(1) Carlos Arbiol, (2) José Tolentino MendonçainXVII semana de estudos teológicos. Paulo de Tarso, quem és tu?
posted by luis Quarta-feira, Janeiro 28, 2009
Terça-feira, Janeiro 27, 2009
John Updike (Março 18, 1932 - Janeiro 27, 2009)
"- Kathryn, não quer comer alguma coisa? Não sei bem o que tenho... uma sanduíche de peru fumado ou uma lata de atum com que posso fazer uma salada. Deve estar cheia de fome. Eu estou. A jovem responde com uma inocente efusão autopropagandística. - Oh, quando estou interessada naquilo que estou a fazer, esqueço-me completamente de comer. Depois, cerca das quatro da tarde, pergunto a mim própria porque me sinto tão tonta. Mas a senhora levanta-se tão cedo e... Mas não diz: És velha e frágil e para além da comida tens tão poucos prazeres. Alimentos e recordação. O que é que nos nossos passados continuamos a tentar recuperar, que maravilha deixada fora do lugar e pisada pela pressa de vivermos os nossos dias, os dias que, uma vez desaparecidos, adquirem a magestade do testemunho eterno --estive ali, fiz isto, os tempos eram estes, era bela e tinha todo o potencial do meu belo futuro? - Estou bem --garante vivamente a Kathryn. - Vamos continuar até ao fim da fita. Será bom para a linha. Pergunte-me o que quiser. - A "admiradora"... Leu as memórias dela? São melhores do que se poderia esperar e apresentam uma imagem muito diferente de Zack do que aquela que me está a oferecer. Inteligente, doce, um homem do mundo e não só do mundo artístico. - Inteligente, tão inteligente que a teria matado se ela não tivesse sido projectada do descapotável quando ele o estampou no bosque. A amiga que ia com eles não teve a mesma sorte e ficou debaixo do carro quando este se voltou. O Zack não... voou directamente de encontro ao tronco de um carvalho como a bala humana de um canhão. Durante o funeral, o caixão ficou fechado porque o aspecto da cabeça dele era uma desgraça. A palavra "desgraça" tolhe-lhe a língua, sabe-lhe a uma coisa perdida, era uma palavra de que Zack gostava, usando-a a respeito de um quadro em que exagerara o número de camadas de tinta para apagar a imagem e tinha de eliminar certas zonas com uma colher para que a vida regressasse à tela. - Não, não li o livro da admiradora. Só poderia ser um texto interesseiro e semianalfabeto."
John Updike (trad.Carmo Romão), Procurai a minha face, Civilização Editora, 2007.
posted by luis Terça-feira, Janeiro 27, 2009
Neighborhood #1 (Tunnels) No Cars Go Haiti Keep the Car Running Born in the USA (Bruce Springsteen Cover) Neighborhood #3 (Power Out) Rebellion (Lies)
posted by luis Quinta-feira, Janeiro 22, 2009
1975. Verão de 75. Era o fim de Agosto e eu estava em Verona com amigos. Em Verona, há aquelas extraordinárias arenas, e nessa noite cantava-se a Turandot de Puccini. E eu gosto de Puccini. E fomos comprar bilhete, éramos jovens, os mais baratos, aqueles sem lugar marcado. E lá entrámos às seis da tarde para aquilo que só começava quando a noite caísse. E eram trinta mil, quarenta mil pessoas, cinquenta mil pessoas, para ter lugares melhorezinhos na geral.
Estávamos muito tempo à espera, quando finalmente o sol caiu e a noite chegou e as pessoas mais ricas começaram a ocupar os lugares marcados na plateia. Foi quando a senhora ao meu lado e depois trinta mil pessoas, quarenta mil pessoas, cinquenta mil pessoas acenderam pequeninas velinhas, daquelas rafeiras, velinhas de bolo de aniversário, todas branquinhas. Era o princípio da noite. Eu, estúpido e racionalista, perguntei: Mas porquê? E a senhora, que, claro, já deve ter morrido, isto foi há trinta e dois anos, respondeu-me, em italiano: “Solo per belezza”.
Esta definição parece-me absolutamente extraordinária. É a mesma que os poetas disseram, quando diziam: “A rosa não tem porquê”.
“Solo per belezza”! E eram sessenta mil pessoas que “solo per belezza” faziam o mesmo gesto.
Ora bem. Isto terá vários pressupostos que me parecem curiosos. Primeiro, esta senhora, popular, acreditava que a beleza era universal. Naquele círculo gigantesco de trinta, quarenta mil pessoas, todas as pessoas, no mesmo momento, achavam que a beleza era aquela. Era o acender breve da vela, porque mal a vela, que era pequenina, se apagava, a beleza ficava na memória. E eu já não me lembro da Turandot, que foi o que me fez ir àquelas arenas. Lembro-me da senhora e daquelas velas ali acesas, e da sua frase extraordinária. Se virem bem o “solo per belezza” ˚ quer dizer que aquilo não tem importância nenhuma, não serve para nada. É só pela beleza, na sua sabedoria e na sua maravilhosa língua, foi o que ela me disse. O que ela me disse é que aquele gesto premeditado, pensado por tantas pessoas, era um gesto sem qualquer utilidade prática, sem finalidade. Não servia para nada e, no entanto, era sentido como necessário por todas aquelas pessoas. E a beleza para elas podia existir numa comunidade. O facto de serem arenas e de ser um círculo, fazia com que aquele momento parecesse que se passava no mundo inteiro. Todo o mundo queria que a beleza acendesse e apagasse com a brevidade de um fósforo. Esta é a primeira história.
Segunda história. Eu teria doze, treze anos. A minha família tinha uma casa numa aldeia no Minho, e no Verão íamos para lá. Nessa altura, com a minha irmã mais velha, levávamos umas coisas para lá, para a casa da aldeia. Íamos tirando da casa de Lisboa umas coisas que saíam da moda e que iam para a casa da aldeia. Nesse ano ia para lá uma reprodução do Rouault, Georges Rouault, pintor expressionista, cristão, muito dramático, muito intenso, que esteve em grande voga entre os católicos dos anos 50 uns anos, mas naquela altura, 1964 ou 1965, já ia para a casa da aldeia.
No caminho, passávamos sempre pela casa de uma mulher extraordinária que tive a alegria de ter conhecido, Rosa Ramalho, analfabeta, barrista de Barcelos e extraordinária artista. Íamos comprar lá uns barros e lembro-me perfeitamente que, no carro da minha irmã, um Fiat 600, lá iam as coisas velhas que levávamos para a casa da aldeia. Nesse dia, comprámos uns barros, Rosa Ramalho trouxe-os para o carro, e, ao meter na caixa do Fiat, viu a reprodução da Verónica do Rouault. E parou! Pegou na reprodução, que ainda era grande, e ficou a olhar para aquela cara torturada e disse: “Santas mãos!” Será a melhor critica que o Rouault alguma vez teve, aquilo que uma analfabeta do Minho, artista, sua colega, disse. É que ela não disse só “hábeis mãos” ou “extraordinárias mãos”, mas sim “santas mãos”, mãos que são mais do que mãos, que abrem no mundo o espaço da transcendência.
E assim como a beleza é menos que a beleza para a senhora italiana da minha juventudo, porque é só pela beleza, Rosa Ramalho, colega de ofício, encontrando e pensando, fez ver em Rouault a santidade como o seu camarada nunca teria imaginado. Houve ali uma intensidade de olhar que me obrigou a ver Rouault para sempre, não posso voltar a ver nenhum quadro do Rouault sem pensar na velha analfabeta descalça que vendia uns barros naquela aldeia. Inteligentíssima! Claro que ela era manhosa e, se disse aquela frase, para si própria, em meditação, também o disse para ser ouvida, para fazer-se perceber no círculo dos burgueses a que começava a aceder. Isto também será o jogo do artista que faz entender aos outros o que entende. O certo é que nunca mais me esqueci desta história da minha adolescência, a segunda que vos conto hoje.
Passo à terceira história. Diderot. Ando a ler muito Diderot. Não só os ensaios, o extraordinário teatro, como as Cartas. E descobri que fala inúmeras vezes da cúpula de S. Pedro. Não só nos ensaios, como nas cartas faz inúmeras referências àquele abcesso no céu de Roma, àquela coisa gigantesca que ultrapassa todas as dimensões do céu de Roma e que ultrapassa a vida, essa colossal cúpula da basílica de S. Pedro. Nas partes mais elaboradas do seu discurso, ele refere-se sempre a esse monumento e deduz daquela magnificência artística a sua teoria estética. Nas partes mais íntimas, nas Cartas a Sophie Volland refere-se muitas vezes como “aquela coisa impossível”. A experiência estética que ele tem perante aquilo que considera quase um escândalo, de tal forma rompe com a natureza. A hipótese de aquilo existir é um escândalo de tal forma é belo e de tal forma ultrapassa as necessidades, tal como o diria a minha velha senhora de Verona. Não é preciso aquilo existir, será também solo per belezza. Ela não é necessária para a vida prática e, no entanto, irrompe no céu de Roma. Para Diderot, a cúpula é bela porque desafia a matéria. Noutra carta, vai dizer que obedece à matéria. Porque de facto não desafia, obedece, é perfeita porque se adequa com exactidão à resistência dos materiais, cálculo de engenharia que permite que não caia em cima de ninguém. O que é belo é o que é equilibrado, dirá. É o que é simétrico, o que obedece aos números, é o que tem estudo científico. O que é preciso é aplicar o estudo científico às artes.
Tudo isso vai ele elaborar a partir desta contemplação do escândalo que é uma coisa extraordinariamente inútil no sentido da vida prática que é aquela cúpula, obra de engenharia gigantesca que não só desafia o mundo como revela todas as potencialidades da matéria. E nesse sentido é um desafio. É mostrar a matéria em todo o seu esplendor. Perante aquela potencialidade, e mostrando aquela matéria no seu esplendor, canta-se Deus e louva-se o divino, ou não.
Mas o que ele vai defender, e estamos no séc. XVIII, é que o belo é aquilo que é adequado. Daí vamos chegar ao belo como bem. Aquilo que é justo e adequado. É uma coisa que nos anos 50 do séc. XX vai ser muitíssimo defendida justamente nas pessoas que vêm no cinema a forma do séc. XX. É que um plano não é belo pelo ornamento. Um plano é belo pela sua adequação ao assunto. E essa teoria será defendida numa revista para a qual o João Bénard da Costa, nas suas aulas de Filosofia no Liceu Camões, me chamou a atenção, uns Cahiers du Cinema, ainda amarelos, aí se defendia que a justeza é a beleza. Não é o ornamento mas sim a linha mais recta até ao assunto. E aí terá nascido um cinema moderno.
Já vos contei a história da senhora pobrezinha de Verona que foi à Opera, da Rosa Ramalho. Estamos no Diderot, nos enciclopedistas e na ideia de que a beleza se pode adequar ao bem, sendo o caminho mais rápido, o caminho mais simples, mais adequado às formas. E que as formas são possíveis por proporem aos homens o convívio. Ele, Diderot, usa muito uma palavra muito bonita que é o rapport, a relação. A relação entre as várias coisas, a relação entre o tema, a forma, o assunto, o modo de ver o objecto, todas essas coisas. Será talvez essa a ponte que nos liga ao bem, a adequação e o esplendor da matéria. Seria a cúpula de São Pedro.
Quarta história. Stendhal, romancista francês, extraordinário, fantástico, maravilhoso, riquíssimo, que defendia coisas como ser rápido na escrita, não demorar muito tempo, uma escrita impessoal.
Teve a sorte de ver nos Salon de Paris, nas grandes exposições que havia em Paris, um quadro inglês que tinha sido recusado em Inglaterra porque não correspondia aos moldes da beleza inglesa e que era o Carro de Feno do John Constable. É um quadro que foi muito famoso até há pouco tempo, um quadro a que eu tenho especial afecto. É um carro de feno que passa num campo com umas poças de água um bocado sujas, uns cães que andam por ali, umas árvores.
Constable defendia, ao fazer esse quadro, que era novo dentro da tradição da paisagem e da paisagem inglesa, que uma hora não é igual a outra hora. Eu tenho de pintar já, com a rapidez possível desta hora, porque daqui a uma hora o mundo já não é o mesmo. Ideia que é a que o Stendhal tem do romance, na maneira rápida como quer escrever, na maneira da prosa que ele dizia que gostava de escrever como se fosse um anuário e não como a prosa arrebicada dos grandes estilistas.
Eles estão os dois, diriam os jovens de agora, na mesma onda. No entanto, o Stendhal refere-se ao quadro dizendo que o quadro é um bom espelho só que o que ele retrata não tem qualquer interesse. E despreza o quadro de Constable para louvar outros trabalhos já entretanto esquecidos e que ele viu naquela mesma exposição. No entanto, ele chama-o “espelho”. Ele, Stendhal, que dizia do romance “Eu queria que o romance fosse como um espelho que se passeia ao longo de uma estrada”, reconhece que aquele quadro é exactamente isso. Um espelho que se passeia ao longo de uma estrada onde está a passar um carro de feno. E, no entanto, não viu lá nada. Colegas dele, mais novos, das artes plásticas, viram. Viram tanto que, dali, daquele quadro e do facto de ter sido recusado em Inglaterra e ter aparecido em França, os impressionistas, os pré-impressionistas, foram lá aprender criar raízes e dali apareceu a renovação da linguagem pictórica. E no entanto, isto passou ao lado do Stendhal que, ao mesmo tempo, renovava o romance
A poeira do tempo, os preconceitos, o gosto. Ele gostou de outros quadros naquela exposição. Aquele, que era talvez o mais próximo dele, não o conseguiu ver. E não o conseguiu ver porquê? Porque era noutro meio de expressão? Talvez! Talvez, se fosse na escrita ele tivesse conseguido ver.
Mas como é que possível? O encontro entre a Rosa Ramalho e Rouault foi possível porque também mediavam 50 anos entre o quadro e a própria Rosa Ramalho. De certa maneira, mesmo nunca tendo ela visto nenhum Rouault, já ele tinha entrado nos costumes. Já havia reproduções de reproduções que ela mesmo nunca tendo encontrado, com certeza já teriam passado para outras coisas. Ao ver o novo, Stendhal reconheceu que era novo. Achou que era um bom espelho, mas não se emocionou, não tirou dali nenhuma experiência e foi ver outros quadros mais velhos e menos interessantes, dizemos nós. Porque se calhar, vendo agora esses que, nessa altura, foram esquecidos pela história, encontramos nele, porque este foi tão lembrado pela história, o Carro de Feno, já não o encontramos também. Porque o belo não consegue ser eterno. Vai morrendo e muitas das obras mais belas deixam de ser belas. Outras dissolvem-se nos costumes. Uma das coisas que eu gosto particularmente no Carro de Feno é que de certa maneira já ninguém terá uma experiência estética de surpresa perante este quadro, de tal forma ele se dissolveu em toda a pintura que se lhe seguiu. Ele foi a mãe e o pai de todo o resto da pintura. Ele está em todos os outros que o levaram mais longe. A explosão de matéria que foi proposta nesta aventura isolada e tormentosa de Constable não foi aceite sequer na sua pátria, não foi reconhecido pelos que o podiam reconhecer. E, reconhecido por outros, depois, ele irá dissolver-se em todos os outros. Quando agora passamos pelo Carro de Feno, na National Gallery em Londres, já quase não o vemos. Vamos procurar as outras obras. Vamos procurar os filhos dele. Aquele não, de tal forma o vimos transformado que ele já nada nos oferece – e é este um item do belo, a surpresa.
Li hoje num jornal que as Flores do Mal de Baudelaire fazem 150 anos este ano. Há 150 anos que, como a grande pedrada no charco da língua da poesia, se disse que o belo não interessa absolutamente nada, pelo contrário interessa-me o feio, o terrível, o pútrido, o sórdido, tudo isso é o meu assunto, ou seja a verdade. O belo está sempre nos limites da verdade e muitas vezes começa a ser a mentira contra a qual os artistas querem inventar novas formas, encontrar outras realidades, porque aquelas já estão de tal forma gastas. E este limite entre verdade e belo é aquilo que Baudelaire lança com as Flores do Mal para nunca mais se voltar ao facto de a verdade ir sempre deitando abaixo aquilo que ontem julgávamos belo.
Voltando atrás, há muitos outros belos que foram considerados belos e que regressam. Porque há outras coisas que nos vão iluminando passados. Rafael, que durante muitos anos foi considerado o maior produtor da beleza, houve uns anos em que desapareceu, umas décadas em que desapareceu e deixou de nos comover para agora voltar a comover-nos. E são as histórias ondulantes da beleza que ora vai desaparecendo, dissolvendo-se no trabalho dos outros, ora vai renascendo. E esta palavra renascer é importante.
Ora uma outra história ainda. Billy Wilder. Billy Wilder era um realizador de cinema, austríaco, de bastante mau feitio e muitíssimo mordaz e, possivelmente, o mais pessimista dos homens que fizeram cinema, com uma visão do mundo onde a esperança não teria lugar.
No fim da vida fez um filme terrível chamado Fedora e nessa altura deu uma entrevista ao jornal Le Monde. Uma obra-prima de jornalismo de malícia, de graça, de balanço de vida. Ele já era um velho senhor, já sabia que não ia fazer mais nenhum filme. E a certa altura, isto em finais dos anos setenta, início dos anos oitenta, perguntam-lhe, porque era um cineasta que estava muito na moda, o que é que ele achava agora do Fassbinder (Ah, ele respondia a todas as perguntas com uma história. É por isso que vos estou a contar hoje também.).
Diz ele: Ah! Vou contar uma história. No outro dia estava em casa. A minha mulher teve um problema muito grande, perdeu uma pasta com uns documentos bastante importantes, a minha filha foi fazer umas análises e descobriu que tinha hepatite, a criada deixou uma torneira aberta no terceiro andar, fez uma inundação e o cozinheiro que estava a cozinhar foi tapar a inundação e a coisa que estava no forno queimou-se, o filho mais novo que tinha vinte anos que anda sempre a saltar de universidade para universidade, não sabe bem o que quer fazer, chega a casa e diz então: Vamos ver um filme do Fassbinder. A pergunta era “o que pensa do cinema do Fassbinder?”, cineasta que estava no auge da sua carreira. Ele não dizia que não o que Fassbinder fazia não era verdade, o negrume de Fassbinder nunca seria mais pessimista do que Billy Wilder. Nem mais negro que Billy Wilder com certeza não era Fassbinder. O que dizia era que não queria sair de casa sem ser para redimir a realidade. Aquele dia terrível em que tudo se estragou, não teria redenção sem que uma mão santa, uma mão que é mais do que uma mão, pudesse ter tocado a realidade com a graça da sua santidade. E o que ele pedia ao cinema – e era o seu olhar sarcástico em relação ao que então estava na moda – era não se ater apenas à transcrição da realidade mas conseguir transformá-la, transcendê-la, redimi-la. Isto é um pedido feito sempre. Fez-se no tempo do Zola. Os românticos diziam isto a Zola.
Billy Wilder, mais velho, também germânico, diz isto em relação a Fassbinder – é que a verdade vai sempre corromper aquilo que se considerou belo ou equilibrado.
E é sempre essa luta. A luta do equilíbrio. Mas também aqui podemos perguntar se a poeira do tempo, a poeira do seu próprio tempo, não nos impedie de ver o novo. Se os velhos conseguem ver aquilo que está a ser feito e reconhecer a beleza, a adequação, a possibilidade de bem que ali está. O trabalho de quem escreve a propósito destas coisas, de quem fala ou de quem teima ainda em criar obras, quando já não são necessárias mais obras, é que, e em tempo de Pentecostes isso é justo, poucos são os escolhidos que conseguem em alguma coisa ir transformando.
Há aquele Abril de 1914 em Hammamet em que Klee, Macke e um outro pintor, Louis Moilliet, agora esquecido, pintam aguarelas. São três rapazes que pintam aguarelas no norte de África, durante uma tarde de sol. E aquelas pequenas aguarelas mudaram o mundo. A nossa percepção do mundo e a própria pintura mudou com elas. Mas foram só três homens sozinhos que estavam ali, três amigos que terão conjugado os seus esforços naquela tarde e a vida irá separar. Um deles, Macke, morreu logo a seguir, na guerra, o outro ficou famoso, foi Klee, o outro será lembrado apenas por especialistas. Três amigos no Norte de Africa, longe de casa, esquecidos das brumas do norte, pintando durante uma tarde de luz intensa. E que conseguiram com santas mãos ver mais do que aquilo que se via e que fizeram com que, dessa tarde em Hammamet, nós ainda vivamos a experiência. Tudo o que eles, nessa primeira vez viram e transformaram, entrou e se transformou também nas nossas ideias de paraíso, na nossa vida, na vida das nossas formas, na maneira de olhar a luz do sol.
Aquilo que os artistas nos oferecem sempre, nesta hesitação permanente entre o belo como norma, o belo como aproximação do justo e do bem ou o belo negado insistentemente pela verdade, destruído pela verdade ou, segundo a Rosa Ramalho, transformado numa santa verdade, uma verdade mais verdadeira que a verdade, é o trabalho militante de quem quer permanentemente encontrar novas formas, ressuscitar o justo em todo o seu esplendor.
“Fiquemos já aqui e montemos umas tendas”, terá dito Pedro a Jesus quando este se revelou no seu esplendor. Quantas vezes não sussurramos isto mesmo ao irromper nas nossas vidas o Campanile de Giotto ou o Requiem de Mozart?"
Título:OFÍCIO CANTANTE — Poesia completa Autor: Herberto Helder Colecção: Documenta Poetica Ano de edição: 2009 / Tema, classificação: Poesia Formato e acabamento: 14 x 20 cm, edição encadernada N.º de páginas: 624 Apresentação: Ofício Cantante foi o título escolhido para a primeira publicação, em 1967, de poemas reunidos do autor, na colecção Poetas de Hoje, na Portugália Editora, título agora recuperado para a sua poesia completa. Para além de alguns poemas inéditos (e outros retrabalhados), incluem-se aqui os poemas do já esgotado A Faca Não Corta o Fogo — Súmula & inédita, considerado o melhor livro de 2008 por alguma da imprensa especializada.
não chamem logo as funerárias, cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto, medo? só que o sangue vibre ainda na garganta e qualquer mão e meia me encha de terra a boca, sei de quem se tenha erguido, de pura respiração, do fundo da madeira, saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra, ornatos, espadanas, lágrimas, últimas músicas, não é como no escuro o trigo que ressuscita, sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o sangue alvoroçado nos braços e nas têmporas, que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis, cortem-me cerce o sangue fresco, que a terra me não côma vivo, [excerto]
A Assírio & Alvim fez o favor de enviar aqui para o blog/blogue as "próximas novidades com chegada prevista às livrarias até final deste mês". A saber: Herberto Helder: OFÍCIO CANTANTE — Poesia completa; AMADEO DE SOUZA-CARDOSO — Pintura [CATÁLOGO RAISONNÉ — vol. II]; Mário Cesariny: VIEIRA DA SILVA — ARPAD SZENES OU O CASTELO SURREALISTA; Mário Cesariny: LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE ÁLVARO DE CAMPOS [edição fac-similada]; Gastão Cruz: A VIDA DA POESIA —Textos críticos reunidos; Carlos Nogueira: DESENHOS, CONSTRUÇÕES E OUTROS ACIDENTES.
Este é um lugar de beleza. Se podemos secundarizar a Sé de Lisboa em relação a outras grandes catedrais românicas anteriores ou da mesma época, se podemos e devemos recordar todas as destruições, modificações, restauros que sofreu durante os tempos, nenhuma dessas contingências ou comparações diminui a beleza deste espaço.
E aqui começa a primeira pergunta ou o primeiro mistério. Porquê e a quê chamamos Belo?
A segunda pergunta que podemos fazer, associada a essa, é porque é que, não só na religião católica mas em praticamente todas as religiões, os templos, os lugares de oração, são – ou foram – privilegiadamente lugares de Beleza? Isto acontece no Oriente, no Ocidente, no Japão, na China, na Grécia, no Egipto, etc. Porquê a imediata associação da Beleza a um lugar onde se vai não para admirar uma coisa bela, mas para rezar, para entrar em diálogo com o transcendente, qualquer que seja o nome ou a forma de que esse transcendente se reveste.
Terceira pergunta. Esta associação, que sempre existiu, que perenemente existiu, é uma associação que não encontramos na própria tradição que a funda. Ou seja, se lermos os Evangelhos, os Actos dos Apóstolos ou as Epístolas, ou os outros textos do Novo Testamento, não há praticamente referências estéticas. Em nenhum momento, se nos diz, por exemplo, se Jesus Cristo era belo ou não era belo. E aí, começa a pôr-se uma questão complexa e apaixonante: Jesus Cristo, Deus feito Homem, podia ou não podia deixar de ser belo? Ninguém pode responder radicalmente sim ou não e não há nenhuma fonte histórica que nos diga se o era ou não era. Nem nenhum traço. Não sabemos se tinha os olhos azuis ou os cabelos loiros ou se, pelo contrário, os olhos eram pretos, e castanhos os cabelos. O mesmo se diga de qualquer outra figura da Sagrada Família ou dos Apóstolos. Não há descrições físicas. Fala-se de defeitos físicos, isso sim, mas para a gente anónima: o cego, o paralítico, o surdo, etc. Mas nunca se caracteriza ninguém em termos de beleza. Mesmo de uma figura como Maria Madalena, nunca é dito nada que nos possa fazer saber se era uma mulher bela ou o não era.
Uma excepção. É a conhecida passagem em que Cristo faz a famosa comparação entre os lírios do campo e as vestes do Rei Salomão: “Olhai os lírios do campo que não fiam nem tecem e nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como eles”. Cristo não fala concretamente em beleza, mas fala no que nela está implícito. Vejam como a beleza dos lírios do campo ultrapassa em muito a beleza da corte de Salomão que era, para os judeus, o rei que tinha tido o maior poder e maior riqueza, e em cuja corte tinha havido maior luxo. E nem Salomão, em toda a sua glória, conseguiu ter a beleza que existe na natureza, que existe nos lírios (nem sequer nos lírios cultivados, mas nos lírios do campo). E isto é dito como uma evidência. Não é possível desmentir este facto. Os lírios do campo são mais belos do que as vestes do Rei Salomão.
Todos estes exemplos apontam para a mesma ordem de mistério. Todos são evidentes ou nos parecem evidentes. Percebemo-los imediatamente, mas perguntamos imediatamente: Porquê? Porque é que um lugar como a Sé de Lisboa é Bela? Porque é que os templos sempre estiveram associados à ideia de Beleza? Porque é que há uma tal ausência de referências à Beleza nos Evangelhos? E, quando a achamos, ela refere-se não a uma beleza humana ou criada, não a uma obra de arte, mas refere-se a uma beleza natural, à beleza dos lírios do campo, à beleza de uma flor que cresce espontaneamente.
Eis a questão colocada sempre e ao longo dos tempos, em todas as meditações sobre o Belo e em todas as reflexões sobre o Belo, e a que o Jorge Silva Melo aludiu na intervenção precedente. O Belo é imutável, a Beleza é permanente? Se sim, como podemos abordar o conceito de Belo? Mas se não, a complexidade é a mesma.
Partamos do pressuposto que tudo é relativo. O que hoje é belo para nós deixará de o ser amanhã, mesmo que por amanhã entendamos daqui a muitos séculos. Duma pessoa que nós dizemos ser muito bela, o código de beleza muda com as modas, com os tempos e passado algum tempos já não o será. Mas ao mesmo tempo que isto dizemos, encontramos o seu desmentido permanente. Encontramos uma estátua grega num templo grego. Essa beleza que para nós se impõe ainda como ideal, foi contestada muitas vezes, foi transformada muitas vezes, mas continua a ser o mesmo ideal. E continua a impor-se quase como uma objectividade, como quando se diz uma boca bonita, um nariz bonito, uma paisagem bonita, um mar bonito e de repente este é um dado objectivo, um dado adquirido. E, ao mesmo tempo nós sabemos que esse adquirido, ao contrário dos outros valores transcendentais como o Bem ou a Verdade, é o valor mais ligado aos valores sensoriais.
O valor, por outro lado, mais ligado a qualquer coisa que podemos referir como o que Cristo disse a S. Pedro: “Não foi a carne nem o sangue quem to revelou, mas o meu Pai que está nos Céus.” Pensamos nisso quando encontramos esse conceito em crianças ou pessoas sem nenhuma educação. Como é que há pessoas que tem acesso imediato ao Belo? Que explicação racional há para dar?
Foi educação? Certamente não serei eu a negar o papel da educação artística que é importantíssimo, a educação do gosto. Mas há mais do que isso. Há qualquer coisa que não vem da educação. Há qualquer coisa que a ultrapassa e a que não é descabido dar o nome de Graça tal como existe no encontro entre duas pessoas, ou no encontro nosso com determinada paisagem, determinado livro, determinado quadro, determinado momento.
O Jorge Silva Melo contou muitas histórias. Eu contarei uma história que sempre me deixou bastante pensativo. Trata-se de uma criança, de sete ou oito anos, que está a ler Os Lusíadas. De repente, um adulto repara: fenómeno estranho, uma criança a ler Os Lusíadas, e diz-lhe com alguma ironia: “Então estás a gostar? Estás a perceber?” E a criança responde: “Eu não percebo nada mas isto é tão bonito.”. Pode ser, como o Jorge Silva Melo dizia há pouco, que exista já um calculismo num miúdo munido de oportunismo, pois sabe que ficará bem visto com esta resposta. Mas pode ser qualquer coisa de completamente diferente. Pode ser que aquela criança esteja a dizer uma verdade profunda. A beleza impõe-se-lhe para além da compreensão. Ou, indo mesmo mais longe: a maravilha é a incompreensão.
Vou contar uma última história. Estava eu no Japão, num templo em Quioto. Um templo chamado da “Eterna Sabedoria”. Quando lá cheguei não pude esconder uma certa decepção. O templo pareceu-me bastante banal, bastante igual a outros que eu já tinha visto. Não que fosse feio, mas nada se me impôs imediatamente. Havia em frente um jardim que se chamava “Jardim do Eterno Nada” com dois pequenos montinhos de areia. Havia ali qualquer coisa de muito forte, mas que não correspondia à minha expectativa. Havia por lá um livrinho daqueles livrinhos de guias para turistas. Comecei a ler o livro e comecei a julgar perceber mais alguma coisa do que estava ali representado ou não representado. Tudo aquilo começou a fazer algum sentido para mim. Comecei a entusiasmar-me com o que estava a ver e, pouco a pouco, a aderir ao templo e a descobrir cada vez mais coisas no templo. Num canto, no chão do templo, estava sentado um monge budista. De vez em quando, olhava para mim. Eu estava visivelmente entusiasmado e ele, a certa altura, perguntou-me: “Então, está a gostar?” Eu disse-lhe: “Estou”. E contei-lhe: “Olhe ao princípio, quando cheguei, tive uma decepção. Não percebi bem isto, mas agora, com o tempo, e com este livro, e com estas explicações, já estou a começar a perceber e estou a gostar imenso.” E ele olhou-me (nunca mais me esqueceu esse olhar sem ironia nenhuma, nem sarcasmo, com uma clareza enorme) e disse-me: “Está aqui há uma hora e está a perceber. Pois eu venho aqui todos os dias, há vinte anos, passo aqui todo o dia e cada dia percebo menos.” É em momentos desses que se sente que a beleza é aquilo de que cada vez se percebe menos e não aquilo de que se percebe mais. Sem dúvida ajudam imenso as explicações. Tudo o que se faz hoje em museus, centros de arte, etc, tudo isso nos situa imenso. Mas o fundamental do encontro, é da ordem do mistério. É perfeitamente inexplicável nesse sentido.
Podem buscar-se muitas interpretações. E podem buscar-se ao longo da história, sobretudo da história da filosofia, inúmeras interrogações sobre um conceito que atravessou fundamentalmente a filosofia grega, que tanto se debruçou sobre o tema do Belo. Platão disse-nos que os primeiros sábios foram Homero e Hesíodo, ou seja, pôs no topo da sabedoria os poetas. Homero e Hesíodo teriam sido os primeiros sábios. E este sentido aparece muitas vezes ao longo da História. Recordo, por exemplo, como aflorado na intervenção inicial do Padre Tolentino de Mendonça, o discurso lapidar com que Sophia de Mello Breyner Andresen recebeu nos anos 60 o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, fazendo uma associação profunda e fundamental entre o Belo e o Bem. ”A coisa mais antiga de que me lembro é de uma maçã” disse ela. E depois falou da beleza da maçã, da beleza de Homero e disse que essa experiência estética a tinha feito chegar a uma experiência ética. Quem não tem uma relação justa com as coisas, não a pode ter com os homens nem com o mundo, disse ela. E disse também: Quem tem uma relação justa com as coisas é forçosamente levado a tê-la com os homens.
Numa ordem e na outra estão os mesmos valores. É aquilo a que Heraclito chamou o devir. E é exactamente nesse devir que, sem ainda falar em três virtudes, na verdade, no bem e no belo, onde se engloba muitas vezes a justiça que depois os engloba a todos, somos levados ao mistério dessa beleza harmonizável ou não com tudo o resto. Há uma profunda verdade na afirmação de Sophia feita por outros tantos. Mas sentimos que ela não esgota tudo. Porque sabemos, e esse é um outro grande mistério, que houve quem tivesse ou parecesse ter uma relação justa com o Belo e tivesse a relação mais monstruosa com as pessoas e com o mundo. Aqueles célebres casos dos carrascos dos campos de concentração que iam para casa ouvir quintetos de Schubert, depois de acabarem de ter mandado matar crianças, adultos, velhos, etc. Estes valores podem não coincidir. Estes valores podem não ser exactos. E também o Jorge Silva Melo falou há pouco e recordou Baudelaire e as “Flores do Mal”, cujo centenário agora se comemora. A primeira grande ruptura, a primeira grande distinção entre o Belo e o Bem, entre uma Beleza ao serviço da harmonia, de adequação aos valores tradicionais a ela ligados, e uma arte que cada vez mais se ia separar desses valores.
Para Homero, o Oceano era o pai das coisas e seguiu-se essa filiação na metafísica do Ocidente, pelo menos de Heraclito até Leibniz. Era no devir, na transformação, (o mar é o que está sempre a fluir) que poderemos encontrar a melhor metáfora para o que simultaneamente nos pode dar um máximo de movimento e um máximo de repouso. Ou seja, que nos pode conturbar e emocionar profundamente e, ao mesmo tempo, nos pode dar uma profunda sensação de paz.
Quantas e quantas vezes eu tenho ouvido e eu próprio tenho dito, a frase: “Quando eu morrer gostaria de morrer ouvindo esta música.” Diz-se, e Jorge de Sena tem um soneto lindíssimo sobre isso, que o papa Pio XII quis ouvir, morrendo, a 7ª Sinfonia de Beethoven. Perguntar-se-à: No momento da morte haverá ainda tal apelo a coisas terrenas? Ou será que essa beleza não é da ordem das coisas terrenas mas da ordem que permite a passagem deste mundo a um outro mundo, do mundo sensível ao mundo inteligível? Por isso, como Parménides tantas vezes sublinhou, a arte não lhe parecia admitir, nem um princípio ou um termo. Na esfera inteligível, nem princípio nem termo podiam existir, porque ela é uma esfera perfeita. Inteiramente inteligível, em contradição profunda com o nosso mundo inteiramente sensível.
Platão, sobretudo no Fedro, mas também no Parménides, mantendo-se, no essencial, fiel ao seu mestre, admitiu, para o mundo sensível o heraclitianismo. Foi mais longe: Perguntou se se podia falar de outro belo que não fosse o belo deste mundo sensível. E essa é outra das interrogações profundas que nos atravessam: haverá beleza no outro mundo para quem acredita nele? As representações que dele temos levam sempre a supor uma beleza quase perfeita. Basta ver as inúmeras imagens ou pinturas feitas do Céu. Fra Angelico é um exemplo supremo. Ai parece reinar uma suprema harmonia, uma beleza quase perfeita. Mas nós podemos dizer: “Será que ainda há a possibilidade de um julgamento de beleza? Como será que todos estes valores que têm estado aqui em causa e que estão em causa para nós todos, a bondade, a verdade, podem coexistir num outro mundo, fora deste contexto sensível?”
Só se pode falar em bondade quando há maldade. Num mundo onde só haja bondade, perde-se o sentido do que é a própria bondade. A mesma coisa para o Belo. Mas será a mesma coisa? Ou seja as antinomias serão as mesmas? Henry Miller disse que não acreditava que houvesse arte num outro mundo. A obra de arte, dizia ele, é uma compensação ao terror que a vida inspira e, para lá deste mundo, não há que procurar essa compensação. Não tenho que me refugiar numa obra de arte. Ninguém concebe que no Céu, mesmo que o admitamos com espaço físico, alguém construa templos ou igrejas, ou pinte ou componha. Há quadros que no-lo mostram: anjos a tocar e a cantar. Mas sabemos que são metáforas, imagens, utilizadas para nós e que essas formas não são necessárias no mundo da perfeita paz e da perfeita alegria.
É devido à nossa existência sensível que não podemos conceber o que se chama o céu, sem as imagens, e sem as associar à perfeita bondade, perfeita verdade ou perfeita beleza. Mas existirão imagens fora deste nosso mundo sensível? No que em nós subsiste da tradição judaica (que nunca representou outros espaços) aceitamo-lo. Mas no que em nós persiste da tradição greco-romana, a dificuldade em aceder a um além, sem vida de formas, é mais ingrata. Os deuses gregos, podiam ser maus, cruéis. Podiam ser mentirosos ou astuciosos (é certo que quase sempre adquirindo a forma humana para o serem). Podiam ser até feios como Hefestos a quem foi dada como mulher, Afrodite, a deusa da beleza. Mas deuses e deusas rivalizavam entre si nestes atributos sensíveis e terrenos como bem o ilustra o famoso episódio do Pomo da Discórdia quando Hera, Afrodite e Atena pedem a um simples mortal, Páris, que diga, como na História da Branca de Neve, qual delas é a mais bela. Páris escolheu Afrodite e escolheu-a para sua perdição, pois foi essa escolha, como se sabe, que determinou a guerra de Tróia em que foi o vencido. No mundo sensível valeu-lhe o amor de Helena, a mais bela das mortais. Mas no mundo inteligível, a cólera dos deuses abateu-se sobre ele.
Mas Platão, que nos seus diálogos, sempre separou o mundo do devir do mundo do ser, admitiu na Filebo a permanência do devir no ser, a permanência de formas vivas ou obras de arte, aquilo a que mais tarde Aristóteles chamou substância em acto ou enteléquias. S. Tomás retomou essa ideia com os conceitos de perfeição, proporção e claridade. Como dizia o grande arquitecto Alberti, a beleza era uma tal disposição de partes que não podia ser adulterada, excepto para pior.
Não me cabe neste brevíssimo tempo falar das imensas teorias sobre o Belo mas uma delas teve um longo percurso. O Jorge Silva Melo já falou sobre ela e é a que se baseia no conceito de imitatio. A arte deve imitar a natureza e a natureza é bela porque é criação de Deus.
Também aqui nos havíamos de perguntar: o que é que nos leva a dizer que a natureza é bela? Porque nem sempre o é. Porque há paisagens feias e paisagens monótonas e há paisagens terríveis. Portanto não o é. E porque é que haverá uma imitação de uma ordem na outra quando exactamente a não vemos aplicada a nenhuma ordem?
É possível dizer-se que as formas são significantes. Mas Claire Bell respondeu tautologicamente a quem lhe perguntou quando é que as formas eram significantes. Quando são obras de arte. Só que podemos dizer exactamente o contrário. Só as obras de arte – por o serem – podem ser significantes.
A arte e o Belo não se confundem, e nada se confunde perante o nosso olhar a não ser a convicção, que nada consegue fazer abalar, que temos perante certas obras de arte, certas pessoas, certas paisagens. A beleza e só a beleza lhes dão sentido. Essa beleza que tão tardiamente amámos, como dizia Santo Agostinho, mas essa beleza cujo amor pode constituir, no fim, esse supremo lenitivo ou essa suprema resposta ao terror inspirado pela vida ou ao medo que a vida faz. Há um quadro português (um dos mais célebres da história da nossa pintura) que representa Cristo, o Ecce Homo no século XV. O momento em que Pilatos aponta Cristo à multidão e diz: “Eis o Homem!”
Há centenas de milhares de representações em todo o mundo desse momento. Mas não conheço outra em que Cristo tenha os olhos tapados, como neste Ecce Homo português cujo autor até se desconhece. Ou seja, um véu cobre o olhar. Só vemos dele a boca, a parte inferior do rosto. Não vemos os olhos. Como se naquele momento, o momento que é o momento da Sua condenação, o momento em que cumpre a Sua missão como Homem e como Filho de Deus, o sentido da vista fosse o sentido que Lhe é retirado. Deixa de ver. Já não pode ver. Para Ele, a beleza do mundo cerrou-se.
Pergunto para terminar: Haverá beleza separável do nosso profundo desejo de atingir outra coisa que nos faça ultrapassar a nossa própria dimensão e, atingindo-a, nos faça ser mais completamente?"
Desta vez os jornalistas acertaram, e nem foi preciso irem a correr para a fronteira esperar o frio polar, chegou mesmo, e por lá ficar à espreita.
Por volta das nove horas e quarenta e sete minutos, olhei para o relógio, quando estava a pôr um ponto final em a unidade da crença eis que "está a nevar", movimentos, sorrisos, janela, pouco, apenas uns flocos, mas frios, está a nevar, sorrisos, intervalo.
Quinze minutos em que pararam e depois de mais quinze minutos passados aí sim muitos flocos, muitos, chuva de neve, durante três horas e tal quase quatro e ainda mais, alguns centímetros de altura, gritos, sorrisos, um ilusionista, fotografias, a vida mais leve, cada vez com mais intensidade, a câmara fotográfica do telemóvel continua a não ser a ideal, pudera, enfim, Fellini, estranhos como cúmplices, por toda a cidade.
Não sei mas... por aqui parece a Finlândia, a sério. Levanto os olhos de A revelação do mundo, Le Clézio, de Alexandra Lucas Coelho, olho lá para fora ainda tudo branco o ar não passa dos zero menos um um grau de temperatura.