A montanha mágica

Quarta-feira, Abril 29, 2009

3 horas que mais pareceram 30 minutos







Escrevi ex-tra-or-di-ná-ri-o e não o vou justificar, podia, mas não, podia ao escolher meia dúzia de versos e dizer isto é extraordinário. E chegava. Para mim sim.
Estamos a falar de Shakespeare. E de Auden... "um mito".

E depois disse excelentíssimo, referindo-me à tempestade da cornucópia como sendo teatro excelentíssimo e, mais uma vez, devia e podia justificar o que disse, mas não, não é preciso, seria quase ridículo.
No entanto, duas observações: imaginei um Caliban diferente (sim, li o que Luís Miguel Cintra disse e escreveu sobre isso; também

Peter Brook, O Espaço Vazio, publicado na Orfeu Negro em 2008: "Quando se trata de encenar Shakespeare, voltamos a ouvir o mesmo conselho: «representem o que está escrito». Mas o que é que está escrito? Um conjunto de signos numa folha de papel. As palavras de Shakespeare são um registo das palavras que ele queria que fossem ditas, palavras que saíam da boca das pessoas como sons, com um determinado tom, com pausas ritmo e gestos que complementavam o seu sentido. Uma palavra não começa como palavra --é o produto final de um processo que se inicia por um impulso, estimulado por uma atitude e um comportamento que ditam a necessidade de expressão. Este processo ocorre dentro do dramaturgo e repete-se dentro do actor. Ambos podem apenas ter consciência das palavras; no entanto, para o autor e depois para o actor, a palavra é a pequena parte visível de uma formação gigantesca que não se vê. Alguns autores tentam fixar o significado e a intenção das suas peças com indicações cénicas e explicações, mas não podemos deixar de ficar impressionados com o facto de os melhores dramaturgos serem aqueles que se explicam menos. Eles percebem que, muito provavelmente, o excesso de indicações será inútil. Compreendem que só seguindo um processo semelhante ao da criação original é que se conseguirá descobrir o verdadeiro caminho para a forma como uma palavra deve ser dita. Isto não pode ser negligenciado nem simplificado. Infelizmente, no momento em que um amante fala, ou quando um rei faz ouvir a sua voz, nós precipitámo-nos e pomos-lhe uma etiqueta: o amante é «romântico», o rei é «nobre» -- e, antes que nos apercebamos, estaremos a falar de amor romântico e nobreza aristocrática como se fossem coisas que pudéssemos tirar do bolso e mostrar aos actores. Ora, estas ideias não têm uma existência tangível; se as quisermos encontrar, o melhor que podemos fazer é tentar reconstituí-las a partir da literatura e da pintura. Se pedirmos a um actor para representar em estilo romântico, ele fará um esforço corajoso nesse sentido, acreditando que sabe o que queremos dizer. A que pode ele recorrer? Ao instinto, à imaginação e a um bloco de notas com memórias teatrais --que lhe darão acesso a uma «romanticidade» vaga, logo misturada com a imitação disfarçada de um qualquer actor mais velho pelo qual ele sinta admiração. Se procurar na sua experiência pessoal, os resultados podem não casar bem com o texto, será imitativo e convencional. De qualquer modo, o resultado é sempre um compromisso --e pouco convincente, na maioria dos casos.
É inútil supor que as palavras que aplicamos ao teatro clássico --como «musical», «poético», «maior do que a vida», «nobre», «heróico», «romântico»-- têm um sentido absoluto. Elas são reflexos da abordagem crítica característica de um determinado período, pelo que tentar hoje construir um espectáculo que respeite esses princípios é o caminho certo para o teatro do aborrecimento mortal --neste caso, com uma respeitabilidade que o faz passar por encarnação da verdade.
Uma vez, ao fazer uma comunicação sobre este tema, tive a oportunidade de aplicar um teste prático. Por sorte, estava entre o público uma mulher que nunca tinha lido ou visto Rei Lear. Dei-lhe a primeira fala de Goneril e pedi-lhe para a recitar o melhor que soubesse, realçando o que considerasse mais importante. Ela fez uma leitura muito simples --e a própria fala emergiu com extrema eloquência e encanto. Expliquei-lhe então que, supostamente, aquela era a fala de uma mulher terrível e sugeri que voltasse a ler, mas agora com uma atitude hipócrita. Ela tentou fazê-lo e a assistência viu quão difícil podia ser lutar com a música simples das palavras quando se quer representar de acordo com uma indicação.
")

a dizer alguns versos, por exemplo

"Deixa-me levar-te aonde crescem as maçãs bravas;
Com as minhas grandes unhas vou arrancar-te
Túbaras da terra; mostro-te um ninho de gaio,
E ensino-te a apanhar o sagui veloz.
Levo-te aonde abundam as avelaneiras,
E vou trazer-te às vezes dos rochedos alciões.
Virás comigo?
"
;
e imaginei a ilha deserta diferente: a vegetação, o mar e a gruta/caverna não foram excelentes; o cravo devia estar mais longe de nós.
O início é prodigioso, e toda a peça teatro excelentíssimo.

posted by luis Quarta-feira, Abril 29, 2009

Terça-feira, Abril 28, 2009

"Porque temos medo de estar sozinhos na noite, perante os cacos da vida, ou não é por isso que nos juntamos no teatro?
(Jorge Silva Melo (Lisboa, Setembro de 2008)"







"Esta noite, a sala do teatro está cheia daqueles espectadores especiais que têm por hábito assistir à estreia de qualquer peça nova.
O anúncio nos jornais e nos cartazes de um espectáculo insólito de improvisação provocou grande curiosidade em toda a gente. Só os senhores críticos dramáticos dos jornais locais a não deixam transparecer, porque crêem amanhã poder vir facilmente a afirmar que se trata de uma enorme porcaria. (Meu Deus!, uma coisa no estilo da antiga commedia dell`arte; mas onde estão hoje os actores capazes de improvisar a partir de um esboço de acção, como no seu tempo o faziam endiabrados comediantes da commedia, a quem, aliás, as historietas antigas, as máscaras tradicionais, o reportório, tanto facilitavam o trabalho?) Antes se notará neles uma certa fúria, porque no cartaz não se menciona, e até se ignora completamente, o nome do autor que, apesar de tudo, deve ter fornecido aos intérpretes desta noite e ao seu director um entrecho qualquer: privados de qualquer indicação que os possa remeter confortavelmente para uma opinião já feita, receiam cair em contradição.
Pontualmente, à hora prevista para o início, as luzes da sala apagam-se e a ribalta acende-se.
Nesta súbita penumbra, o público mostra-se, primeiro, atento; depois, não ouvindo os toques do gongue que habitualmente anunciam a abertura do pano de boca, começa a agitar-se um pouco; e mais ainda quando lhe começam a chegar, vindos do palco e através do pano, vozes confusas e exaltadas, como se os actores estivessem a protestar e alguém os repreendesse para pôr termo aos seus protestos.


UM ESPECTADOR DA PLATEIA (perguntando em voz alta, depois de ter olhado à sua volta) O que é que se passa?
UM ESPECTADOR DO BALCÃO Parece que estão a discutir no palco.
UM ESPECTADOR DAS PRIMEIRAS FILAS Talvez faça parte do espectáculo! (Alguém ri.)
UM ESPECTADOR DE IDADE, DE UM CAMAROTE (como se estes ruídos fossem uma ofensa à sua dignidade de espectador sério) Mas que escândalo é este? Quando foi que se viu uma coisa assim?
UMA SENHORA DE IDADE (levantando-se de repente da sua cadeira das últimas filas da plateia, com um ar de galinha assustada) Não será um incêndio? Deus nos livre!
O MARIDO (retendo-a, rápido) Estás louca? Qual incêndio! Senta-te e fica sossegada.
UM JOVEM ESPECTADOR, SEU VIZINHO (com um melancólico sorriso de compaixão) Não brinque com coisas dessas. Qual incêndio! Tinham descido o pano de ferro, minha senhora.
(Toca finalmente o gongue no palco.)
ALGUNS ESPECTADORES NA SALA Ah! Até que enfim!
OUTROS ESPECTADORES Silêncio! Silêncio!
Mas o pano não abre. Em contrapartida, ouve-se novamente o gongue ao qual responde, do fundo da sala, a voz colérica do DOUTOR HINKFUSS, o director, que acaba de abrir violentamente a porta de entrada na sala e avança furioso pela coxia central.
O DOUTOR HINKFUSS O gongue, mas o gongue, porquê? Quem é que mandou tocar o gongue? Quem manda tocar o gongue, quando chegar a altura, sou eu! (Estas palavras serão gritadas pelo DOUTOR HINKFUSS enquanto atravessa a sala e sobe os degraus para o palco. Volta-se para o público, dominando com admirável rapidez o descontrolo dos seus nervos. De fraque, com um fino rolo de papel debaixo do braço, O DOUTOR HINKFUSS carrega a terrível e injustíssima maldição de ser pouco mais alto que uma braçada. Mas disso se vinga arvorando uma indescritível cabeleira. Agita primeira as suas maozinhas, que talvez lhe inspirem, também a ele, um certo desprezo, de tão frágeis que são, e com dedinhos tão pálidos e peludos como lagartas, e depois diz, sem tomar muito o peso às palavras.)"



ESTA NOITE IMPROVISA-SE de Luigi Pirandello, Tradução de Luís Miguel Cintra e de Osório Mateus, Livrinhos de Teatro, Artistas Unidos/Cotovia, 2009.

posted by luis Terça-feira, Abril 28, 2009

Segunda-feira, Abril 27, 2009

Depois do grande, grande






Da assírio: brevemente.

posted by luis Segunda-feira, Abril 27, 2009

Quarta-feira, Abril 22, 2009

A tua história terminou. Acabámos de contá-la.







Neste dia e nesta hora
segunda-feira, 13 de abril de 2009 12:13:05
recebi da Direcção de Comunicação das Publicações Dom Quixote do Grupo Leya, através de Rui Breda, a informação que "na sequência da política que tem vindo a seguir com o objectivo de trazer de novo à estampa algumas das grandes obras da literatura universal, a Dom Quixote fará chegar às livrarias, no próximo dia 30 de Maio, o clássico A Montanha Mágica, de Thomas Mann..."
Como ainda vou a tempo aqui fica a nota e o agradecimento pelo envio da mensagem.
Depois olhei para a capa e ainda hoje não sei o que pensar, é que não sei mesmo. Não sei. Sinceramente, esperava... melhor: não esperava nada.
Dizer que a tradução da edição dos Livros do Brasil é isto e aquilo, dizer que tem muitas gralhas e tal, não interessa nada o que interessa é que vamos ter uma nova edição, cuidada, espera-se, o que é muito bom.

posted by luis Quarta-feira, Abril 22, 2009

Terça-feira, Abril 21, 2009

Excelentíssimo





fotografia de Paulo Cintra



Mas pouco importa isso a quem, mais do que conseguir criar espectáculos, procura no teatro uma maneira de decidir a vida.

posted by luis Terça-feira, Abril 21, 2009

Segunda-feira, Abril 20, 2009

o título é neste país de associações secretas e de filantropos







A desfaçatez e o desplante com que falam e escrevem sobre as vitórias, aquele tom na fala, como de inevitável, como não se visse como se vê, como foi, e como vai ser, inexoravelmente. O Público e as setas e o que diz na sua reportagem, valha-nos.
Cronistas há que tecem até loas a estas ditas empresas, erigindo-lhe elogios esquizofrénicos, se todas as empresas fossem assim... sempre... tão vencedoras... com funcionários tão bem dispostos... ganham sempre, sempre... no mundo não haverá igual, por certo. De certeza.
Neste país? Nesta República? Nesta democracia?
Uma voz debita na rádio que um pilha galinhas vai ser julgado no Porto, engano de notícia (o radialista da rádio sem fios, enfim, nojo), não que não vá ser julgado por isso, não, mas vai sê-lo também e também por já estar em prisão preventiva e ser mais um, ainda que ridículo, isso. Circo.
O melhor, nesta segunda-feira de manhã, foi a da baleia, mais uma tragédia, mas ainda assim a melhor. Outrora, uma baleia no Tamisa. Ou um coiote no central Park e nas ruas de Manhattan. Afinal a melhor não foi essa, foi outra.
Obrigado Manchester United.

posted by luis Segunda-feira, Abril 20, 2009

Quinta-feira, Abril 16, 2009

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The healing of St. Thomas (Anish Kapoor)


"Sente-se ao longo do século XX uma desconfiança da linguagem religiosa judaico-cristã tradicional. Um cansaço por essa linguagem do hábito já não surpreender. O encanto dos artistas vanguardista do início do século pela arte primitiva reside nesses objetos guardarem uma outra linguagem. Diria mesmo, por serem expressão de uma linguagem pré-verbal, anterior à formulação institucional fechada e repetitiva do sagrado. A arte moderna afastou-se da narrativa e da ilustração e desejou o mundo anterior à fórmula do cristianismo instituído como norma, que parece não ter guardado um reservatório de mistério. Muitos artistas nos últimos cem anos abrem e percorrem uma via negativa.

As religiões, as instituições, pretendem ter respostas e clarificar o segredo. São detentoras de uma verdade que administram. Nomeiam Deus, dão-lhe atributos. Este pensamento institucional do sagrado, como que o faz desaparecer porque o revela. A arte, pelo contrário, não o desvela absolutamente, aponta-o, aproxima-se... Ou abre uma região de negritude, de desconhecimento, onde se perdem as referências: a obscuridade e a desorientação podem ser os seus atributos. Em vez de “desvelar o ser”, como propõe Heidegger, a obra de arte vela-o, introduz-nos numa escuridão essencial para que alguma coisa possa advir.

Neste sentido, escreveu Emmanuel Levinas comentando o pensamento de Maurice Blanchot: “A obra descobre, com um descobrimento que não é verdade, uma obscuridade. (...) obscuridade absolutamente exterior sobre a qual nenhuma possessão é possível.” (2). Esta enorme escuridão que a obra de arte nos abre, coloca o homem no exílio, em lugar inóspito, inabitável, inseguro. A obscuridade da arte é a daqueles que não têm onde inclinar a cabeça e descansar. Um fundamento abissal e originante, antes de tudo, para o qual as palavras faltam. “Luminosidade que desfaz o mundo”, luz negra que o remete à sua origem murmurante. Assim a obra desenraíza o homem do seu mundo, abana a sua morada, retira-o ao hábito e às certezas, e retorna-lhe a sua condição de nómada, peregrino. Também o reino da obra de arte não é deste mundo. Vem trazer a espada e não a paz. Destrói o mundo e recria-o. Rasga uma fenda e abre uma porta para a noite. “A arte, longe de iluminar o mundo, deixa experimentar a obscuridade da qual emerge todo o mundo” (3). E, como indica o belíssimo título de um livro de José Tolentino Mendonça, “a noite abre meus olhos”.


2) Emmanuel Levinas, Sur Maurice Blanchot, Paris, Fata Morgana, 2004, p.22
(3) Ángel Garrido-Maturano, La estética al servicio de la socialidad: sobre la relación entre la Estética de Levinas e Kant in Revista Portuguesa de Filosofia, Vol.62, Fasc.2-4, Abr-Dez 2006, p.657.


Paulo Pires do Vale, Comunicação na Semana de Estudos de Teologia, UCP, Lisboa, 2007, 31.03.09
"

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Quarta-feira, Abril 15, 2009

Ex-tra-or-di-ná-ri-o










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posted by luis Quarta-feira, Abril 15, 2009

Segunda-feira, Abril 13, 2009

Psicologia





fotograma de Paranoid Park, de Gus Van Sant


Acontece muitas vezes, é até mais do que normal, não se preocupe, aconteceu-lhe hoje a si mas amanhã será a outro, só não bate com o carro quem não conduz o carro, é a vida, é assim mesmo, nem mais, quando nos sentimos muito confiantes é assim, quando parece que todos os outros já nos ouvem e querem ouvir como de pão para a boca eis que, mas nada disso importa, nada, deixe, embora saibamos que devemos nos devemos refrear há sempre um dia em que o esquecemos nos esquecemos disso e dizemos e argumentamos que, por exemplo, Obama é antropólogo, por. "Touché".

posted by luis Segunda-feira, Abril 13, 2009

Sábado, Abril 11, 2009

Paramédicos para lhes medir a pressão arterial de forma gratuita


A Associação Teatro Construção, de e em Joane, vai dedicar o seu festival de teatro deste ano a Manuel António Pina e ao tema do coração, e diz o Diário Digital que "sobre o tema do coração, Custódio Oliveira revelou que os espectadores das peças - que vão subir à cena no Centro Cultural de Joane e na Casa das Artes de Famalicão - vão ter à sua espera uma equipa de paramédicos para lhes medir a pressão arterial de forma gratuita."

Ora, ora, ora... Manuel António Pina é só o melhor cronista português da actualidade, pena é que a qualidade do jornal que o publica deixe muito a desejar, é que duvido mesmo que o seu director e subdirectores leiam o que Pina por lá escreve diariamente, porque se o lessem não escreveriam as bojardas que escrevem. Bojardas. Das grandes. Daquelas de gargalhada.

Por falar em cronistas paramédicos observadores atentos ao dia a dia da república portuguesa actual... Uma das novidades Assírio & Alvim deste mês:





"Apresentação:

A narrativa dramática História do sábio fechado na sua biblioteca foi originalmente
escrita para o Pé de Vento, no 30.º aniversário da Companhia, e estreado no Teatro da
Vilarinha, no Porto, em Junho de 2008, com encenação de João Luiz.

«Às vezes apetecia ao Sábio não saber qualquer coisa, poder perguntar a alguém qualquer coisa que não soubesse. Por exemplo, poder perguntar as horas; ou “Que dia é hoje?”; ou “Tem passado bem?” a alguém. Mas vivia fechado na sua Biblioteca e não tinha ninguém a quem perguntar nada. E, mesmo se tivesse, mal acabava de pensar numa pergunta, já sabia a resposta antes que lhe respondessem.»"

posted by luis Sábado, Abril 11, 2009

Quarta-feira, Abril 08, 2009

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Rui Chafes


"E Kandinsky propôs a música como o modelo para a pintura, porque ao afastar-se da perceção quotidiana, ao suspendê-la, é capaz de reproduzir as determinações escondidas do Ser, aproximando-nos assim das coisas mesmas. Um método que Michel Henry comparou à redução fenomenológica husserliana (6). Será precisamente esta palavra, redução, que, desde o final do século XX, o escultor Rui Chafes vai aplicar como programa: “A redução é uma transcendência. Essa ideia de transcendência associada à redução – que é uma ideia que vem dos ícones, da arte bizantina e também da arte medieval – é uma ideia fundamental para o meu trabalho.” (7)

Há na obra de Rui Chafes (1968), e na sua profunda reflexão teórica, um cuidado ascético: de quem percebe que a obra pode ser o lugar do silêncio no meio do barulho mediático; uma introdução de aspereza e resistência num mundo em que tudo desliza à superfície e parece transparente; uma poetização do mundo que se opõe à sua aniquilação pelo consumo e massificação; uma estratégia de lentidão e peso contra a aceleração. Mas aqui o peso da vida não se apresenta como esculturas evidentemente pesadas. Ainda que o sejam, pois trabalha o ferro, elas parecem leves, tantas vezes a flutuar, a elevarem-se, suspensas nas árvores de um parque ou no teto da galeria. E faz-nos repetidamente elevar o olhar, um movimento gótico – referência importante deste escultor, que tantas vezes demonstra a sua admiração pela obra de Tilman Riemenschneider - opondo-se nessa elevação à horizontalidade da escultura minimalista, mas mantendo desta o seu rigor.

É então a leveza (8) do pássaro e não a da pena de que aqui se trata. Uma desmaterialização paradoxal, realizada através da matéria pesada que trabalha: o ferro. Nele apaga as marcas do trabalho manual, pintando-o de negro ou cinza. O escultor olha as suas peças não como objetos, mas talismãs: “tumultos de forças, de dúvidas e de medo”. O carácter objectual da obra-de-arte é residual, uma necessidade no seu trabalho de escultor, mas a “coisa” é-o apenas para abrir mundos. O serem objetos estranhos ao mundo torna-os potências estrangeiras ao hábito, abrindo brechas no horizonte de oportunidades humano – e esta estranheza torna-se maior quando a sua inserção no meio natural transforma o ambiente dos jardins, florestas, parques.

Estes catalisadores de forças permitem um encontro com o que, segundo Rui Chafes, nos mantém acordados: a consciência da morte. O artista desempenha assim um papel ético, abre fendas no mundo e interroga-o nessa abertura, permitindo que outros se aproximem da sua própria autenticidade. Cria emoções ou permite que se aceda a elas. E entre elas a melancolia de um lugar perdido, que a beleza sempre aponta: “acredito que a transcendência não tem outro significado a não ser o de mostrar ou pressentir algo que não está aqui. E penso que a redução, enquanto processo de trabalho ou pensamento, pode efetivamente conduzir ao abrir uma porta nesta fronteira, seja em que plano for, religioso ou artístico, existem muitos caminhos.” (9). A redução compreende-se então como um processo ascético libertador: “A verdadeira liberdade não é, ao contrário do que muita gente pensa, poder ter. A verdadeira liberdade é justamente poder não ter, poder abdicar, poder renunciar, poder prescindir. Essa é que é a verdadeira liberdade, esse é que é o luxo, só alguns o podem ter. Quantos de nós poderemos ter essa liberdade? Quantos de nós nos podemos permitir dar simplesmente um passo ao lado?” (10). E esta é uma exigência que a obra coloca também ao contemplador: precisa de se despojar, renunciar a si, para poder “ver”, ou mais corretamente: “ver-se”. Compreende-se aqui o que Paul Ricoeur escreveu: “Leitor, só me encontro quando me perco” (11). É também uma exigência kandinskiana.


(5) Qualquer obra de arte, por ser fruto da actividade humana, não é já uma manifestação espiritual? Ou poderemos associar esta noção à experiência religiosa, ao sentimento da sacralidade do mundo, a uma hierofania? É o espiritual a dimensão da experiência da transcendência ou a capacidade humana de se transcender? Qualquer obra de arte, por ser fruto da actividade humana, não é já uma manifestação espiritual? Ou poderemos associar esta noção à experiência religiosa, ao sentimento da sacralidade do mundo, a uma hierofania? É o espiritual a dimensão da experiência da transcendência ou a capacidade humana de se transcender?
(6) Michel Henry, “Kandinsky et la signification de l´oeuvre d´art.”, in Phenomenologie de la vie III, Paris, PUF, 2004, p.211
(7) Michel Henry, “Kandinsky: le mystère des dernières oeuvres” in Op.cit, p.222
(8) Rui Chafes, O silêncio de..., Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, p.93
(9) Sobre a Leveza cfr Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milénio, Lisboa, Teorema, 1998, pp.17-44
(10) Rui Chafes, O Silêncio de..., p.157
(11) Ibidem, p.94



Paulo Pires do Vale, Comunicação na Semana de Estudos de Teologia, UCP, Lisboa, 2007."

posted by luis Quarta-feira, Abril 08, 2009

Terça-feira, Abril 07, 2009

um dia destes deu um filme de sam peckinpah na televisão







Vou ali e já venho e ao sair ouço Jorge Coelho perguntar a um jornalista, na sic, retoricamente, se não acha a coisa mais natural ou normal do mundo conversar com muitas pessoas importantes de empresas e do governo, que fala com elas mais facilmente porque as conhece e conhece o meio político e assim os negócios se conversam mais rapidamente.

Chego e Frei Bento Domingues tenta reduzir alguma esperança a cinzas (não, aguente outra argumentação), quando a certa altura da sua crónica diz mais ou menos que parece que o salvador da democracia anda e andou por aqui ou aí.

E ainda se lê que o mundo da moda e das revistas cor-de-rosa anda escandalizado por Michelle Obama não aparecer formatada pelos trapinhos que eles tanto gostam admiram amam.

Por cá, na blogosfera, um dos grupinhos está mais forte e vigoroso do que nunca; agora descobriram uma Pedro Álvares Cabral. "Descobriu" é um bocado forte, não? Ganhem lá um pouco de tino ou vergonha, senão como é que depois tentamos falar de todos os outros que nos rodeiam de uma forma assim mais ou menos de modo que nós é que estamos a ver e que não faríamos isso, assim.

Gostei das palavras de Siza Vieira, não gosto da jornalista nem das suas perguntas, já parece Carlos Vaz Marques no feminino, já não se aguenta. E que dizer da chamada da capa para a entrevista a Siza? Horrível, como é possível?

"La mujer de un tío mío solía agobiarme todo el tiempo: 'Bobby, cuándo vas a escribir una canción sobre mí... a sacarme en la radio'. Me hacía sentir muy mal. Yo le decía: 'Ya la he hecho, tiíta. Lo que pasa es que no escuchas las emisoras adecuadas".

posted by luis Terça-feira, Abril 07, 2009

Segunda-feira, Abril 06, 2009

Caro JPP,

de outras vezes não esperava resposta mas desta pelo menos ao terceiro ponto.

Três:

1. nem é de se ser de Lisboa ou de se ser do Porto, é de andar atento e reflectir;

2. quando escrevi aqui há dias uma nota a desmentir Vasco Pulido Valente (lá estou eu dentro do Burn After Reading) que, retoricamente ou não, disse ninguém ter adivinhado esta crise, ter-lhe-ia dito, ou a outra pessoa qualquer que tivesse manifestado vontade, aquilo que o JPP escreveu neste artigo, mas desde há dez anos atrás;

3. Transcrição: "De onde vem esta agitação? As fábricas estão do lado de lá, ou na corda do Tejo. Aqui só há fábricas de papel, escritórios, repartições, Lisboa é uma cidade terciária, há muito funcionário público, e esses ainda escapam à crise. Não há fábricas, por isso não há desemprego visível. Não é Mangualde, ou o Vale do Ave. Não é o Porto, ou Braga. Não é Setúbal. Tem crise, mas vê-se menos. Escrevo, enquanto atravesso a Baixa, à procura, como David Attenborough, do animal da crise, um ilusivo animal na fauna urbana de Lisboa. Mas se a selva dele não é esta, deve estar mais longe. Em Telheiras, em Alcântara, em Xabregas, nos Olivais? Pode ser, mas deve descer à Baixa de vez em quando."

A negrito: "Mas se a selva dele não é esta, deve estar mais longe. Em Telheiras, em Alcântara, em Xabregas, nos Olivais?"

"A selva"? Era a isto que gostava que me respondesse, ontologicamente e axiologicamente. Selva?

posted by luis Segunda-feira, Abril 06, 2009

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What Heaven Looks Like: Part 4 e Krapp's Last Tape (2006) A rare chance to see the sell out performance of Samuel Beckett's critically acclaimed play, starring Nobel Laureate Harold Pinter via entrada como last tapes outrora dias felizes e agora MALONE meurt________

São horas, Senhor. O Verão alongou-se muito.
Pousa sobre os relógios de sol as tuas sombras
E larga os ventos por sobre as campinas.


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