1.2. Quem espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, 1970.
excerto dos extras, Luís Miguel Cintra: "E eu senti, de facto, o que era a força e a violência do cinema, de filmar uma pessoa. Por aí, lembro-me que tive uma reacção nervosa muito forte no fim do dia a dizer que não queria fazer mais cinema, porque era uma violência, era entrar na privacidade e no íntimo de uma pessoa, e que a câmara era uma coisa monstruosa, um objecto de uma agressividade muito grande, etc. Isso nunca mais me esqueci por que foi de facto a minha primeira impressão do cinema, do lado do actor, não é. E creio que fiquei com isso muito associado à minha ideia de cinema, de facto eu senti na pele, logo no primeiro dia de filmagem, que filmar é uma coisa muito importante e que é uma coisa muito delicada, é um acto grave, pôr uma câmara à frente de uma pessoa. Isso fez-me, não sei se foi isso, ou também aquilo que penso noutras áreas, fez-me detestar o cinema que não tem isso em conta, portanto, o cinema… acho pornográfico ou obsceno o cinema que não respeita ou que não tem em conta a pessoa que tem à frente da câmara. O cinema que de facto não percebe que de facto a câmara é uma espécie de máquina de aumentar gigantesca não só a superfície mas como o que está por trás da superfície, quer dizer, o que é a personalidade, o que é o interior, a natureza de cada pessoa, e quem diz pessoas diz também paisagens, quer dizer, a maneira de filmar, o enquadramento, a luz, a objectiva, tudo isso, os movimentos de câmara, etc, são uma maneira de criar uma relação com o real, uma maneira de criar uma relação com o objecto, ou com a pessoa que se tem à frente. Reconheço isso de muitas maneiras com os realizadores com quem tenho trabalhado, mas de facto senti isso na pele no primeiro filme do João César e acho que… que reconheço, depois, em todos os outros filmes seus uma fidelidade a essa noção de cinema. Quer dizer, com o César, de facto, a gente tem a noção de que filmar é uma coisa muito muito importante."
outro excerto dos extras, Luís Miguel Cintra: "a exigência de uma pureza de olhar, creio que há qualquer coisa de uma espécie de desejo de facto de pureza, de limpeza da relação entre o actor e a câmara, de relação verdadeira entre o actor e a câmara que lhe interessa muito. Quer dizer, de certa maneira interessa-lhe captar uma certa inocência do actor, que pode revestir muitos aspectos. No caso dos Sapatos era inocência mesmo, porque não havia qualquer espécie, da minha parte, e da parte dos outros actores também, qualquer espécie de técnica de representação. No caso dos filmes posteriores, creio que a inocência era a outro nível, quer dizer, era num nível de facto não se esconde, uma pessoa não se esconder não mentir perante a câmara, ou se mentisse mentisse com toda a sua personalidade, portanto."
excerto de João César Monteiro:
excerto de, entrevista com João César Monteiro por Lauro António:
como não sei nada mas quero e se tu caro leitor aqui vieres ter ou dar por distracção por não querer de visita rápida mandado insultado ou por querer e se acaso quiseres acrescentar acrescenta serás identificado
os próximos dias serão assim já estão a ser
e o que tenho de mais rápido para não dizer é que JCM é muito mais genial deslumbrantemente genial
11 dvds + catálogo da cinemateca
1º dvd os quatro primeiros filmes + extras: entrevistas: Maria Velho da Costa, Luís Miguel Cintra, Henrique Espírito Santo, Jorge Silva Melo; Entrevista audio a JCM; Desenho de João Rodrigues; Quem Espera... de Manuela de Freitas; Fotos; Filmografia; DVD-ROM
1.1. Sophia de Mello Breyner Andresen, 1969
Jorge Silva Melo:
Auto-Entrevista:
Dos extras, um excerto do testemunho de Jorge Silva Melo: "a simples presença da câmara, registando o real, o que está ali à frente; e a enorme provocação e artifício que o João César vai criando na própria, não diria encenação, mas provocação dos acontecimentos. O plano que nos deu mais trabalho, que provocou grandes crises, foi um plano em que a Sophia de Mello Breyner estava sentada no sofá da sala principal, na casa dela ali na Graça, e o João César queria que a filha mais nova, a meio do plano, pusesse uma música dos Beatles, que na altura estava muito em voga, sem a Sophia saber. A Sophia começou a falar sobre a Grécia, a Beleza, a Humanidade, e tumba, lá aparecia os Beatles; mas ela não percebeu que aquilo era combinado com o João César. Segunda take, a mesma coisa aconteceu, e Sophia não percebeu bem e irritou-se com a filha: então não vês que estamos a filmar. Terceira take, percebeu finalmente e ficou furiosa com o João César por perceber que ele estava a fazer uma maroteira perante aquela coisa que todos nós respeitávamos que é, e que dá uma certa dignidade, que é o ser filmado. Ora, o João não queria a dignidade, quando filmava queria provocar para encontrar o ponto de fractura, o ponto de irritação, que criasse um artifício..."
próximo, 1.2. Quem espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, 1970. até já.
posted by Luís Miguel Dias domingo, julho 31, 2011
mas quem me vai fazer mais falta é a amy winehouse
gostava tanto dela
miguel esteves cardoso foi lindo outra vez como sempre com ela o outro dia
um destes dias passei por um blog que na vida inteira ainda só lá fui cinco ou seis vezes
mas apeteceu-me sempre atirar ovos
desta vez escreve-se sobre uma crítica má que miguel esteves cardoso fez na década de 80 a um livro - o mec ainda é dos melhores, quem é que hoje nos jornais e nas revistas tem coragem para dizer que este ou aquele livro é uma merda? ninguém, perderam a liberdade há muito e o respeitinho é muito bonito, formiga com catarro?
o que é mais extraordinário é: como é que esta mulher tem o poder de decidir o que se deve ou não editar numa editora e catapultar e fazer melhor do mundo e do universo e assim entre outros autores que choram em público ou dizem que vão para casa chorar ou que logo à noite é que vai ser chorar, saiam da frente
quando o tema é prisão às tantas digo que deviam ser edificadas nos sítios mais belos do país, em frente ao mar em frente a alguma montanha de preferência com instalações boas e sóbrias, tantos bons arquitectos temos nós
lugares onde se possa recuperar reconstruir redimir e não o contrário
as primeiras reacções as imediatas são semelhantes a quando nos dizem de forma dissimulada que vamos ter de mudar os hábitos já entranhados do nosso tempo longo
são isso é que era bom, não faltava mais nada, deve estar a brincar, o meu dinheiro
cá fora pouco se sabe sobre o lá de dentro, cá fora pouco se sabe sobre o cá de fora, temos todos muita pressa, para onde?, desenhos, sandes, antenas interiores, grades, cerro negro
que o tempo tem de passar mas como é que ele vai passar, o que vai deixar
atrás daquelas grades daquele quarto filmado por antonioni
calor lá fora, imobilidade, o tempo a ver-se a não passar num cigarro aceso
a pulseira no tornozelo, uma pulseira presa, a pulseira que leva ao pátio e conduz ao terraço e
à luz forte que o verga, que o estende, o tempo a passar, nós a vê-lo
posted by Luís Miguel Dias sexta-feira, julho 15, 2011
quinta-feira, julho 14, 2011
esta semana fiquei
ao ler no Hospedaria Camões um excerto do poema de Manuel de Freitas
MOTET POUR LES TRÉPASSÉS
Este poema seria teu, Inês, se não fosse de ninguém. Ao chegarmos de Lisboa, depois da paragem ritual no Café Lisbela — onde tudo se compra e tudo se perde —, vimos uma cadeira de rodas à venda, uma motorizada ao lado, uma igreja vazia da qual certamente gostariam Andrei Tarkovsky, Tonino Guerra ou Ana Teresa Pereira.
A poucos metros dali, o meu pai morria, tentava penosamente resistir a uma hemorragia cerebral. Mas isso, claro, ninguém precisa de saber. Apenas tu, poema, que vieste de comboio confirmar dia após dia que o Tejo está onde sempre esteve: triste, azul, parado.
a Manuel de Freitas parece-me que se pode aplicar as palavras de Jean-Luc Godard em JLG por JLG sobre as imagens: que aquelas que são fortes são as longínquas e justas
vimos uma cadeira de rodas à venda, uma motorizada ao lado, uma igreja vazia da qual certamente gostariam Andrei Tarkovsky, Tonino Guerra ou Ana Teresa Pereira.
ou Ana Teresa Pereira
que um dia e única vez cheguei a uma livraria e trouxe todos os livros dela
Manuel de Freitas é justo o suficiente para a colocar ao lado de Tonino e de Tarkovski; já se vai à Madeira por causa de Ana Teresa Pereira e no futuro
também, por mais um Pedro Costa, O nosso homem, a apresentar no curtas de Vila do Conde
Eu era bom pedreiro. Nunca fiz uma parede torta. / O meu patrão nunca se queixou de mim. / Um dia o trabalho acabou, fiquei sem fundo de desemprego. / Sem reforma, sem abono de família. / Procurei trabalho por todo o lado e nao encontrei. / Não levava dinheiro para casa e a Suzete correu comigo.
no princípio do cinema foi um dos filmes de Chaplin e no princípio da televisão foi Rio Bravo, Howard Hawks
e deste tenho gravado em mim como um selo imagens nocturnas de pessoas a moverem-se ofegantes em espaços pequenos entre cabanas ao luar e de arma em punho, movimentos rápidos e errantes em caminhos apertados; rostos sentimentos pegadas
mais tarde li, Silva Melo: "e a estupidez é esta: comovido sempre a olhar para aquilo mesmo nesta inacreditável cassete-vídeo que para aí vendem, com grão e chuva e tão descafeinada como agora os cafés mais caros, eu acredito em tudo o que lá está. Este filme tomou conta de mim --e não há alho nem cravo que me afaste este vampiro aqui mesmo cravado."
e depois ainda antes de Silva Melo, em filmes de John Ford os desfiladeiros entre montes e montanhas, fugas e regressos aos tiros, emboscadas, sítios estreitos, veredas, de respiração difícil
quando ia pela primeira vez a caminho de Bilbao, de burgos para cima, perto de Vitória uma montanha mais ou menos assim em desfiladeiro, lembrei-me
e mais tarde quando encontrei the matter of time de Richard Serra soube que para mim era o mesmo, estava entranhado
há uns dias vi essa associação em Terrence Malick, tremi rasguei-me
foi o que vi agora, também, na quadrado azul com hou negro, de Pedro Tropa
posted by Luís Miguel Dias quarta-feira, julho 13, 2011
terça-feira, julho 12, 2011
um destes dias vi pela primeira vez a semente do ódio, Jean Renoir
a certa altura, depois de ter deixado tudo para tentar ter ainda mais, Sam Tucker vendo e sentindo o desespero de ambos vestido na sua mulher Nona que desesperadamente se envolve mistura e se faz terra, afasta-se como que procurando um lugar olha para o céu e
e também num destes dias em O Homem da Guitarra, Jon Fosse
"Peço-te meu Deus toma a minha mão e leva-me para a tua beira Peço-te Deus acolhe-me na tua grande misericórdia Deixa-me ser pesado e livre no teu vasto movimento Deixa-me ser como era antigamente um nada cheio de qualquer coisa Deixa-me ser para nada e deixa que a canção se ouça Deixa-me ser um sinal desconhecido para os outros decifrarem Deixa-me ser uma canção das estrelas que os anjos possam cantar Deixa-me desta vez descansar e deixa-me voltar a encontrar o meu amigo o cão que perdi e deixa-me ficar a olhar sem nada ver Pára de cantar, abana a cabeça, desanimado Irónico Sem nada ver no azul do ar Ir e voltar Vai até ao balcão e bebe um golo de cerveja, pega na guitarra, desaperta as duas últimas cordas, solta-as das cravelhas, ficam a abanar como as outras, coloca a guitarra em cima do balcão, agarra no sobretudo, veste-o, calça as luvas, levanta a caixa da guitarra e dá uns passos. Detém-se, apoia-se na caixa da guitarra
(excerto de O Homem da Guitarra, de Jon Fosse, trad. Pedro Porto Fernandes, Livrinhos do Teatro, Artistas Unidos / Cotovia, 2008)
posted by Luís Miguel Dias terça-feira, julho 12, 2011
domingo, julho 10, 2011
voltemos então a
para mim a peça de Fosse, Sou o Vento, fala sobre o insuflar de vida (tanto a dizer) e da vida (oh, vago?)
em O Homem da Guitarra
Pausa breve. Recomeça a cantar Sou uma canção de antigamente uma canção que nunca cantei Sou o meu próprio desespero e por onde vou canto a minha canção Canto o escurecer do dia Canto cansaço do dia Canto a beleza do dia Canto as roupas mais ricas Canto a mais humilde pobreza Canto a pena que sinto Canto o dia que há-de vir Pára de cantar, começa a falar
o insuflar de vida, desassossegar?, exemplo de adentramento
UM Tu tens de ir ao alto mar sim já que vieste comigo no barco já que vieste para o mar
(...)
O OUTRO Não consigo saltar para bordo Não consigo mesmo
UM Tenta Tens de saltar Vá tenta
O OUTRO Não consigo
e da vida, exemplo de adentramento
Pausa bastante curta só que eu não aguento o ruído Pausa bastante curta o ruído dos outros o ruído de tudo o que acontece Pausa bastante curta oprime-me cerca-me Pausa bastante curta
(...)
UM Não aguento o barulho
O OUTRO Tu queres silêncio
UM Eu quero silêncio Pausa bastante curta e não quero que tudo seja tão visível
O OUTRO É tudo tão visível
UM Tudo é tão visível tudo se pode ver tudo o que eles escondem quando falam e que se calhar nem eles conhecem vejo tudo isso
todavia, o insuflar de vida é anterior ao já que vieste comigo, o que o desapareci com o vento justifica; mas não precisa de justificar nada
como fiquei feliz a meio desta semana ao saber quando li que Jorge Silva Melo e os Artistas Unidos vão passar a ter um poiso fixo pelo menos para os próximos três anos
e faz agora para aí semana e meia será no programa do festival de teatro de almada tão simpáticos que são obrigado pelos e-mails li sobre a encenação de Sou o Vento de Jon Fosse por Patrice Chéreau
"O OUTRO Não fiques aí Vem cá Não faças isso Vem cá Olha que as ondas são grandes Vem cá Tenho medo Pausa bastante curta Não quero ser eu a segurar o leme Pega tu no leme vá Pausa bastante curta Vem cá Tem cuidado Vem cá"
diz Chéreau "a minha ideia sobre o significado da peça está sempre a alterar-se. Depois de duas semanas de ensaios, tenho uma impressão completamente diferente do que trata a peça do que no início."
a primeira vez que li a peça, até agora 3 vezes, em momentos diferentes, apareceram-me Beckett e Cormac McCarthy, mas a última a chegar e a que ficou e ainda ando às voltas é de uma personagem e de duas ou três conversas suas de A Leste do Paraíso, de John Steinbeck
"O OUTRO Mas a vida tem de viver
UM A vida tem de viver
O OUTRO E isso Pausa bastante curta e disso tu não gostas
UM Gosto
O OUTRO E como Pausa bastante curta como é que sim eu Interrompe-se
UM É que não é sempre assim"
no princípio do ano pude ver no louvre Le Louvre invite Patrice Chéreau Les visages et les corps
"Être l’invité du Louvre, qu’est‐ce que cela signifie ? La réponse est sans doute différente pour chacun : être un « grand » programmateur, un maître de cérémonie, un visiteur particulier ? Au cinéma, au théâtre ou à l’opéra, mon métier est de mettre en scène, de faire apparaître un corps dans un espace, d’éveiller un visage pour qu’il nous raconte une histoire. Au Louvre, il en sera de même: j’assimile le travail que j’y prépare à une oeuvre, une mise en scène, un opus unique, tel une nouvelle Tétralogie, un nouveau Peer Gynt, une nouvelle Reine Margot. Elle s’appelle cette fois‐ci: Patrice Chéreau au Louvre, mais son vrai titre est: Les visages et les corps.
Faire cet opus unique à plusieurs facettes, cela veut dire y passer autant de temps qu’à la préparation d’un film, en régler les détails aussi minutieusement qu’au théâtre, s’interroger toujours et jusqu’au dernier moment sur la cohérence de l’ensemble, le pourquoi des choses.
Quels visages, quels corps ? Dans quels espaces ? Quels films, quelles chorégraphies ? Quelles discussions ? Avec qui ?
Le hasard aura voulu que je découvre, alors que je parcourais les salles et les galeries du Louvre, la pièce du Norvégien Jon Fosse, Rêve d’automne. Un homme et une femme qui se sont connus il y a longtemps se retrouvent dans un cimetière, ils se reconnaissent dans un combat qui les conduira, à travers les générations qui les précèdent et celles qui les suivent, de la vie à la mort. Le musée comme un cimetière ? La lecture de cette pièce a fait renaître en moi un désir de théâtre, l’envie de convoquer ces personnages pour quelques nuits dans une salle du Louvre, le salon Denon. Ce seront Valeria Bruni‐Tedeschi, Marie Bunel, Pascal Greggory, Michelle Marquais, Bulle Ogier, Clément Hervieu‐Léger, Alexandre Styker et Bernard Verley, qui emmèneront ensuite le salon Denon, réinventé par Richard Peduzzi, au Théâtre de la Ville (du 4 décembre 2010 au 25 janvier 2011), puis sur plusieurs scènes de France et d’Europe. L’ombre envahissante du désir et du deuil unis dans un même mausolée, un rêve en automne.
La pièce de Jon Fosse est au centre de ce que je propose au Louvre à travers le théâtre, la musique, la danse, la parole, la peinture, le cinéma et la photographie. Au coeur de ce dispositif, une exposition dans la salle Restout réunira des peintures du Louvre, du musée d’Orsay et du Centre Pompidou ainsi que des photographies, des dessins. De Rembrandt à Bacon, de Titien à Courbet, Picasso ou Nan Goldin, l’exposition sera comme le livret de cette partition qui se jouera dans plusieurs lieux du musée. Je voudrais qu’un visiteur qui n’aurait assisté à aucun des spectacles ou événements de ce mois de novembre tombe presque par hasard sur mon exposition et y découvre ce que raconte Les visages et les corps. Comme pour le livre que le Louvre éditera. Entre les oeuvres exposées et les spectacles, j’imagine un va‐et‐vient permanent. Aller et retour.
Est‐ce que l’accrochage parlera du désir et donc de Rêve d’Automne ? De la dépression et de la longue léthargie du corps au sortir de la folie les Wesendonck Lieder, joués et chantés par Waltraud Meier dans les salles de peinture espagnole ? Sera‐t‐il au contraire comme une grande réflexion sur la peinture, sur le portrait, sur les corps ? Et quels corps ? Le désir, l’absence de désir, la mort du désir, le corps malade, les mutilations ?
Nous nous sommes fixés une obligation absolue de narration, d’une narration unique qui engloberait tout, tous les mots qui seront prononcés, les musiques qu’on donnera à entendre, les déplacements des corps dans l’espace. Quelque chose qui tournera autour du désir, de la chair (la chair, ce pourrait être l’autre titre de tout le projet). Chez Wagner, donc, la folie, mais aussi l’éblouissement final, l’apaisement du corps, la lumière du visage. Chez Bernard‐Marie Koltès, Romain Duris jouant La Nuit juste avant les forêts), les mille et une nuits d’un homme qui meurt. Chez Pierre Guyotat, dont je lirai Coma, la renaissance de l’esprit. Chez les chorégraphes Thierry Thieû Niang, Boris Charmatz, Clara Cornil, Emmanuelle Huyhn et Mathilde Monnier, d’autres corps, d’autres générations, avec ces amateurs qui viendront danser dans les salles et, à travers des hommages à Merce Cunningham et Odile Duboc, la question de ce qui se transmet ou s’oublie. Au cinéma, les films que j’ai réalisés et ceux des autres, que j’aime, qui parlent aussi des visages et des corps (Nuri Bilge Ceylan, Tsai Mingliang, Arnaud des Pallières, Steve McQueen). Et la musique, celle de Berg ou de Stravinski, jouée par Daniel Barenboim et le West Eastern Divan Orchestra. Parce qu’on peut aussi dire que le thème, ou le scénario général de tout cela, c’est ce que le Louvre lui‐même me raconte, ce qui se transfuse du Louvre dans mon travail, ces portraits, ces visages que j’aime et qui me bouleversent, cette longue file de regards, de bouches, d’enfance et de rides, tous ces visages que je voudrais filmer ou mettre en scène.
Tous ces corps et les visages que je veux partager avec le public du Louvre et, encore une fois, cette façon singulière de raconter le monde à travers mon propre désir, celui qui me fait aimer le corps d’un acteur autant qu’un tableau, le regard d’une actrice ou la nudité obscène, la chasteté d’un corps qui se refuse. Ce travail que chaque visiteur fait sans doute en secret, cette façon de relier les oeuvres d’art à ses propres émotions, à ses souvenirs les plus intimes, et que je voudrais donner à voir.
Patrice Chéreau"
para mim a peça de Fosse fala sobre o insuflar de vida (tanto a dizer) e da vida (oh, vago?)
(as citações de Sou o Vento é dos Livrinhos do Teatro, Artistas Unidos e Livros Cotovia; todas as fotografias por LMD)
posted by Luís Miguel Dias sexta-feira, julho 08, 2011
quarta-feira, julho 06, 2011
muitas das pessoas mais bem preparadas lúcidas e informadas que vou/fui encontrando/convivendo são pessoas que se identificam ou fazem mesmo parte do pcp
argumentam apresentam soluções põem em causa prontas para a discussão tendo como base o bem comum
pelo contrário, as pessoas que vou encontrando menos lúcidas e mais transmissoras do discurso formatado das tvs são pessoas que se riem quando se fala do pcp e das que dizem que o pcp já devia ter acabado
e então o anterior líder do ps e anterior primeiro ministro ignorante e parolo quando se referia ao pcp fazia-o sempre de uma forma sobranceira do alto da sua palermice
na campanha eleitoral para as últimas eleições só ouvi uma pessoa dizer que o pcp era/fazia parte da solução: foi o director/presidente da jerónimo martins, sim ouvi na rádio
franzi o sobrolho e fiquei feliz
volto a Magris e à crónica para um anticomunismo de rosto humano, "[Adam Michnik] Talvez tenha herdado do pai comunista o sentido da solidariedade, do destino comum e da igual dignidade em todos os homens, e esses valores alimentaram a sua batalha contra o totalitarismo comunista. «Há só uma categoria pior que os comunistas», troa com irresistível simpatia, «os anticomunistas», entendendo aqueles que estão ainda obcecados, mas sobretudo os que não só rejeitam, como ele, as respostas dadas pelo comunismo, mas ignoram ou deturpam as perguntas que ele levantou, algumas das quais ainda esperam resolução. Polemiza especialmente com quem --mesmo quando o comunismo já não existe-- rotula, vandalisticamente, como «comunistas», todos os adversários políticos, denegrindo como «comunistas» todas as críticas dirigidas à sua actuação, mesmo quando não têm nada que ver com nenhum comunismo, nem vivo nem morto. É com demasiada frequência que este falso anticomunismo é usado como uma verdadeira arma imprópria e abusiva na legítima luta política, que acaba assim por ser degradada."
o querido e maravilhoso Heródoto sobre costumes persas:
"é quando estão tocados pelo vinho que costumam discutir os assuntos de maior importância. Aquilo que decidiram é-lhes apresentado no dia seguinte, em jejum, pelo dono da casa onde decorre a discussão; se, em jejum, o aprovarem também, fica decidido; se discordarem, põe-se a solução de lado. Decisões que tomem em jejum, voltam a apreciá-las sob o efeito do vinho."
e do bom do Claudio Magris:
"A «Ungleichzeitigkeit», a não-contemporaneidade que separa sentimentos e hábitos de pessoas e classes sociais, como escreveu Bloch, é uma das chaves da história e da política."
folheava o jornal público de ontem e às tantas o jornalista que entrevistou Marcelo Gleiser escreve a meio da introdução
"fala sobre as forças físicas da natureza, a forma como o Universo poderá ter sido criado e a importância de sermos raros num cosmos aparentemente deserto. Mais importante, desmont..."
olé!? mais importante? espero e acredito que o jornalista só tenha escrito a introdução no fim da conversa, mas isso mostra como esteve pouco atento à lição
como ainda não li o acordo entre o bce o fmi e o estado de direito da república portuguesa uma democracia
e às tantas da conversa como é possível o 13º mês e o subsídio de férias, sabes de onde é que isso veio? nós não temos nada disso, só o salário ao fim do mês
perguntei, o salário mínimo é quanto? e os salários médios, para pessoas que trabalham no sector secundário? e quando vai ao médico, ao especialista, quanto paga? e de esperar? de onde é que isso veio, as férias pagas?
responde, sim, é verdade, o salário mínimo e os salários médios não se comparam, um país não tem nada a ver com o outro, e na saúde
olhe, precisamente daí, de França, nos anos 30, Léon Blum; não tem nada a ver?
e depois o coelho da cartola, disse-me: mas foi o Mitterrand que nos anos 80 tornou lei que todas as empresas tinham que dividir uma percentagem dos lucros pelos seus trabalhadores, obrigatoriamente
não sabia, és um ignorante, obrigatoriamente
é por isso que quando estamos a trabalhar ninguém faz sorna, e se alguém estiver a fazer sorna somos nós que o chamamos a atenção
não sabia, e a república portuguesa... de tanta inspiração francesa e
uma percentagem do lucro é dividido pelos trabalhadores, obrigatoriamente
de que é que se está à espera? ganhem vergonha na cara