Houve um tempo em que os livros de Teologia eram/são os poemas e os de teólogos, mas depois isso mudou, as teofanias vão chegando e alargando-se; e agora, também as edições-alfabeto, tenho aqui à minha frente Confissão, de Lev Tolstói, livro maior de 2010 editado em Portugal e assim.
Em momentos chave, em pelo menos dois ou três, da sua reflexão, o seguinte é só um desses, Tolstói diz "Naquele tempo, não reparei no... Não vi que... nem vi que... Não vi então o..." e isso ia-o fazendo chegar mais longe, "Não vi então o erro deste raciocínio e, graças a ele, tive a possibilidade de..." Graças ao erro, degrau mais degrau mais, ia tendo a possibilidade de destapar até.
Bom ano de 2011 e obrigado por continuarem a passar por cá.
Lourdes Castro e Manuel Zimbro Anjo de Berlim, 2010 (Atelier Berlin XII, 1978) Impressão jacto de tinta HDR sobre papel 100% algodão colado sobre "Dibond" 320x191cm
fotografia CPV
o relógio marcava para além de cansaços excessivos duas e tal da madrugada numa praça difícil mas viva depois da polícia ter perguntado por ali aquela hora mas sem sentir o perigo muitas pessoas de diferentes intenções pareciam o ar quente abafado e depois de arrancar de lá e de mais quinze minutos passados ao perguntar a um casal de namorados que se despediam ela em cima de uma vespa ele abraçado a ela de pés no chão que disseram que depois do campo novo era a segunda a direita eram só mais dez minutos e passado algum tempo a vespa de luz acesa voava até ao vidro e dizia segui-me que já digo onde é, acho que faltavam quase quinze minutos para as três da madrugada numa noite sufocante muitos e muitos km depois quase já
Quando ainda via televisão, agora só vejo Hill Street, e aqui e ali vou dar uma espreitadela aos ridículos reaccionários e parolos noticiários dos canais públicos de televisão, quando ainda via a certa altura apercebi-me que só os primeiros minutos dois ou três interessavam a quem fazia esta ou aquela entrevista esta ou aquela conversa esta ou aquela sei lá o quê, havia sempre pressa, há sempre muita pressa, desde que se inventou o relógio de pulso, e Jean-Luc Godard sobre a televisão também "-Usted ha desaparecido de los medios de comunicación. En los años ochenta era frecuente verlo en la televisión, hablando con la prensa. -Sí, este tipo de cosas actualmente me disgustan. En esa época, yo creía en ello. No pensaba que pudiera cambiar nada pero sí que podía interesar a un público que quizá quería hacer las cosas de otra manera. Pero sólo les interesa durante tres minutos. Todavía hay cosas que me atraen de la televisión:".
Ainda não a li toda mas folhear já, só para dizer que a revista Coelacanto me impressionou muito, pela sua espessura, rara, dos poemas das conversas e dos textos naquelas folhas brancas. Branco. Preto. Vermelho.
Do editorial: "O primeiro número da revista é subordinado ao tema ´Culto`, entendido este, como forma de em círculos restritos e quase ´clandestinos`, obras e autores das várias áreas de criação (da poesia ao cinema, das artes plásticas ao ensaio e à prosa de ficção), tomarem um espaço central na sua fruição vivencial."
Enquanto ia lendo o que já li também foi chegando o Estilo "Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida".
"Our eyes are far too good for us. They show us so much that we can't take it all in, so we shut out most of the world, and try to look at things as briskly and efficiently as possible.
What I have in mind is a series of lessons about how to use your eyes more concertedly, with more patience, than you might ordinarily do. It's about stopping, and taking the time to simply look, and keep looking, until the details of the world slowly reveal themselves. I especially love the strange feeling I get when I am staring at something, and suddenly I understand: the object has structure, it speaks to me. What was once a shimmer on the horizon becomes a specific kind of mirage, and it tells me about the shape of the air I am walking through. What was once a meaningless pattern on a moth's wing becomes a code, and it tells me how that moth looks to other moths. And paintings show me more each time I look; there is apparently no limit to what they can mean.
das imagens mais fortes que podemos destacar do tempo que estamos a viver é sermos confrontados com uma imagem e até em repetição e alguém a dizer que o que nós estamos a ver não é o que estamos a ver mas antes sim sim outra coisa, repetidamente, é poderoso
Abstract Painting, 1963, Ad Reinhardt (American, 1913-1967)
Uma vez que sou cidadão português, dizer que não mereço o dom e a qualidade de ter Gonçalo M. Tavares a escrever em língua portuguesa, e a partilhar o mesmo tempo. Sou dos que não merecem. O meu Jerusalém é uma sétima edição, lida há apenas meio ano e da sua obra apenas li ainda Uma Viagem à Índia e Matteo Perdeu o Emprego, que devorei. Aprender a rezar na Era da Técnica está ali, quase quase. Não mereço, outra vez, portanto. Sem lirismo. É mesmo assim.
Recebi um destes dias, na caixa do correio, umas fotocópias amarelecidas duma entrevista que Gonçalo Tavares deu à revista chamada, exageradamente, Ler. As perguntas do jornalista/conversador são naturalmente, e mais uma vez, más e dá para passar por cima delas, lendo só as respostas. Foi o que fiz numa segunda leitura.
Mas antes de lá ir fiquemos antes por aqui:
Sexta-feira, 26 de Novembro, Ípsilon, página 36, título da recensão A tabela periódica, autor Pedro Mexia:
"E cada texto nomeia, a bold, o protagonista do texto seguinte, incluindo um, chamado Nedermeyer, que nem chega a aparecer."
No livro, página 151: "A seu lado, por exemplo, Matteo tem um homem, Nedermeyer, que está a vender fotografias antigas da família. Matteo disse que não tinha dinheiro, mas que se ele próprio fizesse negócio depois lhe compraria as fotografias. - Há uma hora vi um atleta a ser atropelado --disse o homem, Nedermeyer. - Está a ser um dia muito longo. (Nedermeyer entretanto nada dissera -- ou por delicadeza ou por já não ter forças para protestar -- mas era evidente o mau cheiro que vinha do embrulho que estava aos pés de Matteo.)
[...]
Agora página 11: "No 3º andar, Nedermeyer vê tudo da janela do apartamento que acabara de esvaziar por completo, na véspera, de móveis e objectos. De costas para a janela, de joelhos, está uma prostituta que há muito baixara as calças do Sr. Nedermeyer. Este, no entanto, mesmo naquela situação, não deixou de ver tudo o que aconteceu na rua. E passado uma hora estará na feira a vender velhas fotografias do seu casamento, que levará num envelope."
Mexia, enfim; nem literal nem sem ser literal. É mau. É a vida. Mais vale cair em graça, com letra pequena.
Mas, depois, acho, piora ainda mais: Mexia, ibidem: "Que o ´não` de Kashine mostra que a verdade é aleatória, e que a insubmissão verbal pode ter consequências desvastadoras. Tavares está decerto consciente de que essa sua ´interpretação autêntica` é contestável, mas na verdade essa interpretação é apenas mais uma ligação."
Na página 166 "não que introduz o caos, de certa maneira, a maldade (...) bastando acrescentar o não, onde antes estava o sim, para dar início ao inferno, ao desassossego."; na página 192: "Pois o que vemos na história de Kashine é precisamente esta exactidão que explode, que provoca múltiplos efeitos, um não que perturba, que põe em causa, um não que não domina os seus efeitos.
Voltando lá: as entrevistas deste entrevistador, quer para a rádio, que agora às vezes sou obrigado a ouvir, pelo menos um ou dois minutos, quer as apenas escritas, são más por várias razões, são as perguntas e o tom das perguntas, o não encadeamento nas ideias e reflexões dos convidados, parece que há perguntas playlist ou perguntas teleponto e que fugir delas é o trapézio sem rede, fica-se exposto ao dizer não sei, nunca pensei, nunca reflecti, explique-me, não conheço, nunca vi, nunca me apercebi ou percebi, mas o que parece certo é que a falta de trapézio é muito pior. E depois é o que se vê e lê.
As páginas que aparecem numeradas com o número 36 e 37 são bem prova do que acabei de dizer, mas em pior ainda, porque revelam também a ausência, muitas conversas e entrevistas depois, de reflexão sobre aquilo que vê, lê e ouve. Então as perguntas que começam "«O Reino» talvez não explicite nomes de autores..." e "Se esse jogo intertextual e metaliterário for muito..." são ruinosas e o tralho é grande mas mostram, por outro lado, um Gonçalo M. Tavares de excelência.
Para terminar, na página 125 de A Literatura Nazi nas Américas, Roberto Bolaño, sobre Max Mirebalais, ou Max Kasimir, Max von Hauptmann, Max Le Guele, Jacques Artibonito:
"O êxito de Von Hauptmann foi imediato. Assim, enquanto Mirebalais passava os dias a tentar matar o aborrecimento que o seu trabalho na embaixada lhe causava ou se submetia a revisões médicas intermináveis, nalguns círculos literários parisienses começava a ser conhecido como o Pessoa bizarro das Caraíbas. Claro que ninguém se apercebeu (nem sequer os poetas plagiados, pois não será ilícito pressupor que algum deles terá lido os curiosos textos de Von Hauptmann) do engano."
O Pessoa bizarro das Caraíbas, esta nota apareceu em alguma das recensões que entretanto já foram publicadas em Portugal? Dá dó.
"Comecei a visita ao Japão pelo chamado «Passeio dos Filósofos». É um longo caminho silencioso junto de um dos braços do rio, onde duas pessoas podem caminhar não apenas durante uma hora, mas durante uma vida. Em vez de "Passeio dos Filósofos" seria, talvez, mais correto designá-lo por caminho «dos Mestres», ou «do discípulo e do Mestre», se pensarmos que a cultura japonesa nunca enveredou pelos modelos especulativos da filosofia ocidental, mas se fixou na procura de uma sabedoria que é, antes de tudo, uma arte de ser e de viver.
Olhando deste caminho, que há centenas de anos pertence ao património da cidade de Quioto, para o nosso paradigma europeu, percebemos que as diferenças são tantas e todas dão que pensar. Nós fomos relegando as formas de aprendizagem para escolaridades várias (desde a pré-primária às pós-graduações) e rodeamos de um implacável silêncio a formação para a sabedoria. O nosso sistema hipervaloriza os aspetos técnicos e extingue as humanidades: é uma complexa máquina de transmitir saberes que se demitiu de ajudar cada um na tarefa de encontrar unidade, sentido e sabedoria. Aprendemos a olhar com grandes lentes os confins do universo, mas, não raro, perdemos a capacidade de olhar e compreender o que nos está mais próximo.
A pensar nisso, deixei-me, esta manhã, percorrer o «Passeio dos Filósofos», recordando duas histórias de mestres e discípulos, talvez ocorridas por aqui. A primeira: «Um jovem atravessou o Japão em busca da escola de um famoso praticante de artes marciais.
- O que pretendes de mim? - perguntou-lhe o mestre.
- Quero ser teu discípulo e tornar-me o melhor do país inteiro. Quanto tempo preciso de estudar?
- Dez anos, pelo menos.
- Dez anos é muito tempo, respondeu o rapaz. E se eu praticasse com o dobro da intensidade dos outros estudantes?
- Vinte anos.
- Vinte anos! E se eu praticar noite e dia, dedicando a isso todo o meu esforço?
- Trinta anos.
- Mas, se te digo que vou dedicar-me o dobro, respondes-me sempre que a duração será ainda maior?
- A resposta é simples. Quando um dos teus olhos está completamente fixo num ponto, só te resta um para olhares todas as outras coisas».
E a história seguinte era esta: «Um discípulo foi ter com o seu professor de meditação, cheio de tristeza, quase a desistir, e disse: "A minha prática de meditação é um fracasso! Ou me distraio completamente, ou as pernas me doem muito, ou me entrego ao sono".
"Isso passará" - disse o mestre suavemente.
Uma semana depois, o mesmo estudante voltou à presença do mestre, mas agora eufórico:
"A minha prática de meditação tornou-se maravilhosa! Sinto-me tão vigilante e tão pacificado. É simplesmente extraordinário.
"O mestre respondeu-lhe com a mesma tranquilidade: "Isso também passará."».
Não sei bem se a crise que hoje assola as escolas é uma crise que diga respeito só a elas. Em vez de crise de aprendizagem não deveríamos antes falar de crise de transmissão? Em vez de colocar o fardo do insucesso aos ombros da geração que principia, não deveríamos antes refletir sobre a qualidade e a validade daquilo que, como comunidade, nos dispomos a transmitir?"
Jean-Luc Godard faz hoje 80 anos e o El Cultural também merece um abraço, e é tão bom quando chegamos idos das folhas de merda dos jornais portugueses a uma página assim sem contar quase sem procurar e. "-¡Al contrario, al contrario!"
"-Deberíamos darle las gracias a Grecia. Occidente es quien está en deuda con Grecia. La filosofía, la democracia, la tragedia... Siempre olvidamos las relaciones entre democracia y tragedia. Sin Sófocles, no hay Pericles. Y sin Pericles, no hay Sófocles. El mundo tecnológico en el que vivimos se lo debe todo a Grecia. ¿Quién inventó la lógica? Aristóteles. Si esto es así y si eso es asá, entonces aquello. Lógico. Este tipo de pensamiento es el que utilizan constantemente las fuerzas dominantes, asegurándose de que no haya ninguna contradicción, que todo quede siempre dentro de una misma lógica. Hannah Arendt tenía razón cuando dijo que la lógica conduce al totalitarismo. Así que todo el mundo le debe dinero a Grecia hoy en día. Podría reclamar millones de millones en concepto de derechos de autor al mundo contemporáneo y sería lógico dárselos. Sin dilación. También se acusa a los griegos de ser mentirosos... Esto me recuerda a un viejo silogismo que aprendí en la escuela: Epaminondas miente; ahora bien, todos los griegos mienten; así pues, Epaminondas es griego. No hemos avanzado mucho.
-¿Por qué prefiere utilizar imágenes de Varda para expresar la paz en Oriente Medio a rodar usted sus propias imágenes? -Me pareció que la metáfora en la película de Agnès estaba muy bien.
-Pero ella no le dio ese significado... -No, por supuesto. Soy yo quien lo construye recontextualizando esas imágenes. En ningún momento pensé en ser fiel a ese sentido original. Simplemente, esas imágenes me parecieron perfectas para lo que yo quería decir. Si los israelíes y los palestinos montaran un circo e hicieran un número de trapecio juntos, las cosas serían muy distintas en Oriente Medio. Estas imágenes muestran para mí un acuerdo perfecto, exactamente lo que yo quería expresar. Por tanto, cojo la imagen, ya que existe.
Yo creo que la película se debería haber beneficiado de la misma generosidad en la distribución que tuvo en la duración de su rodaje.
-¿Qué quiere decir exactamente?
-A mí me hubiera gustado que contratáramos a una pareja, a un chico y a una chica que estuvieran vinculados al cine, con ganas de mostrar cosas, el tipo de jóvenes que te encuentras en los pequeños festivales. Se las da un copia en DVD de la película y, luego, se les pide que asistan a un curso de paracaidismo. Entonces, señalamos al azar algunos puntos en el mapa de Francia y ellos se tiran en paracaídas a esos lugares. Su misión consistiría en proyectar la película en el lugar donde aterricen. En un café, en un hotel... tendrían que apañárselas como pudieran. El precio de la sesión podría ser 3 ó 4 euros, no más. Además, hubieran podido filmar su aventura y venderla después. Gracias a ellos, hubiéramos podido calibrar la reacción de la gente. Sólo después podríamos haber tomado la decisión de si valía la pena proyectar la película en salas normales. Pero no antes de haber llevado a cabo un estudio sobre la cuestión durante uno o dos años. Porque antes, el distribuidor no sabe qué es esta película ni a quién puede interesar.
Usted ha desaparecido de los medios de comunicación. En los años ochenta era frecuente verlo en la televisión, hablando con la prensa.
-Sí, este tipo de cosas actualmente me disgustan. En esa época, yo creía en ello. No pensaba que pudiera cambiar nada pero sí que podía interesar a un público que quizá quería hacer las cosas de otra manera. Pero sólo les interesa durante tres minutos. Todavía hay cosas que me atraen de la televisión: los programas de animales, los canales de Historia. También me gusta mucho Dr. House. Hay un herido, todo el mundo se arremolina en torno a él, los personajes se expresan con un vocabulario hipertécnico, me gusta. Pero me veo incapaz de ver dos capítulos seguidos.
-¿Por qué ha invitado a Patti Smith y al filósofo Alain Badiou a su película si después salen tan poco?
-Patti Smith estaba allí y la filmé. No veo por qué tendrían que salir más planos de ella que de, por ejemplo, una sirvienta.
-¿Y por qué le pidió que estuviera allí?
-Porque es una buena americana, alguien que encarna una cosa distinta al imperialismo.
-¿Y Alain Badiou?
-Quería citar un texto de la geometría de Husserl y quería que alguien elaborara algo propio a partir de allí. Y a Badiou esto le interesaba.
-¿Por qué lo filma en una sala vacía?
-Porque su conferencia no interesaba a los turistas del crucero. Anunciamos que habría una conferencia sobre Husserl y no apareció nadie. Cuando Badiou vio la sala vacía le gustó mucho. Dijo: “Finalmente voy a hablar ante Nadie”. Habría podido rodarlo de más de cerca y ocultar que la sala estaba vacía, pero era necesario mostrar que era una metáfora del desierto, que estamos en el desierto. Me hace pensar en la frase de Jean Genet: “Hay que ir a buscar las imágenes porque están en el desierto”. En mi cine no hay intenciones. No soy yo quien ha inventado esa sala vacía. Yo no quiero decir nada. Intento mostrar, o hacer sentir, o permitir que después se diga otra cosa.
-Cuando se escucha: “Los canallas hoy son sinceros, creen en Europa”, ¿qué le permite decir esto? ¿No se puede creer en Europa sin ser un canalla?
-Esta es una frase que se me ocurrió leyendo La náusea de Sartre. En aquellos tiempos, el canalla no era sincero. Un torturador sabía que no era honesto. Hoy el canalla es sincero. En cuanto a Europa, existe desde hace mucho tiempo, no había necesidad de construirla como lo hemos hecho. Me cuesta comprender, por ejemplo, cómo se puede ser un parlamentario de Europa como Danny (Cohn-Bendit). Es extraño, ¿no?"
«Todos os títulos se dirigiram para este: Tendas no Deserto. Recolhi-o do livro de Levinas sobre Maurice Blanchot, numa passagem que une a arte e o rosto sob o signo do nomadismo: “A arte, segundo Blanchot, longe de iluminar o mundo, deixa perceber o subsolo desolado, fechado a toda a luz que o sustém e devolve à nossa estadia a sua essência de exílio e aos prodígios da nossa arquitectura a sua função de tendas (cabanes) no deserto” . E Levinas retoma esta expressão no início do parágrafo seguinte: “Tendas (cabanes) no deserto. Não se trata de voltar atrás. Mas para Blanchot, a literatura relembra a essência humana do nomadismo. O nomadismo não é a fonte de um sentido, aparecendo a uma luz que nenhuma mármore devolve, mas o rosto do homem” . § Cada auto-retrato é apenas um abrigo temporário, num êxodo de quem sabe não ter aqui morada permanente. Um si sem lugar, fora do lugar, deslocado, que se reconhece a si mesmo como o lugar de errância.»
Paulo do Vale
«Nesta exposição, deixamos os desenhos nas paredes, sem moldura e sem protecção do vidro, para assim se poder experimentar de modo directo a matéria, o próprio cheiro da tinta de óleo, das cinzas; ver as falhas no papel rasgado, sentir a presença física, eminentemente física, destas obras. Não apenas de uma imagem, fantasmática, mas da sua carne—criada num combate corpo a corpo, que pressentimos, entre o artista e o papel.»
Paulo do Vale Catálogo Assírio & Alvim, 2010
Curadoria Paulo Pires do Vale Fundação Carmona e Costa, INAUGURAÇÃO 4 de Dezembro (Sábado) às 17h00 Exposição patente até 26 de Fevereiro '11 de Quarta a Sábado das 15h00 às 20h00
Nas últimas páginas do seu maravilhoso tratado/legado/endosso/também testamento, Um Tratado sobre os nossos actuais descontentamentos, Tony Judt escreve sobre o serviço público que é o comboio, que são os caminhos-de-ferro, e cita Marcel Proust "as estações ferroviárias... não constituem, por assim dizer, parte da cidade, mas contêm tanto a essência da sua personalidade, como o nome pintado no letreiro".
E diz, abram-se ò tímpanos, aquilo que nós/mundo precisamos de ouvir/reflectir/agir.
"Os comboios já eram o símbolo da vida moderna no decénio de 1840 --daí a atracção que exerciam nos pintores ´modernistas`, de Turner a Monet. Ainda desempenhavam esse papel na época dos grandes expressos que atravessaram o país na última década do século XX. Os comboios electrificados do metropolitano foram os ídolos dos poetas e artistas gráficos modernistas a partir de 1900; nada era mais ultramoderno que os novos supercomboios aerodinâmicos que adornavam os cartazes neo-expressinistas dos anos 30. O Shinkansen japonês e o TGV francês são hoje os ícones do sortilégio técnico e de grande conforto a 300 km/h. Os comboios, ao que pareceria, são eternamente contemporâneos --mesmo que saiam de vista por um bocado; neste sentido, qualquer país sem uma rede ferroviária eficiente é, em aspectos fulcrais, ´atrasado`." (Tony Judt, Il fares the Land, 2010)
Quase como muitos milhões de pessoas também tive quem na infância mais primeira me falasse apaixonadamente de comboios, "um dia destes vamos fazer uma viagem até ao Porto de comboio", e depois vê-los nas páginas dos livros onde começamos a aprender a ler e a escrever, e depois de estar parado nas filas de trânsito imensas imensas que nos levavam até à Póvoa de Varzim, pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra... tanta terra, tanta terra, tantos sonhos.
Antes de ler o texto que tinha ao lado, não me lembro do que achei que era quando a vi pela primeira vez, talvez uma avião, talvez um insecto, um trompeteiro nova-iorquino, talvez... metamorfose, talvez um fantasma, talvez uma nuvem negra, talvez um novo ser ou um dos mais antigos, em certos baralhos de cartas o ás de espadas, a entrada na mina, a auto-estrada quase diária para o Porto há uma dúzia de anos, o Homem numa trincheira, não sei, sou dependente de campo. Mas lembro-me de achar que ele e Tony Judt estão, se não no mesmo comprimento de onda, muito perto.