fotogramas de Uma História de Violência, de David Cronenberg
Ainda na mesma entrevista quando lhe pediram para contar um segredo George Steiner disse que o comunismo, mais cedo ou mais tarde, vai impôr-se, triunfar.
Agustina Bessa-Luís, creio que foi, disse há algum tempo atrás que vivendo numa sociedade em que todos nos vemos a todos e a quase tudo as desigualdades vão ter, obrigatoriamente, de se esbater. Com mais violência ou com menos violência, dependendo do comportamento que formos, enquanto conjunto de homens e mulheres que vamos vivemos lado a lado, tendo e adoptando.
É cada vez mais visivel que o regresso a uma nova espécie de polis grega, ateniense, já está em andamento. Como será o caminho?
Vejamos três ou quatro acontecimentos que marcaram os últimos tempos, só para vermos a não aceitação e intolerância que se vai apossando de nós devido à pornografia do favorecimento em directo com milhões e milhões de pessoas a assistir, e também a outro tipo de situações mais ou menos visíveis:
1) a meio e no final do passado mês de Maio o Chelsea jogou uma eleminatória a duas mãos com o Barcelona, no âmbito da mais importante competição de clubes de futebol do mundo; pelo menos é onde é mais bem pago e mais visto. O que é que aconteceu no jogo da segunda mão, em Londres, quando a equipa da casa ganhava por 1 a 0 e tinha a presença quase assegurada na final da mesma prova? O que milhões de pessoas viram em directo foi o juiz principal do jogo avaliar e julgar sucessivamente mal lances a favor da equipa londrina e a protelar a possível presença da equipa da Catalunha na dita final. A um minuto do final da partida o Barcelona conseguiu o que almejava. A revolta que se foi apossando das pessoas que estavam no estádio e também em casa ao longo do jogo, pelas más decisões do juíz principal, explodiu no fim com alguns jogadores de cabeça perdida a querer tirar satisfações com o mesmo juiz. Drogba, por exemplo. Quem dos que estavam a ver achou que Drogba não tinha legitimidade para tal?
Ainda no futebol, há poucos dias atrás a selecção francesa conseguiu o apuramento, à custa da selecção da República da Irlanda, para o mundial da mesma modalidade que se vai realizar no próximo ano na África do Sul. Como foi conseguido esse apuramento, à vista também de milhares de espectadores e de milhões de telespectadores? Desta feita, até o governo Irlandês tentou anular as decisões dos juízes daquele jogo. Platini, defendendo o modus operandi da Fifa, respondeu assertivamente que não se repetia nada muito menos se anulava.
Como foi analisada esta situação por cá, em alguns jornais? No público, que é o jornal que diariamente leio, vi umas setas para cima nuns casos outras no sentido contrário, revelando uma grande confusão, um navegar ao sabor de sei lá o quê; diga-se, também, que o desporto no público mais parece o inimigo público todos os dias, o que tem algumas vantagens. Vejamos: um dia destes grandes elogios ao Barcelona que ganhou tudo, perfeito, mais ao seu treinador. À arbitragem do França-Irlanda que sim, que sim, estava muito mal. Há critérios ou não? Defende-se algo ou não? Da comunicação social espanhola nem falar, é do mais chauvinista que se pode ler, uma vergonha.
2) a agressão ao primeiro ministro italiano.
3) a agressão/empurrão ao Papa na Capela Sixtina no dia 24 de Dezembro.
No seguimento do If you ever go to Houston (18), o bem público numa polis democrática comum será cada vez mais um dos desígnios procurados e exigidos pela grande maior parte das pessoas e indivíduos. Quando se tentar ludibria-los que se esperem reacções mais ou menos violentas, individuais ou colectivas. Seremos capazes de abrir os olhos e olhar lá para dentro?
Mark Lentz photo, Tony Oursler's "The Influence Machine"
3 momentos de mau gosto, culturalmente falando, e não só, em Portugal no ano de 2009:
1. Os erros e as gralhas presentes nos textos da exposição Encompassing theGlobe: Portugal e o Mundo nos séculos XVI e XVII, Museu Nacional de Arte Antiga, e o silêncio da comunicação social sobre os mesmos e as mesmas; uma exposição organizada, mostrada e patrocinada ao mais alto nível. Leia-se no site da exposição a Análise de resultados, fragmentos:
"Com efeito, a exposição em Lisboa constituiu, mesmo para os comissários científicos, um acontecimento absolutamente excepcional, pelo espaço onde foi montada, o piso 02, o mais amplo e qualificado do Museu, pela clareza da montagem e pela inclusão, em contextos únicos, de tesouros nacionais e obras de colecções particulares, raramente vistas em público.
O Serviço de Educação geriu um grupo de técnicos responsáveis por acolhimentos e visitas guiadas à exposição que, para este efeito, tiveram formação adequada tanto nos conteúdos científicos da exposição como nas técnicas de comunicação para grupos de diferentes níveis etários e culturais.
Um vasto programa regular de visitas gerais e temáticas foi assim levado a cabo, orientadas pelos técnicos do Serviço de Educação e pela equipa de técnicos referida a que se associaram os conservadores do Museu Nacional de Arte Antiga, e ainda os comissários científicos da exposição Julian Raby, Jay Levenson, Jean Michel Massing, Nuno Vassallo e Silva e vários outros especialistas em História e História de Arte.
A comunicação social deu boa cobertura ao evento na sequência das duas conferências de imprensa realizadas a 2 de Junho com as presenças da Secretária de Estado da Cultura, Secretário de Estado do Turismo, o Director do Instituto dos Museus e da Conservação e o Director do Museu Nacional de Arte Antiga e a 14 de Julho com Bernardo Trindade (Secretário de Estado do Turismo), Maria Paula Santos (Secretária de Estado da Cultura), Luis Patrão (Presidente do Turismo de Portugal), Manuel Bairrão Oleiro (Director do IMC), Paulo Henriques (Director do MNAA), Julian Raby (Smithsonian Institution), Jay Levenson (MoMA), Nuno Vassallo e Silva (Museu Calouste Gulbenkian), e houve referências à exposição em cerca de 100 meios de comunicação social entre periódicos, estações de rádio, canais televisivos nacionais e estrangeiros.
O programa Câmara Clara, realizado por Paula Moura Pinheiro para a RTP 2, dedicou à exposição a sua edição de 5 de Julho, com a presença de Nuno Vassallo e Silva e Paulo Pereira. Foram feitos directos pela RTP 1 para o programa Portugal em directo, e para a SIC Notícias.
Consideram-se atingidos os objectivos de promover valores de auto-estima na população portuguesa, pelo reconhecimento aprofundado dos valores da sua História e Cultura, o que foi comprovado pelos inúmeros comentários de visitantes, que se manifestaram orgulhosos, comovidos, emocionados com a «magnifica exposição exemplificando parte do melhor legado positivo de um verdadeiro “encontro de culturas” naquilo que desse encontro é mais duradouro - a ARTE!»."
2. A Fundação de Serralves na sua homenagem a Manoel de Oliveira, aquando dos seus 100 anos, organizou uma belíssima exposição, de altos e baixos, diga-se, sobre a sua obra e sobre a sua vida, como não pode deixar de ser. A par da exposição decidiu editar três belos cadernos dentro de uma bela caixa preta, cujo preço não era nada apelativo, sobre a mesma. O problema é que o terceiro caderno ainda não viu a luz do dia aka não chegou às mãos dos seus compradores e quando para lá se pergunta quando é que ele chega ou se se passa ou passou algum mal entendido respondem, da livraria do museu, que não sabem, que já devia ter saído mas ainda não saiu. Já lá vai muito tempo e o pagamento foi integral a pronto e muito rápido, quase há dois anos.
3. Não estive lá nem lá iria se pudesse, não simpatizo com as pessoas responsáveis pela edição e pela organização do lançamento do 2666 de Roberto Bolaño, na Lx Factory. Vi no dia seguinte, creio, na sic-notícias um pequeno apontamento jornalístico sobre o mesmo e vi e li, nos dias seguintes, fotografias e alguns textos sobre a mesma festa de lançamento. De tão mau gosto, de tão mau gosto aquelas pessoas ali a meio da escadaria, alta, viradas para baixo a ler um fragmento de 2666... O que salvou aquilo foi e seria sempre o 2666, mas associar aquele momento à edição de um livro de Roberto Bolaño... 2666, e que fosse a outro autor... muito muito mau.
1. O que significa bem público? O que significa interesse comum? O que é gerir aquilo que não é nosso mas de uma enorme multidão, de milhões? Que importância têm estas perguntas e com que frequência se fala nelas nos canais de tv e nos jornais e nas revistas e nos cafés e nas universidades?
De modo que podemos concluir que é aquele nível de grau cultural ou civilizacional ou de cidadania em que qualquer pessoa tem vergonha própria em não cumprir o dever que jurou para servir, o dever que tem de cumprir e que se não for capaz tem o dever de abdicar; sim, será um grau civilizacional, cultural e de cidadania maior; maior do que a puta da ambição da luta pela eternidade, que atropela tudo e quase todos para ter lá o nome; haverá sempre revisionistas.
Aquando das últimas eleições nos Estados Unidos da América alguns jornalistas relataram que a grande maior parte das pessoas com quem falaram olhavam para eles com ar estranho quando lhes perguntavam sobre se ser preto ou se ser branco; nessa estranheza morava esse grau civilizacional, cultural e de cidadania.
2. A dado passo John Steinbeck diz que há poucos homens; os olhos continuem em frente mas o cérebro parou: há poucos homens, há poucos homens. Numa das suas últimas crónicas, intitulada Não há homens, Vasco Pulido Valente chama a atenção para a essência, até que enfim, custa mas chega-se lá, ainda que atrasados. A questão é essa mesma, e só essa: lá está, de natureza civilizacional, cultural e de cidadania.
É aqui que olhamos à volta a ver se damos de olhos em alguém e... nada. É aqui que Pulido Valente e Pacheco Pereira não entendem e não querem entender que a eleição de Barack Obama teve a importância que teve e foi mundo não foi só um país; nem perceberam por que é que lhe deram o nobel. Mas deviam, nem que fosse por esse átomo de esperança, nem que fosse apenas por uma partícula desse átomo.
Às vezes distraio-me e fico a ouvir este e aquele e começo a ouvir vozes: mas que raio diz este ou aquele? Está tão desfocado, mas tão desfocado. Mas está nos seus minutinhos semanais de abrir a goela e dizer o maior número de disparates no mais curto espaço de tempo.
Tirando 3 ou 4 pessoas que comentam o resto é para encher balões e perder humildades; não dizem nada, nada, nada. Um exemplo: nunca percebi o que o blog chamado blasfémias tinha de especial, nunca lá vi nada a não ser a discussão do assunto do dia e da noite num horizonte muito muito curto; dali nada. Portugal é assim: cheio de comentadores de tudo e mais alguma coisa que não sabem o que dizem, repetem o que a loja ou a capelinha os manda dizer.
3. Já aconteceu muitas vezes ao longo da História, e vai continuar a acontecer. Umas vezes ficam mais famosas do que outras, porque a loucura/insanidade é maior: Nero por exemplo. Egipto, Grécia, Roma, Idade Média, Os descobrimentos portugueses e espanhóis, o Absolutismo, as revoluções liberais, o século XX.
Hoje.
Parece que passamos bem ou com um mero encolher de ombros a aceitar situações, coisas, opiniões, decisões, discursos que se aproximam do grau zero, que põem, de algum modo, em causa o grau civilizacional, cultural e de cidadania. Apenas que sabemos que aquilo não é assim mas que colectivamente se faz passar por assim para ser aceite assim.
E vamos caminhando para muito perto da loucura uma vez mais; nem com Dante.
Nestes centros de poder e/ou de decisão e na periferia mais próxima acham que sim, lembro-me sempre do momento em que passei a achar que a loucura nos ia invadindo: Mário Soares dentro de um autocarro a mandar e a maltratar verbalmente um homem da GNR para ser bem visto pela televisão e mostrar que era fixe por esse país fora. Achei abjecto.
Dirão: Maquiavel. Aqui estamos, direi.
E agora?
Agora é, como não podia deixar de ser, muito pior. Alastrou. Vingou. Mostrou. Matou.
São tantos os exemplos que até dói.
Neste momento de muito má História de Portugal, um primeiro ministro que é para lá de muito mau, mesmo inacreditável, temos e tivemos um governo que vai ficar também muito mal na fotografia, julgavam o quê?; pode, como diz Pulido Valente, ter a vantagem imediata, aparecer, senão o que faria?, na imprensa e etc, etc, mas estão e vão ficar muito mal na fotografia, muito mal. E os comentadores/revisonistas em directo também. Mas como não conseguem lá chegar... na aldeia, a sabedoria camponesa, como lembrava um destes dias Pacheco Pereira, diz-se que esses é que são os espertos, os muito espertos.
4. "Há um exemplo famoso, preparado pelo professor Daniel J. Simons da Universidade de Illinois. Durante 25 segundos, filmou meia dúzia de jovens de pé, dispostos em círculo, que lançam um par de bolas de basquetebol uns para os outros; nós, os objectos da experiência, observamos o filme. Os jogadores avançam e recuam no círculo e trocam de lugar à medida que passam e batem as bolas, o que torna a cena activa e complicada de seguir. Antes de assistirmos ao filme, é-nos dito que temos uma tarefa a desempenhar, para testar o nosso poder de observação. Temos de contar o número total de vezes que as bolas passam entre as pessoas. No fim do teste, as contagens são anotadas, mas --mal sabe a audiência-- não é este o verdadeiro teste! Depois de assistir ao filme e de recolher as contagens, o experimentador surpreende toda a gente: «Quantos viram o gorila?» A maior parte da audiência fica estarrecida: não viram nada. O experimentador volta a passar o filme, mas desta vez diz à audiência para o observar de forma descontraída, sem se preocupar com contagens. Nove segundos depois, um homem com um fato de gorila dirige-se calmamente para o centro do círculo de jogadores, pára de frente para a câmara, bate no peito como se desafiasse os observadores e sai com a mesma despreocupação de sempre. Esteve à vista de todos durante nove segundos --mais de um terço do filme --e, contudo, a maior parte das testemunhas nunca o vira."
Richard Dawkins (trad.Isabel Mafra), O Espectáculo da Vida A Prova da Evolução, Casa das Letras, 2009, pp. 25 e 26.
2 cenas 4 fotogramas de dois grandes filmes da primeira década do século XXI, Uma História de Violência, de David Cronenberg, e Crash, de Paul Haggis, se é para listar é para listar, Eco, Coração.
"O momento de grande ansiedade para Stravinsky veio a ocorrer quando interpretou a sua Sonata para Piano no festival da ISCM de 1925, em Veneza. Janácek estava lá e também estavam Diaghilev, Honegger, a princesa de Polignac, Cole Porter, Arturo Toscanini, e Schoenberg, com o seu olhar avermelhado. Muitos puseram em causa o novo estilo neoclássico de Stravinsky; correu o rumor de que ele já não era um compositor «sério», que tinha passado a ser um imitador. Segundo relatos da altura, Schoenberg saiu da sala. Stravinsky deve ter tido consciência do cepticismo que o rodeava; segundo escreveu o seu biógrafo Stephen Walsh, a insegurança era «o demónio que espreitava permanentemente nas regiões profundas da consciência de Stravinsky». Também as tensões emocionais o avassalavam. Yekaterina Stravinsky, a sua mulher, tinha sofrido um esgotamento nervoso devido a tuberculose. A devoção de Yekaterina à ortodoxia russa parecia uma censura silenciosa ao estilo de vida peralta do marido, já para não falar do seu caso com Vera Sudeykina, que continuava. Alguns dias antes do concerto, apareceu um abcesso na mão direita de Stravinsky. Um pouco para sua própria surpresa, foi a uma igreja, ajoelhou-se e pediu ajuda divina. Precisamente antes de se sentar para tocar, espreitou por debaixo da ligadura e viu que o abcesso já lá não estava. Esta cura súbita soou a Stravinsky como milagre, pelo que começou a sentir um renascimento da sua fé religiosa. O seu «retorno oficial» aos sacramentos teve lugar quase um ano depois, durante a Semana Santa de 1926, quando contou a Diaghilev que estava a fazer jejum «devido a uma necessidade mental e espiritual extrema». Por volta da mesma ocasião, Stravinsky escreveu uma breve e pungente composição do pai-nosso em eslavo antigo. Ao longo dos cinco anos seguintes compôs uma trilogia de obras sagradas de tom solene ou explicitamente sagrado: Oedipus Rex, Apollo, Sinfonia dos Salmos. A religião era a sua nova «realidade», os seus novos alicerces; deu substância à sua devoção ao passado e, não por acaso, deu sentido à sua vida ligeiramente dissoluta. Ao redescobrir a religião, Stravinsky estava paradoxalmente a seguir a moda. O ano de 1925 foi um ano de sobriedade renascida na cultura francesa. Muita gente andava a meditar sobre um ensaio de despedida escrito por Jacques Rivière, recentemente falecido, sobre a «crise do conceito de literatura»; o crítico sugerira que as artes se estavam a tornar demasiado desinteressadas, demasiado «desumanas», e citou a «música dos objectos» de Stravinsky como um dos sintomas de um declínio ético e espiritual. Cocteau, depois de sofrer a perda do seu jovem amante Raymond Radiguet, viciara-se em ópio e depois de passar por uma epifania alucinatória no elevador de Picasso, regressou ao catolicismo em Junho do mesmo ano. O mestre espiritual de Cocteau era o filósofo neotomista Jacques Maritain, que acreditava que a arte moderna se poderia purificar, adquirindo uma imagem de verdade divina, assumindo-se como «perfeita, completa, limpa, durável, honesta». Também Stravinsky foi influenciado por Maritain, talvez por se ter sentido punido quando o filósofo criticou a noção de «arte para nada, para nada mais do que ela própria». Depois de reflectir sobre a ideia de uma ópera ou de um oratório sobre a vida de São Francisco de Assis, Stravinsky optou por enveredar por um tema da tragédia antiga e pediu a Cocteau que escrevesse uma adaptação em língua francesa da história de Édipo. De seguida mandou traduzir para latim. «A escolha do latim teve a grande vantagem de pôr à minha disposição um meio não morto, mas sim petrificado, e assim transformado em monumento imunizado contra todos os riscos de vulgarização», escreveu mais tarde Stravinsky. A partitura recomendava: «Só os seus braços e cabeças se movem. Devem dar a impressão de estátuas vivas.» Esta obra demonstrou um grande empenhamento relativamente ao projecto Rivière quanto à reabilitação espiritual e também quanto à filosofia de Maritain que afirmava ser a arte um trabalho sagrado. O envolvimento de Cocteau significou que Oedipus só poderia avançar em direcção à solenidade. As declamações em latim estavam entrelaçadas com uma narração que, em francês, era consciente e satiricamente pomposa. O narrador de Cocteau está tão embrenhado na sua dignidade literária que, por vezes, nem se apercebe do que se está a passar no palco. «E agora vão ouvir o famoso monólogo "O Divino Jocasta está morto"», proclama ele, mas a seguir não se ouve qualquer monólogo."
Alex Ross (trad. Mário César d`Abreu), O Resto é Ruído, casa das letras, 2009.
e ainda e também o tweet número 100 do twitter amontamagica dedicado ao Ilusões Perdidas, de Balzac:
Latest: Ilusões Perdidas: 100) A poesia sempre se sobrepôs à música. about 1 hour ago from web
e por falar em música, o texto, medíocre, que saiu no ípsilon da passada sexta-feira sobre O Resto é Ruído não faz referência ao site brasileiro de lançamento do livro nem ao genial site The Rest Is Noise onde se pode, enfim, saltar à corda e treinar a estafeta 4 x 400m, é mesmo Portugal. Nem e também uma referência ao tempo longo: Thomas Mann, Jacques Maritain, até nem à mão magoada de Stravinsky, ao seu pedido divino, e ao seu renascimento religioso, Oedipus Rex, Apollo, Sinfonia dos Salmos. Esta gente está é feita com Ruggles que "quando alguém observou divertidamente que um dos concertos havia esgotado a lotação da sala, Ruggles acusou a sua organização de «se vender ao público»."
E agora, da crista do Rodrigo e da dor de trono ao medo de mudar, da ignorância da consonância ao "Raca" e aos beijinhos queridos, do depois do PREC e do neo-retro-redneck dos enters ao gerados por uma pátria ausente buscamos um tempo transparente; do numa montra, um cadáver veste Chanel à lareira da Europa e ao avesso do começo, Vou a caminho do nada, entrem comigo se fosse difícil nem lhe tocava:
"SPIEGEL: Accountants make lists, but you also find them in the works of Homer, James Joyce and Thomas Mann.
Eco: Yes. But they, of course, aren't accountants. In "Ulysses," James Joyce describes how his protagonist, Leopold Bloom, opens his drawers and all the things he finds in them. I see this as a literary list, and it says a lot about Bloom. Or take Homer, for example. In the "Iliad," he tries to convey an impression of the size of the Greek army. At first he uses similes: "As when some great forest fire is raging upon a mountain top and its light is seen afar, even so, as they marched, the gleam of their armour flashed up into the firmament of heaven." But he isn't satisfied. He cannot find the right metaphor, and so he begs the muses to help him. Then he hits upon the idea of naming many, many generals and their ships.
[...]
SPIEGEL: But why does Homer list all of those warriors and their ships if he knows that he can never name them all?
Eco: Homer's work hits again and again on the topos of the inexpressible. People will always do that. We have always been fascinated by infinite space, by the endless stars and by galaxies upon galaxies. How does a person feel when looking at the sky? He thinks that he doesn't have enough tongues to describe what he sees. Nevertheless, people have never stopping describing the sky, simply listing what they see. Lovers are in the same position. They experience a deficiency of language, a lack of words to express their feelings. But do lovers ever stop trying to do so? They create lists: Your eyes are so beautiful, and so is your mouth, and your collarbone … One could go into great detail.
[...]
SPIEGEL: You yourself are more likely to work with books, and you have a library of 30,000 volumes. It probably doesn't work without a list or catalogue.
Eco: I'm afraid that, by now, it might actually be 50,000 books. When my secretary wanted to catalogue them, I asked her not to. My interests change constantly, and so does my library. By the way, if you constantly change your interests, your library will constantly be saying something different about you. Besides, even without a catalogue, I'm forced to remember my books. I have a hallway for literature that's 70 meters long. I walk through it several times a day, and I feel good when I do. Culture isn't knowing when Napoleon died. Culture means knowing how I can find out in two minutes. Of course, nowadays I can find this kind of information on the Internet in no time. But, as I said, you never know with the Internet."
fotograma de Syndromes and a Century, de Apichatpong Weerasethakul
Recebi a minha prenda de natal ontem por volta das 20h e alguns segundos, quando soube que o prémio Pessoa 2009 tinha sido atribuído a D. Manuel Clemente, bispo do Porto. Podem dizer ou achar que figura mais bacoca estás a fazer ao dizer isso, não me importo. Fiquei feliz, muito feliz. Um dos mais brilhantes intelectuais portugueses da actualidade. Da lista livros 2008 cá do sítio: [D.] Manuel Clemente, Portugal e os Portugueses, Assírio & Alvim; e da deste ano, em elaboração, Um só Propósito Homilias e Escritos Pastorais, Pedra Angular, e 1810-1910-2010 Datas e Desafios, Assírio & Alvim. E ouvi-lo? É uma festa para os ouvidos e um refresco constante para o cérebro.
Acho que a frase é de Guerra Junqueiro, e é mais ou menos assim, que Portugal não é dos banqueiros nem dos empresários nem dos políticos mas sim dos poetas dos escritores e dos homens de cultura.
"Tudo se complicava muito porque nós (mas quais nós?, quantos de nós) sentíamos, como um espinho na carne, o dever de lutar pela felicidade dos outros. Não o fazer era uma espécie de pecado. Não sabíamos viver com esse peso, essa hipótese sequer, na consciência. Mas lutar seria obedecer de olhos fechados a uma orientação que (e assim me parecia mais e mais) não levaria a lado algum, à transformação dos homens certamente não? E o papel do intelectual (como o de qualquer outro militante) poderia limitar-se a subir e descer escadas com o único objectivo de subir e descer escadas? Não seria sua estrita obrigação (não só dele, mas sobretudo dele) esclarecer, esclarecer, esclarecer os que só o não são, à partida por defeituosa, criminosa organização da sociedade? Uns, como eu, pensavam (o Cochofel, o Carlos de Oliveira, o Lopes Graça, não só estes) que a militância do artista deveria ser sobretudo (sobretudo, não só) no campo cultural. E que ela de modo nenhum deveria impedir o artista de dedicar-se ao conhecimento profundo da linguagem específica da arte e seus problemas. Que não havia arte revolucionária sem começar por ser arte. Que a desejada acção da arte junto do público, além de arte ser, exigia um mínimo de preparação da parte deste, a incluir nas tarefas políticas dos intelectuais.
Depois do 25 de Abril, com a euforia geral e a minha em particular (como era bom falar com toda a gente em qualquer parte!, ver que afinal isso é possível!), voltei a dar-me mais, a dar-me todo: artigos, entrevistas, discursos, reuniões, frenéticos trabalhos de organização e mobilização na escola, no Ministério, até na RTP, essa cabeça perigosa que também pensa por «milhões de cérebros». Pertenci até, embora por pouco tempo, na excelente companhia dos profs. Torre de Assunção e Ário de Azevedo, à Comissão de Saneamento do Ministério da Educação. Não há razão para ocultá-lo. Apesar do que diz uma linguinha que anda por aí escorrendo baba e devia ser cortada.
Luta tenaz, tão sincera como ingénua: os abutres estavam lá, na sombra ainda. Uma luta, como sempre, assente em dois pontos principais: cultura e unidade. Não me chegara a lição da vida inteira. Lutava contra moinhos, contra o vento. Terei de dizer uma vez mais, hei-de dizê-lo sempre, que nenhum partido de Esquerda percebeu (ou terá querido perceber), para além dos discursos, dos comícios, das entrevistas à Imprensa, não me interessa isso agora, que uma nação secularmente mergulhada na mais completa ignorância das suas próprias carências (que não são só pão e casa, e mesmo para ter o pão, para ter a casa), exigia, antes de tudo, sabem o quê?, ensino. Ensino, no sentido mais vasto e profundo da palavra. Tão vasto e tão profundo que a tarefa imensa de pôr milhões a saber ler e escrever (mas que é ler?, mas que é escrever?) mais não seria que um ponto de partida. Em todas idades. Em todos os recantos desta terra de milagres, crenças e crendices, de faz como vires fazer. Ensino para que se aprenda a ver com os próprios olhos, a intervir com as próprias mãos, a entender também que nunca é por acaso que se volta a falar, com redobrada insistência, nas suas glórias passadas --no largo Oceano ou nos palcos de revista--, como manda a receita dos bons tempos. Que os funâmbulos estão aí. À espera. Às ordens. Não é outra a sua profissão."
1. Aí há um ano, mais ou menos, George Steiner, em entrevista à revista do elpais de domingo, disse que andava muito admirado por a classe média baixa e os pobres não se revoltarem contra os seus dirigentes políticos e contra os seus chefes e contra quem mais fosse. Que estava muito admirado por as pessoas não sairem para a rua a protestarem. Abuso em cima de abuso, exploração em cima de exploração. Depois disso já tivemos Atenas, oh, Atenas. Um dia destes vai estar em Viseu, acreditam? Não é em Lisboa, e nota-se tão bem que não é em Lisboa. É lá para Viseu, para longe das muralhas. Muito longe. Esteve em Viseu mas para alguns provincianos lisboetas, em Portugal, só esteve em Lisboa, para receber o doutoramento honoris causa na Nova.
2. No passado dia 18 de Novembro, uma quarta-feira, de 2009, Manuel da Costa Andrade, Professor de Direito Penal da Universidade de Coimbra, escreveu um artigo para o jornal Público intitulado: Escutas: coisas simples duma coisa complexa. Já toda a gente citou o texto já se falou dele o suficiente até já o engavetaram. Só duas coisas mais, certamente sem importância: a primeira é a ironia do título, se foi sem humor é de um grande humor, aquele duma, aquele duma. A outra, bem mais séria, dá razão às palavras de António Manuel Pina hoje, no A face oculta do "milagre". Foram elas: "E sem outro interesse que não o de um contributo, seguramente modesto, para a reafirmação e o triunfo da lei. Pela qual devemos bater-nos ´como pelas muralhas da cidade` (Heraclito). E certos de que, também por esta via, se pode contribuir para o triunfo das instituições. E, reflexamente, para salvaguardar e reforçar o prestígio e a confiança nos titulares dos órgãos de soberania cujos caminhos possam, em qualquer lugar, cruzar-se com os da marcha da Justiça." Um dia destes o canal:youtube/amontanhamágica vai aparecer numa ou noutra conferência de imprensa e vai perguntar: o que acha do sentido do bem comum, do bem público, na política e nos políticos portugueses. Obrigado.
3. Do ponto três do If you ever go to Houston 12: sem comentários: no jornal público de hoje, quinta-feira, 15 de Outubro de 2009, página 12: a ministra da educação para uma aluna do primeiro ciclo do ensino básico: "E o que é que gostas mais nesta escola nova?" e a aluna: "Da professora." e a ministra, mais tarde: "os alunos naturalizam as condições envolventes e acabam por dar mais importância à figura do adulto."
Há quem tenha noção? "os alunos naturalizam as condições envolventes e acabam por dar mais importância à figura do adulto."
Isto é muito sério: "os alunos naturalizam as condições envolventes e acabam por dar mais importância à figura do adulto."
Só em Portugal é que a actual Ministra da Educação (Isabel Alçada), chega a e pode ser Ministra da Educação, confrangedor, confrangedora. Espera-se, a todo o momento, a expectativa é muita, a disponibilidade de Fernanda Câncio para "escrepver e assentar os feitos famosos asy nossos como de nossos Reynos" do Ministério dito da Educação.
4. O nojo em estado puro e a céu aberto também mora, desde há muito, pelos blogs jugular e da literatura, nenhum dos dois merece qualquer qualificativo para além daquilo que por lá se lê e vê, é mau de mais. Em relação ao segundo, juro que nunca percebi a atenção dada ao seu principal mantenedor, a sério, nunca, o que é que ele diz que se aproveite? Um dia escreveu que os professores que participaram nas grandiosas manifestações contra as políticas da anterior ministra da educação só o fizeram porque alguém os mandou ir, não tinham vontade própria, e inteligência nem falar, oh, oh, aqueles 120.000. E um dia destes escreveu esta pérola das pérolas:
É alguém que vale a pena, certamente, tomar atenção. Cada tiro cada melro. Eheheheh. Continua a valer a pena fazer de conta.
5. Algo que nunca julguei possível, mas como diz o provérbio pior é sempre possível:
6. Um pouco de futebol, agora, só para dizer aos inocentes dos dirigentes do Benfica sois uns inocentes. Pedi e exigi árbitros estrangeiros para os vossos jogos: então castigam o Cardozo com dois jogos, dois jogos, atenção, dois jogos, com Vanoidonk, foi o mesmo, ele andava a marcar muitos golos, castigam o Cardozo com dois jogos por algo que não se viu e o central da equipa mais representativa da cidade do Porto continua sem sequer ver amarelos mesmo quando pontapeia adversários já com eles sobre terra? Sois uns inocentes. Contai os cartões que já tendes e comparai. Arre. Comparai ainda como uns e outros falam para os árbitros portugueses dentro do campo, e já agora comparai também a realização televisiva, em si, que é feita e dos comentários que atrás vêm. Arre outra vez. Deixai lá, dirigentes benfiquistas, que pior do que vós só os do sporting incluindo os sócios e simpatizantes de Coimbra para baixo: virai a vossa raiva para outro lado que o Benfica nos últimos 20 anos só deve ter ganho para aí um ou dois campeonatos, ainda sois mais inocentes. Três vezes arre. Ah, a secção de desporto/futebol do jornal público é... como dizer... é... muito má, muito má, muito má. Outro ah, o Benfica introduziu mais uma coisa boa no futebol português: é que a equipa que joga mais e melhor também pode perder e perde. Acham pouco? Isto é uma revolução. E quando perde é normal perder, e a vida continua, mesmo. Acham normal? Salvé, Benfica.
7. Às vezes, quando a vontade é a acefalia absoluta, deixo o canal escolhido manter-se naquele programa da rtp n sobre futebol, com aqueles três comentadores mais aquele jornalista. Só para dizer que aquilo não é possível.
8. Um dia destes enquanto a sic-notícias dava notícias que tinha passado o dia a dar a skynews estava em directo do Rio de Janeiro às escuras, isto para aí às duas da manhã. É mau, não é? E ainda falam da internet e dos telemóveis e assim.
9. Para terminar que já vai longo, e tenho de ir para uma conferência de imprensa, um dia destes, no The Daily Show, Jon Stewart mostrou e desmascarou uma peça televisiva da Fox sobre os protestos de algumas pessoas contra a reforma da saúde do presidente Obama. Este canal fez uma montagem colocando mais pessoas do que aquelas que realmente participaram na manifestação, foram buscar imagens a dias diferentes e a manifestações diferentes: numa a manifestação foi num dia cinzento de outono com as folhas das árvores às cores; noutra num dia de sol e com as folhas das árvores verdes. Uma era uma manifestação dos veteranos de guerra e das suas famílias outra era contra o novo plano de saúde de Obama. Voilá.
A partir de ontem, ou já de hoje, vai passar a estar ali no canto superior direito um link para canal:youtube/amontanhamagica. O que é? É o sítio onde vão ser colocados vídeos que, esporadicamente, vou gravando a partir de uma máquina fotográfica digital sony cyber-shot 3 x optical zoom, 5.1 mega pixels mpegmovie vx smart zoom, uff, com quase seis anos de boa vida, toca a gastar e a desgastar; ou do telemóvel que uso. Umas vezes a lente vai estar mais próxima outras vezes mais longe, o critério são vários.
Já tinha, até ontem ou hoje, já não sei, dois vídeos no youtube: o primeiro, gravado no concerto de Leonard Cohen em Algés, em 2008, e o segundo, de David Byrne, o mês passado no festival de cinema do Estoril, quando apresentou o seu filme true stories.
Agora, hoje, passou a ter mais dois que são um: a gravação da intervenção que Fernando Lemos fez no passado sábado na Fundação Cupertino de Miranda, no âmbito dos III encontros mário cesariny.
Até ao final deste ano de 2009 o canal:youtube/amontanhamagica ainda vai receber, pelo menos, mais quatro gravações.
São vários os motivos pelos quais existe o blog, o twitter e agora este canal de vídeos/gravações, sendo um deles o aprender a trabalhar com estes suportes e plataformas. Vamos ver como corre a experiência.
Antes de me ir embora, dizer que nestes encontros mário cesariny III Manuel Rosa falou e apresentou e mostrou um filme, com cerca de 22 minutos de duração, de duas conversas/entrevistas (gravadas mais dia menos dia nos dias da realização/produção de autografia, de Miguel Gonçalves Mendes), com Mário Cesariny e com Cruzeiro Seixas, cujo autor, aparentemente secreto, assinando Simon Boccanegra, fez chegar a Manuel Rosa.
este é um dos livros que me fez sair de casa ao fim da tarde, já atrasado, há quinze dias, e ir de propósito à livraria só porque o queria ter nas mãos, e nos olhos; para além de tudo o mais é uma madalena de Proust