes caiam e os medicamentos sejam trocados, foda-se!, deixa lá isso. disfarça.
como ouvi outro fragmento de entrevista
um dia mesmo mesmo antes de sair liguei a tv e na rtp1 estava o líder político do psd a responder a perguntas de dois jornalistas que pareciam estar mais atentos ao que do estúdio lhes mandavam perguntar do que a perguntarem, e ele, o jornalista, não sei quantos anos em washinghton, casa branca, conferências de imprensa, às tantas sai-se coma pergunta se aquele líder não ganhar as eleições se se demite? Portugal, Maio de 2011.
uns dias antes, creio que ainda Abril, a animadora do programa semanal prós e contras, nome imbecil, programa imbecil, entrevistava o presidente ou assim da ami, e aquilo que deu para ver foi uma jornalista a cilindrar com perguntas e tentativa de juízos de valor um convidado que como cidadão português merecia ser tratado como qualquer dos outros que ela lá tratou e que ao longo de 34 anos mais não fizeram do que sorrir e dizer nada. devia ter vergonha na cara.
como li a entrevista de Pedro Tamen e de como fiquei à espera da resposta que por acaso encontrei no sábado dia 7/5
nas fotocópias amarelecidas que costumo receber na caixa do correio de uma revista que tem por nome uma força de expressão, li há um ou dois meses? uma parte de entrevista de Pedro Tamen, tem de ser na diagonal, o tom do entrevistador é sempre desesperante, e o tom geral parecia de mágoa de falta de reconhecimento de cansaço de se querer afastar de poucos amigos que se ia retirar e assim. dias depois ouvia-se que recebeu este e aquele prémio e os abraços que dava ao recebê-los eram muito apertados e de grande emoção, de rendição. mas na entrevista que li ele dizia que admirava que não percebia determinado reconhecimento a alguns poetas por exemplo Manuel de Freitas, à poesia de Manuel de Freitas. achei esquisito, levantei os olhos e deve-me ter vindo à cabeça olha olha. como não conheço nem quero conhecer ninguém do mundo literário e assim deste nosso pequeno portugal não percebi nem tentei perceber, nem sequer perguntei se alguém sabia, numa livraria ou assim. gostei muito da resposta de Manuel de Freitas, e ela aqui fica:
VI – lembro-me que num verão ouvi alguém gritar desde a costa, da velha varanda de um farol
Num pdf ali numa janela ao lado, M.E.Keating, em escritas nómadas e subversão do paradigma da viagem, escreve
“Num livro relativamente recente dedicado a Jacques Derrida (e escrito com a sua colaboração) - Jacques Derrida - La contre-allée (1999) - Catherine Malabou considera a reflexão sobre a deriva como o centro do pensamento de Jacques Derrida e como base de uma reflexão aprofundada sobre a questão da viagem. Diz ela, Tout ce qui en Occident s'est appelé voyage a toujours présupposé comme sa condition de possibilité une solidarité indéfectible voire une synonymie entre deux termes: dériver et arriver".
De facto, a palavra deriva reenvia tanto para uma ideia de "desvio regular", de "variação progressiva" numa rota traçada entre dois pontos fixos, como para uma ideia de "perda de rumo", "deslocação não controlada", "derrapagem". E estas duas vertentes parecem constituir tradicionalmente a identidade da chamada literatura de viagens. Continua C.Malabou,
"Voyager implique ordinairement que l'on quitte un rivage familier pour aborder l'inconnu. Le voyageur dériverait d'une origine fixe et assignalable pour arriver quelque part, en ayant toujours la possibilité de rentrer chez lui, de regagner la rive de départ. Il dériverait jusqu'à l'arrivée, accomplissant ainsi le cercle de la destination. Au sein de ce cercle peut et doit se produire ce qui confère au voyage son sens et permet de le distinguer d'un simple déplacement: l'événement de l'étranger. /…/ Arriver, en dérivant, à l'etranger: tel est l'ordre qui rend possible le dévoilement de l'autre". (Malabou, op.cit: 12-14)
É assim que a Odisseia - paradigma da viagem na cultura ocidental - se pode definir como a combinação destes dois sentidos da deriva, em que o primeiro (desvio de e em direcção a um ponto fixo) enquadra e dá sentido ao segundo (falta de controle, derrapagem), integrando a aventura e afirmando a história de Ulisses, antes do mais, como a possibilidade de regressar a casa, pelo que a deriva do herói funciona bem mais como sinal da origem, da proveniência, que como "perda de rota":
La dérive comme indicateur de provenance l'emporte sur la dérive déroutante dans la stricte mesure où l'origine n'est pas elle-même sujette à la dérive qu'elle rend possible: l'origine ne voyage pas (Malabou, op.cit.: 14-15)”.
E reflecte sobre três casos: Robyn Davidson, Bruce Chatwin, Michel Butor.
Um destes dias enquanto procurava uma pasta encontrei uma reportagem da revista pública, domingo, 13 de Abril de 1997, “não é verdade que as aventuras do seu alter ego (…) falam, com mais silêncios do que discursos, mais ausências do que presenças e mais sugestões do que afirmações dessa atitude fundamental perante a vida e os outros que não impõe regras nem dogmas, e aceita tudo como aquilo que é? (…) Sob um céu plúmbeo, árvores inclinam-se inteligentemente à força do vento. Índios mimeticamente instalados no manto vegetal olham para longe. Silhuetas animais ou humanas, quentes até doer, compõem bailados mágicos. Merlin e o sortilégio das fadas celtas expondo-se quase como suave despudor. A memória de África patente nos rostos escuros, orgulhosos e altivos do Cush ou das mulheres. Os apontamentos avulsos e ´etnográficos` de uma deambulação helvética. A inspiração de Kipling e dos seus poemas. A magia poderosa e avassaladora das superfícies líquidas do Pacífico onde tudo começa e tudo acaba. O derradeiro e premonitório balanço de uma vida na fábula de Saint-Ex. (…) E como confessou o artista ao seu biógrafo ´as minhas viagens foram para mim a ocasião de ir a um lugar que já existia na minha imaginação.´” Assina o texto da reportagem Carlos Pessoa.
E de alguns volumes, que não vou identificar:
Página 7: “Deixa ver… Mmh… Sim, mas… Não é um náufrago… Aposto que sei quem é!” Última página: “Errante, como a asa branca do albatroz ao sabor do vento monótono do Pacífico, vai a vela do verdadeiro marinheiro, ontem e hoje, num dia qualquer deste mês…”
Página 7: “- Vocês não me parecem lá muito gregos… - O que veio ele fazer cá abaixo?” Última página: “…vamos, caro amigo, deixemos este local. Tivemos muita sorte em encontrar este junco. Pertencia a alguém que se parecia consigo.”
Página 4: “Como é que foste capaz de estar tanto tempo longe de Buenos Aires querida?” Última página: “… Parto esta noite, Fosforito… Para o sul…”
Página 5: “Das facécias do Barão Corvo Ás de Trelawny. Os apontamentos do Barão Corvo fazem alusão a um manuscrito de Lord Byron, escondido por Trelawny em Veneza.” Última página: “Para onde vais?”
Página 15: “Ainda não sei. Por certo, os senhores são da Pitágoras.” Última página: “Vou sair desta história de ´Sirat al Bunduqiyyah` e peço para entrar numa outra, noutro lugar…”
Página 9: “Penso que devia decidir-me a partir. Sempre que venho a Veneza , torno-me preguiçoso.” Última página: “Para onde vais? Não sei! Adeus, Xangai-Li.”
Página 8: “Um avião austríaco!” Última página: “Pode ser que sim… mas a única coisa de que tenho a certeza é que à força de olhar para o ar apanhei um belo torcicolo. Em toda esta história… foi a única coisa que eu fiz!”
Página 7: “ Corto Maltese descansava preguiçosamente na única varanda da pensão Java, em Paramaribo (Guiana holandesa). Sentia-se, à primeira vista, que se tratava de ´um homem do destino`.” Última página: “Vá-se lá saber, sargento… Parece que sim… Mas quem sabe tudo desta história é… Aquela maldita gaivota!!!”.
Em A noite abre meus olhos:
essa sombra que tens disse-me o oficial de serviço já não és
*
ali muitas vezes se sentiu a tempo/de perder uma ilusão...
*
Nos autocarros cheios, nos corredores do metropolitano
*
alugamos bicicletas para chegar à costa/à procura do que resta
*
Ao entardecer corremos/ao pontão sobre o mar
*
percorriam grandes distâncias até um recanto/que outros achariam desigual/ ou sentavam-se no fim da terra
*
«nos penhascos frente ao mar/o caminho abandonado…»
*
Não queria nenhum lugar/viajava ao longo dos anos mais para longe
*
Abandonavam lentamente a terra/mas ainda tremeluzia no canal uma claridade
*
a correr pelo pontão de madeira/onde um homem foi morto
*
Sentava-se num pilar do molhe/com um sorriso incalculável
*
E mesmo à beira do abismo/exibia uma facilidade talvez sem razão
*
Uma paisagem muito ao longe/quando se regressa/continuamos a vê-la no escuro
*
Percorria os lugares daquela fotografia/a muralha de silvas, a quinta reencontrada
*
por isso gritava/como náufrago/em qualquer lugar da noite
*
Estava tão quieta que podia/reconstruir o tempo instante a instante
*
é assim que rodo/à volta de lugares desconhecidos
*
Tinha passado toda a noite/ele mesmo se sentia perdido
*
A velha ponte de madeira/entre estações
*
Amo os que atravessaram os campos/desamparados/mais do que se pode
*
Quando depois voltava/prendia o barco no pequeno ancoradouro/ainda despenhado das varas de um relâmpago
*
Um nome arde tanto/de repente todos os caminhos parecem de regresso
*
tinhas de repente uma pressa desesperada/ como quem do mundo inteiro
*
Abandono a casa o horto o lugar á mesa/o casaco de que gostava, sobre o leito dobrado
*
Pela neve sem rasto caminhou aquele que busca um amor
*
Desço as escadas de casa
*
os insignificantes flutuam/ao vento contínuo de Deus
*
cada um de nós jaz por terra muito depois que se levanta/tudo o que possui não cobre metade do seu reino
*
Atravessei contigo a minuciosa tarde
*
Os orantes são mendigos da última hora/remexem profundamente através do vazio
*
hoje só lá se passa/para os saldos de Madrid
*
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado/na constelação onde os tremoceiros estendem
*
Sem darmos conta já estávamos encalhados/numa qualquer estrada secundária
*
Saíam da cidade em direcção ao mar/para lugares que se pareciam/a uma graça que buscavam:
*
Nas grandes praças da Europa por onde quer que se vá
*
tomo o caminho por onde vieste/tropeçando como os que não têm olhos
*
Depois de ter fechado tudo, abro de novo a porta/e corro cambaleante para a vazia escuridão
*
Vigiava nuvens e sombras pela fajãs
*
E, de facto, um viajante da geração seguinte, Pausânias,/relata ter visto, no declive acima do templo
*
Que dizem os exploradores, os viajantes, os peregrinos que há muito julgávamos perdidos, os berberes, os transumantes, os foragidos
*
Atrás de ti o caminho luminoso/como se o abismo tivesse uma cabeleira branca
*
De o Viajante sem sono:
estende o teu corpo ao longo do barco/que desce silencioso o canal
* Quando bruscamente nos separarmos na encruzilhada de rápidos
*
Talvez nos caiba viver por cidades estranhas
*
lembrança do viajante/que se demora apenas um dia
*
e quando atravessamos o corredor na penumbra/os espelhos não nos reconhecem
*
Busca dentro e fora, no cimo e no raso/por túneis, declives e intervalos/Passa, mas não de um ponto a outro
*
Faltam atlas com algum detalhe/para as emissões nocturnas
*
Caminhas quase sem te moveres/os campos estendem um corpo
*
Imaginamos lugares estritos para o sublime que vem afinal depositar-se à nossa soleira
*
Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo/de uma estação clemente
*
Nem que seja pelo pobre caminho entre aldeias/por meio de ervas da altura de um homem
*
Atravessamos a noite com uma vontade irreprimível de cantar
pormenor de, Richard Serra, The Matter of time
de o Tesouro escondido:
“E se é verdade que o motivo que desperta o canto é um acontecimento pessoal concreto,…”
«Os velhos deviam ser como exploradores.»
Em Perdoar Helena:
“Só o homem está parado, não te deste conta?
Parado? Do mundo animal, sim, talvez o homem seja a criatura sedentária… mas (e sorri, imitando)… nenhum homem estátua, erguido no seu tripé, com o pobre prato de moedas diante, pensa sequer concorrer com a imobilidade de que é capaz, não sei, uma rosa… um arbusto… Os jardins estão cheios de uma imobilidade que nos está vedada… inacessível.
E se eu te disser que os jardins são berberes em deslocação… vagabundagem… movimento!
Estás a defender, portanto, que as plantas… as grandes árvores se deslocam?
Sim… isso… e numa distância, meu Deus, incalculável. Olha para a alameda… Donde pensas que chegaram todas aquelas espécies? Vieram do Cáucaso, da Sibéria, do Tibete, da América…
(corrigindo-o) Não terão vindo propriamente… foram, com certeza, trazidas… importadas pela administração municipal…
Por ventos, por correntes marítimas, nos grandes invernos, digo-te eu… ocultas nos pés dos escravos, escondidas algures na trouxa de um distraído mercador ou entre o pêlo dos animais… nas dobras mais que invisíveis de qualquer acaso… as sementes foram (sublinha com ironia) importadas assim.
[…]
Juro que não o percebo. Uma noite, ele chegou, virou-se para mim e disse: partigiano.
[…]
E não se dava por essa migração clandestina, ninguém detectava esse tráfico singular?!
[…]
(recobrando) É estranho. O que eu sinto agora é que estamos sempre a um passo, quer nos dirijamos para um lado ou para outro… quer se trate da vida ou da morte. E a isso não se pode fugir… Por mais branda que sopre a brisa, por mais branda… a noite penteia as glicínias com seu pente aguçado.
(pausa) Sabes o povo berbere… os nómadas…
Sim…
Estamos demasiado ligados à ideia de viagem… sair pelo mundo e tornar à mesma casa, na mesma rua, no mesmo bairro de Ítaca, de Nova Iorque… O nomadismo não é uma viagem assim…
Continue.
O nomadismo é uma viagem sem fim…
E…
O que disseste dos pintores parece-me muito superficial.
[…]
Os que viajam, voltam para trás… regressam à sua rua, aos seus tectos amados, aos olhos de Penélope… Os nómadas…
E os nómadas…
Os berberes dizem que os nómadas desposam o vazio… falam das núpcias com o vazio…
Não compreendo.
Mas queres compreender?
[…]
Digo-te que não pude deixar de prosseguir, partigiano.”
Do jornal público de 21 de Abril de 2011, no Festival da Literatura em Viagem Gonçalo Tavares terá dito:
«“cavalguemos e que possamos fazer viagens grandes, é impossível sair do reino do pai, é impossível escaparmos à nossa herança, aos nossos valores. Qualquer viagem, por mais longínqua que seja, nunca consegue ir ale dos limites do reino animal.
“Fazermos as histórias das viagens é fazer a história das diferentes linhas rectas que se foram traçando. Mas hoje nós estamos fascinados com o ponto de partida e com o destino. De certa maneira já eliminamos a própria linha. Classicamente a viagem era o percurso. Agora, quando falamos de viagem, quase sempre nos referimos ao destino. A história da viagem é a história da eliminação do percurso. De certa maneira, eliminamos o conceito de viagem clássico.
“A presença actualmente deveria ser definida pelo sítio onde está a atenção. Se eu estiver numa sala, ao lado de uma pessoa, e estiver no computador a dar atenção a alguém que está na China ou no Japão, é evidente que estou presente na China ou no Japão. Estou mais afastado da pessoa que está a dois metros de mim. E, se for assim, se nós estamos onde está a nossa atenção, o conceito de viagem pode mudar bastante. A viagem, se calhar, até é uma mudança da posição da nossa atenção. Podemos ir até ao outro lado do mundo, mas se a nossa atenção ficar em Lisboa, basicamente não viajamos. Se considerarmos esta ideia de que a viagem é o percurso da atenção, então podemos fazer grandes viagens físicas e não movimentar a nossa atenção, podemos ficar parados, apesar de termos viajado até à Índia. Cada vez mais, o que nos importa é onde está a nossa atenção e não onde estão os nossos pés. Essa é a grande diferença.
“Eu mudei tanto que não te reconheci.
“Eu não reconheço o outro, não porque ele tenha mudado, mas porque eu próprio mudei.
“E por isso é que, de certa maneira, o grande perigo da grande viagem é que nós mudamos tanto que, quando voltamos a casa, não reconhecemos as pessoas que deixámos. Este é o grande perigo, mas é também a grande potencialidade da viagem.»
pormenor de, Alberto Carneiro, [esta linha que percorre]
Em A Leitura Infinita “O homem é esse ser a caminho, que no espelho da incompletude e do inacabado se mira e reconhece, ele que entra na condição da vida seu «incessante trabalho» [Maria Zambrano]. No jogo da sua liberdade, nas grandes e pequenas escolhas do existir, no modo como articula o diálogo com os outros e com o mundo é que se vai definindo. É que se vai criando. Tornar-se pessoa é, portanto, bem mais do que uma questão de concepção ou nascimento. O existir-em-construção é o lugar onde a Fé se inscreve. Por isso, o nomadismo de Abraão não é apenas uma referência sociológica: é uma exigência da Fé, essa itinerância, esse desejo de que transportaremos pelo corpo do mundo para que ela se torne o nosso próprio corpo. É aqui que Abraão irá construir um modelo de crença.”
O amor faz dos enamorados nómadas, buscadores e mendigos. Todo o diálogo de amor é uma conversa entre mendigos: não entre gente que sabe, mas entre quem não sabe; não entre gente que tem, mas entre quem nada retém. Por isso a maior declaração de amor não é só uma ordem, é um pedido: «Grava-me como um selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor.» (Ct 8,6).”
Em o Hipopótamos de Deus e outros textos há um intitulado Aprendo a rezar com os pés e diz “caminham em filas ao lado das estradas nacionais, por trilhos de terra batida, atravessando pequenos povoados que antes desconheciam, cruzando horas e horas a paisagem de giestas em silêncio. Têm em português um nome que deriva de uma forma latina: per ager, que significa «através dos campos»; ou per eger, que significa «para lá das fronteiras». Definem-se, assim, por uma extraterritorialidade simbólica que os faz, provisoriamente, viver sem cidade e sem morada. Experimentam uma espécie de nomadismo: não se demoram em parte alguma, comem ao sabor da própria jornada, dormem aqui e ali. Num tempo ferozmente cioso da produção e do consumo, eles são um elogio da frugalidade e do dom. Relativizam a prisão de comodismos, necessidades, fatalismos, desculpas. E os eu coração abre-se á revelação de um sentido maior. A verdade é que é difícil ter uma vida interior de qualidade, se nem vida se tem, no atropelo de um quotidiano que devora tudo. Na saturação das imagens que nos são impostas, vamos perdendo a capacidade de ver. No excesso de informação e de palavra, esquecemos a arte de ouvir e comunicar vida. Quando damos por nós, há à nossa volta um deserto sem resposta que cresce.”
Entretanto na fila para o peixe, falta apenas uma pessoa para chegar a minha vez, e volto ao princípio, às primeiras palavras da entrevista de vinte e seis de Março último ao jornal i:
"Comecemos por um esquecimento, que me diz ser obra rara. O da carteira.
Se pensarmos que os nossos esquecimentos são sempre significativos, que querem sempre sinalizar alguma coisa, tem graça nos tempos que correm o desejo de andar sem carteira. Lembra-me uma provocação que vi o Manoel de Oliveira fazer numa entrevista na televisão. Ele dizia estar interessado em pensar o que seria uma sociedade sem dinheiro. Se em vez da compra e da venda, vivêssemos unicamente da troca de bens, de serviços. No fundo, eu penso que em mim há uma nostalgia do dom, uma certa utopia de uma sociedade do dom. Mas de facto para tomar uns cafés, dá jeito trazer a carteira.
Que objectos costuma trazer consigo?
Sabe, eu gosto muito de olhar para os caracóis. Se tivesse que escolher um ser vivo na natureza para falar de mim, era o caracol. Por causa de uma frase que está associada: "Tudo o que tenho, trago comigo". Mesmo quando ando de bolsos vazios, como é o caso deste dia inesperado, penso que trago sempre tudo comigo.
[...]
Como foi a transição para o continente?
Para mim foi uma aventura fascinante. Lembro-me que caminhava muito a pé e tinha a experiência da cidade, do tecido urbano. Ainda não tinha verdadeiramente conhecido isso. Foi importante até para me descobrir.
Nunca se sentiu perdido na cidade grande?
A alegria tem sempre em si um susto. Pelo menos a minha começa por ser sempre uma consciência de que as coisas são maiores que nós. E que continuamos a caminhar para elas.
Continua a ser um bom caminhante na cidade?
São Francisco de Assis dizia que caminhar a pé é já rezar. Se for assim, já tenho rezado muito. Há itinerários de que gosto muito. O jardim das Amoreiras, Campo de Ourique. Lisboa é tão bonita e diversificada. Sempre um espanto que nos é oferecido. Nunca regressamos pelo mesmo caminho por onde partimos."
Para terminar este ponto seis, nos deliciosos volumes de Histórias, de Heródoto, a quem muito aproximo a poesia de Tolentino Mendonça, mais tarde, noutro ponto, Heródoto de Halicarnasso, o pai da História, deixemos as dúvidas noutro lado, Maria Helena da Rocha Pereira escreve “os informadores de quem recolheu dados nas diversas terras por onde andou ascendem a mais de trezentos, na contagem de Lateiner”, e, numa nota de rodapé deste livro primeiro das Histórias, acrescenta “pelo que toca a Heródoto, vão longe os tempos em que se punham em dúvida as suas declarações pelo mundo antigo. Veja-se, entre os autores mais recentes, Immerwahr, `Herodotus`426, que dá como certas as viagens pelo Sul da Rússia, Babilónia, Síria, Palestina, Egipto (com permanência de quatro meses [onde chegou mesmo a medir as pirâmides de Quéops e de Quéfren, também do prefácio]) Cirenaica, Itália do Sul, Mar Egeu e continente grego.”
posted by luis Sexta-feira, Maio 13, 2011
Quarta-feira, Maio 11, 2011
Heródoto, Heródoto de Halicarnasso, o pai da História, ponto de exclamação. O pai da história.
A História da Guerra do Peloponeso juntou-se agora aos volumes de Histórias, de Heródoto.
E que maravilhosos volumes. É o que venho dizer. Que maravilha.
Dou um salto para a frente para retroceder depois: da introdução: "Como bem nota J. Hart, em Herodotus and Greek history, em Tucídides as coisas acontecem porque os seus protagonistas são o tipo de homem que são (...) Em Heródoto, as coisas acontecem porque têm de acontecer. Tal não significa que as decisões do destino sejam arbitrárias nem que os deuses sejam, de facto, jogadores de golpes maléficos à custa de pobres imortais. Antes cada fase do cumprimento de um destino situa-se dentro de uma cadeia de causalidade."
"em Tucídides as coisas acontecem porque os seus protagonistas são o tipo de homem que são (...) Em Heródoto, as coisas acontecem porque têm de acontecer."
Maria Helena Rocha Pereira escreve, na introdução geral, sobre a concepção da História em Heródoto que "a declaração principal sobre a sua a obra, misto de título (que não era ainda de uso bem definido) e de enunciado de intenções, está como todos sabem, na frase inicial:
Esta é a exposição das informações de Heródoto de Halicarnasso, a fim que os feitos dos homens, como tempo, se não apaguem e de que não percam o seu lustre acções grandiosas e admiráveis, praticadas, quer pelos helenos, quer pelos bárbaros, e sobretudo, qual a razão por que entraram em conflito uns com os outros."
Pressupõe, continua, Rocha Pereira "em consequência, uma apreciação directa dos factos. A finalidade dessa exposição é tripla: lembrar o passado, dar glória, encontrar uma causa da guerra; (...) as informações colhidas, a visão directa, a reflexão. Andar pelas terras, ser um viajante que indaga; (...) a atitude racionalista não exclui, porém o reconhecimento da presença de forças superiores que actuam na vida do homem".
"Que Heródoto não descura a geografia, é evidente, sobretudo nos primeiros logoi; tão-pouco a etnografia, a ponto de ser hoje considerado (desde os trabalhos de Momigliano) o pai desse ramo do saber. Precursor da antropologia cultural lhe chamaram outros, como Harmatta; merecedor de um lugar de honra entre os fundadores da história comparada das religiões, outros ainda, como Burkert. Toda essa riqueza de informação, sistematicamente colhida e criticamente avaliada, aproxima-o, na visão hodierna, da "História total" a que hoje se aspira."
Enquanto escritor: "o processo de estruturação da narrativa vinha, afinal, da Ilíada e não é menos frequente na tragédia. E a noção de causalidade, fundamental na investigação histórica, e anunciada na primeira frase do proémio, não é nunca perdida de vista; (...) embora seja difícil considerá-lo ´o primeiro expoente da literatura ática`, não obstante ter usado o dialecto iónico, ele foi, tanto quanto sabemos, ´o inventor da primeira obra complexa em prosa da literatura europeia; o encadeamento dos acontecimentos sugere um estreito parentesco espiritual com a tragédia grega; (...) característico de Heródoto é ainda o frequente interclar de digressões, sempre ligadas de novo à narrativa principal por meios que podem variar, embora o mais frequente seja o sincronismo; a presença constante da sua própria pessoa, como que em diálogo com o leitor, tal como o haviam de fazer, muitos séculos mais tarde..."
Na introdução ao Livro I, de José Ribeiro Ferreira e Maria de Fátima Silva, e no ponto II, referem-se a "um sentido novo à leitura de Heródoto que Immerwahr trouxe, à cadência narrativa, encontrando-se assim uma nova solidez, e também na questão histórica pois muitas interrogações têm sido postas sobre a forma como selecciona os factos históricos", chegando-se mesmo a repreendê-lo! E acrescentam, "se Heródoto não é nem procura ser exaustivo no seu relato dos factos, talvez uma outra leitura permita entender qual a lógica e o objectivo que presidem a essa selecção."
Immerwahr, dizem, clarifica, então, "os princípios que constituem a filosofia que determina, na globalidade, a história de Heródoto (...) o historiador, ao reunir as várias tradições, adquire uma consciência muito mais ampla, não limitada a perspectivas individuais, mas compreendendo a natureza profunda e permanente da história na sua totalidade. A visão de Heródoto é a de um historiador universal, embora, como veremos, ele se defronte com um tema histórico particular.(...) Mais do que a narrativa minuciosa dos factos na sua individualidade, empenha-se na síntese de certos tópicos que, repetitivos na história ou mesmo na tradição dos povos, são reveladores das verdades universais subjacentes à existência humana. Na forma como a historiografia de Heródoto encara o processo de análise dos factos e sintetiza oss eus tópicos essenciais, revela-se profundamente marcada pela tragédia e pelos conceitos que definiam o pensamento trágico seu contemporâneo."
A historiografia "apoia-se no princípio da ascensão e queda do chefe de um povo, que tem por trás a ideia da instabilidade da fortuna e da fragilidade da natureza humana" que são para Heródoto "verdades absolutas que a história dos povos, sem excepções, vai comprovando; Creso, Ciro, Cambises ou Dario, todos seguem um destino paralelo que Immerwarh codifica segundo um padrão permanente de desenvolvimento:
1. origens de um chefe (como nasceu e ascendeu ao poder); 2. primórdios do reinado até atingir o auge do seu poderio (momento que é marcado por um processo de ascensão muito rápido); 3. curva descendente, amplamente circunstanciada, que desfecha em destruição, ou, pelo menos, em declínio."
Livro I, Creso da Lídia e Ciro da Pérsia: "O frontispício da obra, a definição dos princípios básicos de que a sorte é efémera, o homem fraco e cego, o poder corrosivo e a destruição inevitável."
A terminar, dois exemplos da maravilha que estes Livros são mais...
- "o diálogo entre Sólon e Creso sobre a felicidade humana é um dos passos mais famosos do livro primeiro": Creso quer saber se há alguém mais feliz do que ele. Sólon: "Se, a somar a isso, ainda terminar bem a vida, esse é quem tu procuras, o que merece ser designado feliz. Mas, antes de chegar ao fim, espera e não o chames feliz, mas afortunado."
- "os Iónios e os Eólios, mal os Lídios foram dominados pelos Persas, mandaram a Sardes mensageiros, à presença de Ciro, oferecendo-lhe vassalagem nas mesmas condições que tinham existido com Creso. Ciro ouviu-lhes as propostas e, no fim, contou-lhes esta história: ´Um tocador de flauta viu os peixes no mar e pôs-se a tocar, convencido de que eles iam saltar para terra. Mas, quando viu gorada a sua expectativa, pegou numa rede, apanhou uma grande quantidade de peixes e tirou-os da água. Ao vê-los debaterem-se, disse: acabem-me com essas danças, que, quando eu estava a tocar flauta, não quiseram vocês saltar cá para fora e dançar."
No prefácio da obra Silêncios no Teatro de Sófocles, de Marta Várzeas, Maria Helena Rocha Pereira escreve "a história em que cada uma se baseia [peças de Sófocles] -- o mythos, como lhe chama Aristóteles (Poética, 1450a, 39-40), dizendo que é a alma da tragédia -- decorria geralmente em tempos que os gregos tinham por históricos, mas sabiam muito recuados em relação ao século V a.C.. Não era, porém, de uma reconstituição do passado que se tratava, mas de representar figuras em acção, porquanto o que importava era «o encadeamento das acções», «pois a tragédia é uma imitação, não dos homens, mas dos actos e da vida» (ibid., 1450a, 15-17). E, «se atém aos nomes de pessoas que existiram», «a razão é que o possível é fácil de acreditar. Pois aquilo que não sucedeu não cremos tanto que seja possível, ao passo que o sucedido é evidente que é possível, porquanto não sucedera, se fora impossível. Contudo, em algumas tragédias, há um ou dois nomes conhecidos, e os restantes são fictícios, e noutras não há um só, como no Anteu de Ágaton. Neste drama tanto acção como nomes, é tudo inventado, e nem por isso agrada menos» (ibid., 1451b, 15-23). No entanto, advertira o autor anteriormente, o historiador e o poeta diferem em dizer, um, o que aconteceu, outro, o que poderia acontecer. «É por isso que a Poesia é mais filosófica e mais elevada que a História, pois a Poesia conta de preferência o geral, e a História, o particular. O geral é aquilo que, segundo a verosimilhança ou a necessidade, dirá ou fará certo homem; isto é o que se esforça por representar a Poesia, embora atribuindo nomes às figuras. O particular é o que fez ou aconteceu a Alcibíades» (ibid., 1451b, 4-11)."
Do dia mundial do livro à feira do livro, e sem considerações sobre historiografia, três ou quatro pontos sobre o monumental livro de Tucídides recentemente editado em Portugal História da Guerra do Peloponeso:
Fase I:
1) ir ao Livro II e ler A oração imperial de Péricles: elogio dos mortos e do poder democrático, sublinhar;
2) ir ao Livro V e ler Monólogo ateniense totalitário: o diálogo dos Mélios e o genocídio, sublinhar;
3) cotejar sublinhados; partindo apenas e exclusivamente destes dois livros.
Depois:
Fase II:
1) ir ao Livro III e ler de XXXVI até L; sublinhar, cotejar, reter;
2) ir ao Livro I e ler de CXL até CXLV; sublinhar, cotejar, reter;
Fase III:
1) entre o Livro II e o Livro V: conceitos: de poder democrático a genocídio. Levantar, das páginas do livro, a cabeça. Ficar de olhos esbugalhados. Reler. Reter.
2) voltar, atrás, ao Livro III e ouvir Cléon e Diódoto: linhas: seguidas e em potência palpitante. Hoje.
3) reler a parte do Livro I outra vez.
Fase IV:
1) na Introdução de Rosado Fernandes, onde quase tudo o que é aqui dito anteriormente também está, não aparece a reflexão, que ligue ao presente, e no caso concreto, à história alemã dos séculos XIX e XX, sobre o que se passa entre o Livro II e o Livro V;
2) ler o que escreve Kitto em Os Gregos sobre Cléon e Diódoto, reter tudo e também o que diz sobre Eurípides;
3) ler e sublinhar, na introdução de Rosado Fernandes, as ligações a partir da História da Guerra do Peloponeso a diferentes episódios da História: interiorizar a metodologia seguida e saber que ao fim de um ano lectivo já se promoveu e conseguiu mais elasticidade mental; e propor, para além daquilo que Diogo Ramada Curto relembra como óbvio num semanário de fim de semana, propor, dizia, uma ligação activa e efectiva entre, pelo menos, o ensino secundário e o ensino universitário, pelo menos;
4) ir ao Livro VII, ler, ler LXXV... A dramática retirada para Atenas.
posted by luis Quarta-feira, Maio 04, 2011
Terça-feira, Maio 03, 2011
no canal:youtube/amontanhamagica, das últimas entradas uma aula de José Gil, a partir de desenhos de Manuel Baptista.
no twitter.com/#!/amontanhamagica, depois de Ilusões Perdidas, de Balzac, os primeiros tweets saídos de A Divina Comédia.
no scribd, a última entrada foi o Complexo Histórico-Geografico, de Vitorino Magalhães Godinho.
o canal:youtube/amontanhamagica deve a sua existência, especificamente, a Dziga Vertov e a Jean Luc-Godard.
o twitter e o sribd à vontade e ao querer estar familiarizado com estas ferramentas ou plataformas.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
No sábado, por volta da uma da tarde, liguei a televisão e levei logo com uma jornalista a dizer que os noivos, inexplicavelmente, William and Kate, creio que era Clara de Sousa, a dizer que os noivos, inexplicadamente, não tinham ido de lua de mel, que tinham adiado, e que os britânicos tinham ficado muito admirados, perplexos, logo ao raiar do dia.
V – com tão pouco, a amizade reinventa o mundo e a sua alegria!
Começo por uma nota de rodapé de O Passo do Adeus, de Cristina Campo: escreve Tolentino Mendonça, tradutor do livro: “identificava-se ela tanto com este amor a Hofmannsthal, que era a oferta de Livro dos Amigos uma espécie de «senha» a assinalar o princípio e a orientação das suas amizades.”
Neste caso esta senha era oferecida a Simone Weil, e no prefácio a Os imperdoáveis, de Cristina, Tolentino Mendonça escreve: “quando a Assírio publicou o volume de poesia de Cristina Campo, O Passo do Adeus, fez também sair O Livro dos Amigos, de Hugo Hofmannsthal. Era o presente que a escritora oferecia para selar os pactos de amizade. Mas mais do que isso: o modelo antológico que estrutura essa obra, era o único de que ela se sentia verdadeiramente próxima e capaz. Em vez de uma construção unitária um fio de gemas, anotações colhidas aqui e ali ao sabor não do gosto, mas da intransigência, um rigor de miniatura. Cristina considerava Hofmannsthal um dos poucos que soube buscar a verdade essencial e última entre as dobras delicadas que há nas coisas. […] Acontece agora que a edição de Os Imperdoáveis coincide com a de Espera de Deus, de Simone Weil. Se há um sentido mesmo que impreciso em toda a ordem de vizinhança, o que quer que isso seja, é aqui reforçado por uma espécie temerária de parentesco que vincula estes dois livros, estes dois destinos: aquele inequívoco, que não cabe à carne, nem ao sangue revelar.
Foi o poeta Mario Luzi quem ofereceu a Cristina Campo o primeiro texto de Simone Weil. A entrega aconteceu num jardim de Florença. […] Em Florença, na década de 50, ela há-de aproximar-se de todos os que lhe possam falar de Simone […] Como ocorre em certos desenhos subtis, mil centelhas lentíssimas pareciam preparar a instantânea e irremediável precipitação. Cristina Campo depressa se tornou uma referência para a tradução, a edição e o estudo da obra de Simone Weil em Itália. […] E há, claro, o poema Elegia de Portland Road, que alude à última residência de Weil em Londres, publicado em O Passo do Adeus: […] Havia nesta aliança Campo-Weil qualquer coisa fulgurante, instintiva, inflexível. Uma devastadora afinidade descia das câmaras abscônditas e trespassava os detalhes mais quotidianos.”
Em O Hipopótamo de Deus e outros textos há um deles que se intitula É possível descrever a amizade?
Na segunda parte desse texto o testemunho de “uma inesquecível história de amizade é a de Maria Helena Vieira da Silva e Mário Cesariny, cuja trajectória aparece agora registada no imperdível volume de correspondência Gatos Comunicantes […] As primeiras cartas do poeta começavam por um «Maria Helena » ou «Minha querida Maria Helena». E da parte da pintora o mesmo: «Mário», «Querido Mário», «Querido anjo-daemon». Mais para a frente Cesariny despedia-se repetindo «Miau, Miau, Miau» ou «Seu, seu Cesariny». Maria Helena escrevia: «Um grande abraço», «Muitos abraços e beijos». Com tão pouco, a amizade reinventa o mundo e a sua alegria.”
E na primeira metade do texto diz-se que “a amizade é singularíssima e mune-se de uma desconcertante simplicidade de meios. O traço mais universal da sua gramática é, talvez o da presença: mas esta tanto se faz de muitos encontros, como de poucos; de muitas palavras ou de um silêncio espaçado e confidente; de um telefonema por dia ou por ano; de uma ou de incontáveis atenções… O importante é que tudo isso se torne, a dada altura, uma história que nos acompanha e por onde o essencial da vida passa.”
Lembro-me muitas vezes de uma história simples, de David Lynch, também de um texto de Clarice Lispector, também de uma história de calmaria de Tonino Guerra, de Jules and Jim, também de Band à part, de mãos dadas e de sorriso no rosto numa correria cúmplice ao Louvre todo em dez minutos, ou em Fellini, dos amigos adolescentes no cinema, ou em Visconti, nos irmãos Rocco, ou em Mann, a montanha mágica e… não terá fim, cada um de nós um mundo.
Mas demoremo-nos primeiro em Clarice depois em Tonino:
Em Contos de Clarice LispectorUma amizade sincera “a amizade é matéria de salvação […] Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar […] Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.”
E uma das partes de uma das histórias para uma noite de calmaria, Uma história de amor entre dois eunucos chineses, de Tonino Guerra:
Segunda-feira
Desde que comecei a escrita do diário vejo que te interessas ainda muito por mim.
Terça-feira
Sinto que desejas ler o que escrevo.
Quarta-feira
Hoje removi as pedras no horto para que pensasses que escondia aí estas páginas. E, de facto, tu repetiste os meus gestos e ficaste desiludido.
Quinta-feira
Leio nos teus olhos que estás a sofrer. Então é verdade que ainda me queres bem.
Sexta-feira
Hoje quero que encontres estas pequenas linhas e percebas que és a minha vida.
Depois de ler chorou. E viu que, junto do canavial, também o outro chorava.”
De A noite abre meus olhos:
Entre amigo e amigo jamais se afastam coisas tão felizes:
*
Mas a impressão maior é a da alegria de uma maneira que nem se consegue e por isso ténue, misteriosa: talvez seja assim todo o amor
*
Tenho amigos que rezam a Simone Weil Há muitos anos reparo em Flannery O`Connor
*
Recebi hoje uma carta do José Bento que dizia sentir-se um rato diante de Santa Teresa eu gosto tanto dele, posso dizer o mesmo
*
A beleza nunca é clara no modo em que se aproxima
*
pormenor de, Rui Chafes, Sou como tu, 2008
Para terminar o ponto cinco, Tiago Cavaco (http://vozdodeserto.blogspot.com) na apresentação de O Hipopótamo de Deus e outros textos (http://www.youtube.com/amontanhamagica1#p/u/49/3vXEZ0R2xLg), “Uma coisa que eu até gostaria de dizer, conheço o Tolentino mas não nos damos muito bem, mas não consigo. Há um magistério no Tolentino Mendonça, que é de facto o magistério da amizade, e como já disse eu gostaria de ser o primeiro a desmentir isso, mas de facto não posso."
posted by luis Domingo, Maio 01, 2011