"21:30 Sala Dr. Félix Ribeiro Ciclo 'PICKPOCKET: ROBERT BRESSON VISTO POR RUI CHAFES E JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE (Início)'
PICKPOCKET O Carteirista De Robert Bresson França, 1959 - 74 min. legendado em português
PICKPOCKET, obra-prima de Robert Bresson, é o filme em que o seu estilo peculiar se afirma de modo definitivo. O seu filme mais austero e depurado, mas também o mais misterioso, feito essencialmente de gestos, os gestos do carteirista como metáfora de todos os gestos de posse e de revolta. Mas também de amor, que a personagem descobrirá ao fim de um doloroso percurso. Segunda exibição em Março.
19 de Fevereiro, exposição - PICKPOCKET, POR RUI CHAFES
A 19 de Fevereiro, às 20h00, tem lugar na Cinemateca a inauguração da exposição de Rui Chafes, "Pickpocket" a partir da obra de Robert Bresson, que acompanha a retrospectiva de filmes do realizador que, no mesmo dia, às 21h30, tem a sua primeira sessão com a projecção do filme "Pickpocket" /" O Carteirista", de 1959.
A iniciativa, "Pickpocket: Robert Bresson Visto por Rui Chafes e João Miguel Fernandes", que se estende ao mês de Março, foi proposta à Cinemateca por João Miguel Fernandes Jorge, de quem a Cinemateca edita por esta ocasião um livro de poemas e textos que inclui fotografias das peças de Rui Chafes.
Para mais informações sobre o programa da retrospectiva integral consulte o pdf disponível em "programação"."
Já tinha passado pelo meio das estantes quando me aproximava da porta tanto de entrada como de saída, uma porta, parei, voltei para trás e vi NostronomoUma História da Beira-Mar, de Joseph Conrad, um dos acontecimentos do mês de Fevereiro, também das prateleiras portuguesas. A Dom Quixote cataloga-o Colecção: FICÇÃO UNIVERSAL; parabéns à Dom Quixote pela reedição. Fica aqui um fragmento da edição de 1994.
Conrad no prefácio: "De entre os romances mais longos do período que se seguiu à publicação do livro de contos intitulado Tufão(1), Nostromo foi aquele que mais inquietas reflexões me suscitou. Não quero com isto dizer que tivesse tomado consciência nessa altura de alguma transformação iminente no meu pensamento e na minha atitude para com este meu ofício de escritor. E talvez essa metamorfose não tenha sequer ocorrido, a não ser em relação a uma realidade exterior e misteriosa que nada tem a ver com as teorias da arte: uma mudança subtil na natureza da inspiração, um fenómeno pelo qual não posso de modo algum ser responsabilizado. O que, porém, me deixou de certo modo preocupado foi a impressão de que, uma vez terminada a última história do volume intitulado Tufão(2), não havia, por assim dizer, mais nada neste mundo sobre o que valesse a pena escrever. Esta sensação, tão estranha e ao mesmo tempo tão inquietante, perdurou em mim por algum tempo; até que, como aconteceu com tantas das minhas histórias mais longas, a primeira achega para Nostromo surgiu com uma dessas histórias que correm mundo, sem o mínimo detalhe de valor. Na verdade, foi em 1875 ou 76, quando, ainda muito novo me encontrava nas Índias Ocidentais, ou melhor, no Golfo do México, pois os meus contactos com terra eram breves, escassos e fugazes, que ouvi contar a história de um homem que, segundo se dizia, teria roubado sozinho uma barcaça carregada de prata, algures na costa de Tierra Firme, durante uma revolução.
Vi-o, vi-os, como sempre o tinha ouvido e visto, há três anos em Paredes de Coura, às vezes ainda falo desse concerto, e se o meu computador não se tivesse apagado, com as fotos lá dentro e tudo, postava uma agora e talvez um vídeo, quem os viu e ouviu sabe o que viu e ouviu, absolutamente ele, Lux Interior, sem sossego, de dedo em riste, desbocado, acelerado, provocador, solitário, bandalho, militante, livre, Way I walk dizem que hoje lá foi é.
O título do post anterior foi escolhido a partir das palavras que Carlos Arbiol e José Tolentino Mendonça, em duas brilhantes comunicações, deram a ouvir a quem esteve presente no Auditório Vita - Seminário Menor, na passada quarta-feira, em Braga, no âmbito da XVII Semana de estudos teológicos sob o tema Paulo de Tarso, quem és tu?:
Prof. Doutor Carlos Arbiol (Faculdade de Teologia da Universidade de Deusto - Bilbao): Paulo, antes e depois. Panorâmica dos contextos paulinos.
Prof. Doutor José Tolentino Mendonça (Faculdade de Teologia - Lisboa): A palavra como auto-retrato.
Como me esqueci do moleskine em casa, e não quero citar mais de memória, não tirei as notas que queria e devia, esperarei. Aqui darei nota.
Uma outra nota diferente: acho que nunca a escrevi aqui, é sobre a Bíblia d'Almeida, publicada pela Assírio & Alvim. Podemos ser crentes, não crentes, e por aí afora até ao infinito das possibilidades mas não devemos ou não podemos ignorar ou silenciar aquilo que de melhor se faz, onde quer que seja e mais ainda por cá onde a nossa vista e o nosso olhar são mais do que uma simples lupa.
Mas foi o que aconteceu, mas é o que acontece. Claro que se percebe, e claro que não se percebe. Capelinhas, nichos, interesses, invejas, ciúmes, enfim, tudo da natureza humana. Se não conseguimos distinguir o que é genial, ou não queremos, morremos, matámo-nos, todos os dias, por dentro e por fora.
É do que se trata, quando se fala da Bíblia d`Almeida: génio, genial, costumo dizer, quando falo dela a alguém, que é um colosso da arte portuguesa, a nossa capela sistina móvel.
Aqui há dias Ilda David deu uma entrevista, ao ípsilon, coisa rara, e boa, pelo menos para os meus olhos. Ficam uns excertos mas aqui está completa.
"Referindo-se ao acontecimento na estrada de Damasco, Teixeira de Pascoaes dizia que se tinha consumado "o mais surpreendente dos milagres", o milagre que, como acrescenta, "deu à pessoa de Paulo um resplendor extraordinário". Na pintura que explora este acontecimento, é possível contemplar esse resplendor?
É difícil responder. A luminescência desse resplendor fazia parte da estratégia do desejo. Mas evoco só a sombra dessa luz que foi S. Paulo a partir do acontecimento de Damasco.
Paulo foi, como dizia Pascoaes ao aludir à natureza quer judia quer grega do apóstolo, uma estátua de bronze sobre mármore?
Li e reli o livro de Pascoaes, que me acompanhou na elaboração das pinturas. Há uma imagem que me ficou: a sombra de Paulo projectada nos mármores brancos de Atenas.
Voltemo-nos agora para a sua técnica pictórica e para a forma como explora os textos. Disse numa entrevista à edição online do Círculo de Leitores que quando ilustra "quero que haja uma relação muito próxima com o texto". Como é que chega aí? Como é que alcança essa máxima sintonia e afinidade? No caso do trabalho para a edição da Bíblia d'Almeida, sentiu alguma vez o risco de poder nem sempre estar a `fazer justiça' ao texto?
Pois, é difícil. A proximidade com o texto é sempre muito subjectiva. Quando fixo uma imagem, é como se estivesse a querer escrever uma ideia para não me esquecer. Só que não a escrevo, desenho-a. Passados dias, podia fazer uma imagem diferente. O texto é tão subtil. Ainda que seja possível a discordância, ele permite fazer sempre inéditos. A sua riqueza pode representar-se de tantas formas. Por vezes, a mesma imagem explora-se em perspectivas várias. E o texto não é traído. Aproximo-me da eloquência do texto com uma mão cheia de possibilidades.
Na mesma ocasião, afirma que tenta reagir ao texto "e as coisas vão aparecendo". Que tipo de emoções, de sentimentos, de afectos, lhe desperta o texto bíblico, já que situa o projecto para lá do mundo da consciência?
Quando se regressa ao texto há uma evolução. Pode haver pequenos ajustes. É uma tarefa inacabada. Imaginação até ao infinito. No texto bíblico encontra-se a eloquência. Como exemplo, refiro Mark Rothko com as pinturas abstractas que fez a partir do Deuteronómio. As telas têm as medidas das cortinas e as cores indicadas para a construção do templo. São muito espirituais. Embora difusas, nota-se que houve grande aproximação ao texto. As imagens demasiadamente explícitas podem tornar o texto banal. Evocar o texto de uma forma não explícita pode aproximar-nos mais dele.
Confessou que agora se sente próxima dos mais antigos ilustradores da Bíblia, pela luz, pelas cores, pelas vozes, pelas formas... Considera a Bíblia uma terra de luz ou encontra nela trevas, pausas, silêncios; João Barrento fala nos "brancos da respiração do hebraico" - quer comentar? E já agora, na sua opinião, quais são os tons da voz de Deus? É uma voz ou são várias?
É uma voz e são várias. A Bíblia é um prodígio de leituras. E por isso é importante atender aquilo que os outros fizeram. Admiro imenso os frescos paleocristãos, por exemplo. Também Rembrandt fez belíssimas representações bíblicas. Tenho ainda admiração pela arte antiga e medieval.
Quais as principais dificuldades que encontra no momento de ilustrar os livros bíblicos, sendo que, como dizia Claudel, a Bíblia é "um imenso vocabulário"?
Para um imenso vocabulário só um imenso imaginário. Mas pode-se voltar sempre lá. Porque as histórias são sempre sugestivas. Cresço na leitura, retenho coisas sem precedentes.
Partindo daquele princípio enunciado por Tolentino Mendonça segundo o qual, ao contrário do texto escrito, "as imagens não fixam, interpretam", as suas imagens são neste caso autónomas ou ‘apenas’ uma ilustração da palavra? O seu trabalho é, como diz Ana Marques Gastão, feito de palavras, ou situa-se para além delas?
Recordo Rembrandt. Ao olhar para as gravuras podemos ler as palavras, embora autónomas. A palavra tem uma força própria. A imagem autonomiza-se. Não precisa da palavra para ser o que é. No entanto, foi inspirada por ela.
Como lê a Bíblia? Considera a sua pintura oração policromática ou, de certo modo, uma esplêndida espiritualidade da beleza? Há nela uma ‘teologia visual’?
Todas as vezes que leio os textos sagrados tenho vontade de memorizá-los. Faço isto com desenhos. Inspira-me. Tenho-a por companheira. E o seu esplendor nas minhas pinturas bíblicas pode servir a beleza da espiritualidade e da teologia."
Sobre o S. Paulo de Teixeira de Pascoaes, se vale a pena dizer mais o que quer que seja só dizer que é genial e que Thomas Mann quando o leu o assim considerou também, apenas corrigindo que há uma ou outra passagem menos precisa, mas...