fotograma de The Limits of Control, de Jim Jarmusch
Aqui fica o excerto referido no post anterior, é a vida.
"E, quando perguntara a Cesárea para que precisava de uma navalha, ela respondera-lhe que a tinham ameaçado de morte, e depois rira-se, um riso, recorda a professora, que trespassara as paredes do quarto e as escadas da casa até chegar à rua, onde morrera. Nesse momento, parecera à professora que caía sobre a Rua Rubén Darío um silêncio repentino, perfeitamente orquestrado, o volume dos rádios baixara, o vozear dos vivos apagara-se de repente, e apenas ficara a voz de Cesárea. E então a professora vira, ou parecera-lhe ver, uma planta da fábrica de conservas coladas na parede. E, enquanto ouvia as palavras que Cesárea lhe tinha a dizer, umas palavras que não vacilavam mas que também não se atropelavam, umas palavras que a professora prefere esquecer, mas que se lembra perfeitamente e que até compreende, agora compreende, os seus olhos percorreram a planta da fábrica de conservas, uma planta que Cesárea tinha desenhado, em algumas zonas com grande cuidado nos detalhes e noutras de forma esquemática ou vaga, com anotações nas margens, embora a letra às vezes fosse ilegível e outras estivesse em maiúsculas, e até entre pontos de exclamação, como se Cesárea, no seu mapa feito à mão, se estivesse a reconhecer no seu próprio trabalho, ou estivesse a reconhecer facetas que até então ignorava. E então a professora tivera que se sentar, embora não o quisesse fazer, na beira da cama, e tivera que fechar os olhos e ouvir as palavras de Cesárea. E mesmo, embora se sentisse cada vez pior, tivera a coragem de lhe perguntar por que razão tinha desenhado a planta da fábrica. E Cesária dissera algo sobre os tempos que se avizinhavam, se bem que a professora tivesse achado que, se Cesárea se tinha entretido a confeccionar aquela planta sem sentido, não fosse por outra razão senão pela solidão em que vivia. Porém Cesárea falara dos tempos que haviam de vir, e a professora, para mudar de assunto, perguntara-lhe que tempos seriam esses e quando viriam. E Cesárea dissera uma data: por volta do ano 2600. Dois mil seiscentos e picos. E depois, perante o riso que provocara na professora uma data tão peregrina, risinho sufocado que mal se ouvira, Cesárea voltara a rir-se, embora desta vez o estrondo do seu riso se tivesse mantido dentro dos limites do quarto. A partir desse momento, recorda a professora, a tensão que flutuava no quarto de Cesárea, ou a de que ela se apercebia, fora baixando até se diluir por completo. Depois fora-se embora, e não voltara a ver Cesárea até quianze dias depois. Nessa ocasião Cesárea dissera-lhe que se ia embora de Santa Teresa."
Roberto Bolaño(trad. Miranda das Neves), Detectives Selvagens, Teorema, 2008.
A edição de 2666 é um dos acontecimentos literários, e não só, do ano.
Simpatizo mesmo nada não com as pessoas que de alguma forma estão ligadas à edição de 2666, de Roberto Bolaño, ao seu modus operandi, mas quem anda por aí, estilo velho do restelo, mas em pior, a dizer mal de Bolaño e deste livro em particular, que ainda não li, anda a fazer uma figurinha triste, triste. Tão triste! E ridícula, claro.
Digam mal de tudo mas não toquem no autor, haja decoro, tenham vergonha. Apontem, isso sim, críticas severas aos críticos, que as merecem, pois a maior parte do que escreveram sobre 2666 é medíocre; quem já leu livros de Bolaño, pelo menos em língua portuguesa, não pode dizer nem escrever apenas o que se disse e se escreveu, nem deixar de falar numa ou noutra pista, dadas noutros livros, em português também, em relação a 2666. Se não a deram é porque não a leram, ou leram mas na diagonal, porque a pista é muito preciosa.
Vejam agora a pirueta: eu tenho uma dessas pistas e vou deixá-la aqui, não agora, mas amanhã, ou depois, estava a dar tempo a Casanova mas ele... nada.
Repare-se nesta catadupa de dizeres escritos por diferentes pessoas para diferentes publicações, onde se chega mesmo a referir um amigo e executor testamentário que fala apenas numa pista para o título obscuro que 2666 representará, oh, céus, que não é a que tenho comigo, e que vocês também têm em casa, e portanto passam a haver duas, mais ou menos quase explícitas, dadas por Bolaño, em língua portuguesa, vamos então aos dizeres primeiro:
- Actual, Expresso #1925, de 19 de Setembro: aspectos biográficos e pouco mais; deste jornalista é difícil ler algo que seja mais do que medíocre;
- Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 23 de Setembro a 6 de Outubro: vénia a Vila-Matas; o resto intitulado como mil e oito páginas de prazer é paisagem;
- ípsilon, sexta-feira, 25 de Setembro: aspectos bigráficos, a bolañomania internacional, generalidades sobre 2666, e depois esbocei um sorriso pois pensei que José Riço Direitinho tinha também chegado a um pouco de pólvora, mas não: quando escreve
"2666 permanecerá um título obscuro, a menos que os muitos apontamentos de Bolaño ainda por classificar, se encontre uma explicação. O executor testamentário e amigo do escritor, Ignacio Echevarría, assinala numa nota à edição do livro uma referência encontrada num anterior livro de Bolaño a uma avenida que se assemelha a um cemitério de 2666".
O sorriso desapareceu. Também não.
- jornal i, edição do fim-de-semana, 26/27 de Setembro de 2009: menos palavras, mais acertadas e uma proposta sensata: leia também... E também nada.
- na internet, blogosfera, rien de rien, generalidades light de revista cor-de-rosa, exceptuando o que escreveu o leitor sem qualidades, especialmente o primeiro parágrafo.
É a vida.
Mas tão ridículo como os não críticos que acham que batem em tudo o que mexe é o sentimento de posse destes editores e do crítico do expresso/bibliotecário de babel, como se tivessem alguma responsabilidade para além daquela que têm. Chega a raiar o ridículo.
Gracq explica, tudo o resto, no A literatura no estômago. E Balzac, claro.
Houve um tempo em que no jornal Público, na Pública, podíamos ler as maravilhosas crónicas da vaca fria. Depois alguém não se sabe bem de onde deve ter achado não se sabe bem o quê e... noite escura. Saudades suas, Adília Lopes.
Em Outubro, na Assírio & Alvim:
"Título: DOBRA / poesia reunida Autor: Adília Lopes Colecção: Documenta Poetica Ano de edição: 2009 / Tema, classificação: Poesia Formato e acabamento: 16 x 24 cm, edição brochada N.º de páginas: 688 pp.
Este livro que agora se apresenta, Dobra, reúne todos os livros poesia publicados por Adília Lopes até à data.
«HAVERÁ UMA BELEZA QUE NOS SALVE?»
Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há. Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne, Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si. Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar --mas será involuntariamente? -- bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso. No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará. Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim. A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença."
O António lê os livros, fala deles como poucos e faz perguntas sobre o que leu, pergunta por que é que é assim, o que quis dizer aqui e ali, vem e vai para onde, se fazem ideia, procurando sempre a excelência, não o não ter que dizer ou o empatar ou, como outros, o empastar, não, não é para a fotografia nem para o foguetório. Ouçam, ouçam os podcasts.
fotograma de The Limits of Control, de Jim Jarmusch
Balzac é torrencial, Balzac é um gozão, Balzac é um oráculo, Balzac é um cínico. Lobo Antunes diz que Balzac é genial e diz que Victor Hugo lhe chamava um Homem-oceano.
Das últimas duas linhas do post anterior: "Mas, dentro de dez anos, um garoto saído da escola julgar-se-á um grande homem, subirá à coluna de um jornal para esbofetear os seus antecessores, para os puxar pelos pés e ocupar o seu lugar."
Ando, há vários dias, com uma história de Tonino Guerra na cabeça, nuvem de pó:
"No Vale das Crateras, uma ou duas vezes em cada cem anos, um vento, uma espécie de nuvem de pó, sopra do fundo da terra, e pelos funis enxutos das crateras sobe, lambendo como a língua dos gatos, por três dias, as casas e as faces dos habitantes daquele lugar. Então, todos perdem a memória: os filhos deixam de reconhecer os pais, as mulheres os maridos, as raparigas os namorados, as crianças os pais e tudo se torna um caos de sentimentos novos. Depois cessa o redemoinho dentro das crateras e, lentamente, cada coisa volta ao seu lugar, não recordando ninguém o que, dentro da nuvem de pó, aconteceu nesses três dias."
Balzac ridiculariza jornalistas e críticos literários, envergonha-os, humilha-os, desnuda-os e depois tem pena deles, das suas figurinhas. E é caso para isso, olhemos para os da nossa praça, do público, do dn, do expresso, de revistas, raras são as excepções, pessoas que falam de livros, chegam mesmo a falar de livros concretos, com título autor e tudo, e depois vai-se a ver e é um bafo de ar, como escreveu Luís Fernando Veríssimo, a semana passada, do lado de lá em Zum
"- O senhor leu "Os Sertões", professor? - Li! - Inclusive a primeira parte? A parte chata? O professor não tinha lido a parte chata. A Sandrinha provavelmente lera a parte chata, na diagonal, em meia hora. O professor não podia lhe conceder aquela vitória. Antes que ela dissesse "Eu li", ordenou: - Por favor, pare de mexer nesse seu cabelo! E encerrou o assunto. O consenso na classe foi: mais uma vitória da Sandrinha. Que no primeiro dia de aula já tinha convencido o professor a deixá-la usar a camiseta com "Abaixo todas as calças!" escrito na frente."
Continua a ser entre todos os outros um país onde muitas muitas pessoas não conseguem dizer que não, se são convidadas olarila que lá vou eu, mesmo que... enfim, foda-se eu consigo, se consigo, em 48 ou 72 horas, oh, se consigo.
E depois há aqueles casos, exemplos?: quando se muda de governo, quando se muda de comissão executiva, quando se muda de seleccionador... há que mudar tudo, levam-se os discos rígidos ou temos de mudar tudo porque está tudo mal. Pois, Balzac, esbofetear.
Esbofeteie-se, uma pessoa vê o magote dos colegas, interessados, e, porventura, amigos a correrem pela rua acima todos suados e sisudos e despentedos e de mãos já apoiadas nos joelhos a dizerem espera aí, buff, espera aí, buff, que eles já vão ver, estamos aqui contigo, ah, se estamos, vamos dar cabo desses __________ invejosos.
Aos Gato Fedorento (como me dizia um amigo, dia destes, já parecem carregar o peso dos trinta anos de televisão de Herman José) tinha custado muito, no primeiro programa deste esmiúça, explicar, num minuto, à sua audiência, que o programa que iam ver dentro de momentos tem muito a ver com um programa americano chamado Daily Show que a sic-notícias transmite, e que eles gostam muito? Tinha custado muito? Acharam e deram por adquirido que os portugueses o sabiam? Não acham isso pior? Acho que é muito pior. Há formas de fazer as coisas.
Não posso com aqueles programas à meia noite na dois, mas um dia destes passei por lá e estava Nilton a fazer uma rábula à Jay Leno, com aqueles recortes de jornais colados em pequenas cartões de cartolina, como se fosse ideia dele. Como só vi aquele minuto não sei se explicou aos portugueses que aquilo era inspirado no programa de tal do senhor fulano de tal. Será que o fez? É que a figura que fez foi ridícula.
"- A influência e o poder do jornal ainda agora estão a despertar --disse Finot--, o jornalismo não passou da infância, mas crescerá. Dentro de dez anos, tudo passará pela publicidade. O pensamento esclarecerá tudo, ele... - Alterará tudo --disse Blondet, interrompeu Finot. - É uma opinião --comentou Claude Vignon. - Imporá reis --disse Lousteau. - E defenderá monarquias --disse o diplomata. - Por isso --disse Blondet--, se a Imprensa não existisse, nunca deveria ser inventada; mas ela aí está, vivemos dela. - E acabará por os matar --disse o diplomata. - Não vêem que a superioridade das massas, admitindo que os senhores as esclarecem, tornará a grandeza do indivíduo mais difícil; que, introduzindo o raciocínio no coração das classes baixas, colherão a revolta, e acabarão por ser as primeiras vítimas. O que é que aparece despedaçado em Paris, quando há um tumulto? - Os candeeiros de iluminação pública --respondeu Nathan--; mas nós somos demasiado modestos para sentir medo, só nos impressionaremos. - Os senhores fazem parte de um povo demasiado inteligente para permitir que um governo, seja ele qual for, se desenvolva --disse o ministro. - De contrário, pegariam nas penas, a fim de empreender a conquista da Europa que as espadas não souberam conservar. - Os jornais são um mal --disse Claude Vignon. - Podíamos utilizar esse mal, mas o governo quer combatê-lo. Quem sucumbirá? É esse o problema. - O governo --respondeu Blondet--, não me queixo de o afirmar. Em França, o espírito é mais forte do que tudo, e os jornais, além do espírito de todos os homens de espírito, têm a hipocrisia de Tartufo.
[...]
- Blondet tem razão --disse Claude Vignon. - O Jornal, em vez de ser um sacerdócio, tornou-se um meio à disposição dos partidos; de meio passou a negócio; e, como todos os negócios, não obedece a regras. Todos os jornais são, como diz Blondet, armazéns em que se vendem ao público palavras da cor que mais lhe agradar. Se houvesse um jornal de corcundas, defenderia de manhã à noite a beleza, a bondade, a utilidade dos corcundas. Um jornal não é feito para esclarecer, mas para lisonjear as opiniões. Assim, todos os jornais serão, em determinado momento, cobardes, hipócritas, ignóbeis, mentirosos, assassinos; matarão ideias, sistemas, homens e por isso mesmo vingarão. Gozarão do benefício de todos os seres dotados de razão: o mal será feito sem que ninguém seja considerado culpado.
[...]
- As ideias só podem ser neutralizadas por ideias --prosseguiu Vignon. - Só o terror o despotismo serão capazes de sufocar o génio francês, cuja língua se presta admiravelmente à alusão, ao duplo sentido. Quanto mais repressiva for a lei, mas a inteligência eclodirá, como o vapor da válvula de uma máquina. Assim, o rei procede bem, se o jornal estiver contra ele, a culpa será do ministro, e reciprocamente. Se o jornal inventa uma calúnia infame, é porque alguém lha transmitiu. Ao indivíduo que se queixa, pedirá desculpa em nome da liberdade sagrada. Se for levado a tribunal, queixa-se de que não lhe tenham pedido uma rectificação; e se a pedirem? recusa-a, rindo, chama ao crime uma bagatela. Por fim, ridiculariza a vítima quando esta triunfa. Se for punido, se tiver uma grande multa a pagar, apontará o queixoso como inimigo das liberdades, do país e das luzes. Dirá que o senhor Fulano de Tal é um ladrão, explicando que ele é o cidadão mais honesto do reino. Portanto, os crimes são bagatelas! e consegue, em pouco tempo, persuadir todos os que o leiam.
[...]
- O povo hipócrita e sem grande generosidade --prosseguiu Vignon--, ele banirá o talento do seu seio como Atenas baniu Aristides. Veremos os jornais, inicialmente dirigidos por homens honrados, cair mais tarde sob a alçada dos mais medíocres que terão a paciência e a cobardia de goma elástica que faltam aos grandes génios, ou a merceeiros com dinheiro para comprar penas. Já se vêem coisas destas. Mas, dentro de dez anos, um garoto saído da escola julgar-se-á um grande homem, subirá à coluna de um jornal para esbofetear os seus antecessores, para os puxar pelos pés e ocupar o seu lugar."
Honoré de Balzac (trad. Isabel St. Aubyn), Ilusões Perdidas, Publicações Dom Quixote, 2009.
Li, num destes dias, uma frase que dizia: "Le Festin de Babette de Karen Blixen fait réfléchir le philosophe sur l'état de l'art aujourd'hui, pour mieux en dénoncer les limites : une botte vaut Shakespeare, tout se vaut, tout est culture. Notre monde ne supporte plus les héritiers ni l'idée d'une classe cultivée, pourtant absolument nécessaire pour que l'art puisse vivre."
"Na Noruega há um fiorde --um apertado e longo braço de mar cavando as altas montanhas-- chamado o Fiorde de Berlevaag. No sopé das montanhas, a cidadezinha de Berlevaag mais parece um brinquedo com casas miniaturais pintadas de cinzento, de amarelo, de rosa e tantas outras cores. Há sessenta e cinco anos, duas senhoras de meia-idade viviam numa dessas casas amarelas. Outras senhoras, nesse tempo, usavam tournure e as duas irmãs bem podiam tê-la usado também, e com a mesma graciosidade, pois eram altas esbeltas. Mas nunca seguiram os ditames da moda: sempre se acostumaram a vestir, com modéstia, de preto ou de cinzento. Receberam elas nomes de Martine e Philippa, em homenagem a Martinho Lutero e a seu amigo Filipe Melanchton. Eram filhas de um deão, um profeta, o fundador de uma facção ou seita religiosa conhecida e respeitada em toda a Noruega. Os seus membros renunciavam aos prazeres deste mundo, pois a Terra, e tudo o que sobre ela existe, era quase uma ilusão e a realidade verdadeira era a Nova Jerusalém por que ansiavam. Desses lábios não saía uma inocente blasfémia; todos os seus colóquios não iam além de um «oh, sim», «oh, não» e dos nomes de Irmão e Irmã que a Congregação se davam. O Deão casara tarde e, no tempo que esta história principia, tinha já morrido há muito. Os seus discípulos eram, a cada novo ano, mais escassos; estavam, a cada ano novo, mais velhos ou mais carecas ou mais surdos; vinham-se tornando até ranzinzas, quezilentos, provocando assim pequenos cismas que, triste coisa, abalavam a Congregação. Mas ainda se juntavam para ler e interpretar a Palavra. Todos conheciam as filhas do Deão desde pequenas; para eles, as duas irmãs continuavam a ser meninas, cara aos seus corações por serem filhas de tal pai. Portas adentro da casa amarela, sentiam que o espírito do Mestre estava com eles; aqui se sentiam bem, aqui tinham paz. Estas duas senhoras tinham uma criada francesa para todo o serviço, Babette. Estranho arranjo na casa de duas puritanas de uma cidadezinha da Noruega; estranho e quiçá duvidoso. Os habitantes de Berlevaag, porém, achavam-lhe justificação na índole bondosa e pia das irmãs. Porque as filhas do Deão consagravam os dias e os parcos rendimentos a obras de caridade; à sua porta não batia em vão o infeliz ou o necessitado. E quando Babette veio bater àquela porta, havia doze anos já, era uma fugitiva, uma desamparada, a quem a dor e o medo haviam quase enlouquecido. Mas a verdadeira razão da presença de Babette em casa das duas irmãs havia de achar-se em tempo mais recuado e em recessos mais íntimos do coração humano."
Karen Blixen (trad. Maria Jorge de Freitas), A Festa de Babettee outras histórias do destino, Edições Asa, 1995.
"Lançamento da monografia cem mil cigarros – OS FILMES DE PEDRO COSTA, edição de O SANGUE em DVD, reposição de O SANGUE em sala e reedição em DVD de ONDE JAZ O TEU SORRISO?"
Excertos de cem mil cigarros:
"O Negro é uma Cor, ou o Cinema de Pedro Costa, João Bénard da Costa, p. 26
“Nem Desnos nem Ventura reencontraram as mulheres. Nem Desnos nem Ventura receberam sequer resposta a essas cartas. Nem Desnos nem Ventura verão as mulheres que amaram com os vestidos que sonharam. Em lugar de tudo isso ficou aquele plano fantomático com que começa Juventude em Marcha, onde, para o saguão negro de uma ruína negra, uma mulher (a mesma? outra?) atira janela fora os restos dos pertences do marido. “Julgo que vou esquecer de mim” é a última linha da carta de Ventura. Não se esqueceu, na enganadora aparência da memória. Mas esqueceu-se no corredor escuro. De cor que era ao tempo d’O Sangue, o negro volveu-se na ausência de toda a luz. Sobreviver é repetir incessantemente uma carta de amor ou, como Vanda, repetir incessantemente a história do dia em que deu à treva a filha.”
Straub, Anti-Straub, Tag Gallagher, p. 42
“Os olhos são, de facto, quase tudo para cada um dos realizadores de que Costa gosta (e que têm um papel importante no seu primeiro filme). Pense-se nos olhos esbugalhados de Chaplin; a obsessão de Ford com os olhos. Os Straub até ensinam os seus actores como fixar o chão de forma a que lhes consigamos ver os olhos, Costa mostra-os a contar isto em Onde Jaz o Teu Sorriso?. Mas mesmo em Onde Jaz o Teu Sorriso?, só vemos Jean-Marie em planos gerais pouco iluminados, e quase nunca os olhos de Danièle.”
Política de Pedro Costa, Jacques Rancière, p. 53
“Como pensar a política dos filmes de Pedro Costa? Num primeiro nível, a resposta parece simples: os seus filmes têm aparentemente como objecto essencial uma situação que está no centro do que está em jogo, em termos políticos, no nosso presente: a sorte dos explorados, daqueles que vieram de longe, das antigas colónias africanas, para trabalhar nos estaleiros de construção portugueses, que perderam a família, a saúde, por vezes a vida nesses estaleiros; aqueles que se amontoaram ontem nos bairros de lata suburbanos antes de serem expulsos para habitações novas, mais claras, mais modernas, não necessariamente mais habitáveis. A este núcleo fundamental vêm juntar-se outros temas sensíveis: em Casa de Lava, a repressão salazarista que enviava os opositores para campos situados no mesmo sítio de onde partiam os africanos à procura de um trabalho na metrópole; a partir de Ossos, a vida dos jovens lisboetas que a droga e a deriva social enviaram para os mesmos bairros de lata, para aí partilharem a mesma vida.”
Condenados à Morte, Condenados à Vida, Rui Chafes, p. 71
“Um país de ervas daninhas. Paisagens de ervas daninhas e rasteiras, feias charnecas sem fim. Longínquos trovões no céu. O país mais triste do mundo. Quero mostrar o país mais triste, mais desolado, vazio e pobre que existe à face da terra. Escuridão e árvores esquálidas, motoretas e triciclos motorizados. Tempestade, chuva, lama. Pegadas na terra encharcada. Um rosto de menino pobre a brilhar no escuro. Uma bofetada na cara. “Faça de mim o que quiser.” Cara muito séria. “O que digo ao Nino?” “Que morri.” Árvores despidas, negras, pavorosamente esquálidas. Como é possível existir um país assim? Um país que gostaria de não conhecer. Uma paisagem sem país. Aguardo. Olho. Espero. Sou uma aranha paciente. Não chego a estar triste, tenho o veneno da aranha. Observo, condenado a esta morte, condenado a esta vida. “Não te perdes?”, perguntam-me. “Não.””
Ossos, João Miguel Fernandes Jorge, p. 157
“Ossos é um filme de grandes rupturas. Parece que nos fala de um post-humano português, se acaso as nacionalidades permanecerem na linguagem cifrada do replicante. Neste filme mostra-se como se ultrapassou um tempo histórico e social. Como a comunidade na qual nos inserimos já é outra. Como já não se situa no ponto exacto onde cada um de nós ainda a concebe. A ficção fílmica alastrou a toda a geografia portuguesa e, nisso, o filme tem também força documental.”
Histórias de Fantasmas, Thom Andersen, p. 172
“Depois de ter visto projectada a cópia em 35mm de Juventude em Marcha, comecei a identificar mais semelhanças com The Searchers do que com Sergeant Rutledge. Tal como Ethan Edwards, Ventura é um vagabundo, um “peregrino” à procura dos seus filhos perdidos. Quando o agente imobiliário, no apartamento dos prédios novos, lhe pergunta quantos filhos tem, Ventura responde: “Ainda não sei.” Tal como Monument Valley representa todo o Sudoeste em The Searchers, as Fontainhas e os novos bairros de realojamento representam o mundo inteiro de Ventura em Juventude em Marcha. Então, disse-lhe eu: “É como em The Searchers – mas melhor. É The Searchers refeito a partir do ponto de vista de Mose.” Costa respondeu: “Então acha que Ventura é louco?” E eu respondi: “Não, mas eu não acho que Mose seja louco.” Só me ocorreu mais tarde que Mose é a única personagem sã em The Searchers e, por isso, limitei-me a dizer: “É como num filme de John Ford com Francis Ford como protagonista.” Ele acabou por aceitar este elogio. Afinal, o irmão mais velho de John Ford é o mais nobre e amável dos actores com quem ele costumava trabalhar, e os melhores filmes de Ford são sempre aqueles em que Francis tem os melhores papéis. Poderia referir como exemplos My Darling Clementine (1946) ou The Sun Shines Bright (1953).” "
O belo texto de Alexandra Lucas Coelho publicado no jornal Público na passada segunda-feira intitulado Mar Musa pode ser lido e mais visto aqui.
posted by luis Quarta-feira, Setembro 16, 2009
Terça-feira, Setembro 15, 2009
Abomino, assim mesmo, o termo rentrée, não posso mesmo com a palavra, com o seu significado e com alguns fogueteiros que andam por aí, que não são em nada diferentes do trabalho que Júlia, José e Jorge mostram. O que eles fazem aos livros, tenho pena de alguns autores, tais devem ser as voltas na tumba, é o mesmo que os canais de televisão quando sintonizados fazem às tardes e às manhãs de cada dia. Será que podíamos continuar a viver sem a rentrée? Irei assinalar então aqui a rentrée, com algumas das novidades, comecemos pela Assírio & Alvim, previstas para 24 de Setembro estão, cujas capas são uma maravilha:
Título: O VIAJANTE SEM SONO Autor: José TolentinoMendonça Colecção: Poesia Inédita Portuguesa Ano de edição: 2009 / Tema, classificação: Poesia
Bicicletas
Por muito tempo amarei casas que existam apenas para guardar uma bicicleta ou os remos de um bote As casas interessantes não têm pretensão nenhuma Estão perto de nós na hora necessária mas a qualquer momento com mais clareza afastam-se das certezas que perdemos e da imensidão que se avista de lá Um velho provérbio diz: Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo de uma estação clemente
para Jaume Sanahuja
Título: CAROÇO DE AZEITONA Autor: Erri De Luca Tradução do Italiano: João Pedro Brito Colecção: Testemunhos
Este livro propõe uma série de pequenas reflexões sobre textos da Bíblia, resultantes da meditação quotidiana do autor. A partir de um verso bíblico lido, ouvido, analisado e dissecado na sua língua original, Erri de Luca traz a lume considerações sobre grandes temas que dizem respeito ao homem e a toda a humanidade. Das suas páginas emerge sobretudo o fascínio pela imensidão dos sentidos que se descobrem, mesmo quando se permanece apenas à superfície das palavras.
Título: O PENDURA Autor: Jules Renard Tradução e Apresentação: Aníbal Fernandes Colecção: O Imaginário
Jules Renard (1864-1910), homem com uma vida curta de quarenta e seis anos, autor de um Diário de publicação póstuma que escorreu golfadas de lava devastadora (Jean d’Ormesson levá-lo-ia para a ilha deserta: «Não nos arriscaríamos ao tédio»); autor de Poil de Carotte e de Histoires Naturelles, autor de L’Écornifleur (O Pendura), na sua época acusado de «insulto a tudo o que é honesto», história de fundos naturalistas enfeitados por um humor cruel, as efervescências que amolecem o coração humano desfeitas nos meandros de uma invenção verbal de singular acidez. Setenta anos depois da sua morte, Jean Paulhan pôs num texto a frase que ele teria gostado de ler: «Exerceu na prosa a mesma espécie de atracção que Rimbaud e Mallarmé exerciam nos poetas».
Título: O CAMINHO DOS PISÕES Autor: M.S. Lourenço Edição: João Dionísio Colecção: Documenta Poetica
Preparada ainda em vida do autor, esta edição reúne a obra poético-literária de M.S. Lourenço.
A olhar para poemas escritos há doze anos E cuja autoridade se tem negado, Sente-se que se mudou, Que se é agora mais indulgente Com esses imprecisos restos. Escrevia-se poemas à Ulalume Estimulando a impressão indefinida, Insinuando um prazer vago. A pedra continua imóvel e vê-se Que não podia mover-se então.
Mas o tempo cura tudo: Inúteis e pinturescos os nomes falsos, Escrúpulos antigos! Quando se amadurece, O nó intrinsicado complica-se. E assim a dúvida cresce de Que se possa alguma vez conhecer A ideia próxima de morte Ou, lá fora, o barco a deslizar no rio.
Título: O SANGUE POR UM FIO — poemas Autor: Sérgio Godinho Desenhos: Tiago Manuel Colecção: Poesia Inédita Portuguesa
Memória ao abandono
Memória ao abandono a válvula do sono aberta. Desdobra panos hélice, ela a grande borboleta se é por pousar já pousou— despejando o vento na abertura do vulcão encaminhando a lava no sentido giratório.
Antes tive medo de ter sono agora é planeta a planeta.
Statement from Tournament Referee Brian Earley regarding the end of the Kim Clijsters vs. Serena Williams match: Serena Williams was assessed a Code Violation, Warning, for racquet abuse after losing the first set, 6-4.
At 5-6, 15-30, Miss Williams was called for a foot fault on her second serve, making the score 15-40. She then yelled something at the line umpire, who reported it to the chair umpire. Based on the report, Miss Williams was assessed a Code Violation, point penalty, for Unsportsmanlike Conduct, ending the match.
1. No início do mês de Agosto ou mesmo em finais de Julho, alguns jornais e alguns noticiários televivos e radiofónicos davam conta dos resultados de um estudo sobre as auto-estradas portuguesas, inquéritos e mais análises, análises e conclusões e está quase tudo bem e somos bons muito bons ora os maiores diziam ou dizem os xutos. O mais insólito enquanto lia e ouvia aquelas balelas foi ver e ouvir a pergunta que não foi feita: são as auto-estradas portuguesas caras para os utentes do dia-a-dia? ou: está satisfeito com o preço que paga nas auto-estradas portuguesas? É verdade, é a vida. O preço que se paga em Portugal é pornográfico. Têm dinheiro para gastar? Construam uma nova auto-estrada entre o Porto e Lisboa e façam da actual A1 uma scud ou lá como é que se chama, não se riam, já estamos no século XXI.
2.Rui Tavares podia ter aproveitado a oportunidade e o seu espaço no jornal público para tornar um pouco mais conhecidos os motivos que levaram a que a bandeira republicana seja como é, indo assim ao encontro de Nuno Severiano Teixeira "Uma genealogia do cromatismo verde-rubro na história das bandeiras portuguesas revela-nos um fenómeno tanto mais surpreendente quanto pouco conhecido, ou, pelo menos, pouco citado."
Desocultação do vermelho sangue e do verde esperança
Nuno Severiano Teixeira:
"Corria na opinião pública que o Conselho de Ministros se inclinava para a bandeira azul-branca. A Carbonária, porém, usando o peso da sua influência, granjeada na revolução, ter-se-ia oposto veementemente. Perante o impasse, decide o Governo formar uma comissão especialmente destinada ao estudo da bandeira e do hino nacionais.
Não foi necessário esperar muito para que a comissão apresentasse ao Governo o resultado dos seus trabalhos. De facto, logo a 29 do mesmo mês [Outubro de 1910]apresenta um primeiro projecto, idêntico à bandeira da revolução de 5 de Outubro, com uma diferença -- a proporcionalidade e a localização das cores verde e vermelho inverte-se em relação à tralha.
Porém, a escolha da bandeira verde-rubra e a sua consagração imediata, quando a decisão não era de forma alguma pacífica e, sobretudo, antes de ter sido sancionada pela Assembleia Nacional Constituinte, levanta uma violenta polémica que moveu algumas das figuras mais gradas da vida pública portuguesa e apaixonou a opinião pública nacional.
Em Lisboa, Porto e por todas as cidades de província multiplicam-se os projectos para a nova bandeira. Na imprensa periódica, em croquis afixados em clubes políticos, livrarias, tabacarias e outros estabelecimentos comerciais, em conferências e sessões públicas, desde as salas de teatro à Sociedade de Geografia, os diferentes autores divulgam e fazem a defesa empenhada dos seus projectos. Acreditava-se ainda que a Assembleia Constituinte podia votar um parecer contrário e os partidários do "azul-branco" reclamavam com insistência um plebiscito.
A polémica polariza-se em torno de duas grandes questões: uma, de primeira ordem, a das "cores" azul-branco/verde-rubro; outra, menos acesa, a das "armas" - em torno da esfera armilar.
Em defesa do verde e encarnado vêm a terreiro, para além da comissão, figuras tão prestigiosas como Afonso Costa, António José de Almeida e o próprio Presidente do Governo Provisório, Teófilo Braga. A defesa do "azul-branco" é encabeçada pela não menos prestigiosa figura do poeta Guerra Junqueiro, entre outras, como A. Braancamp Freire, António Arroio, Lopes de Mendonça, Sampaio Bruno.
A vitória da bandeira verde-rubra é, pode dizer-se, a vitória da ala jacobina do republicanismo e consagra simbolicamente os princípios ideológicos e políticos da propaganda republicana.
O vermelho, herdado da bandeira do 31 de Janeiro, é a cor dos movimentos revolucionários e populares, marca indelével da matriz política democrática da tradição republicana.
O verde, herdado das bandeiras do 31 de Janeiro e do 5 de Outubro, é também a cor destinada por A. Comte aos pavilhões das nações positivas do futuro, como o relatório da própria comissão deixa transparecer. O verde marca assim a matriz ideológica positivista do republicanismo."
No twitter, ali no canto superior direito, o tweet número 50 de Ilusões Perdidas:
Balzac, I.P.: 50) "Quem quiser elevar-se acima dos homens terá de se preparar para a luta, de não recuar perante nenhuma dificuldade."
posted by luis Quinta-feira, Setembro 10, 2009
Ilusões Perdidas(6)
fotograma de Deadwood
"- Não nos julgues rudes, meu filho --disse-lhe Michel Chrestien--, limitamo-nos a ser previdentes. Receamos ver-te um dia preferir as alegrias de uma pequena vingança à felicidade da nossa pura amizade. Lê o Tasso de Goethe, a melhor obra desse grande génio, e verás que o poeta aprecia os tecidos ricos, as festas, os triunfos, o brilho: pois bem, sê o Tasso sem a sua loucura. A alta sociedade e os seus prazeres chamam por ti? continua connosco... Transporta para o domínio das ideias tudo o que exiges à tua vaidade. Loucura por loucura, inclui a virtude nas tuas acções e o vício nas tuas ideias; em vez de pensares bem e te comportares mal, como dizia d`Arthez.
[...]
Não julgue o mundo da política muito mais bonito do que este mundo literário: nestes dois mundos tudo é corrupção, todos os homens corrompem ou são corrompidos. Quando se trata de uma empresa de edição de alguma importância, o livreiro paga-me, receando ser atacado. Assim, os meus rendimentos dependem dos prospectos. Quando o prospecto sai aos milhares, entram fluxos de dinheiro na minha bolsa e, então, regalo os meus amigos. Se não houver trabalho na editora, janto no Flicoteaux. As actrizes também pagam os elogios, mas as mais hábeis pagam aos críticos, o que elas mais temem é o silêncio. Assim, uma crítica, feita para ser corroborada algures, vale mais e é mais bem paga do que um elogio seco, esquecido no dia seguinte. A polémica, meu caro, é o pedestal das celebridades.
[...]
Posso vir a precisar de escrever dez linhas para o seu artigo --respondeu friamente Lousteau. - Enfim, meu caro, trabalhar não é o segredo da fortuna, em literatura, trata-se de explorar o trabalho dos outros. Os proprietários de jornais são empresários, nós somos mão-de-obra. Assim, quanto mais medíocre for um homem, mais rapidamente sobre na carreira; pode engolir sapos vivos, resignar-se a tudo, idolatrar vis paixões dos sultões literários, como um recém-chegado de Limoges, Hector Merlin, que já faz política num jornal de centro-direita, e que trabalha para o nosso pequeno jornal: vi-o apanhar do chão o chapéu de um chefe de redacção. Sem escandalizar ninguém, esse jovem esgueirar-se-á entre as ambições rivais enquanto estas lutam."
Honoré de Balzac (trad. Isabel St. Aubyn), Ilusões Perdidas, Publicações Dom Quixote, 2009.
Depois de muitas experiências aloucadas e de muitas disciplinas depois vamos chegar à conclusão, mais tarde ou mais cedo, espero que bem mais cedo, e que haja saúde mental para isso, que meia dúzia de disciplinas obrigatórias, de tronco comum até ao início do ensino secundário, e duas ou três de escolha pessoal, e depois, mesmo aí, metade continuarem a ser de tronco comum, facilmente concluiremos, dizia, que a disciplina de Filosofia e a disciplina de História perdem todos os dias muitos pontos em relação à mentalidade magalhães que caracteriza muitos daqueles que ocupam lugares executivos e legislativos desta república portuguesa. Podem achar que não mas é de espantar.
Sem querer parecer rabugento e nem por sombras querer que outros, um sequer, tenham a mesma mundividência que eu, há por cá na bloga quem diga que gostava que os outros tivessem a sua própria mundividência, respeito, não dá para não dizer nada em relação aquilo que salta faz o pino uma pirueta mesmo um mortal, na exposição _Encompassing, e não é bom, é mau.
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Fernando Pessoa
Não sei o que tinham na cabeça os comissários da Encompassing the Globe quando permitiram que nos textos introdutórios
, e não só, presentes nas diferentes salas da exposição patente no Museu Nacional de Arte Antiga constasse o seguinte:
1) a descoberta das ilhas da Madeira e dos Açores entre 1419 e 1431:
- da Madeira não foi descoberta mas sim redescoberta;
- 1431? Porquê? 1431? 1431, o quê?
2) a casa de Aviz não teve um papel importante, foi, isso sim, fundamental. Sem princípio haveria meio? mesmo que, pouco depois do início, tivesse havido planos diferentes?
- este importante não se percebe, é demasiado pouco importante.
3) Nenhuma referência, texto ou imagem da "Carta a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil", de Pero Vaz de Caminha. Nenhuma.
4) A muitas das palavras dos textos introdutórios faltam acentos, a-c-e-n-t-u-a-ç-ã-o, não devia acontecer.
São demasiados néons (gralhas e erros; qualquer livro ou qualquer manual, como parece ter de ser o caso, de História dá resposta a estas questões) numa exposição que tem a responsabilidade que tem; ser minimamente exigente é o quê? Se é assim aqui, neste museu, nesta exposição, como é que fica toda a imensidão que resta? Os erros e as gralhas envergonham Portugal, envergonham as peças expostas e mancham a exposição em si. É muito mau.
Trazia dois ou três dizeres sobre os mundiais de atletismo que não vi a não ser um ou dois resumos de um dos dias, creio:
antes de chegar Usain disse que ia lá prestar tributo a Jesse Owens e talvez estivesse tudo dito mas depois, ainda lá, beijaram-lhe as mãos, bem em Berlim, havíamos de voltar à Grécia do século V a.C. por tantas razões
mas depois li por aí alguém que já o tinha dito na hora.