A montanha mágica

domingo, julho 31, 2011

1.2. Quem espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, 1970.






excerto dos extras, Luís Miguel Cintra: "E eu senti, de facto, o que era a força e a violência do cinema, de filmar uma pessoa. Por aí, lembro-me que tive uma reacção nervosa muito forte no fim do dia a dizer que não queria fazer mais cinema, porque era uma violência, era entrar na privacidade e no íntimo de uma pessoa, e que a câmara era uma coisa monstruosa, um objecto de uma agressividade muito grande, etc.
Isso nunca mais me esqueci por que foi de facto a minha primeira impressão do cinema, do lado do actor, não é. E creio que fiquei com isso muito associado à minha ideia de cinema, de facto eu senti na pele, logo no primeiro dia de filmagem, que filmar é uma coisa muito importante e que é uma coisa muito delicada, é um acto grave, pôr uma câmara à frente de uma pessoa.
Isso fez-me, não sei se foi isso, ou também aquilo que penso noutras áreas, fez-me detestar o cinema que não tem isso em conta, portanto, o cinema… acho pornográfico ou obsceno o cinema que não respeita ou que não tem em conta a pessoa que tem à frente da câmara. O cinema que de facto não percebe que de facto a câmara é uma espécie de máquina de aumentar gigantesca não só a superfície mas como o que está por trás da superfície, quer dizer, o que é a personalidade, o que é o interior, a natureza de cada pessoa, e quem diz pessoas diz também paisagens, quer dizer, a maneira de filmar, o enquadramento, a luz, a objectiva, tudo isso, os movimentos de câmara, etc, são uma maneira de criar uma relação com o real, uma maneira de criar uma relação com o objecto, ou com a pessoa que se tem à frente.
Reconheço isso de muitas maneiras com os realizadores com quem tenho trabalhado, mas de facto senti isso na pele no primeiro filme do João César e acho que… que reconheço, depois, em todos os outros filmes seus uma fidelidade a essa noção de cinema. Quer dizer, com o César, de facto, a gente tem a noção de que filmar é uma coisa muito muito importante."










outro excerto dos extras, Luís Miguel Cintra: "a exigência de uma pureza de olhar, creio que há qualquer coisa de uma espécie de desejo de facto de pureza, de limpeza da relação entre o actor e a câmara, de relação verdadeira entre o actor e a câmara que lhe interessa muito. Quer dizer, de certa maneira interessa-lhe captar uma certa inocência do actor, que pode revestir muitos aspectos. No caso dos Sapatos era inocência mesmo, porque não havia qualquer espécie, da minha parte, e da parte dos outros actores também, qualquer espécie de técnica de representação. No caso dos filmes posteriores, creio que a inocência era a outro nível, quer dizer, era num nível de facto não se esconde, uma pessoa não se esconder não mentir perante a câmara, ou se mentisse mentisse com toda a sua personalidade, portanto."



excerto de João César Monteiro:




excerto de, entrevista com João César Monteiro por Lauro António:


posted by Luís Miguel Dias domingo, julho 31, 2011

1/11


como não sei nada mas quero e se tu caro leitor aqui vieres ter ou dar por distracção por não querer de visita rápida mandado insultado ou por querer e se acaso quiseres acrescentar acrescenta serás identificado

os próximos dias serão assim já estão a ser


























e o que tenho de mais rápido para não dizer é que JCM é muito mais genial deslumbrantemente genial

11 dvds + catálogo da cinemateca

1º dvd os quatro primeiros filmes + extras: entrevistas: Maria Velho da Costa, Luís Miguel Cintra, Henrique Espírito Santo, Jorge Silva Melo; Entrevista audio a JCM; Desenho de João Rodrigues; Quem Espera... de Manuela de Freitas; Fotos; Filmografia; DVD-ROM


1.1. Sophia de Mello Breyner Andresen, 1969


Jorge Silva Melo:




Auto-Entrevista:




Dos extras, um excerto do testemunho de Jorge Silva Melo: "a simples presença da câmara, registando o real, o que está ali à frente; e a enorme provocação e artifício que o João César vai criando na própria, não diria encenação, mas provocação dos acontecimentos. O plano que nos deu mais trabalho, que provocou grandes crises, foi um plano em que a Sophia de Mello Breyner estava sentada no sofá da sala principal, na casa dela ali na Graça, e o João César queria que a filha mais nova, a meio do plano, pusesse uma música dos Beatles, que na altura estava muito em voga, sem a Sophia saber.
A Sophia começou a falar sobre a Grécia, a Beleza, a Humanidade, e tumba, lá aparecia os Beatles; mas ela não percebeu que aquilo era combinado com o João César.
Segunda take, a mesma coisa aconteceu, e Sophia não percebeu bem e irritou-se com a filha: então não vês que estamos a filmar.
Terceira take, percebeu finalmente e ficou furiosa com o João César por perceber que ele estava a fazer uma maroteira perante aquela coisa que todos nós respeitávamos que é, e que dá uma certa dignidade, que é o ser filmado.
Ora, o João não queria a dignidade, quando filmava queria provocar para encontrar o ponto de fractura, o ponto de irritação, que criasse um artifício..."


próximo, 1.2. Quem espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, 1970. até já.

posted by Luís Miguel Dias domingo, julho 31, 2011

quinta-feira, julho 28, 2011


posted by Luís Miguel Dias quinta-feira, julho 28, 2011

terça-feira, julho 26, 2011

duas notas do abc de 9 de julho








(clicar em cima para ler e ver maior)

posted by Luís Miguel Dias terça-feira, julho 26, 2011

segunda-feira, julho 25, 2011

foi o cy twombly primeiro e agora o lucien freud

mas quem me vai fazer mais falta é a amy winehouse

gostava tanto dela

miguel esteves cardoso foi lindo outra vez como sempre com ela o outro dia

um destes dias passei por um blog que na vida inteira ainda só lá fui cinco ou seis vezes

mas apeteceu-me sempre atirar ovos

desta vez escreve-se sobre uma crítica má que miguel esteves cardoso fez na década de 80 a um livro - o mec ainda é dos melhores, quem é que hoje nos jornais e nas revistas tem coragem para dizer que este ou aquele livro é uma merda? ninguém, perderam a liberdade há muito e o respeitinho é muito bonito, formiga com catarro?

mas a autora do blog diz lá que ele agora é acomodado na escrita, escreve, veja-se lá, sobre comidas e bebidas de colares

o que é mais extraordinário é: como é que esta mulher tem o poder de decidir o que se deve ou não editar numa editora e catapultar e fazer melhor do mundo e do universo e assim entre outros autores que choram em público ou dizem que vão para casa chorar ou que logo à noite é que vai ser chorar, saiam da frente

muitos parabéns, mec

posted by Luís Miguel Dias segunda-feira, julho 25, 2011



fotografia LMD, sem título, julho, 2011.

posted by Luís Miguel Dias segunda-feira, julho 25, 2011

sexta-feira, julho 22, 2011


posted by Luís Miguel Dias sexta-feira, julho 22, 2011

quarta-feira, julho 20, 2011

dedicado ao querido Heródoto, ao querido Hölderlin e ao muito estimado Claudio Magris


posted by Luís Miguel Dias quarta-feira, julho 20, 2011

segunda-feira, julho 18, 2011


posted by Luís Miguel Dias segunda-feira, julho 18, 2011

domingo, julho 17, 2011




no dia em que arrombaram e roubaram o que quiseram no canal:youtube/amontanhamagica este post não teve o seguimento programado

ficou agora: os vídeos I, II, III e IV já estão carregados



posted by Luís Miguel Dias domingo, julho 17, 2011

sábado, julho 16, 2011

curtas vila do conde, julho 2011 - 23:00 – Sala 1 - Competição Nacional 3 - duração da sessão: 72’






5

3

1

?

2

posted by Luís Miguel Dias sábado, julho 16, 2011

sexta-feira, julho 15, 2011

quando o tema é prisão às tantas digo que deviam ser edificadas nos sítios mais belos do país, em frente ao mar em frente a alguma montanha de preferência com instalações boas e sóbrias, tantos bons arquitectos temos nós

lugares onde se possa recuperar reconstruir redimir e não o contrário

as primeiras reacções as imediatas são semelhantes a quando nos dizem de forma dissimulada que vamos ter de mudar os hábitos já entranhados do nosso tempo longo

são isso é que era bom, não faltava mais nada, deve estar a brincar, o meu dinheiro

cá fora pouco se sabe sobre o lá de dentro, cá fora pouco se sabe sobre o cá de fora, temos todos muita pressa, para onde?, desenhos, sandes, antenas interiores, grades, cerro negro

que o tempo tem de passar mas como é que ele vai passar, o que vai deixar

atrás daquelas grades daquele quarto filmado por antonioni

calor lá fora, imobilidade, o tempo a ver-se a não passar num cigarro aceso

só um destes dias vi Arena, de João Salaviza

encontrei a mesma grade, num quarto diferente

a pulseira no tornozelo, uma pulseira presa, a pulseira que leva ao pátio e conduz ao terraço e

à luz forte que o verga, que o estende, o tempo a passar, nós a vê-lo

posted by Luís Miguel Dias sexta-feira, julho 15, 2011

quinta-feira, julho 14, 2011

esta semana fiquei


ao ler no Hospedaria Camões um excerto do poema de Manuel de Freitas


MOTET POUR LES TRÉPASSÉS

Este poema seria teu, Inês,
se não fosse de ninguém.
Ao chegarmos de Lisboa,
depois da paragem ritual
no Café Lisbela — onde tudo
se compra e tudo se perde —,
vimos uma cadeira de rodas
à venda, uma motorizada
ao lado, uma igreja vazia
da qual certamente gostariam
Andrei Tarkovsky, Tonino
Guerra ou Ana Teresa Pereira.

A poucos metros dali, o meu pai
morria, tentava penosamente resistir
a uma hemorragia cerebral. Mas
isso, claro, ninguém precisa de saber.
Apenas tu, poema, que vieste de comboio
confirmar dia após dia que o Tejo
está onde sempre esteve: triste, azul, parado.



a Manuel de Freitas parece-me que se pode aplicar as palavras de Jean-Luc Godard em JLG por JLG sobre as imagens: que aquelas que são fortes são as longínquas e justas


vimos uma cadeira de rodas
à venda, uma motorizada
ao lado, uma igreja vazia
da qual certamente gostariam
Andrei Tarkovsky, Tonino
Guerra ou Ana Teresa Pereira.


ou Ana Teresa Pereira


que um dia e única vez cheguei a uma livraria e trouxe todos os livros dela

Manuel de Freitas é justo o suficiente para a colocar ao lado de Tonino e de Tarkovski; já se vai à Madeira por causa de Ana Teresa Pereira e no futuro


também, por mais um Pedro Costa, O nosso homem, a apresentar no curtas de Vila do Conde


Eu era bom pedreiro. Nunca fiz uma parede torta. / O meu patrão nunca se queixou de mim. / Um dia o trabalho acabou, fiquei sem fundo de desemprego. / Sem reforma, sem abono de família. / Procurei trabalho por todo o lado e nao encontrei. / Não levava dinheiro para casa e a Suzete correu comigo.


e muito também, porque no site de Pedro Costa vi lá um link para o dias felizes

tão justo e de tão longe, também

posted by Luís Miguel Dias quinta-feira, julho 14, 2011

quarta-feira, julho 13, 2011





no princípio do cinema foi um dos filmes de Chaplin e no princípio da televisão foi Rio Bravo, Howard Hawks

e deste tenho gravado em mim como um selo imagens nocturnas de pessoas a moverem-se ofegantes em espaços pequenos entre cabanas ao luar e de arma em punho, movimentos rápidos e errantes em caminhos apertados; rostos sentimentos pegadas

mais tarde li, Silva Melo: "e a estupidez é esta: comovido sempre a olhar para aquilo mesmo nesta inacreditável cassete-vídeo que para aí vendem, com grão e chuva e tão descafeinada como agora os cafés mais caros, eu acredito em tudo o que lá está. Este filme tomou conta de mim --e não há alho nem cravo que me afaste este vampiro aqui mesmo cravado."

e depois ainda antes de Silva Melo, em filmes de John Ford os desfiladeiros entre montes e montanhas, fugas e regressos aos tiros, emboscadas, sítios estreitos, veredas, de respiração difícil

quando ia pela primeira vez a caminho de Bilbao, de burgos para cima, perto de Vitória uma montanha mais ou menos assim em desfiladeiro, lembrei-me

e mais tarde quando encontrei the matter of time de Richard Serra soube que para mim era o mesmo, estava entranhado

há uns dias vi essa associação em Terrence Malick, tremi rasguei-me

foi o que vi agora, também, na quadrado azul com hou negro, de Pedro Tropa

posted by Luís Miguel Dias quarta-feira, julho 13, 2011

terça-feira, julho 12, 2011

um destes dias vi pela primeira vez a semente do ódio, Jean Renoir

a certa altura, depois de ter deixado tudo para tentar ter ainda mais, Sam Tucker vendo e sentindo o desespero de ambos vestido na sua mulher Nona que desesperadamente se envolve mistura e se faz terra, afasta-se como que procurando um lugar olha para o céu e

























e também num destes dias em O Homem da Guitarra, Jon Fosse

"Peço-te meu Deus
toma a minha mão
e leva-me para a tua beira
Peço-te
Deus
acolhe-me na tua grande misericórdia
Deixa-me ser
pesado e livre
no teu vasto movimento
Deixa-me ser
como era antigamente
um nada cheio de qualquer coisa
Deixa-me ser
para nada
e deixa que a canção se ouça
Deixa-me ser
um sinal desconhecido
para os outros decifrarem
Deixa-me ser
uma canção das estrelas
que os anjos possam cantar
Deixa-me desta vez descansar
e deixa-me voltar a encontrar
o meu amigo
o cão que perdi
e deixa-me ficar a olhar
sem nada ver
Pára de cantar, abana a cabeça, desanimado
Irónico

Sem nada ver
no azul do ar
Ir e voltar
Vai até ao balcão e bebe um golo de cerveja, pega na guitarra, desaperta as duas últimas cordas, solta-as das cravelhas, ficam a abanar como as outras, coloca a guitarra em cima do balcão, agarra no sobretudo, veste-o, calça as luvas, levanta a caixa da guitarra e dá uns passos. Detém-se, apoia-se na caixa da guitarra



(excerto de O Homem da Guitarra, de Jon Fosse, trad. Pedro Porto Fernandes, Livrinhos do Teatro, Artistas Unidos / Cotovia, 2008)

posted by Luís Miguel Dias terça-feira, julho 12, 2011

domingo, julho 10, 2011

voltemos então a

para mim a peça de Fosse, Sou o Vento, fala sobre o insuflar de vida (tanto a dizer) e da vida (oh, vago?)

em O Homem da Guitarra

Pausa breve. Recomeça a cantar
Sou uma canção de antigamente
uma canção que nunca cantei
Sou o meu próprio desespero
e por onde vou canto a minha canção
Canto o escurecer do dia
Canto cansaço do dia
Canto a beleza do dia
Canto as roupas mais ricas
Canto a mais humilde pobreza
Canto a pena que sinto
Canto o dia que há-de vir
Pára de cantar, começa a falar


o insuflar de vida, desassossegar?, exemplo de adentramento


UM
Tu tens de ir ao alto mar
sim
já que vieste comigo no barco
já que vieste para o mar

(...)

O OUTRO
Não consigo saltar para bordo
Não consigo mesmo

UM
Tenta
Tens de saltar
Vá tenta

O OUTRO
Não consigo


e da vida, exemplo de adentramento

Pausa bastante curta
só que eu não aguento o ruído
Pausa bastante curta
o ruído dos outros
o ruído de tudo o que acontece
Pausa bastante curta
oprime-me
cerca-me
Pausa bastante curta

(...)

UM
Não aguento o barulho

O OUTRO
Tu queres silêncio

UM
Eu quero silêncio
Pausa bastante curta
e não quero
que tudo seja tão visível

O OUTRO
É tudo tão visível

UM
Tudo é tão visível
tudo se pode ver
tudo o que eles escondem quando falam
e que se calhar nem eles conhecem
vejo tudo isso


todavia, o insuflar de vida é anterior ao já que vieste comigo, o que o desapareci com o vento justifica; mas não precisa de justificar nada


posted by Luís Miguel Dias domingo, julho 10, 2011

sexta-feira, julho 08, 2011




como fiquei feliz a meio desta semana ao saber quando li que Jorge Silva Melo e os Artistas Unidos vão passar a ter um poiso fixo pelo menos para os próximos três anos

e faz agora para aí semana e meia será no programa do festival de teatro de almada tão simpáticos que são obrigado pelos e-mails li sobre a encenação de Sou o Vento de Jon Fosse por Patrice Chéreau

"O OUTRO
Não fiques aí
Vem cá
Não faças isso
Vem cá
Olha que as ondas são grandes
Vem cá
Tenho medo
Pausa bastante curta
Não quero ser eu a segurar o leme
Pega tu no leme

Pausa bastante curta
Vem cá
Tem cuidado
Vem cá"


diz Chéreau "a minha ideia sobre o significado da peça está sempre a alterar-se. Depois de duas semanas de ensaios, tenho uma impressão completamente diferente do que trata a peça do que no início."




a primeira vez que li a peça, até agora 3 vezes, em momentos diferentes, apareceram-me Beckett e Cormac McCarthy, mas a última a chegar e a que ficou e ainda ando às voltas é de uma personagem e de duas ou três conversas suas de A Leste do Paraíso, de John Steinbeck


"O OUTRO
Mas a vida tem de viver

UM
A vida tem de viver

O OUTRO
E isso
Pausa bastante curta
e disso tu não gostas

UM
Gosto

O OUTRO
E como
Pausa bastante curta
como é que
sim eu
Interrompe-se

UM
É que não é sempre assim"


no princípio do ano pude ver no louvre Le Louvre invite Patrice Chéreau Les visages et les corps




"Être l’invité du Louvre, qu’est‐ce que cela signifie ? La réponse est sans doute différente pour chacun : être un « grand » programmateur, un maître de cérémonie, un visiteur particulier ? Au cinéma, au théâtre ou à l’opéra, mon métier est de mettre en scène, de faire apparaître un corps dans un espace, d’éveiller un visage pour qu’il nous raconte une histoire. Au Louvre, il en sera de même: j’assimile le travail que j’y prépare à une oeuvre, une mise en scène, un opus unique, tel une nouvelle Tétralogie, un nouveau Peer Gynt, une nouvelle Reine Margot. Elle s’appelle cette fois‐ci: Patrice Chéreau au Louvre, mais son vrai titre est: Les visages et les corps.

Faire cet opus unique à plusieurs facettes, cela veut dire y passer autant de temps qu’à la préparation d’un film, en régler les détails aussi minutieusement qu’au théâtre, s’interroger toujours et jusqu’au dernier moment sur la cohérence de l’ensemble, le pourquoi des choses.

Quels visages, quels corps ? Dans quels espaces ? Quels films, quelles chorégraphies ? Quelles discussions ? Avec qui ?





Le hasard aura voulu que je découvre, alors que je parcourais les salles et les galeries du Louvre, la pièce du Norvégien Jon Fosse, Rêve d’automne. Un homme et une femme qui se sont connus il y a longtemps se retrouvent dans un cimetière, ils se reconnaissent dans un combat qui les conduira, à travers les générations qui les précèdent et celles qui les suivent, de la vie à la mort. Le musée comme un cimetière ? La lecture de cette pièce a fait renaître en moi un désir de théâtre, l’envie de convoquer ces personnages pour quelques nuits dans une salle du Louvre, le salon Denon. Ce seront Valeria Bruni‐Tedeschi, Marie Bunel, Pascal Greggory, Michelle Marquais, Bulle Ogier, Clément Hervieu‐Léger, Alexandre Styker et Bernard Verley, qui emmèneront ensuite le salon Denon, réinventé par Richard Peduzzi, au Théâtre de la Ville (du 4 décembre 2010 au 25 janvier 2011), puis sur plusieurs scènes de France et d’Europe. L’ombre envahissante du désir et du deuil unis dans un
même mausolée, un rêve en automne.

La pièce de Jon Fosse est au centre de ce que je propose au Louvre à travers le théâtre, la musique, la danse, la parole, la peinture, le cinéma et la photographie. Au coeur de ce dispositif, une exposition dans la salle Restout réunira des peintures du Louvre, du musée d’Orsay et du Centre Pompidou ainsi que des photographies, des dessins. De Rembrandt à Bacon, de Titien à Courbet, Picasso ou Nan Goldin, l’exposition sera comme le livret de cette partition qui se jouera dans plusieurs lieux du musée. Je voudrais qu’un visiteur qui n’aurait assisté à aucun des spectacles ou événements de ce mois de novembre tombe presque par hasard sur mon exposition et y découvre ce que raconte Les visages et les corps. Comme pour le livre que le Louvre éditera. Entre les oeuvres exposées et les spectacles, j’imagine un va‐et‐vient permanent. Aller et retour.

Est‐ce que l’accrochage parlera du désir et donc de Rêve d’Automne ? De la dépression et de la longue léthargie du corps au sortir de la folie les Wesendonck Lieder, joués et chantés par Waltraud Meier dans les salles de peinture espagnole ? Sera‐t‐il au contraire comme une grande réflexion sur la peinture, sur le portrait, sur les corps ? Et quels corps ? Le désir, l’absence de désir, la mort du désir, le corps malade, les mutilations ?

Nous nous sommes fixés une obligation absolue de narration, d’une narration unique qui engloberait tout, tous les mots qui seront prononcés, les musiques qu’on donnera à entendre, les déplacements des corps dans l’espace. Quelque chose qui tournera autour du désir, de la chair (la chair, ce pourrait être l’autre titre de tout le projet). Chez Wagner, donc, la folie, mais aussi l’éblouissement final, l’apaisement du corps, la lumière du visage. Chez Bernard‐Marie Koltès, Romain Duris jouant La Nuit juste avant les forêts), les mille et une nuits d’un homme qui meurt. Chez Pierre Guyotat, dont je lirai Coma, la renaissance de l’esprit. Chez les chorégraphes Thierry Thieû Niang, Boris Charmatz, Clara Cornil, Emmanuelle Huyhn et Mathilde Monnier, d’autres corps, d’autres générations, avec ces amateurs qui viendront danser dans les salles et, à travers des hommages à Merce Cunningham et Odile Duboc, la question de ce qui se transmet ou s’oublie. Au cinéma, les films que j’ai réalisés et ceux des autres, que j’aime, qui parlent aussi des visages et des corps (Nuri Bilge Ceylan, Tsai Mingliang, Arnaud des Pallières, Steve McQueen). Et la musique, celle de Berg ou de Stravinski, jouée par Daniel Barenboim et le West Eastern Divan Orchestra. Parce qu’on peut aussi dire que le thème, ou le scénario général de tout cela, c’est ce que le Louvre lui‐même me raconte, ce qui se transfuse du Louvre dans mon travail, ces portraits, ces visages que j’aime et qui me bouleversent, cette longue file de regards, de bouches, d’enfance et de rides, tous ces visages que je voudrais filmer ou mettre en scène.

Tous ces corps et les visages que je veux partager avec le public du Louvre et, encore une fois, cette façon singulière de raconter le monde à travers mon propre désir, celui qui me fait aimer le corps d’un acteur autant qu’un tableau, le regard d’une actrice ou la nudité obscène, la chasteté d’un corps qui se refuse. Ce travail que chaque visiteur fait sans doute en secret, cette façon de relier les oeuvres d’art à ses propres émotions, à ses souvenirs les plus intimes, et que je voudrais donner à voir.

Patrice Chéreau"





para mim a peça de Fosse fala sobre o insuflar de vida (tanto a dizer) e da vida (oh, vago?)


(as citações de Sou o Vento é dos Livrinhos do Teatro, Artistas Unidos e Livros Cotovia; todas as fotografias por LMD)

posted by Luís Miguel Dias sexta-feira, julho 08, 2011

quarta-feira, julho 06, 2011

muitas das pessoas mais bem preparadas lúcidas e informadas que vou/fui encontrando/convivendo são pessoas que se identificam ou fazem mesmo parte do pcp

argumentam apresentam soluções põem em causa prontas para a discussão tendo como base o bem comum

pelo contrário, as pessoas que vou encontrando menos lúcidas e mais transmissoras do discurso formatado das tvs são pessoas que se riem quando se fala do pcp e das que dizem que o pcp já devia ter acabado

e então o anterior líder do ps e anterior primeiro ministro ignorante e parolo quando se referia ao pcp fazia-o sempre de uma forma sobranceira do alto da sua palermice

na campanha eleitoral para as últimas eleições só ouvi uma pessoa dizer que o pcp era/fazia parte da solução: foi o director/presidente da jerónimo martins, sim ouvi na rádio

franzi o sobrolho e fiquei feliz

volto a Magris e à crónica para um anticomunismo de rosto humano, "[Adam Michnik] Talvez tenha herdado do pai comunista o sentido da solidariedade, do destino comum e da igual dignidade em todos os homens, e esses valores alimentaram a sua batalha contra o totalitarismo comunista. «Há só uma categoria pior que os comunistas», troa com irresistível simpatia, «os anticomunistas», entendendo aqueles que estão ainda obcecados, mas sobretudo os que não só rejeitam, como ele, as respostas dadas pelo comunismo, mas ignoram ou deturpam as perguntas que ele levantou, algumas das quais ainda esperam resolução. Polemiza especialmente com quem --mesmo quando o comunismo já não existe-- rotula, vandalisticamente, como «comunistas», todos os adversários políticos, denegrindo como «comunistas» todas as críticas dirigidas à sua actuação, mesmo quando não têm nada que ver com nenhum comunismo, nem vivo nem morto. É com demasiada frequência que este falso anticomunismo é usado como uma verdadeira arma imprópria e abusiva na legítima luta política, que acaba assim por ser degradada."



posted by Luís Miguel Dias quarta-feira, julho 06, 2011

terça-feira, julho 05, 2011

o querido e maravilhoso Heródoto sobre costumes persas:

"é quando estão tocados pelo vinho que costumam discutir os assuntos de maior importância. Aquilo que decidiram é-lhes apresentado no dia seguinte, em jejum, pelo dono da casa onde decorre a discussão; se, em jejum, o aprovarem também, fica decidido; se discordarem, põe-se a solução de lado. Decisões que tomem em jejum, voltam a apreciá-las sob o efeito do vinho."

e do bom do Claudio Magris:

"A «Ungleichzeitigkeit», a não-contemporaneidade que separa sentimentos e hábitos de pessoas e classes sociais, como escreveu Bloch, é uma das chaves da história e da política."

folheava o jornal público de ontem e às tantas o jornalista que entrevistou Marcelo Gleiser escreve a meio da introdução

"fala sobre as forças físicas da natureza, a forma como o Universo poderá ter sido criado e a importância de sermos raros num cosmos aparentemente deserto. Mais importante, desmont..."

olé!? mais importante? espero e acredito que o jornalista só tenha escrito a introdução no fim da conversa, mas isso mostra como esteve pouco atento à lição

quantos de nós estão disponíveis para ouvir?



posted by Luís Miguel Dias terça-feira, julho 05, 2011

segunda-feira, julho 04, 2011

como ainda não li o acordo entre o bce o fmi e o estado de direito da república portuguesa uma democracia

e às tantas da conversa como é possível o 13º mês e o subsídio de férias, sabes de onde é que isso veio? nós não temos nada disso, só o salário ao fim do mês

perguntei, o salário mínimo é quanto? e os salários médios, para pessoas que trabalham no sector secundário? e quando vai ao médico, ao especialista, quanto paga? e de esperar? de onde é que isso veio, as férias pagas?

responde, sim, é verdade, o salário mínimo e os salários médios não se comparam, um país não tem nada a ver com o outro, e na saúde

olhe, precisamente daí, de França, nos anos 30, Léon Blum; não tem nada a ver?

e depois o coelho da cartola, disse-me: mas foi o Mitterrand que nos anos 80 tornou lei que todas as empresas tinham que dividir uma percentagem dos lucros pelos seus trabalhadores, obrigatoriamente

não sabia, és um ignorante, obrigatoriamente

é por isso que quando estamos a trabalhar ninguém faz sorna, e se alguém estiver a fazer sorna somos nós que o chamamos a atenção

não sabia, e a república portuguesa... de tanta inspiração francesa e

uma percentagem do lucro é dividido pelos trabalhadores, obrigatoriamente

de que é que se está à espera? ganhem vergonha na cara



posted by Luís Miguel Dias segunda-feira, julho 04, 2011

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Flannery O'Connor
Bill Viola
Ficções

Destaques: Tomas Tranströmer e de Kooning
e Brancusi-Serra e Tom Waits e Ruy Belo e
Andrei Tarkovski e What Heaven Looks Like: Part 1
e What Heaven Looks Like: Part 2
e Enda Walsh e Jean Genet e Frank Gehry's first skyscraper e Radiohead and Massive Attack play at Occupy London Christmas party - video e What Heaven Looks Like: Part 3 e
And I love Life and fear not Death—Because I’ve lived—But never as now—these days! Good Night—I’m with you. e
What Heaven Looks Like: Part 4 e Krapp's Last Tape (2006) A rare chance to see the sell out performance of Samuel Beckett's critically acclaimed play, starring Nobel Laureate Harold Pinter via entrada como last tapes outrora dias felizes e agora MALONE meurt________

São horas, Senhor. O Verão alongou-se muito.
Pousa sobre os relógios de sol as tuas sombras
E larga os ventos por sobre as campinas.


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