A montanha mágica

Sábado, Abril 30, 2011

a dado passo o tio Boonmee diz que e começa a dizer que numa das suas vidas matou homens, mulheres, insectos (acho mesmo que os nomeia). e depois silêncio, o vento, a brisa, o verde contagiante que transborda da tela.

e uma pessoa em silêncio repete: homens, mulheres, insectos. e sobressalta.

no ípsilon de ontem, na curta mas muito boa conversa/entrevista, Manoel de Oliveira diz a dado passo ao jornalista que diz que "a morte é dum maiores mistérios. Mas neste filme filma-a, de facto, ou o seu espírito."

Manoel de Oliveira diz "Sim, o espírito. Tem a ideia de que toda a matéria é imóvel? Toda ela se move na vida pela força do espírito, é este que a anima. E quando a pessoa morre, o espírito solta-se.
Quando estava no colégio de jesuítas, em Espanha, diziam-nos que, depois da morte, as almas vão para o purgatório. Cheguei à conclusão, na ingenuidade dos meus 16 anos, que o mundo era uma fábrica de almas. Hoje, penso numa imagem muito certa: os rios. Têm uma vida e passam por ela torturados, e quando desaguam no mar, perdem a sua personalidade pois juntam-se ao absoluto. Depois, vem o calor, a evaporação e as chuvas que caem sobre a terra. A fonte renasce e o rio continua. Vamos sempre para o absoluto, e depois um retorno que gera continuidade. Para os budistas, quando morre uma pesso, a alma sai e pode instalar-se num gato. Falei com o Dalai Lama e pus-lhe essa questão: se a pessoa morre e a alma passa de uma humano para uma fera, não perde a evolução do raciocínio? Disse-me que não, pois o que conta é o esforço. Percebi que a vida, em si mesmo, é um esforço enorme em tudo o que fazemos. Mas é ele que activa a imaginação."

mas é ele que activa a imaginação.

gostei muito da fotografia da página 24.

posted by luis Sábado, Abril 30, 2011

Sexta-feira, Abril 29, 2011

o livreiro, entusiasmado, veio ter comigo e trazia na mão dois livros este não posso só consegui um e é para um cliente mas este mandei vir dois e se quiser um é para si sim claro agradeci e por dentro comovido conhecia o livro pela capa mas nunca lhe tinha pegado nem lido nem conhecido e fiquei muito contente por o trazer

um destes dias na fnac aquele azul saltou da capa e seduzido segurei-o, abri-o e soube que tinha de o trazer

na primeira parte é também sobre um encontro no River Café em Nova Iorque com uma filha de Thomas Mann mais um seu amigo apaixonado por Walt Whitman

depois Goethe e Espinosa

e depois ou antes Thomas Mann, A Demanda de Thomas Mann

num tempo em que em Portugal se voltou a publicar Mann, em novas traduções, A montanha mágica + Os Buddenbrook é de ir a correr ler este Nobreza de Espírito Um ideal esquecido, de Rob Riemen

na terceira parte Conversas Extemporâneas sobre questões Oportunas: Sócrates, uma conversa do Doutor Fausto de Mann, sobre o 11 de Setembro, e à mesa com Koestler, Sperber, Sartre, Camus cujo "motivo da reunião é a preocupação comum com a situação política e as suas implicações para a desvastada civilização europeia", Nietzshe e... "Czeslaw Milosz escreve: «O que aprendi com Jeanne Hersch?"

e na quarta parte, Sócrates, Aristócles ("parti como Aristócles para descobrir como é realmente o mundo. Regressei como Platão para aprender o que o mundo devia ser"), e Leone Ginzburg

158 páginas, bildung.

posted by luis Sexta-feira, Abril 29, 2011

Quarta-feira, Abril 27, 2011

Dos maravilhosos volumes do Dicionário de História de Portugal deixei aqui, no Verão passado, o Complexo Histórico-Geográfico, de Vitorino Magalhães Godinho.
Hoje, a partir também de apontamentos que tirei nas aulas de História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, aqui fica um breve resumo; o Complexo Histórico-Geográfico está disponível ali no canto superior direito, no Scribd.




do Dicionário de História de Portugal, Iniciativas Editoriais, 1963


O Complexo Histórico-Geográfico é, desde logo, uma perspectiva teórica e de oposição à historiografia tradicional, comungando antes da École des Annales dos fundadores Lucien Fevbre e Marc Bloch, de Braudel, e que dá relevo aos sectores/vectores económico e social.
Encontra no binómio espaço-tempo da expansão portuguesa três noções essenciais:
- estrutura: unidade resultante da união de subconjuntos que se articulam entre si;
- sistema: corpo doutrinário que dá coerência à estrutura;
- regime: ordenamento jurídico que rege a estrutura.

Com base nestas noções, dizemos que as estruturas económicas e sociais se inserem no espaço-tempo gerando os diversos complexos histório-geográficos.

Vitorino Magalhães Godinho põe em causa, por exemplo, a teoria de Lúcio de Azevedo onde se defende que a primeira dinastia portuguesa é uma monarquia agrária; e bem dentro da Escola dos Annales contrapõe uma nova teoria defendendo que não são as individualidades que actuavam mas sim o todo social: os grupos, a relação entre os diferentes sectores de actividade, as regiões, as localidades; sendo este conjunto que vai apreender o factor social global.

É um complexo estrutural multifacetado projectado no espaço e no tempo e o primeiro de todos é o que se verifica até 1415, data da conquista de Ceuta.
Godinho considera que a base económica até ao século XIII é a agricultura, não obstante haver alguns vectores, não tão importantes, mas que também entravam na própria estrutura económica, como por exemplo o comércio, que até ao século XIII era virado para as rotas do norte, uma vez que as do sul eram ocupadas pelos muçulmanos; Mediterrâneo apenas por via terrestre, sendo Portugal o último porto/mercado do ocidente.

Apesar das diferenças religiosas, os portugueses efectuavam/tinham muitos contactos com o reino de Granada, e a prova parece estar no uso do morabitino até Afonso III, moeda de ouro, de origem almorávida.

A primeira grande mudança que se dá é a viragem comercial para o Atlântico, o sal para o norte da Europa e para os prussianos, e também a aliança teutónica; o peixe para as praças mediterrânicas mais os cereais são o motivo das primeiras rotas regulares mediterrânicas, fundamentalmente para a Sicília, Catalunha e Norte de África.

Até 1415 a nossa balança de pagamentos manteve-se positiva, apesar de vendermos menos do que o que comprávamos, uma vez que os portugueses detinham isso sim uma intensa actividade transportadora e eram pagos por isso: transportavam sedas para o norte de África vindas de Sevilha, e as frotas para a Terra Santa eram quase sempre portuguesas.

E depois os motivos/razões para ir a Ceuta e.

Do ano passado, Os Problemas de Portugal, os Problemas da Europa, mais sabedoria.

Muito obrigado.

posted by luis Quarta-feira, Abril 27, 2011

Terça-feira, Abril 26, 2011

extra, extra, já com semanas, extra, extra


mais coisas que uma pessoa vê e fica estupefacto digo a ver estrelas


já tínhamos a do papel higiénico associada a Eduardo Lourenço, por uma poetisa e editora portuguesa nos seus primeiros dias de blog

mas também acho que já estávamos à espera de pior, só faltava saber quando é que

e assim também na revista Ler, uma força de expressão, como se sabe, do mês de Abril de 2011 atenção, atenção, acomodem-se todos, pois dentro de momentos vamos poder ler e ver

da inenarrável entrevista/conversa a Umberto Eco dois ou três excertos apenas

e o primeiro

logo no sumário o jornalista português escreve "recebe-me como se já me conhecesse, habituado a partilhar com estranhos o prazer de pensar"
reter prazer de pensar

e o segundo

"quer dizer que já houve alguém a acusar os alemães de serem o povo que produz demasiada matéria fecal?"
reter povo que produz --até ao fim

e o terceiro

pergunta o jornalista português a Umberto Eco se seste não tem a intenção de se desfazer dos livros que têm aqui e Eco responde que não. Além disso, os livros têm um valor histórico e um valor comercial. Tenho aqui livros com dedicatórias dos autores, livros raros, com notas à margem, o Finnegans Wake assinado por James Joyce

e o jornalista o que diz? o que faz?

diz Acredita que o livro electrónico chegou para ficar?
reter livro electrónico


No final uma pessoa levanta a cabeça e vê as estrelas da banda desenhada em torno, vá, da cabeça.
Este entrevistador diz que coordena um governo sombra.

posted by luis Terça-feira, Abril 26, 2011

Segunda-feira, Abril 25, 2011



posted by luis Segunda-feira, Abril 25, 2011

Sábado, Abril 23, 2011

Alterando o ângulo de visão (4)


IV – Os naufrágios são belos


Não me lembro agora do número da página mas em o Tesouro escondido a dado passo a pergunta: É possível começar uma viagem caído por terra?
Luz. Voz. Ver.

De A noite abre meus olhos

“não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor”


Quanto tempo será preciso? Como sabemos? Por dentro e lá dentro?

“a navegação dos oceanos gelados”

Quando vi pela primeira vez os primeiros minutos do filme No Quarto da Vanda, de Pedro Costa, fui naquela viagem, era de dia lá fora, o sol brilhava, queria tentar encontrar no meio daquele desmoronar constante o ponto de viragem, quanto tempo seria preciso estar lá dentro e por lá por dentro?

Louise Bourgeois:

I have been
to hell and
back.

And let me
tell you.
it was
wonderfull


"sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro o nosso corpo
tudo o que seremos depois"

Em o Tesouro escondido:

de Bruce Chatwin a pergunta: Por que é os homens se deslocam em vez de ficarem quietos?

De O hipopótamo de Deus e outros textos “estes peregrinos que tornam a encher as estradas de Fátima (mas também de Santiago, de Chartres, do Loreto…) assinalam-nos o dever de buscar a estrada luminosa da própria vida. (…) A parte mais importante dos quilómetros que percorrem não está em nenhum mapa: eles caminham para um centro invisível onde pode acontecer o encontro e o renascimento.”

Em A Leitura Infinita (bem como em o Tesouro escondido, página cento e sete e seguintes) Tolentino Mendonça cita «Un voyage mystérieux» de F.-B Huyge, sobre a ideia de peregrinação: “«Caminhada no espaço e no tempo, progressão no interior de si próprio, o itinerário peregrino é uma metáfora da vida profana, e é o que empresta sentido a esta vida” e “Quando o peregrino chega ao fim da viagem, ele sabe que entrevê a sua verdadeira morada.

«Partícula neste grande movimento que o ultrapassa, o peregrino sofre ao mesmo tempo uma transformação quando completa o seu itinerário pessoal. Ele pode esperar a cura de uma doença ou a remissão de uma falta, uma purificação, uma morte mística e um renascimento simbólico, mas, em todos estes casos, ele terminará a sua peregrinação diferentemente do que quando a começou. Regenerado por uma viagem que é necessariamente iniciática, despojado do homem velho, ele celebra esta regeneração na explosão de alegria das festas e celebrações que marcam o fim de um ciclo.

«Quando o peregrino chega ao fim da viagem, ele sabe que entrevê a sua verdadeira morada.»”

Como é este chegar ao fim? Alguém sabe? Ninguém sabe? Ninguém sabe?

“A Nellie, chalupa de recreio, rodou à volta da âncora sem panejar as velas, e ficou imóvel. A maré enchia quase sem vento, e como seguíamos rio abaixo só nos restava fundear à espera da viragem.”

Em Esculpir o Tempo Andrei Tarkovski






Voltando a o Tesouro escondido, “A viagem é uma espécie de propulsor deste olhar novo. Por isso é capaz de introduzir na nossa vida e nos seus quadros, na sua organização, elementos inéditos que podem operar aquela recontextualização radical que em vocabulário cristão, chamamos «conversão».

A Fé é uma viagem e leva-nos a ela.”

A Tarkovski, Esculpir o Tempo:

“Acredito que uma melhora sempre se dá em decorrência de uma crise espiritual. Uma crise espiritual é uma tentativa de encontrar a si mesmo, de adquirir uma nova fé. É o quinhão partilhado por todos os que situam seus objectivos no plano espiritual. E como poderia ser de outro modo, quando a alma anseia por harmonia, e a vida é plena de discórdia? Esta dicotomia é o estímulo para a transformação, é simultaneamente a fonte da nossa dor e da nossa esperança: a confirmação da nossa profundidade e do nosso potencial espiritual.
Stalker também aborda essa questão: o herói atravessa momentos de desespero quando sua fé é abalada; mas, a cada vez, ele retorna com um renovado sentido da sua vocação de servir às pessoas que perderam suas esperanças e ilusões.”

A vida tem inimagináveis distâncias?

De A noite abre meus olhos

as horas em que vigiamos o escuro
os sítios nenhuns das imagens
a ligeira mudança que resgataria
o abandono

*

ali muitas vezes se sentiu a tempo
de perder uma ilusão

*

percorriam grandes distâncias até um recanto
que outros achariam desigual
ou sentavam-se no fim da terra

*

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo

*

assim chegava cedo de mais à beira não do fim
mas do informulável

*

«só tenho medo se ficar por aqui
demasiado perto»

*

Era alguém pronto a começar qualquer destino

*

Passava aí as férias
debruçado sobre o mar
pensava se haveria no mundo
caminhos que nos conduzam

*

é assim que rodo
à volta de lugares desconhecidos

*

ninguém soube ao certo donde vinham
para encontrar uma vida
ou coisa mais pura ainda

*

Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa

*

a manhã parece-se estranhamente
com outro lugar
saberemos então que significam
os intervalos do silêncio
onde o silêncio é maior

*

Sem darmos conta já estávamos encalhados
numa qualquer estrada secundária
junto a um matagal circundado de rede
onde um letreiro quase ao acaso
diz ter morrido
Pier Paolo Pasolini

*

tomo o caminho por onde vieste
tropeçando como os que não têm olhos

*

De O viajante sem sono

Conserva um lugar junto aos castanheiros da
mata
recortado na luz esbatida, um lugar fora do trilho
Quando bruscamente nos separarmos na
encruzilhada de rápidos

*

Nesse verão nenhum de nós buscava terra firme
parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas
Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz
austríaca sobre as colinas
ao fumo lento no anfiteatro do golfo
à ordem aleatória do tempo?

*

Poeira levada pelo vento
espuma dispersa pela tempestade
lembrança do viajante
que se demora apenas um dia

*

e quando atravessamos o corredor na penumbra
os espelhos não nos reconhecem

*

Caminhas quase sem te moveres
os campos estendem um corpo
colado ao teu
em íntima escuridão
Quando avanças ponte fora
um dos teus ombros brilha como marfim

*

A vida tem inimagináveis distâncias?

*

tinhas de repente uma pressa desesperada
como quem do mundo inteiro
pretendesse apenas
um cigarro


Certo dia perguntaram a Tonino Guerra o que significava aquela cena de Nostalgia do homem com uma vela na mão a tentar atravessar um tanque antigo sem ela se apagar.

Voltemos a Perdoar Helena “nem te dás conta, não sabes explicar, mas há um dia em que começas. Vais caminhando dentro da tua casa, às voltas até te perderes. Há um dia, há uma hora exacta em que te deslocas dentro desse mundo que construíste e és um estranho. Por que está isto aqui? Donde terá chegado aquilo?; Quem são estes que se repetem nas fotografias?; Quem juntou tantos livros em meu redor?”

Não sei quantos dias passaram depois do desmoronamento do quarto da Vanda sei isso sim que Juventude em Marcha chegou, e chegou como não podia deixar de chegar, assim. Foram muitos dias. Foram muitas horas. Foram muitos minutos. Muitos momentos. Marcha. Carta. Vulcão. Silêncio. Corredor. Erupção? Revolução?

A vida tem inimagináveis distâncias?

Em Esculpir o Tempo Tarkovski “estou interessado no homem pronto a servir uma causa nobre, no homem relutante –ou até mesmo incapaz—de subscrever os dogmas geralmente aceitos de uma “moralidade” mundana; no homem que reconhece que o significado da existência está, acima de tudo, na luta contra o mal dentro de nós mesmos, para que no decorrer de uma vida possamos dar pelo menos um passo em direção à perfeição espiritual; pois a única alternativa a isso é, infelizmente, a que conduz à degeneração espiritual. Nossa existência cotidiana e a pressão geral para a acomodação facilitam bastante a escolha desta última alternativa.”

Era alguém pronto a começar qualquer destino

Cristina Campo em Os Imperdoáveis “Mas porque voa o tapete? […] Livros encantatórios sobre a arte do tapete respondem como oráculos a quase todas as perguntas possíveis em torno às genealogias e aos significados destes espaços de lã cerradamente apertada, depois cortada e aparada, que estendem à nossa frente os seus ardentes enredos narrativos, as suas puras geometrias mentais. Narram, estes livros, as histórias de tapetes que têm dezanove séculos, como aquele tapete persa encontrado em perfeito estado num túmulo real nos Montes Altai, que atesta, com os seus dez mil quilómetros de viagem, a total credibilidade daquela incrível Rota da Seda. Dilata-se diante dos nossos olhos a imemorial geografia do tapete, que é afinal a geografia das Noites: tecida e narrada pelas próprias migrações e mestiçagens: turcos e gregos, judeus e persas, árabes e ciganos do Egipto, sírios, arménios, circassianos, curdos, turcomanos, tártaros, mongóis. E é a mesma coluna geológica de milénios: do mítico tapete de Ctesifonte ao tapete moderno, imperturbavelmente semelhante ao antigo.”

tinhas de repente uma pressa desesperada
como quem do mundo inteiro
pretendesse apenas
um cigarro


E para terminar este quarto ponto fiquei agora na dúvida antes assim juntarei os dois, primeiro Tarkovski em Esculpir o Tempo “em Stalker, faço uma espécie de afirmação cabal: isto é, a de que basta o amor pela humanidade –milagrosamente—para provar que é falsa a suposição grosseira de que não há esperança para o mundo. Este sentimento é o nosso valor comum e indiscutivelmente positivo”, e de A leitura infinita


posted by luis Sábado, Abril 23, 2011

Sexta-feira, Abril 22, 2011



in Cristina Campo, O Passo do Adeus, Assírio & Alvim, 2002.

posted by luis Sexta-feira, Abril 22, 2011

Quarta-feira, Abril 20, 2011

.



No final da semana passada ao fim da tarde tive a oportunidade de passar pela Casa Fernando Pessoa e assisti numa sala cheia ao encontro Os Poetas abrem a Bíblia.

posted by luis Quarta-feira, Abril 20, 2011

Segunda-feira, Abril 18, 2011

Alterando o ângulo de visão (3)


III – soube depois que era de Éfeso/e rainha


Comecemos com um acontecimento cultural último, a publicação, pela Gulbenkian, da História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides.
Saltemos depois até ao Livro II e ao marco miliário civilizacional que é A oração imperial de Péricles: elogio dos mortos e do poder democrático:

“XXXVII. Temos uma forma de governo que em nada se sente inferior às leis dos nossos vizinhos mas que, pelo contrário, é digna de ser imitada por eles. E chama-se democracia, não só porque é gerida segundo os interesses não de poucos, mas da maioria, e também porque, segundo as leis, no que respeita a disputas individuais, todos os cidadãos são iguais; no que respeita a prestígio pessoal, quando alguém se distingue em alguma coisa, não é preferido para honras públicas mais por oposição de classe do que por mérito; por outro lado, no que respeita a falta de riqueza pessoal, o cidadão que tem aptidão para servir a cidade nunca, por causa da sua condição humilde, é impelido de alcançar a dignidade merecida.

[…]

XXXVIII. Para além disto, nós proporcionamos muitas formas para o espírito se repousar dos trabalhos do dia-a-dia, com jogos e sacrifícios durante todo o ano e com edifícios particulares elegantes; o prazer que vem de os contemplar mantém os sofrimentos a distância.

[…]

XL. Na verdade, nós cultivamos a beleza com simplicidade e o saber sem fraqueza. Riqueza nós usamos mais como oportunidade para agir do que como assunto para nos gabarmos. Para nós, admitir a pobreza não é vergonhoso mas não tentar escapar a ela pelo trabalho, já é. [2] Entre nós é possível que uns cidadãos tenham tanto interesse pelos negócios privados como pelos públicos e que outros, embora mais virados para os seus próprios negócios, mantenham não menos interesse pelos assuntos públicos. De facto, nós somos o único povo que pensa que um cidadão que não participa na vida pública não é apolítico mas sim inútil no que diz respeito aos interesses da cidade.“


Um destes dias ouvi Adília Lopes dizer sobre o Livro de Daniel que “é um livro lindo é um livro muito bonito e… parece cinema, e quando se está a ler para se que está ver filmes”.
É o que penso também sobre este e outros excertos da obra acima citada de Tucídides, que parecem cinema, que quando se está a ler parece que se está ver filmes.

Acerca deste ou daquele artista, desta ou daquela obra, ouvi muitas vezes dizerem que é perigoso, que era preciso ter cuidado, atenção, muita atenção. Ouvi/ouço e vou observando atentamente o que é que se diz a seguir a dizer isso. E não é muito, ou quase nada. Que é perigoso. Que tenham cuidado. Porque não se pode provar, dizem. Nem sempre, e muito mais tarde.

Quantas vezes quiseste entrar estar permanecer dentro de um filme de John Ford?
Alguém imagina ser o actor de John Ford e ter passado a vida toda lá dentro?
Não?
E num filme de Tarkovski?

De A noite abre meus olhos:

“Quando em Hilander-Athos surgiram
os primeiros tocadores de címbalos
e o seu cortejo foi saudado
com pétalas perfumadas
e grinaldas
na Porta Alta do Templo
Já lá vivia o monge Rubliev
o que chamavam pintor”

Perigoso? Em que medição do tempo?

Em O Hipopótamo de Deus e outros textos, Tolentino Mendonça refere-se à obra do sociólogo Zygmunt Bauman, e escolho um parágrafo resumo: “Bauman explica deste modo o conceito que encontrou para transcrever o que vivemos: «A sociedade moderna líquida é aquela em que as condições de actuação dos seus membros mudam antes que as formas de actuar se consolidem […] A liquidez da vida e da sociedade alimentam-se e reforçam-se mutuamente. A vida líquida não pode manter o seu rumo durante muito tempo […] É uma vida temporária e vivida em condições de incerteza constante.»”

John Ford vem-me de novo à cabeça.

Aqui ao meu lado tenho uma antologia de O Tempo e o Modo, revista de pensamento e acção, 2ª edição, editada pela Calouste Gulbenkian em 2007. Na introdução Guilherme de Oliveira Martins que “a revista o Tempo e o Modo constitui, no início dos anos sessenta, o prenúncio claro do que se preparava uma mudança radical na vida portuguesa. Não podemos compreender o que se passou até 1974, e depois, sem perceber o que a geração dos jovens lançaram e sustentaram a revista foi capaz de pensar e agir.”
Saltemos até ao número 6, Junho de 1963. Um número especial, sabemos mais à frente, subordinada ao tema/pergunta: Arte deverá ter por fim a verdade prática?
Entre outros, artigos e depoimentos de Eduardo Lourenço, Óscar Lopes, António Ramos Rosa, Mário Dionísio, João Benard da Costa, Agustina Bessa-Luís, Almeida Faria, José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, José Palla e Carmo, Manuel Pope, Jorge de Sena, José Carlos de Vasconcelos, Sophia de Mello Breyner Andresen, Alberto Vaz da Silva, Fernanda Botelho, Fiama Hasse Pais Brandão, Fernando Távora, Virgílio Ferreira, Herberto Helder…

Centremo-nos em três testemunhos, em fragmentos de três testemunhos à pergunta de a arte deverá ter por fim a verdade prática?:

1) Eduardo Lourenço: “No fundo, são duas formas de conforto e de renúncia. Se se quer dizer que a verdade teórica é aquela cuja existência é de ordem meramente intelectual (mas o que significa exactamente isto? O mais poderoso conhecimento prático, as matemáticas é dessa ordem…) só uma prévia desconsideração de carácter polémico pode ver nela uma qualquer oposição e muito menos inferioridade em relação ao que se designa por verdade prática. E esta última o que é? Acto ou acção que têm em si mesmos a plenitude da justificação e da inteligibilidade? Mas donde pode ela provir senão da mediação humana, isto é, de uma fonte que na sua mais ínfima expressão é já inteligência, sentido, intencionalidade em acto? Se a verdade teórica é voluntário e necessário esquecimento do caminho «demasiado humano» que ajudou a criá-la, a verdade prática é recuperação do «sentido» que em todo o acontecer humano existe por humano ser. Em suma, a distinção banal e cómoda, em vez de manifestar, esconde aquela liminar e obscura dificuldade que é a da nomeação exacta da Realidade em face da qual estamos, enraizamos, somos e que, contudo, buscamos.

(…)

É com que o que não tem verdadeiro nome nem figura que o Poeta luta até ao amanhecer, como Jacob com o Anjo, e ninguém do exterior lhe indicará os «fins», nem lhe dará as armas para esse combate que é, antes de tudo, consigo mesmo, mais incógnito do que o resto do universo. É para trazer à luz, mostrar aos outros, e a si mesmo, o que ainda não era visível, palpável, audível, que a obra nasce. Nenhum outro mais alto dever a move, mesmo se a aparência de uma nova finalidade empírica banal assim no-lo mostrar. Nenhuma exterior motivação a comanda e todas a podem suscitar, psicologicamente falando, as mais abstractas como as mais práticas – até as mais violentamente fanáticas ou ideològicamente puras -- se elas se converteram, se elas são uma outra forma dessa vivência sem nome que é a dos homens com a totalidade da sua experiência."

2) João Bénard da Costa: “utilizando uma afirmação duma personagem de Musil, direi que me parece só poder falar de arte, com um mínimo de probabilidades de dizer coisa que ao caso venha, aquele que considere a fruta cristalizada como a essência da fruta fresca. Ou –variação de Musil—que tão-sòmente pretenda que só com o sal se deva cozinhar.
Importa que toda a obra de arte –diga-se, todo o filme—seja reconduzido não só a nós próprios, mas para fora e para além dele próprio. Ao serviço dum conjunto de significados e de imagens, a que só nós damos significação, que só nós imaginamos e cujas últimas imagens e cujos últimos significados em nós próprios propriamente se não encontram.”

3)









4)




Voltemos à entrevista ao jornal i, ainda na fila para o peixe:

Jornalista: "Costuma acompanhar os desenvolvimentos políticos, pela televisão, por exemplo?

Tolentino Mendonça: Vejo muito pouca televisão. Hoje possivelmente verei [é quarta-feira, dia em que José Sócrates, horas mais tarde, viria a apresentara sua demissão], porque a situação política é tão forte que é impossível não ter uma atenção.

Jornalista: Como tem seguido estes tempos de incerteza?

Tolentino Mendonça: Sigo como todos os portugueses, com preocupação."

Teríamos de voltar ao ponto dois para voltar a dizer o mesmo, o óbvio, parece-me. Por que é que não havia de acompanhar a questão política como todos os portugueses ou como todos os cidadãos do mundo?

De O Hipopótamo de Deus e outros textos, três entradas: “A alergia dos cristãos à política”, “Uma imagem de Portugal” e um excerto de “A segunda vida das cabines telefónicas”:

- da primeira: “É interessante observar que nos anos 60 e 70 os movimentos cristão juvenis e universitários acalentavam um grande entusiasmo pelo compromisso social e político, discutiam acaloradamente as formas de participação política dos cristãos, qual o seu lugar e missão na edificação de um mundo novo ou de um mundo melhor. É verdade que houve ambiguidades e derivas, tornando-se a política não uma dimensão, mas o centro e, em alguns casos extremos, a totalidade, relegando para um plano secundaríssimo a função eminentemente espiritual da proposta cristã. Mas a verdade é que hoje se corre o perigo oposto: o de buscar apenas uma espiritualidade, desenhada à maneira de um bem-estar íntimo, ou intimista, em que a Fé se torna um assunto privado, uma gestão exclusiva do eu, onde as necessárias implicações históricas e colectivas não entram. Será possível conjugar um grande amor por Deus com um grande desinteresse pelos homens? A rarefacção do entusiasmo e da presença dos cristãos nas várias dimensões da vida pública é um sintoma preocupante na Igreja portuguesa.

O Deus em que os cristãos crêem não plana acima das questões escaldantes da história: ele aparece claramente comprometido com a justiça e com uma ordem social de equidade, manifestando-se a favor dos mais pobres. A opção pelos pobres, a escolha preferencial pelos sem-voz-nem-vez remonta ao próprio Cristo e ressoa claramente nos textos de origens cristãs. Como resume a primeira Carta de São João (1 Jo 4,20): «Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas não amar o seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não amo o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.» A fé para ser vital tem de aceitar o risco de ser uma Fé encarnada. O Evangelho para ser vital tem de ser recebido como palavra transformante, como fenómeno colocado na massa. O cristianismo não coincide com nenhuma realidade política, mas em todas introduz uma tensão de amor, de justiça e de verdade. O cristianismo tem um sonho. Aqueles cristãos que dizem: «Eu não quero sujar as minhas mãos na realidade do mundo», como lembra Charles Péguy, «acabam rapidamente por ficar sem mãos.”

- da segunda:




- da terceira: “Ao constatar a reactivação das cabines telefónicas, vem-me á memória muitas vezes o filme de Sergio Tréfaut, Lisboetas, estreado em 2004. Quem quiser compreender a realidade humana do Portugal de hoje tem ali um guia competente. O filme elege como objecto o acolhimento aos imigrantes, tomando e cruzando vários pontos de vista. E dessa narrativa depreendemos que a integração laboral (feita segundo critérios de legalidade e justiça, nem sempre seguidos) é um ponto de partida claramente necessário, mão não é o único a dever ser cuidado numa cidadania cada vez mais partilhada. Tréfaut fala dos que não vemos, e que, contudo, estão por todo o lado, diante dos nossos olhos. Pode-se ripostar dizendo que houve sempre muitas cidades dentro de uma cidade, mas de certeza ficamos mais pobres quando não conseguimos articular criativamente (e humanamente!) as nossas singularidades.
A segunda vida das cabines telefónicas, de que maneira nos toca?


Voltemos então a A noite abre meus olhos:

"
Uma tristeza espalhava-se a ocidente/nesse verão os melhores/dos seus homens perdiam-se/em inexplicáveis derivas

*

de olhar indiferente aos sortilégios do tempo/uma inexplicável quietude de figura/diante de um mundo que ruía

*

Passeamo-nos à sombra de árvores mitológicas/silenciosos e vagos pensando/como de lugar nenhum onde estivemos/alguma vez regressámos

*

Os sinais da necessidade/por mim não espero apagá-los/água nenhuma que lavasse meu rosto/o alterou

*

também eu me recuso a dizer apenas/o que pode ser dito

*

nenhum poder ordena/em papel de prata essa dança inquieta

*

há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo

*

hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora

*

mas estamos tão pouco/onde estamos

*

não discuto o que fizeram de nós estes anos/a verdade é de outra importância

*

Amo os que atravessaram os campos
desamparados
mais do que se pode

*

O custo das casas
por incrível que pareça
sugere a possibilidade
de uma outra vida

*

o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços

*

«até agora somos o esterco do mundo»

*

hoje só lá se passa/para os saldos de Madrid

*

além do parque arqueológico/a cidade assemelha-se a um acampamento desolado/varandas cheias de caixotes e detritos/(devem ser exíguas as casas económicas))/muros com imprecações aos de Roma/e a débil força messiânica entregue/aos ídolos do futebol

*

Não disseram ainda, mas cada um já pensou/para a semana o piquenique no campo

*

Enchem os primeiros autocarros para o centro/lêem o jornal de distribuição gratuita/à espera que de novo o mar se rasgue/num quarto sub-alugado da periferia/onde em vez de Corte Inglés e Continente os supermercados/se chamam Lidl ou Discount

*

procuro pensar nos dois ou três interesses que me restam/entre eles Santa Teresa e o drama das prostitutas

*

A verdadeira passividade não é a do esquecimento/mas a mortal velocidade do desejo/que ninguém suporia a hora alguma

"

Não sei se o faz ou não, e se ou faz com outro nome, who knows?, mas de Herberto Helder fui buscar uma piscadela ao real mais recente, de A faca não corta o fogo, dois excertos:






Termino este terceiro ponto com uma citação de Tolentino Mendonça, retirada de uma entrevista dada a Ecclesia e que se pode ler no site da Pastoral da Cultura (26/3/2011), referida no ponto um:

"O mundo político, tal como o mundo religioso, não compreendeu Jesus."

posted by luis Segunda-feira, Abril 18, 2011

Domingo, Abril 17, 2011

voltemos, então, a um manual de história do 8º ano de escolaridade 1984, ou seja


posted by luis Domingo, Abril 17, 2011

Sábado, Abril 16, 2011

uma pessoa vê cada coisa, Jasus

ou seja: da página 38 da revista Ler do mês de Abril de 2011 e das páginas 71 e 72 de O Hipopótamo de Deus e Outros Textos, de 2010


de José Tolentino Mendonça:







do cronista Henrique Raposo, ou seja:




O texto de Tolentino Mendonça intitula-se A normalidade portuguesa e o texto de Raposo Joseph Ratzinger A deturpação da ciência e a chave dos direitos humanos.

Ai Flannery, Flannery.

posted by luis Sábado, Abril 16, 2011

Sexta-feira, Abril 15, 2011


LMD, sem título, 2011



1. Dizia Obama, e muito bem, ainda em campanha, que lá para os lados de Washington os homens e as mulheres estavam com o olhar viciado e o raciocínio toldado, como Roma outrora e assim. Que era era preciso que alguém de fora lhes dissesse isso na cara. Mas as pessoas já não sabem nem estão preparadas para isso. Levam a mal. Ficam incomodadas. Certo. Parece que se riem quando falam da e de palavra.

2. Em Portugal quase não se encontra alguém nas páginas da net e dos jornais e das revistas que não precise de se isolar e de se desmamar dos vícios e da toldação que por viverem perto e dentro do sistema político, quer como político, quer como assessores, quer como cronistas, quer como jornalistas, quer como comentadores, que parecem já não ver o essencial, apenas a sua dama ou o seu clube ou o seu vão de escada a sua agremiação a sua loja. E é assim que vamos vendo. E vivendo. Para não incomodar. E empertigados quando uma câmara de tv se lhes aparece pela frente.

É da velhice mais rasteira ler e ouvir comentadores e assessores aí até à geração hoje nos quarenta anos (e de outros ainda mais velhos pode ser pior, procure-se a entrevista do presidente do PS à antena 1, há cerca de 15 dias, não tenho palavras para descever tal falta de vergonha). Parecem já ter 120. Podia dar exemplos, tenho-os ali noutra folha, mas não vale a pena, iam achar que enfim. Não.

Mas no geral sim, é isso que se observa. E está quase tudo viciado. Por exemplo, sobre maturidade e bem comum: ouvindo num destes dias já mais madrugada esparramado no sofá numa mesa redonda na tv António Barreto defendia que se devia conhecer a fundo o estado das contas públicas, apurar o mais possível a verdade, e outro participante, que não me lembro agora do nome, mas acho que é o director do Diário Económico, que dizia que não, que era pior para nós, que tentar chegar mais perto da verdade só ia piorar.
O que daqui me interessa é a maturidade destes dois homens, um mais velho que o outro, um pode ser filho do outro, mas o que me interessa mesmo é: será que António Barreto defenderia o que defende hoje se tivesse a idade do director do Diário Económico? E o director do referido jornal, quando tiver mais trinta anos em cima, como poderá olhar para questões idênticas?

Parece que um ou outro funcionário político europeu mandou para cá uma das grandes larachas leia-se verdades, parece que perguntou aqui se quem por cá governa não se preocupa com o seu povo? Então os mercados atentos a tudo, a todas as palavras e...

Hello?

3. Outro exemplo da maior vergonha foi o que se passou e passa, habitalmente, desde há muitos anos, no futebol português, que só chamo para aqui porque passa em transmissões televisivas em directo para milhões de pessoas visionarem. E o que se passa, então? Um sistema, sim, de tal forma que nós como país só podemos ser como somos e só temos o que merecemos. Está quase tudo ali. O campeonato de futebol ganho pelo clube representativo da cidade do Porto é uma vergonha tão grande como o primeiro ministro da república de Portugal.

O que é esquisito é ver comentadores e outros entendidos a comentarem futebol de uma forma e política de outra, achando que há diferenças na dignidade, e no bom nome.

Uma vergonha sem nome.

4. Ainda só ouvi/li duas ou três pessoas, o que é uma multidão, dizerem que é preciso chegar a uma reunião da UE seja ela qual for e dizer/explicar o que é e foi o Portugal mais recente, e explicar bem. Talvez desde as invasões francesas, no início do século XIX. Mas para isso é preciso credibilidade e inteligência, coisa que parece disponível apenas para a luta partidária e para chincana.

5. Os actuais dirigentes políticos e desportivos, por serem os mais mediáticos, fazem cada um deles acusações uns aos outros -leia-se do PS e do FCP- só para os seus adversários não as fazerem a eles próprios. É tão claro. Dizem aos outros aquilo que eles próprios têm alguma noção do que são. E é trágico, muito.

6. Caro professor _____ ______, saiba que aquilo que me ensinou sobre Portugal não ser um país de brandos costumes, e que já por mais do que uma vez aqui o reproduzi, já corre por aí, em algumas bocas, apoderando-se como se de reflexões próprias lhes coubessem, e que uns dias antes escreviam nas suas poltronas/tribunas e na tv também veja lá, que sim, sim, Portugal país de brandos costumes... ai se não fôssemos um país de brandos costumes.... É com muito gosto que o informo disso. Um abraço. Ponto.

7. Em Portugal, pelo menos, parece que se obedece cegamente às ordens de alguém misterioso. E aceita-se isso, essa falta de liberdade, que faz de nós mais reptéis do que seres humanos.

8. Em Espanha há uma família real, o ordenado mínimo é o que é, o das classes médias é o que é, a distribuição da riqueza desde 1975 é o que é, e o primeiro ministro espanhol acaba de dizer que não se recandidata. Perguntas antigas, desde 1975 quantos primeiros ministro espanhóis conhecemos?

E portugueses? E o primeiro ministro da república portuguesa o que anda e vai continuar a fazer? É uma diferença abismal, é a diferença entre nós e aqui os nossos vizinhos, aqui está ela escancarada, tão simples.

Cá é mais, e o que é que eu ganho com isso? desporto nacional, como se sabe.

posted by luis Sexta-feira, Abril 15, 2011

Quarta-feira, Abril 13, 2011

esta cicatriz ainda hoje habita o meu trabalho de escultura




Giovanni Giusto, túmulo de Louis XII e de Anne de Bretagne



fui encarregado da difícil tarefa de executar a mão de Catarina de Médicis que pousa suavemente no seu seio. Esses dedos ainda hoje fazem parte dos meus desenhos




Germain Pilon, túmulo de Henri II e Catarina de Médicis, terminado em 1570


A encantadora, surpreendente e comovente palestra de Rui Chafes pode ser vista em, clicar em cima,

100 Lições
Maria Filomena Molder e Rui Chafes
UL
Sala de Conferências da Reitoria da UL, 06.04.2011 18:02:03


Chegar a esta conversa é ver cumprido um desejo, o de poder vislumbrar assim, desta forma, sem perguntar, quais os mestres e quais os passos e quais as passagens, pelo menos algumas, que deles vão ficando para sempre.
Conhecia a frase, enquanto eu viver tu não morrerás, mas muitas vezes muito bem escondidas, inalcançáveis até, foi muito bom ouvir e ver esta dobra levantada por soprada pelo vento.


E o brilhantismo de Maria Filomena Molder, O oblíquo e o matador de monstros; notável.
De quem a Relógio d`Água acaba de publicar O Químico e o Alquimista Benjamin, leitor de Baudelaire.

posted by luis Quarta-feira, Abril 13, 2011

Segunda-feira, Abril 11, 2011

Alterando o ângulo de visão (2)




II – lendo as Actas de um Concílio da Frígia

O texto “é uma galáxia de significantes mais do que uma estrutura de significados”, Roland Barthes, e de Michel Certeau «a escrita produz-se sempre no território e na língua do outro», citações de A Leitura Infinita.

Em entrevista à Pastoral da Cultura, 16/3/11

"O que é que a História nos diz acerca de Jesus?

É uma personalidade fascinante, da qual, mesmo parecendo que são poucas, temos muitas informações. Sabemos que Jesus é um crente judeu. Sabemos que ele lê a tradição dos pais, a tradição das Escrituras, e que as comenta de uma forma que, ao mesmo tempo, é em continuidade com a tradição profética e messiânica de Israel, mas também é uma forma nova.
Sabemos que Jesus era um mestre considerado no seu tempo porque os fariseus o acolhiam e o convidavam para suas casas. Sabemos que ele fez uma experiência como os rabis faziam, que é a de ter um grupo de discípulos que ele inicia. Sabemos também que ele tem uma lógica de diferenciação, e mesmo de rutura, em relação ao seu tempo. Jesus prega uma palavra que é original, uma palavra de amor e inclusão, uma palavra de perdão, num sistema religioso demasiado fechado para o admitir.
E a forma como ele fala de Deus é nova, original. Há uma dicção de Deus que ele faz como ninguém – “Quem me vê, vê o Pai”, diz Jesus a Filipe.
E depois há o seu próprio destino. Não podemos esquecer que Jesus morre como um maldito. Jesus é excluído daquele sistema religioso porque a sua palavra, o seu estilo e a sua mensagem não eram comportáveis pelo universo religioso do seu tempo."

Não podemos esquecer que Jesus morre como um maldito.

Voltemos a Perdoar Helena: “Mas, sabes, prefiro Eurípedes… Quando chegou a Atenas a notícia da morte de Eurípedes, Sófocles apareceu vestido de luto, apresentando os seus actores e o coro sem as coroas do costume… O teatro oficial rendia-se à memória de um maldito… É preciso voltar a Eurípedes.”

Em A Técnica da Tragédia de Eurípides, Humphrey Davey Findley Kitto escreve “o tema trágico é, se assim o podemos generalizar, o sofrimento social que se segue à prática do mal social –a antítese dramática do método de Sófocles, uma falta individual que leva ao sofrimento individual. Por consequência temos, de um lado os que praticam o mal, do outro os que o sofrem, e uma vez que o aspecto trágico reside no sofrimento mais propriamente do que na opressão, o drama concentra-se nas vítimas. É esta a razão por que temos tantos suplicantes nos altares, mulheres, crianças sem defesa; algumas delas apenas levemente caracterizadas, uma vez que a sua situação não é habitualmente consequência do seu carácter. Isto explica também a grande proporção de velhos, velhos extremamente idosos e decrépitos, não velhos como Tirésias ou Édipo em Édipo em Colono –Peleu, Anfitrião, Iolau, Ífis e o coro em Hércules.”

Ainda Kitto: “O estilo dramático de Eurípides é de contextura notoriamente frágil. Não só o seu estilo poético é simples e límpido, contrastando tão fortemente com o peso do estilo de Ésquilo e com a infinita subtileza e riqueza do de Sófocles, como qualquer outra parte do seu drama tem harmonia.”

E em Ensaios sobre Eurípides, de Maria de Fátima Sousa e Silva: “A orientação realista que Eurípides procurou dar à tragédia influenciou, como é inevitável, a caracterização psicológica das personagens. Humanas como são, as figuras que criou participam das fraquezas inerentes à sua própria natureza. E Eurípides compraz-se em denunciar as lutas interiores que as dominam, como a qualquer simples mortal, o que constitui um elemento novo dentro do teatro trágico. Pela primeira vez, a cena da tragédia abria-se ao vasto domínio das relações sentimentais entre os dois sexos, que os seus antecessores tinham evitado por considerarem indigno tal tipo de intrigas. Aristóteles (Po. 1460b 33 sq.) põe na boca de Sófocles uma apreciação relativa das suas personagens face às de Eurípides, que pode ser expressiva do novo rumo por que a tragédia prosseguia: ´Diz Sófocles que as suas personagens são como os homens deviam ser; e as de Eurípides, tal como na realidade são`.”

Jesus é excluído daquele sistema religioso porque a sua palavra, o seu estilo e a sua mensagem não eram comportáveis pelo universo religioso do seu tempo.

Na mesma entrevista:

"É muito interessante olharmos para os evangelhos porque eles narram sobretudo histórias de encontro. E a pecadora, que atravessa a hostilidade dos fariseus para chegar a Jesus, ou os publicanos que comiam com ele e faziam perguntar “quem é este que come com os pecadores?”, mostram bem como Jesus privilegia o encontro e a relação como lugar onde a fé é possível."

O estar dentro mas num território de fronteira, livre, que permita ver o dentro e o fora, as marcações são em si já uma quase negação, uma quase cegueira. Por isso assusta.

pela menor fenda pode olhar-se a fronteira
e às vezes é aterrador
esse fundo de deserto


Há uma expressão que aprendi e de que gosto muito encigueirados, mas aqui ao contrário; atento, desperto, acutilante.

Viagem. Peregrinação.

Claro que há palavras mais fortes para se adjectivar quem faz parte de uma organização ou instituição e delas mantém uma distância que permite perceber a tal cegueira. Ser/ter uma outra voz. Essa distância lembra-me muito mais o imperador Juliano, de Gore Vidal, do que qualquer outra coisa. Do que daí resulta é mais ou menos semelhante. Reflexão. Renovação. Afirmação.

Três exemplos:

e antes mesmo de sair de casa li um poema do Ruy Belo que tem a ver com o ensaio geral desta peça que a Cornucópia vai mostrar sobre a morte de Judas. Acho que os textos sagrados não se esgotam na Bíblia. A Bíblia é um território sagrado, mas há novos textos sagrados. O poema que li do Ruy Belo é um texto sagrado

jornal i 26/3/2011


E, como no final de um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, podemos rezar:

«Apenas sei que caminho
Como quem é olhado, amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.»


in O Tesouro Escondido, 2011


Penso que os homens do futuro e as mulheres do futuro rezarão com palavras de Maria Gabriella Llansol.

in encontro Llansol 27/3/2011
[http://www.youtube.com/amontanhamagica1#p/u/1/zi4ugFfTs9o]



Voltemos ao jornal i de 26/3/11

Pela experiencia humana. É sagrado tudo aquilo que dá a ver o ser humano no seu estremecimento. Nesta coisa que é quase original de cada um de nós nascer a cada momento. A aflição, o tumulto, a convulsão, que mesmo quando estamos quietos parece que se adivinha, e que um poema tem obrigação de mostrar nitidamente...

Ao ler quando estamos quietos parece que se adivinha, lembrei-me de Jean Renoir, dessa acalmia que leva à quase adivinhação/pressentimento de que algo decisivo está para acontecer, veja-se, por exemplo, o belíssimo Rio Sagrado.

O poema O próximo viandante ,em A noite abre meus olhos

Acende a lâmpada junto da janela
esta casa deve avistar-se
na distância dos campos

Todas as noites buscam abrigo
viandantes
atravessam o atalho das rosas
e adormecem
nos quartos que dão para nascente

Assim Melitão assomou
por um inverno
quando os hereges de Sardes
haviam planeado dar-lhe a morte

Lendo os seus manuscritos
enquanto ele dormia
aprendi, em segredo, doutrinas
acerca do cânone
das Escrituras Santas

Quando partiu recusei cortesmente
a sua dádiva em moedas
e forneci indicações válidas
sobre hospedarias e estradas

Certamente terá estranhado
tanta bondade da minha parte
mas não o quis deixar
sem honesta retribuição

Anos depois
lendo as Actas de um Concílio da Frigia
extraídas ao alforge
de um teólogo fatigado
soube que Melitão defendia ele também
ensinamentos declarados
agora prescritos

Aprendi então que se deve esperar
ansiosamente
pelo próximo viandante


O que é que se vê de fora? O que é que se vê de dentro? «Quem dizem os homens que Eu sou? Vós, porém, quem dizeis que eu sou?»

A jornalista do i também observa,

Passando para o lado académico, e porque já falamos com o Tolentino poeta e o Tolentino sacerdote,

Olho para os homens e para as mulheres como seres humanos, que podem ser mais ou menos do renascimento, fugir do rótulo. Um padre, um papa, um agricultor, um pescador, um juiz, um actor, um escritor, um poeta, um médico, um professor, são todos, em primeiro lugar, seres humanos, depois ou pessoas ou indivíduos, e depois isto ou aquilo.

Em As Estratégias do Desejo Tolentino Mendonça escreve




Veja-se, também, o encontro que o poeta/teólogo/padre... teve com José Saramago aquando da publicação de Caim.

Paremos, então, no poeta.


mas a sua vida vista do aeroplano era tão grande
como nenhuma outra coisa que conheceu

cá em baixo diziam:
«o seu voo prolonga-se sobre cada floresta
e desaparece
nós vemos as florestas
mas não o vemos a ele»


Se fechar meus braços outro os abrirá/no escuro da roda as orações são perpétuas/os vagabundos coroam até a pequena irmã


passaste então a deixar os castores/saltarem para o barco/e voltarem a salvo para terra/julgavam-te talvez morto


A sua morte não passou de um pequeno tremor/as fúrias gritavam/mas ao longe/dentro das câmaras onde esses gritos/de aranha não se escutam


A cada momento perdia/o poder de demarcar-se/tanto da sombra como da luz


Daquela arqueologia dominical regressavam vitoriosos/com ramos secos e pequenas formas/que depositavam sobre a mesa da cozinha/ignorando que se tratavam não de primícias, mas de despojos/pois um império estavam a ponto de perder


Minha mãe acha que ofereço roupagens de Salomão/em troca de fracas penas/porque se as palavras me disserem o que realmente guardam/(e ela carrega no se, como declarando em perigo a condição terrena)//estarei desprovido na mesma/melhor seria deixar truques que misturam/punhais e revelações


Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda


O que é que se vê de fora?
O que se vê de dentro?

Perguntas que se podem ler em O Tesouro escondido.

E para terminarmos este segundo ponto, palavras de uma entrevista conduzida por António Marujo, 26 de Fevereiro de 2005, que se encontra em A Leitura Infinita: “A repulsa que [o pecado] causa hoje não é diferente da que causava há dois mil anos. Os pecadores não são uma categoria moral, mas social, eram os párias na sociedade do tempo de Jesus. Hoje guardamos lugar para outros párias, porque as sociedades articulam-se sempre numa dialéctica: há as pessoas convenientes e as inconvenientes – que económica, social, política e culturalmente são relegadas para uma posição de menoridade.
Tentei perceber como é que esta gente sem nome participa na construção do personagem Jesus. Jesus era respeitado como mestre no seu tempo, na misericórdia para com os pobres ou nos sinais proféticos que fazia, os milagres. Não é esse o ponto de ruptura. No discurso de Lucas, [a ruptura] é a proximidade de Jesus com os pecadores e a maneira como ele não respeita o espaço dessa divisão social, mas acolhe a proximidade com os pecadores. Isso é absolutamente impertinente.
Jesus dissolve estas fronteiras no interior da sociedade, falando de um perdão que já não passa pelo Templo, mas pelo encontro com ele próprio e com a descoberta da sua identidade divina. Isso tornava inaceitável e, segundo o Evangelho de Lucas, foi esse o motivo da eliminação de Jesus.”

posted by luis Segunda-feira, Abril 11, 2011

Domingo, Abril 10, 2011



posted by luis Domingo, Abril 10, 2011

Sexta-feira, Abril 08, 2011


in Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Assírio & Alvim, 2003.

posted by luis Sexta-feira, Abril 08, 2011

Quarta-feira, Abril 06, 2011

Alterando o ângulo de visão (1)


e ainda, depois de tudo o que se ouvia,
uma canção
no despertador de plástico
vermelho


José Tolentino Mendonça



I - figuras da ardente incerteza

Como quase nunca sei por onde começar, ainda que precioso seja __________ A noite abre meus olhos é, também, um cortejo de histórias, autores, personagens, orações, livros, e, lá dentro e por dentro, encontramos, para começarmos, figuras da ardente incerteza.

Em Proibida a entrada a mendigos e vendedores ambulantes! só este título!, Walter Benjamin escreve: “Todas as religiões tiveram grande respeito pelos mendigos, porque estes são a prova de que o espírito e a regra, as consequências e o princípio falham vergonhosamente numa coisa tão singela e banal quanto sagrada e vivificante como era a esmola.
Queixamo-nos dos mendigos nos países do sul e esquecemo-nos de que a insistência com que se nos colam é tão legítima como a obstinação do estudioso perante um texto difícil. Não há sombra de hesitação, não há indício, ainda que imperceptível, de vontade ou reflexão que eles não leiam na nossa fisionomia. A telepatia do cocheiro que, com o seu chamamento, nos vem realmente mostrar que não diríamos não a uma voltinha, do vendedor que, do meio da sua quinquilharia, mostra o único colar ou camafeu que nos poderia atrair, têm a mesma natureza.”

E pergunta em Experiência e Indigência “onde é que se encontram ainda pessoas capazes de contar uma história como deve ser? Haverá ainda moribundos que digam palavras tão perduráveis, que passam como um anel de geração em geração? Um provérbio serve hoje para alguma coisa?”

A última vez que pudemos ouvir Tolentino Mendonça foi assim: “este texto foi-me trazido por uma analfabeta, uma mulher que lavava o chão da igreja da terra onde eu vivia, eu teria 14 anos, e… e ouvia-a dizer um trecho do Cântico dos Cânticos, eu acho que foi assim dos momentos mais extraordinários da minha vida que não sabia o que era aquilo, acho que foi a primeira vez que ouvi poesia, que ouvi muitas coisas e só anos mais tarde é que percebi que ela tinha decorado uma parte do Cântico dos Cânticos que nem ela própria sabia.”

Canto. Escuta. Segredo.

Silvina Rodrigues, no posfácio, escreve



Canto. Escuta. Segredo. Escrita. Inscrição.

Alterando, então, o ângulo de visão entremos por um atalho, mais de terra e de pó, que ainda não vi ou li noutros lugares e sítios.

Foi como um flash, de repente parado em torno de figuras da ardente incerteza, que, como em Homero, em Sófocles, em Eurípedes, na Bíblia, em Dante, em Tolstói, em Dostoiévski… trazem, em maior ou menor escala, e para além da narrativa essencial (?), uma riqueza maravilhosa/terrível de pormenores.

Em A Leitura Infinita, Tolentino Mendonça, partindo de Auerbach, diz que “na economia das narrações bíblicas, há uma profunda (e, diga-se, conseguida) intencionalidade artística e uma concepção muito elaborada do real” enquanto que “nos poemas homéricos o destino dos personagens está claramente fixado. Ocorrem as peripécias mais díspares, irrompem paixões violentas, enunciam-se perturbações e desfechos –mas tudo dentro daquela linearidade simples dos enredos predeterminados (…) o texto helénico é restrito e estático, e coloca a existência heróica a desenvolver-se nos limitados confins de um mundo senhoril. Na Bíblia o enquadramento social é mais extenso e diversificado. São heróis o rei e o servo; o sacerdote, o profeta, a mulher, o guerreiro e o pastor. Todos os componentes da sociedade aparecem representados. E o sublime tem por expressão um realismo quotidiano, inserido no plano da vida comum.”

O que dizem? Como dizem? Quando dizem? O que revelam? O que calam? O que desencadeiam? Incendeiam-se? Incendeiam?

Antes, ainda, um meio compasso de espera.

Em Perdoar Helena: “Em Electra, por exemplo… Estava com Electra nas mãos… e, imprevistamente, a minha atenção fixou-se no desenho das duas figuras anónimas. Já as devia ter lido e relido. Mas agora, pela primeira vez, atordoava-me a sua presença… São, podes argumentar, meros suportes de contraste no relato, elementos secundários… mas, garanto-te, nada acessórios, nada…”

E:

“A quantidade de anónimos, de personagens clandestinos. Parece uma infiltração. Chegam de todas as partes. São mensageiros, amas, serviçais, transeuntes. São jovens guerreiros, gregos, frígios, velhos, campesinos, estrangeiros forçados a uma actividade servil, arautos desconhecidos que chegam num estado de miséria implacável.”

E:

“Lembro-me que num verão ouvi alguém gritar desde a costa, da velha varanda de um farol e parecia comunicar com uma inteira frota de navios naufragados.”

Que cortejo magnífico… uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove… mas não te esqueças do aviso inicial: não modifiques/as percepções antigas/sejam os enigmas quem adestra/as suas próprias sequências

pois no fim tens encontro marcado com o taxidermista. Becareful.

Assim, de entre meia centena, talvez mais talvez menos, alguns fragmentos:


podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas

*

Uma coisa tão pesada é a Lua/ouvi hoje a estranhos no Bazar de Istambul/a medida do que perdemos é a medida do brilho

*

Talvez fosse uma mulher de Esmirna
a quem a devastação nos estranhos
nada dizia

*

Um canto deve antecipar o mudo caminho/da mão/e a conduzir como a certo louco/que tornando-se inofensivo ao adormecer/da minha aldeia eu levava de regresso/a casa

*

só pelo peso dos hábitos se tomava
aquele homem por mendigo

*

por degraus desiguais os mineiros,/os artesãos, as lavadeiras/lutam pela perfeição, lutam por Deus

*

Que dizem os exploradores
os viajantes, os peregrinos que há muito julgávamos perdidos,
os berberes, os transumantes,
os foragidos

*

Encontramos, por vezes, em desconhecidos/vindos da barreira de névoa/a espiral mais visível

*

por isso gritava
como náufrago

*

em post-sriptum envia/notícias/do homem que vende jornais/aí/em Via Rizzera


Devo guardar atenção, claro, ao teor do aviso e ao encontro; por isso, as perguntas enumeradas lá em cima, retóricas ou não, terão a resposta que quiserem/quisermos/conseguirmos chegar, segundo Paul Ricoeur, citado em A Leitura Infinita por Tolentino Mendonça, “não se trata de impor ao texto a nossa capacidade finita de compreensão, mas de se expor ao texto e de receber dele um eu mais vasto”; a escolha dos fragmentos para aqui transcritos nada mais é do que apenas uma vereda ou uma escarpa.

Parece-me, é, que esta parte do todo vai iluminando e desvendando a maior parte de uma forma inteira, “precisamente, a arte da procura e da inteireza”, de O Tesouro escondido. Essa inteireza que o poeta, um destes dias, disse, no Diário de Notícias (Madeira), da obra de Lourdes de Castro, inteireza, inteireza, inteireza.

No poema Lourdes Castro, Rua da Olaria, de O viajante sem sono: A minha arte é uma espécie de pacto:/não distingo as áreas selvagens das cultivadas/e elas não distinguem a minha sombra/da minha luz

Enquanto espero na fila para comprar peixe, do saco plástico tiro um jornal

i, 26/3/2011

Jornalista: Se eu preferir ficar aqui no jardim a ler um livro, em vez de ir à igreja, conseguirei esse mesmo levantamento? [pequenos sobressaltos em ressurreição, transfiguração]

José Tolentino Mendonça: Não tenho dúvidas disso. Uma das grandes questões que se põem às comunidades cristãs é justamente viverem com fé. Estes dias, dei comigo a pensar nisso, o que é ter fé? É ter fé em Deus, mas é também ter fé na palavra. É acreditar que uma palavra nova, uma palavra comum, pode estar inesperadamente investida de uma força maior. Quem diz uma palavra, diz um gesto. Um cumprimento entre duas pessoas...
[Suprema ironia. Somos abordados por um pedinte. "Viemos sem carteira hoje", responde
Tolentino. Quem diz a verdade não merece castigo. Continuemos.]

... pode ser muito mais do que uma rotina. Pode ser um encontro flagrante, fulgurante.

http://www.ionline.pt/conteudo/113212-tolentino-mendonca-um-poema-ruy-belo-e-um-texto-sagrado [26/3/2011]


Termino, este primeiro ponto, com palavras de Paul Ricoeur retiradas de A Leitura Infinita: «A primeira coisa que pode interpelar-nos é que as parábolas são relatos radicalmente profanos. Não há nem deuses, nem demónios, nem anjos, nem milagres, nem tempo anterior ao tempo, como nos relatos fundadores como o relato do Êxodo. Nada disto, mas precisamente gente como nós: proprietários palestinenses partindo em viagem e alugando os seus campos, gerentes e trabalhadores, semeadores e pescadores, pais e filhos; gente comum fazendo coisas comuns. Vendendo e comprando, lançando uma rede ao mar e por aí fora.”

posted by luis Quarta-feira, Abril 06, 2011

Terça-feira, Abril 05, 2011


posted by luis Terça-feira, Abril 05, 2011

Segunda-feira, Abril 04, 2011

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Não sei filmar nem sei fotografar mas acho muita piada ao facto de que quer os vídeos que vou fazendo quer as fotografias que vou tirando e colocando aqui no blog precisarem de uma linguagem matemática para reproduzir aquilo que é feito com tanta falta de conhecimento e com tanta falta de técnica.

Acho isso maravilhoso.






LMD, sem título, 2011.

posted by luis Segunda-feira, Abril 04, 2011

Sábado, Abril 02, 2011
















fotograma de O Evangelho Segundo S. Mateus, de Pier Paolo Pasolini.
[fotografia LMD, pormenor de ]Rui Chafes, S/Título, 2011
excerto das duas páginas lidas por Tolentino Mendonça, do Ardente Texto Joshua de Maria Gabriela Llansol.

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escritores lêem Llansol: Hélia Correia lê o que Gonçalo M. Tavares lhe pediu para ler; José Tolentino Mendonça; Manuel Gusmão; Eduardo Lourenço.

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duas palavras, ambas para agradecer: a iniciativa e a simpatia. Obrigado.

posted by luis Sábado, Abril 02, 2011

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São horas, Senhor. O Verão alongou-se muito.
Pousa sobre os relógios de sol as tuas sombras
E larga os ventos por sobre as campinas.


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