Sexta-feira, Novembro 06, 2009
1. Só ainda não mandei um grande avé a Casanova porque ando a ler os seus dois últimos textos em fotocópias que me iam deixando na caixa do correio, semana a semana, até agora, e foi isso, assim, sim, pois, também.
E que dois grandes textos.
Mas antes, dizer só que não deixa de ser delicioso e irónico que aquele que coloca a fasquia da crítica e da recensão literária nos jornais e revistas portugueses na excelência não queira mostrar o rosto e assine com um pseudónimo.
Ao lado de outros que estão sempre de dedo no ar e em bicos de pés é um sopro de vida. Lobo Antunes dizia na entrevista a Lucas Coelho, de há duas semanas atrás, que a crítica devia ser outra coisa, Casanova já é essa outra coisa.
Dos textos que me meteram na caixa do correio aquele que quero destacar é o intitulado Um dos maiores etecéteras da actualidade, salvé! Avé.
a não demonstração estética, por parte do crítico, que justifica a aquisição da obra
a escassez do espaço é apontado como o principal motivo
2500 caracteres
universidade e os jornais e revistas: o crítico ideal deve tentar a síntese possível entre estes dois pólos: especulação especializada e opinião subjectiva
coerência
o talento crítico de Barthes conseguiu sobreviver à vasta imbecilidade que é o estruturalismo
evitar dizer coisas que poderiam ser ditas sobre qualquer outro livro é um bom começo
Em última instância, o talento encontra a sua própria consistência --não na insipidez militante ou na adesão fanática a uma constituição, mas na vivacidade, e na resistência ao banal
Casanova, ao contrário de outros que não tendo o seu talento mas se arvoram em talentosos e do meio e mais não fazem do que a figura de Mr. Bumble, eleva a qualidade, resiste ao banal e ao acomodamento e, ao contrário de ainda outros, não debita máximas estilo eu não me decepciono com os jornalistas porque não espero demasiado, uma vez que sei que toda aquela gente dormiu na mesma cama, teve a mesma condição.
O insuportável não é isso que diz mas o que se vê, 4 em 5.
Ainda bem que Casanova não sabe disto e não se acomoda. O esperar demasiado, expectativas, depende do onde se quer estar ou onde se está metido. O resto é conversa.
O segundo texto de Casanova, sobre o 2666, é excelente.
2. "não são segredo [os rituais maçónicos)", "Por tradição, a maçonaria não identifica os seus membros vivos, a não ser que o próprio aceite divulgar o seu nome", "uma ode à América, disse a revista Time", "organização de homens livres que se reúnem para discutir tudo", "honra e palavra", "a ignorância é o que ajuda o caos a crescer", "quem não partilha o conhecimento nunca deixará de ser medíocre", "a tolerância, o respeito pelo outro", "a maçonaria foi secreta enquanto era ilegal", depois a jornalista remata "Agora já não é.", "não são poucos, nem raros", "filantropo", jornalista: "também por lá passa a ideia de que não basta ser-se iniciado para se aceder ao conhecimento."
Estas citações são todas retiradas do texto da jornalista Isabel Coutinho (esta jornalista escreveu uma vez qualquer coisa como: quando o site da revista ler não é actualizado fico nervosa ou ansiosa) publicado no jornal público da passada sexta-feira, dia 30 de Outubro, a propósito do lançamento do último livro de aventuras de Dan Brown.
Dizer o quê sobre as citações acima expostas?
Dizer o quê sobre a existência de associações secretas, hoje, em democracia?
(Pessoas de todas as profissões e ocupações encontrarem-se em reuniões que só elas sabem onde para esquadrinharem um plano de acção, claro que filantrópico, para a sociedade onde estão inseridos e pretendem dominar? passa pela cabeça de alguém? passa.)
Todas as citações são para lá do medíocre e também contraditórias, a da liberdade dos seus membros então é de ir às lágrimas de gargalhada em gargalhada, onde podemos ir também quando se fala em aceder ao conhecimento, de filantropia e de honra e palavra, já me dói a barriga, pára.
Mas não passaria de uma risota se não fosse grave, muito grave, a existência destas e doutras associações secretas nos dia de hoje. Vou dizer devagar e depois repito: são elas as responsáveis, em grande parte, pelo atraso deste país.
Sim:
são elas as responsáveis, em grande parte, pelo atraso deste país.
São elas as mantenedoras e promotoras da mediocridade em quase todos os sectores da vida portuguesa. Nota-se isso tão bem.
Fidelio.
3. O quase jornal diário i num rosa choque cueca publicita "30 escândalos que marcaram Portugal", depois entra-se e já só são "Escândalos que marcaram a democracia", engana, mas adiante.
Quase diário e quase a passar ao lado de uma grande carreira também. Peguemos neste bom serviço de lembrar escândalos e de os dar também a conhecer e pensemos no que aconteceu em Inglaterra para aí em Maio deste ano, as notícias das escandalosas despesas pessoais com dinheiro do Estado pelos actuais e de há bem pouco tempo políticos ingleses, não me lembro já se também britânicos, não interessa.
Pergunta, aqui as perguntas são todas retóricas, ao i: queriam investigação melhor para fazer em Portugal?
4. Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii!
Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii!
Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii! Iii-ouu-aaii!
posted by luis Sexta-feira, Novembro 06, 2009
Quinta-feira, Novembro 05, 2009
luzes
fotograma de Rio Bravo, de Howard Hawks
A primeira vez que entrei numa sala de cinema foi para ver um Charlie Chaplin, e não há adjectivos, e ainda vejo algumas das sombras dessa primeira vez às vezes, amiúde.
Depois no início da adolescência um conluio entre o acaso e a sorte levou a que um dia ou uma noite tivesse ficado inocentemente a ver um filme de cowboys na televisão, filme esse que quando hoje fecho os olhos está lá, foi assim durante toda a adolescência e agora neste estado a que se chama de adulto e lhe arranjam uma definição a condizer.
Durante muito tempo não soube o nome do filme, do realizador e não entendi muito do que tinha visto; mais tarde porque estava sempre à espera de voltar lá apanhei-o de novo e soube que se chamava Rio Bravo, há lá um rosto esquivo atrás de uma daquelas casas de madeira à luz nocturna daquela luz de caravaggio que me ficou para sempre.
Ainda mais tarde soube quem era o realizador e o que pensavam sobre ele e sobre os seus filmes algumas das pessoas que aprendi a gostar de ouvir e de ler. A única coisa que pensei foi "tiveste muita sorte".
O meu primeiro cineclube foi o cineclube de guimarães, monumento nacional, que agora, para os meses de Outubro, Novembro e Dezembro, programou um ciclo de cinema intitulado "Regresso ao Velho Oeste":
Cavalgada Heróica, de John Ford; Rio Bravo, de Howard Hawks;
Os Profissionais, de Richard Brooks; O Bom, o Mau e o Vilão, de Sergio Leone;
A Quadrilha Selvagem, de Sam Peckinpah; Homem Morto, de Jim Jarmusch.
Acabo a citar João Bénard da Costa: "Na cadeia, não podendo mais com a ressaca, Dean Martin enche o copo de ´whisky`. Vai começar a bebê-lo (e ninguém interfere) quando se ouve, através das janelas, a canção índia do `No Mercy for the Loosers´. Dean Martin interrompe o movimento, pousa o copo e pede a Brennan que não feche a janela, que o deixe continuar a ouvir. A música da perdição volve-se em missa de salvação. À pena que tem de si próprio substitui-se, como em Only Angels Have Wings, a percepção fulminante que ninguém terá pena dele. Nem dos outros. Sem uma palavra (a não ser o breve pedido de Martin a Brennan), só com música, tudo está dito sobre mercy e sobre loosers."
posted by luis Quinta-feira, Novembro 05, 2009
Quarta-feira, Novembro 04, 2009
“You have a telephoto! Why do you need to be so close? It’s like a gun!”
“Did you get the press kit? It is full of information. You could even invent that you met me. Say, ‘We were in a little room. She had the light behind her because her eyes fear the light. And we had tea and coffee.’”
I should say nothing! I’m through with it! I hate to repeat myself all the time. I cannot invent totally. I cannot say something different to one person and then another. I cannot make it totally different each time, you know. I say so much in the film and so much even in the press kit! I quoted Montaigne. So I would say, can we have subsidiary questions, or side questions? Can we speak about the weather? Or the tennis that I watch in my room?
I made a braid because Chinese old people, they say that the God will take you by the hair to join you with—but God didn’t take me, so I cut the braid. Now it’s the same hairdo but it has two colors—come on! It’s different! It’s like an ice cream of chocolate and vanilla! I tried a wig. I hated myself totally white. So now I cheat. It’s my white hair, and I put color there.
I had a world. I don’t think I had a career. I made films.
When I did Cléo, I thought, I have to work with time. We feel time differently when we are suffering or are in pain or we are waiting for something. So subjective time became the subject for me—plus the duration of the time of the film that the spectator perceives. I worked with matters that are there for any artist to work with, but which I worked at with cinema.
I think I’m on the way. I have to do it the way she did. She told people, Don’t worry if I say it wrong—I’m allowed to do so. My sister was suffering from it. She said, It’s terrible—she gives us the names of her brothers and sister! I said, But she’s free, let her enjoy that—and I laughed. And I teach my children, who were there, laugh! I mean, she does nothing wrong. She’s liberated from truth, in a way, from being right.
An old woman I loved very much when I was young—the wife of Jean Villard—she’s just reciting poetry all the time, which is beautiful because it means she went back to the world of poetry that she loved when she was young. That’s all she does—she almost doesn’t recognize her children, but she recites Valéry and Baudelaire. So what? We’re the ones who are suffering. She’s not.
Well, Picasso really changed my life. It’s strange to say so, but I started to see some Picasso paintings very early. I was very young, and he was not so much known. The first exhibition was organized by the communist party, can you believe this?—because of his position during the war and all that. But the freedom he gave himself to work and change shape and change ideas and work all the time with joy—you know, the joy of painting was in Picasso, which I found beautiful.
You understand, I was eighteen, this was back in ’46, so we also had these very frightening images of soldiers in the streets of Paris. So the effect of war, plus my shyness, plus my lack of education—I was afraid of men, really. It changes later, but it took me a certain time to adjust, yes.
People are four years older and they know much more than you, and they’re both very bright, and Renais told me a lot of things. In the editing he told me I should maybe see films: You know there is a Cinémathèque in Paris? And he said to me when the editing was done, he said, There’s Visconti. I said, Who’s Visconti? I had no knowledge at all, no knowledge of films. I’d seen few films. I knew nothing. I was interested in painting and theater at the time. Then I learned and I went to see movies.
Because to advance in society is slow, slow, and slow. To change history is very slow. The first two times I came to the States—black people didn’t have the right to vote—but we have seen them in France, American soldiers, black, and they come and save us. A lot of them died in France. They were doing the job of the American army. I come to the States and they don’t have the right to vote! Can you believe that? So, society is so slow. A feminist is a bore. [Spills tea] It’s OK, since my dress is tea-colored.
posted by luis Quarta-feira, Novembro 04, 2009
Terça-feira, Novembro 03, 2009
mais provas da existência de Deus
Aqui, aqui, este programa é um monumento, uma Capela Sistina; em formatos diferentes mas lembra-me bem o The Blues de Martin Scorsese.
Enquanto ouvia o primeiro, about the weather, li os dois primeiros capítulos de O Espectáculo da Vida A Prova da Evolução, de Richard Dawkins.
Também, desde já, o da Bíblia, é o dezanove, e ouvir John The Revelator.
Agora vou ali deliciar-me mais uma horita com o Espectáculo da Vida, título inspirado no slogan de uma T`shirt, de Richard Dawkins.
E que excelente título.
posted by luis Terça-feira, Novembro 03, 2009
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
"- Então acreditavas no que escreveste? --perguntou Hector a Lucien.
- Sim.
- Ah, meu caro! -- exclamou Blondet. - Julguei-te mais forte! Não, palavra de honra, ao olhar para a tua testa, dotei-te de uma omnipotência semelhante à dos grandes espíritos, todos suficientemente fortes para poderem considerar as coisas nos seus dois aspectos. Meu caro, em literatura, cada ideia tem um direito e um reverso; ninguém pode assumir a responsabilidade de afirmar qual é o reverso. Tudo é bilateral no domínio do pensamento. As ideias são binárias. Jano é o mito da crítica e o símbolo do génio. Só Deus é triangular! O que faz de Molière e Corneille duas excepções, não é a faculdade de pôr Alceste a dizer sim e Filinto, Octávio e Cina a dizer não. Rousseau, em la Nouvelle Héloïse, escreveu uma carta a favor e outra contra o duelo, serias capaz de determinar a sua verdadeira opinião? Qual de nós estaria disposto a pronunciar-se entre Clarisse e Lovelace, entre Heitor e Aquiles? Quem é o herói de Homero? qual foi a intenção de Richardson? A crítica deve contemplar as obras em todos os seus aspectos. Enfim, somos grandes relatores.
- Acredita, então no que escreve? --perguntou-lhe Vernou, trocista. - Somos vendedores de frases e vivemos deste negócio. Quando quiserem escrever uma grande e bela obra, ou seja, um livro, dêem largas ao pensamento, à alma, defendam-na, desabafem; mas artigos lidos hoje, esquecidos amanhã, não valem, para mim, o seu preço. Se atribuírem importância a tanta estupidez, então terão de fazer o sinal da cruz e de invocar o Espírito Santo antes de escreverem um prospecto!
Todos se mostraram surpreendidos por descobrir que Lucien tinha escrúpulos e acabaram de lhe esfarrapar a toga pretexta para lhe envergarem a toga viril dos jornalistas."
Honoré de Balzac (trad. Isabel St. Aubyn), Ilusões Perdidas, Publicações Dom Quixote, 2009.
posted by luis Segunda-feira, Novembro 02, 2009
Sexta-feira, Outubro 30, 2009
1. O semanário Expresso é o semanário Expresso e está tudo dito. Aqui há meia dúzia de anos ouvia-se zurzir muito no que por lá lá se escrevia, que era do piorio, isto e mais aquilo e aqueloutro, vozes ferozes, mas agora não, pois os zurzidores estão lá e os que não estão são seus amigos. No fundo, Portugal.
E foram para lá dizendo e afirmando-se diferentes. O cuspo é fodido.
Mas o semanário Expresso é o que é e a edição do fim de semana passado provou-o uma vez mais. Há alguma explicação para aquela fotografia na primeira página ser aquela a fotografia da primeira página? Diria que só no semanário Expresso. Nunca por sombra alguma deixaria aquela fotografia ser a da primeira página. Mas percebo porque não percebam isso, afinal estamos a falar do semanário Expresso. Queriam o quê, concretamente?
2. Um livro que saiu há meia dúzia de meses Joseph Ratzinger, Paolo Flores d`Arcais, Existe Deus? da editora pedra angular:
"A revista italiana MicroMega lançava um volume sobre o confronto entre Fé e Razão, com textos, entre outros, do seu Director, Paolo Flores d`Arcais, e do então Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger. Para o efeito, organizou um debate com ambos os autores, num lugar público de Roma, e sob moderação do jornalista Gad Lerner. O histórico diálogo foi seguido por mais de duas mil pessoas, dentro e fora do Teatro Quirino (muitas em plena rua, recorrendo-se a um amplificador improvisado).
Existe Deus? - Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo apresenta a transcrição desse debate, bem como dos textos de Ratzinger e Flores d`Arcais que estavam, nesse dia, a ser lançados."
Um cristão um ateu e um judeu.
Claro que em Portugal se acha e achou que não vale a pena discutir assim, as pessoas são na maioria dos casos ignorantes sem a escola primária, leia-se Pulido Valente, e por isso é perder tempo, Pacheco Pereira ajudou. Estes dois homens comentam quase tudo o que se passa e acontece, mas esta não valia a pena.
Faz-me muita confusão que intelectuais como os acabados de citar se atirem para as franjas de discussões importantes, que não se deixem contaminar, isto é muito português, e que de lá digam que não se vê nada, que não se está a passar nada, só circo. Veja-se um exemplo deste estado de coisas: um homem que tem uma das melhores profissões que hoje se pode ter, deputado no parlamento europeu, bem pago, com tempo para reflectir, viagens, etc, etc, elite, portanto, disse o que disse sobre Saramago, que devia renunciar... enfim.
Pulido Valente e Pacheco Pereira não perceberam que para lá da espuma da discussão havia uma outra discussão, e não a quiseram ter por serem portugueses, intelectuais do espaço público português.
A História diz-nos, todos os dias, que as mentalidades são aquilo que demora mais tempo a mudar, muito mais tempo.
3. O encontro entre José Saramago e José Tolentino Mendonça serviu entre muitas outras coisas para desbravar terreno; estar disponível para a discussão é muito sadio, e não se deixar prender nas suas verdades e virtudes ainda mais, discutir, discutir, ah, Grécia, Grécia.
E a conversa entre estes dois homens no semanário expresso da semana passada foi algo a que não estamos habituados, normalmente só a política da pequeninha, bastidores e nada mais.
Que se tivesse dito alto e bom som para todas as pessoas:
a Bíblia é uma obra literária e um hipertexto; porque ama a sua mulher e não outra? a fé é um paradoxo; querer tratar Deus com lógica é chegar a um beco sem saída; pode-se entender a condição humana sem o paradoxo? os cristãos são criados pela liberdade; o cristianismo é uma aventura da liberdade; Deus escolhe o mais pequeno, o último, a vítima, aquele que não tem voz nem vez; o fumo das fogueiras enche a história de todos os tempos; aqueles que pensam que são isentos do mal é que me metem medo; dentro do cristianismo há muitos cristianismos; a experiência do mal está em todas vidas; a Bíblia é um teatro de Deus; nós sabemos de Deus o que Jesus de Nazaré nos revelou; acha que a Bíblia é só isso? e chora e arrepende-se de todo o mal que fez; é preciso amar a imperfeição.
4. O blogger do complexidade e contradição, que há muito adoptou o estilo do blogger do a causa foi modificada, para quase todos os posts que vou tendo a oportunidade de quando em vez ler, imitando uma frase que maradona em tempos também assinou ou postou dizendo mais ou menos o mesmo "que [Tolentino Mendonça] é uma pessoa quase tão superior às outras...". Foi quase à letra.
Escreveu o dono do complexidade e contradição que o debate prometido pelo semanário expresso foi de vidro e que por isso estamos perdidos, que não encontrou lá nada, portanto, que valesse a pena, que para aquilo mais valia nada, nada.
Este post ou comentário ou observação ou desencanto ou decepção ou lá o que mais for, pode ser cegueira, olha, olha, fez-me lembrar um outro post em que o blogger do portugal dos pequeninos, e reparem na ironia, dirigindo-se ao do clube das repúblicas mortas, quando este disse mal da encíclica de Bento XVI, Raposo, dizia-lhe que ao padre teólogo não lia mas a si sim, a si, sim, leio.
Fez-me lembrar o casting do ídolos.
posted by luis Sexta-feira, Outubro 30, 2009
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
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Dizer nada não, apenas que é brilhante e mágico; Ernst Lubitsch, The Marriage Circle a.k.a. Os perigos do Flirt, do catálogo Origens do Cinema, da Divisa. Avé.
posted by luis Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Quarta-feira, Outubro 28, 2009
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fotograma de Casa de Lava, de Pedro Costa
Li, num destes dias, uma frase que dizia: "Le Festin de Babette de Karen Blixen fait réfléchir le philosophe sur l'état de l'art aujourd'hui, pour mieux en dénoncer les limites : une botte vaut Shakespeare, tout se vaut, tout est culture. Notre monde ne supporte plus les héritiers ni l'idée d'une classe cultivée, pourtant absolument nécessaire pour que l'art puisse vivre." (2ª parte)
"À palavra «alimento» os convidados, de cabeças curvadas sobre as mãos postas, lembraram-se de que tinham prometido nada dizer sobre tal assunto e em seus corações renovaram a promessa: nem sequer se permitiriam um pensamento! Estavam ali para jantar; pois também se reuniram para jantar os convidados das bodas de Caná. E a Graça quisera manifestar-se ali, no próprio vinho, tão completamente como noutro lugar da Terra.
O ajudante de Babette encheu um pequeno copo à frente de cada convidado. Eles levaram o copinho aos lábios, gravemente, em confirmação dos seus votos.
O General Loewnhielm, numa certa desconfiança daquele vinho, provou-o, surpreendeu-se, ergueu o copo à altura do nariz, depois à altura dos olhos, e pousou-o, confundido. «Isto é estranhíssimo!», pensou ele. «Amontillado! E o melhor amontillado que eu já bebi.» Momentos depois, como para testar os seus sentidos, provou uma colherzinha de sopa; provou segunda vez, pousou a colher. «Que coisa extraordinária!», disse para consigo. «Porque eu só posso estar a comer sopa de tartaruga. E que óptima sopa de tartaruga!» O General, tomado de estranho pânico, esvaziou o copo.
Em Berlevaag não era costume conversar-se muito à mesa. Mas nesta noite as línguas desatavam-se. Um velho Irmão contou a história do seu primeiro encontro com o Deão. Outro passou em revista o sermão de há sessenta anos que o tinha convertido. Uma velha, aquela a quem Martine confiara primeiro a sua angústia, recordou aos amigos que deveriam estar sempre prontos a aliviar os seus Irmãos e Irmãs dos sofrimentos que os atribulassem.
O General Loewnhielm, que iria dominar todas as conversas nesse jantar, contou que os sermões do Deão eram uma das leituras favoritas da rainha. Mas, quando um novo prato foi servido, calou-se. «Incrível!», disse para consigo. «São blinis Demidoff!» Olhou em volta para os convivas. Todos comiam sossegadamente os seus blinis Demidoff sem revelar qualquer surpresa, qualquer aprovação, como se os tivessem comido todos os dias daqueles trinta anos.
Uma Irmã, no outro lado da mesa, iniciou novo tema: os estranhos acontecimentos que tiveram lugar enquanto o Deão estava ainda entre os seus filhos, a que ela se iria atrever a dar o nome de milagres. Lembravam-se de um certo Natal, perguntou ela, em que o Deão prometera fazer um sermão na aldeia do outro lado do fiorde? Durante quinze dias o tempo esteve tão mau que nem o capitão nem pescador se arriscaram a fazer a travessia. Os aldeões já perdiam a esperança, mas o Deão dissera que, se não houvesse barco para o levar, ele os visitaria caminhando sobre as águas. E, milagre!, três dias antes do Natal a tempestade amainou, veio uma forte geada, e o fiorde gelou de uma à outra margem --e isto foi coisa que não havia memória na região!
O rapaz voltou a encher os copos. Desta vez os Irmãos e Irmãs perceberam que não era vinho o que se lhes dava a beber, porque borbulhava. Devia ser uma espécie de limonada. A limonada estava em harmonia com a exultação de todos e parecia erguê-los a regiões mais altas e mais puras.
O General Loewnhielm pousou o copo, voltou-se para os eu vizinho da direita e disse:
- Mas isto é um Veuve Cliquot de 1860.
O vizinho olhou-o com bonomia, sorriu e respondeu com uma qualquer observação sobre o tempo que fazia.
O ajudante de Babette tinha as suas ordens; servia a Congregação penas uma vez, mas ao General enchia-lhe o copo assim que estivesse vazio. O General esvaziava o seu copo repetidamente. Pois como há-de um homem de juízo comportar-se quando não pode confiar nos seu sentidos? Antes embriagado que louco.
Era frequente os homens e mulheres de Berlevaag sentirem-se um tanto pesados no decurso de uma boa refeição. Hoje não era assim. Os convivas sentiam o corpo e o coração mais leves à medida que o jantar avançava. Já não precisavam de recordar mutuamente a sua promessa. Só quando se esquecia e renunciava firmemente a todo e qualquer pensamento sobre os prazeres da mesa --compreendiam-no agora-- se podia enfim comer e beber como a lei manda.
O General Loewnhielm pousou o talher, ficou imóvel. Mais uma vez se sentiu transportado a esse jantar em Paris de que se lembrara no trenó. Um prato incrivelmente recherché e saboroso fora ali servido; perguntara o nome desse prato a um conviva, o Coronel Galliffet, e o Coronel, sorrindo, respondera-lhe que se chamava cailles em sarcophage. Mais lhe disse ainda que o prato havia sido inventado pelo chefe de cozinha desse mesmo café onde se encontravam, que tinha fama, em toda a cidade de Paris, de ser o maior génio culinário desse tempo, e que era, pasme-se uma mulher! «E realmente», disse o Coronel Galliffet, «esta mulher faz de um jantar no Café Anglais um verdadeiro romance de amor, dessa nobre e romãntica ordem em que se confundem os apetites e a saciedade tanto do corpo como do espírito! Já um dia me bati em duelo por causa de uma bela dama. Por nenhuma outra mulher de Paris, meu jovem amigo, eu verteria agora mais alegremente o meu sangue!» O General Loewnhielm voltou-se para o seu vizinho da esquerda e disse:
- Mas isto são cailles en sarcophage!
O vizinho, que estivera ouvindo a descrição de um milagre, encarou-o com um olhar ausente, assentiu num aceno e retorquiu:
- Sim, sim, claro. E que outra coisa poderia ser?
A conversa à mesa divergiu dos milagres do Mestre para os milagres menores de bondade e caridade operados dia a dia por suas filhas. O velho Irmão que primeiro entoara o hino citou a máxima do Deão: «Da nossa vida na Terra só poderemos levar aquilo que dermos!» Os convivas sorriram: que sumptuosidades iriam conhecer no outro mundo estas donzelas pobres e simples!
O General Loewnhielm já não se maravilhava de nada. Quando, momentos depois, viu as uvas, os pêssegos e os figos frescos diante de si, riu para o conviva do outro lado da mesa e observou:
- Que belas uvas!
O conviva replicou:
- E chegados a vale do Escol cortaram um ramo de videira com um cacho de uvas, que dois homens transportavam numa vara.
Então o General sentiu que era tempo de fazer um discurso. Levantou-se, empertigou-se.
Mais ninguém a essa mesa se tinha levantado para falar. Os velhos ergueram os olhos para o seu rosto em grande e feliz expectativa. Estavam habituados a ver os marinheiros e os vagabundos mortos de bêbados com o espesso gin da região, mas não reconheciam num guerreiro e cortesão a embriaguês produzida pelo mais nobre vinho do mundo."
Karen Blixen (trad. Maria Jorge de Freitas), A Festa de Babette e outras histórias do destino, Edições Asa, 1995.
posted by luis Quarta-feira, Outubro 28, 2009
Segunda-feira, Outubro 26, 2009
há a descoberta de uma nova maneira de estar vivoesta vida que tem sido para mim uma segunda morte
O actor é um pensamento em cena
não é preciso reflectir para fazer o bemrecriar o fogo de um pensamento
fotografias de Luís Santos e Paulo Cintra
Duas das últimas adaptações explícitas de tragédias gregas que tinha visto foram os filmes Noite Escura e Mal Nascida, de João Canijo, que muito para lá do fio da navalha nos mostram algum mundo português de Portugal: cru, sujo, violento, analfabeto, racista, xenófobo, machista, criminoso e inocente.
Há ali, no fundo do poço, uma luta constante pela sobrevivência e pela esperança, por uma ideia, de que falam Rui Chafes, Lobo Antunes e Luís Miguel Cintra, por exemplo, de uma ideia universal, que se fixe e que se fosse possível não se pudesse voltar a violar, de adquirido; na lama ou no lixo o nascimento de uma flor, como em Fellini.
Beatriz Batarda, no Noite Escura, a limpar o chão cheio de sangue da casa de banho do bar de alterne, e, agora, na Ifigénia na Táurida, uma nova Diana, nesse teatro da cornucópia onde, sempre que vou, vejo actores em luta por essas ideias, imortais e universais, dando corpo a esse "o actor é um pensamento em cena", lutando e sofrendo e gemendo e chorando e gritando como se ali, naquele momento, naquela tensão, se decidisse tudo. E decide, sabemos.
É por isso que ali aplaudo sempre de pé, satisfeito e consumido.
posted by luis Segunda-feira, Outubro 26, 2009
Domingo, Outubro 25, 2009
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Texto de Paulo Pires do Vale
"1. Entre mesas e cadeiras desertas, um corpo vestido de branco. Atravessa o espaço de olhos cerrados e lança-se contra a parede cinzenta. Uma e outra vez. Corpo cansado, indefeso. Encosta-se, enrola-se, abraça-a como se fosse sua a pele do muro. Não é. É a dor, consciente de si. Abandono. Cegueira. Outro olhar não será possível sobre o terrível esplendor da perda, num palco tão cheio de ausência. O corpo esguio e desaparecente percorre o lugar lentamente, ou numa súbita urgência, e desenha a vertigem: um círculo em redor do vazio. É a embriaguez sonâmbula da insone. Tão frágil o seu corpo. Fantasma. Só, no seu lamento. Mesmo estando lá o seu duplo, ergue-se à nossa frente o desencontro e a impossibilidade do abraço. Como na ária que escutamos: o violino toca desencontrado da voz da soprano.
2. Será o mais íntimo de cada um este confronto matricial com os fantasmas? Um delírio sonâmbulo. De olhos fechados. Tacteando. Esbracejando por alguém – o eu, o outro – que não pode ser seu, regressando novamente à obscuridade, de onde o queríamos resgatar ou ser resgatados. Incapazes de agarrar o vazio - a parede contra a qual nos atiramos à espera. Num pedido repetido de braços esticados, a que a resposta tarda. E recomeça tudo outra vez. Um corpo cai, levanta-se, cai e levanta-se, cai… (e ouvimos Titânia repetir insistentemente a mesma frase: o let me weep, forever).
3. A repetição é da ordem do tempo sagrado. Uma forma de entrada no tempo inumano da eternidade: sem princípio nem fim, eterno retorno circular, sem disrupção nem desatenção. Mas a repetição obsessiva e compulsiva é também sinal de um mal-estar humano, de uma angústia que se procura exorcizar pelo ritual repetitivo, e que se torna perturbação incontrolável e ainda mais angustiante3. Perante a repetição dos gestos dos bailarinos, essa esteriotipia encenada, na sua desmesura, o público sente desconforto, deixa a sua zona de segurança. Já não vê apenas um desequilíbrio na ordem temporal, experimenta-o no excesso.
4. Os gestos repetidos dos seus bailarinos são à imagem do paciente tecer e desfazer de Penélope, que ainda espera o que vem. E que se distingue da repetida tarefa absurda de Sísifo pela possibilidade de um fim. O inferno – o de Sísifo e o nosso - é a impossibilidade do fim: querer morrer e não poder. Mas aqui há ainda e sempre uma saída. No palco, como na rua, o pano cai. E o fim, sabe o corpo, é horizonte que liberta. O limite é condição de começo, de possibilidade. Para aquela que dança, a obediência aos limites do seu corpo não é escravatura, mas o principio de libertação. Nesse corpo-limite vulnerável cria desenhos que são nascimento de outro modo de habitar e se orientar no mundo, que provocam um deslocamento de ponto de vista. Uma saída.
5. Quem escuta ainda o corpo febril da Pitonisa, quem se vê naquela que nada vê? Ela era Tirésias dançando aquilo que mais ninguém sabe. A cegueira era nela excedência do olhar e não falta – como o rosto de Moisés, que tinha de ser coberto por um véu depois de falar com Deus porque ninguém aguentava o seu brilho. O corpo de Pina estava um passo à frente, sabia primeiro e antes de qualquer pensamento chegar. Sabia antes de saber que sabia. E sobre o palco, como sobre o célebre pórtico de Delfos, um repto é lançado: só uma vida reflectida merece ser vivida. É preciso coloca-la em palco. E não será uma contradição querer ver a obscuridade com os holofotes ligados?
6. Ela não recusou o palco. É a ele que a rua sobe, onde a sua linguagem é transfigurada em poema-imagem: espelho que deforma para nos vermos melhor. Ternura e crueldade, baile e luto, o desejo e o conflito dos corpos, o sexo e os sexos. Ela conhecia profundamente a arte do desiquilibrismo, da arritmia. E tanto podia dançar a sua íntima respiração atenta, como reordenar o caos de um mercado ou praia. Tornava a angústia tangível e celebrava a alegria mais incontida. E mesmo na mais lacrimosa violência, na terra devastada, nas feridas mais abertas, desprendia-se a beleza desarmante. A beleza. De quem, estando no mundo, inaugura nele um reino que não é deste mundo - e por isso ameaça-o de destruição, porque pode renová-lo, recriá-lo a partir dos destroços. Como só o amor pode.
7. Dançar é uma forma de amar. Desse amor que expulsa os amantes do mundo, dizia Hannah Arendt. Amor que é, por isso, força antipolítica e, ao mesmo tempo, a raiz de todas as revoltas que querem justiça, mostraram-no Antígona e Prometeu. Da mesma maneira que o amor, a obra de arte expulsa do mundo, para a ele fazer regressar. Já outro. Uma passagem, uma porta-giratória: Pina oferece sempre uma saída, que é uma entrada num mundo mais largo. Mesmo que para lá chegar seja preciso abrir a porta para a noite mais cruel, aquela que proibiram de abrir.
8. A poesia tem a sua origem mítica no confronto com a morte – o absoluto fora do mundo, porque a morte não é experiência possível. Como o amor, como a obra-de-arte, também a morte nos expulsa, mas de forma absoluta. É a im-possível. E dela só pode dar testemunho aquele que desceu à sombra e se tornou vestígio dessa descida impensável e intestemunhável ao reino dos mortos. E uma testemunha só o é porque transporta algo de intestemunhável que fica necessariamente oculto, obscuridade essencial, experiência pessoal incomunicável de um conhecimento que queima e cega. Reduto do indizível. E quando ela dançava, ou fazia dançar, testemunhava o intestemunhável do testemunho. O seu corpo apontava: Vê, a Noite, ela mesma, está aqui.
9. Disse: “Por vezes, queremos falar de qualquer coisa e chegamos lá muito perto. Mas compreendemos, também, que é tão importante que parece estúpido só o facto de o mostrar. Então é como se o “vestíssemos” com outra coisa, porque mostrá-lo parece-nos arriscado, temos medo. É algo demasiado grande”. E esclareceu: “Há algo de muito mais sério do que aquilo que o público, em geral, pode ver. E existe, está ali, mas não vai ser exibido, porque eu quis escondê-lo. É como se houvesse sempre um grande conflito entre aquilo que queremos tornar claro e aquilo que nos serve para nos escondermos” . Ela lutava contra si própria, de olhos bem fechados, para resgatar Eurídice, mas sem a poder deixar sair do reino subterrâneo. Orfeu volta-se, Pina esconde-se. A obra não ressuscita o morto, aproxima-o do mundo mas já não é deste mundo: os braços fantasmagóricos de Eurídice tornam-se inalcançáveis e ela regressa à escuridão. E nós continuamos, regidos pelo tempo do sol e da lua.
10. Ao olhá-la, ao ver o seu ser-corpo que dança, compreendo a verdade da enigmática interrogação de Simone Weil: “Descer num movimento onde a gravidade não tem lugar... A gravidade faz descer, a asa faz subir: que asa à segunda potencia pode fazer descer sem gravidade?”. A resposta encontra-a Simone Weil na lei divina da graça: “A criação é feita do movimento descendente da gravidade, do movimento ascendente da graça e do movimento descendente da graça à segunda potência”. Pina Bausch era também a cheia de graça. A que se atirava ao pó e à cinza, ao chão nosso quotidiano, como ao céu mais puro.
11. “O céu dos santos é debaixo dos seus passos a própria terra” – escreveu Philippe Lacoue-Labarthe, pensando em Pasolini. Também por Pina Bausch agora o afirmo, e re-escrevo: na prática, ela foi justa. A sua forma de ascensão é resultado da graça mais elevada, a de segunda potência, a graça que é já movimento descendente. Em direcção à terra, à rua. E só os que não receiam sujar os pés e tocar o putrefacto a conhecem e podem transfigurar. E retomo o suspiro de um outro santo, para repetir envergonhado: tarde te amei.
Paulo Pires do Vale
Título original: Jogos de Luto
Texto escrito para a exposição "Laboratório #4 WAY OUT"
13.10.09 "
posted by luis Domingo, Outubro 25, 2009
Sábado, Outubro 24, 2009
"MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO – m.h.m, o documentário de André Godinho sobre o editor Manuel Hermínio Monteiro será exibido este sábado, dia 24 de Outubro, às 20h53 [segundo o site da rtp], na RTP2, sendo o quinto filme da série de documentários da Midas Filmes para a RTP2"
posted by luis Sábado, Outubro 24, 2009
Sexta-feira, Outubro 23, 2009
If you ever go to Houston (14)
outro extra! outro extra! outro extra!
Ivan Navarro
Não lhe pões o dedo; não lhe tocas; ou, não pões o dedo; das três não sei qual é a mais certa, não a escrevi só a ouvi, disse Saramago já em Lisboa, referindo-se assim à sua imaginada pouca tolerância do clero católico que reage mal quando vê e ouve pessoas falar e escrever sobre a Bíblia, e neste caso de um nobel.
Recuemos só até ao Renascimento. Os humanistas exortavam, e muito bem, o espírito crítico como veículo fundamental para iniciar e chegar a uma renovação cultural e artística e espiritual da Europa e das suas instituições.
Definição de espírito crítico, assim de um manual de História do ensino básico português: "atitude de um indivíduo que se recusa a aceitar todo e qualquer conhecimento pré-concebido, sem antes o submeter a uma reflexão sobre a sua origem e valor".
Agora Montaigne, de um manual de História, mas desta feita do ensino secundário, e mais à frente, daqui a um bocado, Balzac: Montaigne, Ensaios, então: "Não cessam de gritar-nos aos ouvidos, como quem deita por um funil, e a nossa obrigação é a de redizer aquilo que nos disseram. Quereria que ele [o preceptor] corrigisse isso, e que, logo de início, embora tendo em conta a idade e a personalidade do seu aluno, começasse a ensaiar fazer-lhe apreciar as coisas, escolhê-las e discernir por si próprio; algumas vezes abrindo-lhe o caminho, algumas outras deixando que ele o abrisse. Não quero que só ele invente e fale, quero que escute o seu discípulo falar por seu turno [...]. Que se não limite a pedir-lhe conta das palavras da sua lição, mas do sentido e da substância, e que avalie dos progressos que ele tenha feita, não pelo testemunho da sua memória, mas pelo da sua vida [...]. Que tudo lhe faça passar pela peneira, e nada alojar na sua cabeça por simples autoridade e crédito; os princípios de Aristóteles não lhe sejam princípios, nem os dos Estóicos ou Epicúrios. Que se lhe proponha esta diversidade de juízos: ele escolherá, se puder, se não, ficará na dúvida."
Parece óbvio, voltando ao não lhe pões o dedo; não lhe tocas; ou, não pões o dedo, que Saramago, como já o afirmaram muitas pessoas sobre esta discussão, disse o que disse e escreveu o que escreveu partindo de não saberes, apenas querendo ser polémico.
Quando criticamos e dizemos o que dizemos devemos tentar que seja bem, senão fazemos figura de tontos. Que parece ser o caso. Prova-o o contorcionismo desta espécie de volta atrás. É da natureza humana, claro, é assim.
Ou acham que o falta cumprir-se Portugal e o só três sílabas de plástico são do mesmo plano?
Saramago e os seus editores e os seus próximos quiseram criar um entretenimento e fazer soar aí pelo planeta que sim, que era ele, de novo.
Olhemos agora e ainda para Balzac para alargarmos a não discussão:
"Com excepção de Laure de Rastignac, de dois ou três jovens e do bispo, todos os ouvintes se entediavam", escreve a dados passos no Ilusões Perdidas.
Por diversas vezes Balzac se refere a clérigos dizendo que eles estavam lá, eram dos mais atentos e com opinião para dar e discutir. Por uma vez se refere aos mesmos num tom menos simpático, ainda que nas outras a ironia esteja presente.
Já notei algumas vezes que em discussões públicas sobre assuntos importantes, os clérigos convidados a dar a sua opinião vão sempre mais longe do que a maioria dos outros convidados, as suas reflexões tem mais reflexão, mais profundidade, mais premissas.
E não tem de ser assim; não tem de ser assim em relação aos outros porque os dias dos clérigos também têm 24 horas, dê por onde der só têm 24 horas.
E depois são homens e mulheres, ponto. Para mim não são mais responsáveis e mais exemplo do que outros. Vestem batina? Fizeram votos? A sociedade vê-os como? Se esticarem a corda vêem que o padre não tem mais tudo isso do que os outros.
Mas muitos estão lá e estão mais à frente, outros não. Como é natural. A este respeito anda a Antígona a publicitar a e dição de dois livros de Tomás da Fonseca que pretendem, entre outras coisas, açular o jacobinismo mais serôdio lá para o 5 de Outubro de 2010. Provar o quê?
Todavia não é por se estudar Teologia que se veste a roupa toda e se acha que todos os outros ainda não reflectiram o suficiente, ou que ainda não chegaram ao ponto, ou que não sabem o que estão a dizer. É que também acontece isso. No caso de Saramago é isso mesmo que não acontece, provocou e não esteve nem está pronto para retorquir, depois queixa-se e vitimiza-se. Azar.
A tolerância e a atenção em relação aos outros não veste roupa nenhuma, todos somos responsáveis por tudo e eu mais do que todos os outros, escreveu Dostoievski.
posted by luis Sexta-feira, Outubro 23, 2009
Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Jacob e o Anjo
«First we feel, then we fall»
James Joyce
Há uma idade em que nos conhecemos
presos às paredes, cambaleantes
diante da noite sem fim
O menor movimento avizinha o fantasma
no escuro um de nós pode morrer
desces tu ou subo eu os degraus de uma lenda
um círculo interdito sobre a terra
Aperto contra ti a infelicidade dos meus braços
a navalha não do jogo, mas do rito
Tu porém inacessível
ardes entre a dupla folha
de ouro
José Tolentino Mendonça, O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim, 2009, p.17.
posted by luis Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Quarta-feira, Outubro 21, 2009
Porta 33
posted by luis Quarta-feira, Outubro 21, 2009
Terça-feira, Outubro 20, 2009
José Saramago, comunista ortodoxo, parece que é um exagero dizer assim, não se consegue libertar da cartilha, mas como é nobel paira por cima dela, até já apoia o homem e o partido que lhe deu ou cedeu uma casa para a fundação, em Lisboa, não se consegue libertar da cartilha básica que tem dentro de si e depois diz o que diz, como aquelas pessoas que quando estão ensandecidas, enraivecidas tremem muito a falar e dizem que eu só quero dizer uma coisa; Marx, Manifesto do Partido Comunista, Materialismo Histórico, Lenine, Estaline, Sibéria? e por aí fora.
Claro que não, claro que não. Mas Saramago faz assim.
E a comunicação social, polvilhada de jornalistas que o que mais anseiam é obter um furo ou uma polémica que alimente dias e mais dias, lhe dá voz quando ele diz nada. Aliás, o que é que a comunicação social deste país faz neste país de comunicação? parece Coimbra, arre, a do conhecimento. Trágico, não é? Dá voz e vozes e vezes a quem diz nada, numa espécie de entretenimento colectivo esquizofrénico em que as pessoas acham graça não se sabe bem a quê; todos correm para os gato fedorento, já viram bem a figurinha que fazem aqueles convidados, e nós rimo-nos, vamo-nos rindo, achamos normal. Valparaiso de DeLillo também explica.
Vejam esta frase do ipsílon:
"Saramago volta a provocar a ira da Igreja. Católicos qualificam críticas do autor de Caim como "operação de publicidade". A controvérsia parece estar nos genes do escritor.
É uma espécie de sequela de um filme já visto no passado. O protagonista mantém-se: José Saramago. E o tema também: a religião. A diferença é que as palavras que reacenderam o rastilho da polémica surgiram a propósito do livro Caim e não de O Evangelho segundo Jesus Cristo."
; não diz nada, leia-se a frase outra vez: que consequências tiramos dela? O nada que diz já aparece justificada nela mesmo e tudo; é o vazio angustiante, perigoso e impotente. O que tiramos dela?
Ai, Conrad, Conrad, tu que não despediças uma frase, uma palavra, nem uma letra sequer.
Sei que é uma ilusão quase tola, mas gostava de encontrar neste livro saramaguiano, do nobel que nos mantém quase a par e passo das elites mundiais, segundo Rui Tavares, meia dúzia de frases como estas do "A Leste do Paraíso, de John Steinbeck, que li ontem a uma das turmas na escola:
"Deteve-se.
- Já pensou no seu próprio nome?
- No meu nome?
- Evidentemente. Os seus primeiros filhos... Caim e Abel.
Adam disse:
- Não, não temos o direito de fazer uma coisa dessas.
- Bem sei. Seria desafiar o destino, seja ele qual for. Mas não é estranho que Caim seja o nome mais conhecido em todo o mundo e que só um homem o tenha usado, pelo menos que eu saiba?
Lee disse:
- Talvez seja por isso que esse nome nada perdeu do seu significado.
Adam olhou o seu vinho cor de tinta.
- Tive um arrepio só de o ouvir dizer.
- Há duas histórias que nos perseguem e assombram desde os começos dos tempos --disse Samuel. - Trazemo-las connosco como duas caudas invisíveis, a história do pecado original e a de Caim e Abel. Pessoalmente, não as compreendo, não as compreendo mesmo nada, mas sinto-as. A Lizza zanga-se comigo, diz que eu não devia tentar compreendê-las, que é inútil explicar uma verdade. Talvez tenha razão. A Lizza afirmou-me que você era presbeteriano, Lee. Você compreende o jardim do Paraíso e Caim e Abel?
- A sua mulher pensou que eu devia ser alguma coisa e, a verdade, é que andei na escola dominical em San Francisco há muitos anos. As pessoas gostam que nós sejamos alguma coisa, de preferência o que elas próprias são.
Adam disse:
- O Samuel perguntou-lhe se compreendia.
- Julgo compreender a queda original. Ou antes, sinto-a. Mas o assassínio do irmão, não. Talvez seja por não me recordar bem de todos os pormenores.
Samuel disse:
- A maioria das pessoas não conhece os pormenores. Ora são precisamente os pormenores que me deixam perplexo. Quando penso que Abel não teve filhos! (Olhou o céu.) Valha-me Deus, como este dia tem passado depressa! É como a vida que passa ràpidamente quando não lhe prestamos atenção e lentamente quando a observamos. Não! --disse ele. - Estou a gostar e prometi a mim mesmo nunca considerar o prazer um pecado. Sinto-me feliz quando interrogo, quando levanto a pedra para ver o que tem debaixo. E o meu maior desgosto é saber que nunca poderei ver o que está do outro lado da Lua.
- Eu não tenho Bíblia --disse Adam. - A da minha família ficou no Connecticut.
- Eu tenho uma --disse Lee. - Vou buscá-la.
- Não é preciso --disse Samuel. - A Lizza emprestou-me a da mãe dela. Tenho-a aqui na algibeira. (Tirou o embrulho e mostrou o livro estragado.) Está rasgada e toda roída --disse ele. - Só queria saber a quantas agonias já assistiu. Dêem-me uma Bíblia usada e creio ser capaz de descrever um homem pelas páginas ratadas e pelas marcas dos dedos. A Lizza também tem dado muito uso à sua Bíblia. Cá chegamos, portanto. À mais velha de todas as histórias. Se ela nos perturba é porque a perturbação está dentro de nós.
- Desde pequeno que nunca mais a ouvi ler --disse Adam.
- Então, deve julgar que é comprida, quando afinal é curta --disse Samuel. - Vou lê-la toda para, depois, a comentarmos. Dê-me vinho, que já sinto as goelas secas. Ora aqui está. Uma história tão pequena mas que abriu tamanha ferida! (Olhou para o chão.) Os meninos adormeceram mesmo no chão.
Lee ergueu-se.
- Vou tapá-los --disse ele.
- A poeira também aquece --disse Samuel. - Agora, oiçam: «Ora Adão conheceu a sua mulher Eva; a qual concebeu e pariu a Caim, dizendo: Eu possuí um homem por Deus.»
Adam quis falar, mas Samuel olhou para ele. Adam calou-se e cobriu os olhos com a mão. Samuel continuou:
«Depois teve a Abel, seu irmão. Abel porém foi pastor de ovelhas, e Caim lavrador. Passado muito tempo aconteceu oferecer Caim ao Senhor os seus dons dos frutos da terra. Abel também ofereceu das primícias do seu rebanho, e das suas gorduras; e olhou o Senhor para Abel e para os seus dons. Para Caim, porém, e para os dons não olhou.»
Lee interrompeu:
- Aí... Não, continue, depois voltamos atrás.
Samuel prosseguiu:
«E Caim se irou fortemente, e o seu semblante descaiu. E o Senhor lhe disse: Porque andas tu irado? E porque descaiu a tua face? Porventura, se tu obrares bem, não receberás recompensa? E se obrares mal, não estará logo o pecado à porta? Mas a tua concupiscéncia estar-te-á sujeita, e tu dominarás sobre ela. Caim porém disse a seu irmão Abel: Saiamos fora. E quando ambos estavam no campo, investiu Caim com seu irmão Abel, e matou-o. E o Senhor disse a Caim: Onde está o teu irmão Abel? Ele respondeu: Não sei. Acaso sou eu o guarda de meu irmão? E o Senhor lhe disse: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama desde a terra por mim. Agora pois serás tu maldito sobre a terra, que abriu a sua boca, e recebeu o sangue de teu irmão da tua mão. Depois que tu a tiveres cultivado, ela te não dará os seus frutos: tu andarás vagabundo, e fugitivo sobre a terra. E Caim disse ao Senhor: O meu pecado é muito grande, para eu poder alcançar perdão. Eis-aí me lanças tu hoje da face da terra, e eu me irei esconder da tua face, e andarei vagabundo e fugitivo na terra: todo o que pois me achar, matar-me-á. E o Senhor lhe respondeu: Não será assim: antes o que matar a Caim será castigado sete vezes nais. E o Senhor pôs um sinal em Caim, para que o não matasse quem quer que o encontrasse. E Caim, tendo-se retirado de diante da face do Senhor, andou errante pela terra, e ficou habitando no país que está a Leste do Paraíso.»
Samuel fechou o livro com uma espécie de cansaço.
- Aqui têm --disse ele--, dezasseis versículos, nem mais, nem menos. E, Deus do Céu, só agora reparo numa coisa terrível: nem uma única palavra de encorajamento. Talvez a Lizza tenha razão. Não há nada a compreender.
Adam suspirou profundamente.
- Não é uma história reconfortante.
Lee encheu o copo com o seu licor escuro, levou-o aos lábios, mas ficou com o líquido na boca. Depois de o ter engolido, disse:
- Só têm força ou deixam vestígios as histórias que somos capazes de sentir dentro de nós. Muito grande é o fardo de culpas que os homens carregam!
Samuel disse a Adam:
- E você tentou carregá-lo sòzinho.
Lee disse:
- O mesmo acontece comigo e com toda a gente. Colhemos as culpas às braçadas como se fossem uma coisa preciosa. Deve ser porque assim o desejamos.
Adam interrompeu:
- Isso faz com que me sinta melhor e não pior.
- Porque diz isso? --perguntou Samuel.
- Não há criança nenhuma que não julgue ter inventado o pecado. Convencemo-nos de que nos ensinam a virtude e de que o pecado nasce em nós.
- Estou a ver. Mas em que é que esta história atenua o pecado?
- Nós somos os descendentes dele --disse Adam com veemência. - Ele é nosso pai e parte da nossa culpa é absorvida pela nossa ancestralidade. Que oportunidade tivemos nós? Nós não somos os primeiros, somos os filhos do nosso pai. É uma desculpa e não há ssim tantas neste mundo.
- Pelo menos, convincentes --disse Lee. - Se não fosse isso, já há muito tempo que teríamos acabado com a culpa, e o mundo não estaria povoado de homens tristes que vergam ao peso do castigo.
Samuel perguntou:
- Mas que outra situação poderíamos imaginar? Com desculpas ous em elas, estamos ligados à nossa ancestralidade. Carragamos a culpa.
Adam disse:
- Lembro-me de me ter enfurecido com Deus. Caim e Abel ofereceram-lhe o que tinham, e Deus aceitou Abel e repudiou Caim. Sempre pensei que era justo. Se vocês compreendem, eu não compreendo.
- Talvez a gente não interprete bem o quadro por ter perdido a moldura --disse Lee--. - Esta história foi escrita por um pastor para um povo de pastores. Não eram lavradores. O Deus dos pastores não se sentirá mais inclinado a preferir um cordeiro a um molho de cevada? Uma oferenda deve ser constituída pelo melhor e pelo mais valioso.
- Percebo o que quer dizer --retorquiu Samuel--. - Lee, previno-o duma coisa: nunca se ponha com raciocínios orientais diante da Lizza.
Adam estava excitado pelo jogo:
- Sim, mas porque foi que Deus condenou Caim? É uma injustiça.
Samuel respondeu:
- Há toda a vantagem em prestar atenção ao significado das palavras. Deus não condenou Caim. Até o próprio Deus pode ter uma preferência, não é verdade? Suponhamos que Deus tenha preferido o anho aos produtos da terra. Aliás, também é do que eu mais gosto. Caim levava-lhe, digamos, um molho de cenouras. Deus responde: «Não gosto disso. Experimenta outra coisa. Traz-me algo que me agrade e terás a mesma afeição que dedico ao teu irmão.» Caim enfurece-se, sente-se ofendido. E quando um homem fica ferido no seu amor-próprio, sente logo ganas de bater em qualquer coisa. Abel atravessou-se no caminha da sua cólera.
- S. Paulo diz aos Hebreus que Abel tinha fé --disse Lee.
- O Génesis não fala nisso --disse Samuel. - Nem em fé, nem em falta de fé. Apenas se refere à ira de Caim.
Lee perguntou:
Que pensa a Sr.ª Hamilton dos paradoxos da Bíblia?
- Não pensa coisa nenhuma, pelo simples facto de não os admitir.
- Mas...
- Calma. Experimente perguntar-lhe e verá que sai da discussão com os cabelos brancos e sem ter adiantado coisa nenhuma.
- Vocês estudaram isso, enquanto eu só tenho uma ideia superficial. Então Caim foi expulso por assassínio?
- Exactamente, por assassínio.
- E Deus marcou-o?
- Então não ouviu? Caim tinha uma marca, não para ser destruído, mas para que se salvasse. Pesa uma maldição permanente sobre todo o homem que o matar. A marca destinava-se a preservá-lo.
Adam afirmou:
- Continuo convencido de que Caim não foi tratado com igualdade.
- Talvez --disse Samuel--. -Mas Caim viveu e teve filhos, enquanto Abel apenas viveu na história. Todos nós somos filhos de Caim. E não é estranho que três adultos, passados milhares de anos, discutam esse crime como se ele tivesse sido cometido ontem, em King City, e a sentença ainda não tivesse sido proferida?
Um dos gémeos acordou, bocejou, olhou Lee e tornou a adormecer.
Lee disse:
- Lembra-se de lhe ter dito, Sr. Hamilton, que estava tentando traduzir antigas poesias chinesas para inglês? Não, não tenha medo, não lhas vou ler. Ao dedicar-me a esse trabalho, verifiquei que certos pensamentos perdidos na bruma do tempo se mantinham tão frescos e claros como um nascer de sol. Se a história não disser respeito ao auditor, ele acaba por se desinteressar. Creio poder enunciar esta regra: se uma história quiser ser grande e perpetuar-se, terá de se dirigir a cada um de nós. Os factos estranhos e longínquos não nos interessam, só o que é profunfamente pessoal e familiar nos desperta a simpatia.
Samuel disse:
- Aplique então isso ao drama de Caim e Abel.
Adam retorquiu:
- Eu não matei o meu irmão...
Sùbitamente, deteve-se, às voltas com o passado.
- Posso fazê-lo --respondeu Lee a Samuel--. - Esta história só é conhecida dos homens por ser a sua própria história. É a história simbólica da alma humana. Creio estar no bom caminho... não me interrompam se não me exprimir com clareza. O que mais aterroriza as crianças é o receio de não serem amadas; acima de tudo, temem ser repelidas. Afinal, todos o fomos, em maior ou menor grau. Daí nasce a cólera que leva a um crime qualquer para obter vingança, e com o crime vem a culpa: é a história da humanidade. Se o homem não fosse repelido por aqueles que ama, não seria o que é. Talvez houvesse menos desequilibrados. E tenho a certeza de que as prisões deixariam de ser necessárias. Tudo começa por aí. Uma criança, ao ver recusar o amor que pede, dá um pontapé num gato e esconde a sua culpa secreta; uma outra rouba o dinheiro para comprar o maor; uma outra conquista o mundo --é sempre a mesma coisa: culpa, vingança e culpa maior ainda. O ser humano é o único animal que tem remorsos. Esperem! Tenho a impressão de que esta antiga e terrível história é importante, porque define o mapa da alma, essa alma secreta, desdenhada, culpada. Sr. Trask, o senhor disse que não tinha matado o seu irmão, mas lembrou-se de qualquer coisa. Não me interessa saber o que era, mas teria tão pouco que ver com Caim e Abel? E o senhor, Sr. Hamilton, que pensa do meu raciocínio oriental? Sabe muito bem que sou tão oriental como o senhor.
Samuel apoiara os cotovelos na mesa e encostara o rosto às mãos.
- Quero pensar --disse ele. - Deixe-me, quero pensar. Preciso de desmontar tudo o que disse, para estudar as peças uma a uma. Parece-me que deu cabo do meu mundo e ainda não sei o que irei construir em seu lugar.
Lee perguntou serenamente:
- Não se poderia construir um mundo sobre a verdade? Não se poderiam arrancar certas dores e certas loucuras, se tivéssemos os intrumentos necessários?
- Não sei. Você destruiu o meu belo universo, inventou um jogo orgulhoso e transformou-o numa lei. Deixe-me em paz, preciso de reflectir. Os seus horríveis bicharocos já começaram a proliferar no meu cérebro. Gostava de saber o que pensará o Tom de tudo isto. Era capaz de acalentar os bicharocos na mão, de os fazer girar devagar em cima do lume, como um frango no espeto. Adam, acorde, para recordações já basta.
Adam sobressaltou-se, suspirou demoradamente e perguntou:
- Não será simples de mais? Sempre tive medo das coisas simples.
- Não é nada simples --disse Lee. - É desesperadamente complicado. Mas no fim há a luz.
- Haja o que houver, a do Sol está a ir-se embora --disse Samuel. - Nem demos pela passagem do tempo. Afinal, vim eu para baptizar as crianças e elas continueam sem nome. Temos andado aqui às voltas, sem sair da cepa torta. Quanto a si, Lee, era preferível que não fosse explicar as suas concepções à Igreja. Os Chineses não estão isentos da cruz, que eu saiba. A Igreja gosta das complicações, mas só das suas. Tenho de voltar para casa.
Adam pediu com desespero:
- Dêem-me nomes.
- Da Bíblia?
- Seja de onde for.
- Ora vejamos. De todos os homens que fugiram do Egipto, só dois chegaram à Terra da Promissão. Não acha que esses dois nomes são bastante simbólicos?
- Quais?
- Caleb e Josué.
- Josué era um soldado, um general. Eu não gosto do exército.
- Caleb era capitão.
- Mas não era general. Caleb agrada-me... Caleb Trask.
Um dos gémeos despertou e largou logo a chorar.
- Chamou-o pelo nome --disse Samuel. - Josué não lhe agrada e Caleb está escolhido. Será portanto aqele, o espertalhão, o mais moreno. Olhe, o outro também já acordou. Sempre gostei de Aaron, mas esse não chegou à Terra de Canaã.
O segundo garoto soltou um grito que parecia quase de alegria.
- Esse nome é bom --disse Adam.
Samuel deu uma grande gargalhada.
- Em dois minutos --disse ele--, e depois duma torrente de palavras. Caleb e Aaron, agora já sois gente, fazeis parte da nossa comunidade e tendes direito à danação.
Lee pegou nos dois meninos e perguntou:
- Já não os confunde?
- Não --respondeu Adam. - Este é o Caleb e tu, tu és o Aaron.
- Lee levou os gémeos a berrar para casa.
- Ontem, ainda, era incapaz de os distinguir --disse Adam. - Aaron e Caleb!
- Louvado seja Deus por ter recompensado os nossos esforços --disse Samuel. - A Lizza devia preferir Josué. Ela sempre teve um fraco pelas trombetas de Jericó. Mas também há-de gostar de Aaron. Portanto, está tudo em ordem. Vou atrelar o carro.
Adam acompanhou-o até à cocheira.
- Ainda bem que veio. Parece que me tirou um grande peso de cima.
Samuel meteu o freio na boca de «Doxology», endireitou a testeira e prendeu a fivela do peitoril.
- Se calhar, agora, vai pensar de novo no jardim? Já o estou a ver como o tinha sonhado.
Adam só respondeu passado algum tempo:
- Já não tenho energias para isso. Não me falta dinheiro para viver e já não tenho ninguém a quem mostrar esse jardim.
Samuel aproximou-se dele com os olhos marejados de lágrimas.
- As energias nunca morrem --disse ele. - Não conte com isso. Julga que é melhor do que os outros? A energia só morrerá consigo.
Ficou a arquejar, depois subiu para o cabriolé, chicoteou «Doxology» e partiu todo curvado, sem dizer adeus."
Este excerto foi retirado da 2ª edição, Livraria Bertrand, traduzido por João B. Viegas, s.d.
E agora vou ali ouvir a música seis do coração independente, de amália, estou viciado, é a vida.
posted by luis Terça-feira, Outubro 20, 2009
Depois de Só o Amor é Digno de Fé
"Sobre Hans Urs von Balthasar escreveram:
Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI)
«Posso afirmar que a sua vida foi uma busca genuína da verdade, que ele compreendia como uma busca da verdadeira Vida. Procurou os vestígios da presença de Deus e da sua verdade em toda a parte: na filosofia, na literatura, nas religiões, chegando sempre a interromper aqueles circuitos que muitas vezes fazem a razão prisioneira de si e abrindo-a aos espaços do infinito.»
Henri de Lubac
«Esse homem [Hans Urs von Balthasar] é talvez o mais culto do seu tempo. A Antiguidade clássica, as grandes literaturas europeias, a tradição metafísica, a história das religiões, as múltiplas tentativas do homem contemporâneo na busca de si mesmo e, sobretudo, a ciência sagrada, São Tomás, São Boaventura, a Patrologia (inteira!), sem falar por agora da Bíblia…—não há nada de grande que não encontre neste grande espírito acolhimento e vitalidade.»"
posted by luis Terça-feira, Outubro 20, 2009
Segunda-feira, Outubro 19, 2009
E NÃO ANDAM POR AÍ,
À NOSSA PROCURA?
"E por que não – disse para mim próprio - representar esta inaudita situação de um autor que se recusa a deixar viver algumas personagens, nadas vivas na sua fantasia, personagens que infusas de vida se não resignam a ser excluídas do mundo da arte? Elas já se destacaram de mim; vivem por conta própria; adquiriram voz e movimento; já se tornaram por elas mesmas, nessa luta pela vida que travaram comigo, personagens dramáticas, personagens que mexem e falam por si; já se vêem como tal; aprenderam a defender-se de mim; saberão também defender-se dos outros. Pois bem, deixemo-las ir aonde vão habitualmente as personagens dramáticas para terem vida: ao palco. E vejamos o que acontece.
Sem querer, sem saber, no tumulto da sua exaltação, cada uma delas, a fim de se defender das acusações da outra, exprime apaixonada e sofridamente o que tantos anos foi o tormento do meu espírito: o equívoco da compreensão mútua, irremediavelmente baseado na abstracção vazia das palavras; a personalidade múltipla de cada um consoante todas as possibilidades de ser que há em nós; e, enfim, o trágico conflito imanente entre a vida que se move e modifica e a forma que a fixa, imutável.
Duas destas personagens, sobretudo, o Pai e a Enteada, falam desta fixidez atroz e inelutável da sua forma, na qual ambas vêem exprimir-se para sempre, definitivamente, a sua essência: para uma o castigo, para a outra a vingança. E defendem-na contra os esgares factícios e a versatilidade inconsciente dos actores, procurando impô-la ao vulgar Director da companhia que a queria alterar de forma a daptá-la às exigências do teatro.
O facto é que a peça foi verdadeiramente concebida como uma revelação espontânea da minha imaginação, num desses momentos em que, como por prodígio, todos os elementos do espírito se correspondem e trabalham em divino acordo. Nenhum cérebro humano, trabalhando a frio, por mais que se esforçasse, teria conseguido penetrar e satisfazer todas as exigências da sua forma. Deste modo, as razões que vou aduzir para esclarecer esses valores não devem ser entendidas como intenções que presidiram à elaboração desta peça e que vou agora defender, mas tão somente como descobertas que, mais tarde, de espírito repousado, pude fazer."
SEIS PERSONAGENS
À PROCURA DE AUTOR
ARTISTAS UNIDOS
SET ~ OUT O9
posted by luis Segunda-feira, Outubro 19, 2009
Quinta-feira, Outubro 15, 2009
If you ever go to Houston (12)
esta fotografia (L.M.D., sem título, 2009)
(A1 Porto-Lisboa e vice-versa)
lembra-me o pântano que José Cardoso Pires descreve em "O Delfim"
E ao décimo segundo If you ever go a Houston vou dizer aquilo que não queria dizer, pelo menos para já, uma vez que a primeira nota deste If you ever... é paradigmática demais, demasiado, dramática. E o que é que tens para dizer, que mereça uma nota introdutória? Pois, é que quando se diz e se fala e se escreve que Portugal está atrasado para aí 30 ou 40 ou 50 anos em relação a alguma Europa e em relação a algum Mundo, e os historiadores e os filósofos, e os escritores e os poetas, entre outros, dizem e falam, e bem, que as mentalidades são o que mais tempo demora a mudar e a ajustar-se, é o que não se vê do tempo longo, é como encontrarmos alguém que já não encontrávamos há muitos anos e ______ ver Wilma Loomis a olhar e ver Bud Stamper´.
Podemos discutir e reflectir o que quisermos mas nas elites é pior quando isto acontece, e ainda mais em elites lúcidas. Atentemos então, em especial na nota 1:
1. "Os votantes desse conselho junto a Lisboa vão ser submetidos a uma grande prova. Terão de decidir se querem que Oeiras passe a ser confundida com Felgueiras, Gondomar e Marco de Canaveses!"
Quando lia o texto este ponto lembrou-me aquelas estrelas amarelas e o som dos passarinhos que aparecem nos desenhos animados e na banda desenhada depois de uma queda ou de uma cabeçada ou de uma martelada dada por outrem.
"Os votantes desse conselho junto a Lisboa vão ser submetidos a uma grande prova. Terão de decidir se querem que Oeiras passe a ser confundida com Felgueiras, Gondomar e Marco de Canaveses!"
As estrelas iam-se tornando vermelhas.
"Os votantes desse conselho junto a Lisboa vão ser submetidos a uma grande prova. Terão de decidir se querem que Oeiras passe a ser confundida com Felgueiras, Gondomar e Marco de Canaveses!"
O galo a subir.
"Os votantes desse conselho junto a Lisboa vão ser submetidos a uma grande prova. Terão de decidir se querem que Oeiras passe a ser confundida com Felgueiras, Gondomar e Marco de Canaveses!"
José Manuel dos Santos devia ter mascado uma chiclete e imitado Sandrinha: "o quiefloufouvia, puofessou?" em vez de... Isto é muito mau.
"Os votantes desse conselho junto a Lisboa vão ser submetidos a uma grande prova. Terão de decidir se querem que Oeiras passe a ser confundida com Felgueiras, Gondomar e Marco de Canaveses!"
É que não sei o que dizer, mesmo, até parece que era preciso dizer tanto e tanto, quase tudo, acho que é mesmo um drama, a sério. Saia-se uma chiclete.
2. De metáforas gosto muito, oh, se gosto, nos últimos quinze dias uma falava de escola e outra falava de igrejas, mas se os jornais portugueses tivessem um patamar mínimo de qualidade e de exigência e de outras coisas mais já não escreviam por lá há muito. E depois ainda falam e citam jornais estrangeiros. A inveja é para os tolos, já ninguém acredita nisso.
3. E para terminar que já vai longo, sem comentários:
no jornal público de hoje, quinta-feira, 15 de Outubro de 2009, página 12: a ministra da educação para uma aluna do primeiro ciclo do ensino básico: "E o que é que gostas mais nesta escola nova?" e a aluna: "Da professora." e a ministra, mais tarde: "os alunos naturalizam as condições envolventes e acabam por dar mais importância à figura do adulto."
Ponto final parágrafo.
posted by luis Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Quarta-feira, Outubro 14, 2009
Porta 33
espelho. lento. visibilidade. viés.
Ana Vieira, In/visibilidades, 2008
Jorge Silva Melo sobre In/visibilidades, de Ana Vieira, a partir de um conto de Richard Zimler que uma amiga, ao telefone, lhe contou.
posted by luis Quarta-feira, Outubro 14, 2009
Terça-feira, Outubro 13, 2009
a lança entra na nuca, sai pela boca, levando a língua na ponta
fotograma de Mal nascida, de João Canijo"DRAMA - Outra das consequência mais óbvias destas adaptações é a necessidade da violência: acontecimentos dramatica e visualmente marcantes. Porquê esta violência no contexto sociológico português?
João Canijo - São duas coisas que se juntam. A primeira é que eu sempre achei que a violência profunda da sociedade portuguesa era imensa. E que estava disfarçada. Não é disfarçada: as pessoas não a querem ver. Não querem olhar para ela. Mas ela existe de uma maneira muito profunda e muito violenta. Por outro lado, as tragédias gregas, como lidam com sentimentos primordiais, são absolutamente violentas. Portanto, juntam-se as duas coisas. Junta-se a fome com a vontade de comer.
DRAMA - Embora haja uma diferença: as tragédias nunca mostram. É sempre alguém que conta o que aconteceu. Enquanto que, nos filmes do João Canijo, essa violência é muito física e visual.
JC - Mas [as tragédias] contam de uma maneira muito pormenorizada e muito sanguinária. Não sei se é na versão do Ésquilo, mas contam mesmo o número de machadadas que o Agamémnon leva. E os gregos gostavam muito de contar essas partes. Se lerem a Ilíada, há uma descrição em que o Homero - ou seja quem for - descreve que a lança entra na nuca, sai pela boca, levando a língua na ponta. É bastante gore.
DRAMA – Falou, em diferentes entrevistas (acho que a propósito do "Noite Escura"), que quis afogar a tragédia. A tragédia, no sentido dado pelos gregos, é hoje impossível?
JC - Acho que não. A ideia de afogar a tragédia era uma ideia conceptual, que tem a ver com uma coisa que me preocupava na altura e que ainda me preocupa, que vem do Matisse. Um dos grandes pontos de batalha do Matisse era a preocupação em não ter no quadro o elemento preponderante. Todos os elementos do quadro deviam ter o mesmo valor. Ao contrário da perspectiva que dirige o olhar para o ponto central do quadro. O Matisse pretendia o contrário: que o olhar não fosse dirigido para nenhum lado particular do quadro e que o espectador fosse descobrindo o que quisesse. É nesse sentido que eu queria afogar a tragédia."
posted by luis Terça-feira, Outubro 13, 2009
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
E NÃO ANDAM POR AÍ,
À NOSSA PROCURA?
Jorge Silva Melo
“E eis que surge uma família em luto, com rostos esmaecidos e como que vindos de um sonho. São as Seis Personagens que procuram Autor e que tentam viver. Querem ser mergulhadas num drama. São mais reais do que tu, encenador, trapalhão imundo. São reais e demonstram-no…”
Foi com esta declaração que Antonin Artaud saudou a estreia em Paris (em 1923, pelos Pitoeff) deste texto que rasgou as quatro paredes falsas do teatro como, ao mesmo tempo, entre o Cais do Sodré e Campo de Ourique, passando pelo copo de três no Val do-Rio e olhando os guindastes no Porto de Lisboa, Pessoa rompia a identidade da voz poética.
E a dúvida ficou, o chão que treme por baixo dos pés dos actores, a necessidade de contar uma história, a impossibilidade de a contar na forma que tínhamos para a moldar, já que a vida é maior do que a escrita, a realidade impede a forma, tudo explode e o homem se dividiu, estilhaçado – pois o que em nós sente, está pensando... – o passado irrompe no presente, amaldiçoando-o, retirando-lhe tapetes e tábuas...
O que foi este veneno que, desde aqueles anos 20 de entre as duas Guerras, nos ministrou Pirandello, o siciliano, como se fosse um licor apenas, o que foi esta dúvida, que não nos livramos dela, e com ela entramos na “era da suspeita”?
Que maldição, que poesia instalou ele nos velhos palcos do teatro (e ainda os há, velhos palcos?) para, pela derradeira (e sempre recomeçada) vez, podermos convocar fantasmas e melodramas, dramalhões impossíveis e vícios secretos, para vermos agonizar, entre gemidos, a odiada burguesia, a família sufocante, estrangulada, enredada na sua esterilidade?
Confesso: Seis Personagens à Procura de Autor é uma das muito poucas peças que, tendo já visto feitas e extraordinariamente (a encenação de Klaus Michael Grüber de 1981, na Freie Volksbuhne de Berlim, com cenografia de Titina Maselli, será um dos três, quatro mais belos espectáculos que vi), sempre quis fazer. Pois sempre me quis meter neste novelo, enredar-me nesta cama de gato.
Pirandello conta que tudo começou em 1910, quando lhe bateu à porta da fantasia a tragédia destas personagens. E pensou contar-lhes a história, escrever um romance. Em 1917, ainda não a consegue formalizar. E escreve numa carta “Seis Personagens, metidas num drama tremendo que chegam até mim para eu as meter num romance. São uma obsessão. E eu digo-lhes que não, que não quero saber delas. E elas que me mostram todas as suas feridas, e eu que as ponho na rua.” Em 1911, num conto, Tragédia de uma personagem, chega-se ao Autor uma delas, o Doutor Fileno. Que lhe pede que escreva a sua queda, que lhe dê vida. E usa argumentação que há-de surgir na boca do Pai, quando Pirandello, em 1921, ousa finalmente escrever mas agora para um palco, a impossível tragédia. E não há-de parar aí; em 1924, escreve um ensaio-prefácio onde revela o processo de criação; e quando dirige a peça, em 1925, para o seu Teatro d´Arte (e para Marta Abba, a actriz), reescreve o texto inserindo muitas das alterações, sugestões, variantes que vira nas produções que entretanto se fizeram da peça pelo mundo inteiro (e principalmente em Paris, 1923 – pelos Pitoeff – e Berlim, 1924 – por Max Rheinhardt).
E nós voltamos assim com ela aos anos em que o positivismo começou a tremer, o naturalismo se pôs a andar às arrecuas. Com o jovem Brecht que sempre perseguiremos, com este funâmbulo Pirandello de todos os arabescos, com tantos que nos lançaram o teatro para dentro destes nossos anos inseguros. Sem nos amparar na ilusão, sem nos acomodar ao já visto.
É bom, de vez em quando, voltar atrás.
E eu ando encantado, neste 2009, a reencontrar Pirandello, a perder-me nos seus silogismos, fulgurantes uns, apenas decorativos outros, farto que ando de me dizerem, nestes anos de recessão estética, que o que devemos é contar histórias daquelas com meio, fim e contracena, que é possível, voltar a fazer retratos e paisagens, agradar ao mercado, que no teatro devemos televisão, restaurando aquele mundo (injusto, não o esqueçamos) que há tempos já foi abaixo.
É com espanto que Pirandello vê o mundo cair, a burguesia e a sua imagem: e nada pode fazer a não ser desconfiar.
E que fazer com esta dúvida, que fazer? Talvez seja a mais duradoura das questões que o pirotécnico Pirandello ainda nos lança, 90 anos depois, casquinando: que fazer com a dor, a tremenda dor da existência?
Talvez por isso, as Seis Personagens andem ainda por aí, à procura. À nossa procura?
E já se sabe que não há escrita que lhes valha."
SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL
SEIS PERSONAGENS
À PROCURA DE AUTOR
ARTISTAS UNIDOS
SET ~ OUT O9
posted by luis Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Quinta-feira, Outubro 08, 2009
1. Duas das boas notícias da última semana, no chanatas, Casa da Achada e drama.
2. Os últimos quatro livros sobre os quais Pedro Mexia escreveu e referiu no jornal público são livros editados por uma mesma editora, a quetzal.
Ponto.
De que é que se fala no tal governo sombra de que faz parte?3. A Relógio D`Água editou recentemente dois livros cujos prefácios ou notas introdutórias foram escritos por Ana Teresa Pereira, que dispensa apresentações.
Todavia, no ao Que o Diabo Leve a Mosca Azul, de John Franklin Bardin, diz respeito as espécies de recensões ou de artigos que li nenhuma faz referência às palavras de Ana Teresa, o que é um mistério, se os autores já não falam uns dos outros se não aparecem ao lado uns dos outros agora parece que os escribas dos jornais e revistas também já consideram irrelevantes os prefácios e as notas introdutórias e assim.
Também no Público, houve um tempo em que pudemos ler as também maravilhosas crónicas de Ana Teresa Pereira.
4. Esta chamaram-me a atenção, dando-me as fotocópias: Expresso, Actual, #1919, 8 de Agosto de 2009: o jornalista, suponho e até espero, Vasco Baptista Marques, escreve isto, só o primeiro ponto e depois o último ponto, sobre Os Limites do Controlo, de Jim Jarmusch:
"Custa dizê-lo, mas é verdade: bem espremidinho o novo filme de Jim Jarmusch (cineasta de altos e baixos que nos habituámos a estimar desde a primeira hora) não chega sequer para encher meio copo de sumo de laranja", "Custa dizê-lo, mas é verdade: chega a ser constrangedor."
Convinha que quem escreveu estas palavras, e das que faltam aqui, que ainda são piores, visse assim mais filmes, porque o que disse é revelador do que ainda lhe falta ver para poder dizer ou escrever algo sobre cinema, fez-me lembrar algumas pessoas que ouvi quando fui pela primeira e única vez para perto do douro ver aqueles aviões que só se vêem na tv e que já havia quem discutisse o que era preciso fazer para ganhar como se tivessem estado sentados o ano inteiro junto ao rio mirando as nuvens.
Deixo aqui dois fotogramas de outros filmes que poderá ver também nos Limites do Controlo, para não dizer as asneiras que disse sobre meia dúzia de citações e de dois ou três gags eruditos, e olhe: os fotogramas não são de Godard nem de Melville:
5. Não sei como é que as televisões portuguesas, algumas até dão notícias 24 ou mais horas por dia, deixam passar quase em branco as Assembleias Gerais da ONU.
O que é que querem de melhor?
De que é que precisam para passar a ter alguma qualidade?
6. Para os mais esquecidos talvez fosse bom reverem o jogo Dinamarca-Suécia, do Euro 2004, jogado em alvalade, para se deixarem de ideias e aprenderem a encher balões.
posted by luis Quinta-feira, Outubro 08, 2009
Quarta-feira, Outubro 07, 2009
"- Pois bem, meu caro --disse Lousteau, que o seguiu--, acalma-te, aceita os homens pelo que eles são, apenas meios. Queres vingar-te?
- A todo o custo --reconheceu o poeta.
- Aqui tens um exemplar do livro de Nathan que Dauriat acaba de me dar, a segunda edição sai amanhã, relê esta obra e escreve um artigo demolidor. Félicien Vernou não suporta Nathan, cujo sucesso prejudica, pensa ele, o futuro êxito da sua obra. Uma das manias destes pobres de espírito consiste em imaginar que não há lugar para dois à luz do Sol. Por isso, publicará o teu artigo no grande jornal em que trabalha.
- Mas que podemos dizer contra o livro? É um bom livro --declarou Lucien.
- Ah! meu caro, aprende o teu ofício --disse Lousteau, rindo. - O livro, mesmo sendo uma obra-prima, deve apresentar-se, no teu entender, como uma idiotice, uma obra perigosa e doentia.
- Mas como?
- Transforma as qualidades em defeitos.
- Sou incapaz de semelhante empresa.
- Meu caro, um jornalista é um acrobata, terás de te habituar aos inconvenientes da situação. Olha, eu sou bom rapaz, vou dizer-te como proceder em ocorrências como esta. Atenção, meu caro!
[...]
Hoje em dia, os costumes na literatura e na edição mudaram tanto que muitas pessoas não acreditariam nos imensos esforços, seduções, nas vilezas, nas intrigas que a necessidade de obter estes reclamos inspiravam aos livreiros, aos autores, aos mártires da glória, a todos os forçados condenados a sucesso perpétuo. Jantares, bajulações, presentes, tudo servia para cativar os jornalistas. A história que se segue explicará melhor do que qualquer asserção a estreita aliança entre a crítica e a livraria.
Um homem de grande estilo e que pretendia vir a ser estadista, naquele tempo jovem, galante e redactor de um importante jornal, conquistou a estima de uma famosa livraria editora. Certo dia, um domingo, na casa de campo em que o opulento livreiro recebia os principais redactores dos jornais, a dona de casa, então jovem e bonita, levou para o parque o ilustre escritor. O empregado mais categorizado, um alemão frio, grave e metódico, que só pensava em negócios, passeava-se de braço dado com um articulista, conversando sobre um empreendimento sobre o qual o consultava; a conversa arrastou-os para fora do parque, chegaram ao bosque. Ao fundo de uma moita, o alemão vislumbra uma silhueta que lhe parece a mulher do patrão, pega no lornhão, acena ao jovem redactor para que se cale, se vá embora, e ele próprio volta a trás com todo o cuidado.
- Que viu o senhor? --perguntou-lhe o escritor.
- Quase nada --respondeu ele. - O nosso artigo será publicado. Amanhã teremos pelo menos três colunas nos Débats.
Honoré de Balzac (trad. Isabel St. Aubyn), Ilusões Perdidas, Publicações Dom Quixote, 2009.
posted by luis Quarta-feira, Outubro 07, 2009
Terça-feira, Outubro 06, 2009
Lourdes Castro
«A Praia Formosa»
photografias do meu avô
Jacinto A. Moniz de Bettencourt
ilha da madeira
"Para ir ao banho descíamos pela rocha e pelo areão, desviávamo-nos das tabaibeiras (1), pelo caminho funcho bravo, goivos da rocha, aromas brancos. Atravessávamos as bananeiras já lá em baixo e estávamos na praia, tão vasta, tão larga. Formosa porque vazia!
Em dias de levadia, ouvíamos em casa o barulho do mar a arrastar pelos calhaus. Rolava-os dia e noite, anos, séculos, até que bocados de basalto ficassem assim tão lisos e macios. Um calhau é uma obra-prima!
Quem não conseguiu andar descalço por cima dos calhaus, ora saltando ora equilibrando-se nos calhaus maiores.
Hoje, como um quarto atravancado de móveis, a Praia Formosa encheu-se de imóveis.
Agradeço ao Avô ter deixado o seu olhar na beleza deste sítio.
E grata ao céu e à terra eu ter começado a respirar aqui.
LC
2006
(1) opuntia tuna (piteira)"
posted by luis Terça-feira, Outubro 06, 2009
Quinta-feira, Outubro 01, 2009
Caravaggio 400
fotograma do site de Caravaggio, curta metragem de José Maria Vaz da Silva
At the Galleria Borghese an unprecedented encounter between Caravaggio and Bacon From
From October 1, 2009 to January 14, 2010, the Galleria Borghese will celebrate the quatercentenary of Caravaggio’s death by displaying his masterpieces together with twenty paintings by one of the great artists of the second half of the twentieth century, Francis Bacon, whose birth centenary of falls this year. These two extreme figures have entered the collective imagination as “accursed” artists, who expressed the torment of existence in their painting with equal intensity and creative brilliance.![]()
Caravaggio, Negazione di Pietro, 1609-1610, Francis Bacon, Tryptich August 1972, 1972
posted by luis Quinta-feira, Outubro 01, 2009
Terça-feira, Setembro 29, 2009
Os Detectives Selvagens: pp. 494-498
página 496, linha 24
fotograma de The Limits of Control, de Jim Jarmusch
Aqui fica o excerto referido no post anterior, é a vida.
"E, quando perguntara a Cesárea para que precisava de uma navalha, ela respondera-lhe que a tinham ameaçado de morte, e depois rira-se, um riso, recorda a professora, que trespassara as paredes do quarto e as escadas da casa até chegar à rua, onde morrera. Nesse momento, parecera à professora que caía sobre a Rua Rubén Darío um silêncio repentino, perfeitamente orquestrado, o volume dos rádios baixara, o vozear dos vivos apagara-se de repente, e apenas ficara a voz de Cesárea. E então a professora vira, ou parecera-lhe ver, uma planta da fábrica de conservas coladas na parede. E, enquanto ouvia as palavras que Cesárea lhe tinha a dizer, umas palavras que não vacilavam mas que também não se atropelavam, umas palavras que a professora prefere esquecer, mas que se lembra perfeitamente e que até compreende, agora compreende, os seus olhos percorreram a planta da fábrica de conservas, uma planta que Cesárea tinha desenhado, em algumas zonas com grande cuidado nos detalhes e noutras de forma esquemática ou vaga, com anotações nas margens, embora a letra às vezes fosse ilegível e outras estivesse em maiúsculas, e até entre pontos de exclamação, como se Cesárea, no seu mapa feito à mão, se estivesse a reconhecer no seu próprio trabalho, ou estivesse a reconhecer facetas que até então ignorava. E então a professora tivera que se sentar, embora não o quisesse fazer, na beira da cama, e tivera que fechar os olhos e ouvir as palavras de Cesárea. E mesmo, embora se sentisse cada vez pior, tivera a coragem de lhe perguntar por que razão tinha desenhado a planta da fábrica. E Cesária dissera algo sobre os tempos que se avizinhavam, se bem que a professora tivesse achado que, se Cesárea se tinha entretido a confeccionar aquela planta sem sentido, não fosse por outra razão senão pela solidão em que vivia. Porém Cesárea falara dos tempos que haviam de vir, e a professora, para mudar de assunto, perguntara-lhe que tempos seriam esses e quando viriam. E Cesárea dissera uma data: por volta do ano 2600. Dois mil seiscentos e picos. E depois, perante o riso que provocara na professora uma data tão peregrina, risinho sufocado que mal se ouvira, Cesárea voltara a rir-se, embora desta vez o estrondo do seu riso se tivesse mantido dentro dos limites do quarto.
A partir desse momento, recorda a professora, a tensão que flutuava no quarto de Cesárea, ou a de que ela se apercebia, fora baixando até se diluir por completo. Depois fora-se embora, e não voltara a ver Cesárea até quianze dias depois. Nessa ocasião Cesárea dissera-lhe que se ia embora de Santa Teresa."
Roberto Bolaño (trad. Miranda das Neves), Detectives Selvagens, Teorema, 2008.
posted by luis Terça-feira, Setembro 29, 2009
Segunda-feira, Setembro 28, 2009
A edição de 2666 é um dos acontecimentos literários, e não só, do ano.
Simpatizo mesmo nada não com as pessoas que de alguma forma estão ligadas à edição de 2666, de Roberto Bolaño, ao seu modus operandi, mas quem anda por aí, estilo velho do restelo, mas em pior, a dizer mal de Bolaño e deste livro em particular, que ainda não li, anda a fazer uma figurinha triste, triste. Tão triste!
E ridícula, claro.
Digam mal de tudo mas não toquem no autor, haja decoro, tenham vergonha. Apontem, isso sim, críticas severas aos críticos, que as merecem, pois a maior parte do que escreveram sobre 2666 é medíocre; quem já leu livros de Bolaño, pelo menos em língua portuguesa, não pode dizer nem escrever apenas o que se disse e se escreveu, nem deixar de falar numa ou noutra pista, dadas noutros livros, em português também, em relação a 2666. Se não a deram é porque não a leram, ou leram mas na diagonal, porque a pista é muito preciosa.
Vejam agora a pirueta: eu tenho uma dessas pistas e vou deixá-la aqui, não agora, mas amanhã, ou depois, estava a dar tempo a Casanova mas ele... nada.
Repare-se nesta catadupa de dizeres escritos por diferentes pessoas para diferentes publicações, onde se chega mesmo a referir um amigo e executor testamentário que fala apenas numa pista para o título obscuro que 2666 representará, oh, céus, que não é a que tenho comigo, e que vocês também têm em casa, e portanto passam a haver duas, mais ou menos quase explícitas, dadas por Bolaño, em língua portuguesa, vamos então aos dizeres primeiro:
- Actual, Expresso #1925, de 19 de Setembro: aspectos biográficos e pouco mais; deste jornalista é difícil ler algo que seja mais do que medíocre;
- Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 23 de Setembro a 6 de Outubro: vénia a Vila-Matas; o resto intitulado como mil e oito páginas de prazer é paisagem;
- ípsilon, sexta-feira, 25 de Setembro: aspectos bigráficos, a bolañomania internacional, generalidades sobre 2666, e depois esbocei um sorriso pois pensei que José Riço Direitinho tinha também chegado a um pouco de pólvora, mas não: quando escreve
"2666 permanecerá um título obscuro, a menos que os muitos apontamentos de Bolaño ainda por classificar, se encontre uma explicação. O executor testamentário e amigo do escritor, Ignacio Echevarría, assinala numa nota à edição do livro uma referência encontrada num anterior livro de Bolaño a uma avenida que se assemelha a um cemitério de 2666".
O sorriso desapareceu. Também não.
- jornal i, edição do fim-de-semana, 26/27 de Setembro de 2009: menos palavras, mais acertadas e uma proposta sensata: leia também...
E também nada.
- na internet, blogosfera, rien de rien, generalidades light de revista cor-de-rosa, exceptuando o que escreveu o leitor sem qualidades, especialmente o primeiro parágrafo.
É a vida.
Mas tão ridículo como os não críticos que acham que batem em tudo o que mexe é o sentimento de posse destes editores e do crítico do expresso/bibliotecário de babel, como se tivessem alguma responsabilidade para além daquela que têm. Chega a raiar o ridículo.
Gracq explica, tudo o resto, no A literatura no estômago. E Balzac, claro.
posted by luis Segunda-feira, Setembro 28, 2009
Domingo, Setembro 27, 2009
.
Houve um tempo em que no jornal Público, na Pública, podíamos ler as maravilhosas crónicas da vaca fria. Depois alguém não se sabe bem de onde deve ter achado não se sabe bem o quê e... noite escura.
Saudades suas, Adília Lopes.
Em Outubro, na Assírio & Alvim:
"Título: DOBRA / poesia reunida
Autor: Adília Lopes
Colecção: Documenta Poetica
Ano de edição: 2009 / Tema, classificação: Poesia
Formato e acabamento: 16 x 24 cm, edição brochada
N.º de páginas: 688 pp.
Este livro que agora se apresenta, Dobra, reúne todos os livros poesia publicados por Adília Lopes até à data.
«HAVERÁ UMA BELEZA QUE NOS SALVE?»
Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne,
Numéro hors série, été 2004, p. 6).
Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si. Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar --mas será involuntariamente? -- bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença."
posted by luis Domingo, Setembro 27, 2009
Quinta-feira, Setembro 24, 2009
toma, Balzac, toma Gracq
Livros com RUM
Programa de informação e reflexão sobre a actualidade literária nacional e internacional, com entrevistas de críticos, autores, especialistas de literatura, mediadores da leitura (e outros intervenientes ligados aos temas abordados).
Quinta-Feira: 21h - 22h
Com repetição aos Domingos (20h-21h)
Autores: Marie Silva e António Ferreira
O António lê os livros, fala deles como poucos e faz perguntas sobre o que leu, pergunta por que é que é assim, o que quis dizer aqui e ali, vem e vai para onde, se fazem ideia, procurando sempre a excelência, não o não ter que dizer ou o empatar ou, como outros, o empastar, não, não é para a fotografia nem para o foguetório.
Ouçam, ouçam os podcasts.
posted by luis Quinta-feira, Setembro 24, 2009
Quarta-feira, Setembro 23, 2009
Balzac é torrencial, Balzac é um gozão, Balzac é um oráculo, Balzac é um cínico.
Lobo Antunes diz que Balzac é genial e diz que Victor Hugo lhe chamava um Homem-oceano.
Das últimas duas linhas do post anterior: "Mas, dentro de dez anos, um garoto saído da escola julgar-se-á um grande homem, subirá à coluna de um jornal para esbofetear os seus antecessores, para os puxar pelos pés e ocupar o seu lugar."
Ando, há vários dias, com uma história de Tonino Guerra na cabeça, nuvem de pó:
"No Vale das Crateras, uma ou duas vezes em cada cem anos, um vento, uma espécie de nuvem de pó, sopra do fundo da terra, e pelos funis enxutos das crateras sobe, lambendo como a língua dos gatos, por três dias, as casas e as faces dos habitantes daquele lugar. Então, todos perdem a memória: os filhos deixam de reconhecer os pais, as mulheres os maridos, as raparigas os namorados, as crianças os pais e tudo se torna um caos de sentimentos novos.
Depois cessa o redemoinho dentro das crateras e, lentamente, cada coisa volta ao seu lugar, não recordando ninguém o que, dentro da nuvem de pó, aconteceu nesses três dias."
Balzac ridiculariza jornalistas e críticos literários, envergonha-os, humilha-os, desnuda-os e depois tem pena deles, das suas figurinhas. E é caso para isso, olhemos para os da nossa praça, do público, do dn, do expresso, de revistas, raras são as excepções, pessoas que falam de livros, chegam mesmo a falar de livros concretos, com título autor e tudo, e depois vai-se a ver e é um bafo de ar, como escreveu Luís Fernando Veríssimo, a semana passada, do lado de lá em Zum
"- O senhor leu "Os Sertões", professor?
- Li!
- Inclusive a primeira parte? A parte chata?
O professor não tinha lido a parte chata. A Sandrinha provavelmente lera a parte chata, na diagonal, em meia hora. O professor não podia lhe conceder aquela vitória. Antes que ela dissesse "Eu li", ordenou:
- Por favor, pare de mexer nesse seu cabelo!
E encerrou o assunto.
O consenso na classe foi: mais uma vitória da Sandrinha. Que no primeiro dia de aula já tinha convencido o professor a deixá-la usar a camiseta com "Abaixo todas as calças!" escrito na frente."
Continua a ser entre todos os outros um país onde muitas muitas pessoas não conseguem dizer que não, se são convidadas olarila que lá vou eu, mesmo que... enfim, foda-se eu consigo, se consigo, em 48 ou 72 horas, oh, se consigo.
E depois há aqueles casos, exemplos?: quando se muda de governo, quando se muda de comissão executiva, quando se muda de seleccionador... há que mudar tudo, levam-se os discos rígidos ou temos de mudar tudo porque está tudo mal. Pois, Balzac, esbofetear.
Esbofeteie-se, uma pessoa vê o magote dos colegas, interessados, e, porventura, amigos a correrem pela rua acima todos suados e sisudos e despentedos e de mãos já apoiadas nos joelhos a dizerem espera aí, buff, espera aí, buff, que eles já vão ver, estamos aqui contigo, ah, se estamos, vamos dar cabo desses __________ invejosos.
Aos Gato Fedorento (como me dizia um amigo, dia destes, já parecem carregar o peso dos trinta anos de televisão de Herman José) tinha custado muito, no primeiro programa deste esmiúça, explicar, num minuto, à sua audiência, que o programa que iam ver dentro de momentos tem muito a ver com um programa americano chamado Daily Show que a sic-notícias transmite, e que eles gostam muito? Tinha custado muito? Acharam e deram por adquirido que os portugueses o sabiam? Não acham isso pior? Acho que é muito pior.
Há formas de fazer as coisas.
Não posso com aqueles programas à meia noite na dois, mas um dia destes passei por lá e estava Nilton a fazer uma rábula à Jay Leno, com aqueles recortes de jornais colados em pequenas cartões de cartolina, como se fosse ideia dele. Como só vi aquele minuto não sei se explicou aos portugueses que aquilo era inspirado no programa de tal do senhor fulano de tal. Será que o fez?
É que a figura que fez foi ridícula.
posted by luis Quarta-feira, Setembro 23, 2009
Segunda-feira, Setembro 21, 2009
"- A influência e o poder do jornal ainda agora estão a despertar --disse Finot--, o jornalismo não passou da infância, mas crescerá. Dentro de dez anos, tudo passará pela publicidade. O pensamento esclarecerá tudo, ele...
- Alterará tudo --disse Blondet, interrompeu Finot.
- É uma opinião --comentou Claude Vignon.
- Imporá reis --disse Lousteau.
- E defenderá monarquias --disse o diplomata.
- Por isso --disse Blondet--, se a Imprensa não existisse, nunca deveria ser inventada; mas ela aí está, vivemos dela.
- E acabará por os matar --disse o diplomata. - Não vêem que a superioridade das massas, admitindo que os senhores as esclarecem, tornará a grandeza do indivíduo mais difícil; que, introduzindo o raciocínio no coração das classes baixas, colherão a revolta, e acabarão por ser as primeiras vítimas. O que é que aparece despedaçado em Paris, quando há um tumulto?
- Os candeeiros de iluminação pública --respondeu Nathan--; mas nós somos demasiado modestos para sentir medo, só nos impressionaremos.
- Os senhores fazem parte de um povo demasiado inteligente para permitir que um governo, seja ele qual for, se desenvolva --disse o ministro. - De contrário, pegariam nas penas, a fim de empreender a conquista da Europa que as espadas não souberam conservar.
- Os jornais são um mal --disse Claude Vignon. - Podíamos utilizar esse mal, mas o governo quer combatê-lo. Quem sucumbirá? É esse o problema.
- O governo --respondeu Blondet--, não me queixo de o afirmar. Em França, o espírito é mais forte do que tudo, e os jornais, além do espírito de todos os homens de espírito, têm a hipocrisia de Tartufo.
[...]
- Blondet tem razão --disse Claude Vignon. - O Jornal, em vez de ser um sacerdócio, tornou-se um meio à disposição dos partidos; de meio passou a negócio; e, como todos os negócios, não obedece a regras. Todos os jornais são, como diz Blondet, armazéns em que se vendem ao público palavras da cor que mais lhe agradar. Se houvesse um jornal de corcundas, defenderia de manhã à noite a beleza, a bondade, a utilidade dos corcundas. Um jornal não é feito para esclarecer, mas para lisonjear as opiniões. Assim, todos os jornais serão, em determinado momento, cobardes, hipócritas, ignóbeis, mentirosos, assassinos; matarão ideias, sistemas, homens e por isso mesmo vingarão. Gozarão do benefício de todos os seres dotados de razão: o mal será feito sem que ninguém seja considerado culpado.
[...]
- As ideias só podem ser neutralizadas por ideias --prosseguiu Vignon. - Só o terror o despotismo serão capazes de sufocar o génio francês, cuja língua se presta admiravelmente à alusão, ao duplo sentido. Quanto mais repressiva for a lei, mas a inteligência eclodirá, como o vapor da válvula de uma máquina. Assim, o rei procede bem, se o jornal estiver contra ele, a culpa será do ministro, e reciprocamente. Se o jornal inventa uma calúnia infame, é porque alguém lha transmitiu. Ao indivíduo que se queixa, pedirá desculpa em nome da liberdade sagrada. Se for levado a tribunal, queixa-se de que não lhe tenham pedido uma rectificação; e se a pedirem? recusa-a, rindo, chama ao crime uma bagatela. Por fim, ridiculariza a vítima quando esta triunfa. Se for punido, se tiver uma grande multa a pagar, apontará o queixoso como inimigo das liberdades, do país e das luzes. Dirá que o senhor Fulano de Tal é um ladrão, explicando que ele é o cidadão mais honesto do reino. Portanto, os crimes são bagatelas! e consegue, em pouco tempo, persuadir todos os que o leiam.
[...]
- O povo hipócrita e sem grande generosidade --prosseguiu Vignon--, ele banirá o talento do seu seio como Atenas baniu Aristides. Veremos os jornais, inicialmente dirigidos por homens honrados, cair mais tarde sob a alçada dos mais medíocres que terão a paciência e a cobardia de goma elástica que faltam aos grandes génios, ou a merceeiros com dinheiro para comprar penas. Já se vêem coisas destas. Mas, dentro de dez anos, um garoto saído da escola julgar-se-á um grande homem, subirá à coluna de um jornal para esbofetear os seus antecessores, para os puxar pelos pés e ocupar o seu lugar."
Honoré de Balzac (trad. Isabel St. Aubyn), Ilusões Perdidas, Publicações Dom Quixote, 2009.
posted by luis Segunda-feira, Setembro 21, 2009
Sexta-feira, Setembro 18, 2009
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fotograma de Casa de Lava, de Pedro Costa
Li, num destes dias, uma frase que dizia: "Le Festin de Babette de Karen Blixen fait réfléchir le philosophe sur l'état de l'art aujourd'hui, pour mieux en dénoncer les limites : une botte vaut Shakespeare, tout se vaut, tout est culture. Notre monde ne supporte plus les héritiers ni l'idée d'une classe cultivée, pourtant absolument nécessaire pour que l'art puisse vivre."
"Na Noruega há um fiorde --um apertado e longo braço de mar cavando as altas montanhas-- chamado o Fiorde de Berlevaag. No sopé das montanhas, a cidadezinha de Berlevaag mais parece um brinquedo com casas miniaturais pintadas de cinzento, de amarelo, de rosa e tantas outras cores.
Há sessenta e cinco anos, duas senhoras de meia-idade viviam numa dessas casas amarelas. Outras senhoras, nesse tempo, usavam tournure e as duas irmãs bem podiam tê-la usado também, e com a mesma graciosidade, pois eram altas esbeltas. Mas nunca seguiram os ditames da moda: sempre se acostumaram a vestir, com modéstia, de preto ou de cinzento. Receberam elas nomes de Martine e Philippa, em homenagem a Martinho Lutero e a seu amigo Filipe Melanchton. Eram filhas de um deão, um profeta, o fundador de uma facção ou seita religiosa conhecida e respeitada em toda a Noruega. Os seus membros renunciavam aos prazeres deste mundo, pois a Terra, e tudo o que sobre ela existe, era quase uma ilusão e a realidade verdadeira era a Nova Jerusalém por que ansiavam. Desses lábios não saía uma inocente blasfémia; todos os seus colóquios não iam além de um «oh, sim», «oh, não» e dos nomes de Irmão e Irmã que a Congregação se davam.
O Deão casara tarde e, no tempo que esta história principia, tinha já morrido há muito. Os seus discípulos eram, a cada novo ano, mais escassos; estavam, a cada ano novo, mais velhos ou mais carecas ou mais surdos; vinham-se tornando até ranzinzas, quezilentos, provocando assim pequenos cismas que, triste coisa, abalavam a Congregação. Mas ainda se juntavam para ler e interpretar a Palavra. Todos conheciam as filhas do Deão desde pequenas; para eles, as duas irmãs continuavam a ser meninas, cara aos seus corações por serem filhas de tal pai. Portas adentro da casa amarela, sentiam que o espírito do Mestre estava com eles; aqui se sentiam bem, aqui tinham paz.
Estas duas senhoras tinham uma criada francesa para todo o serviço, Babette.
Estranho arranjo na casa de duas puritanas de uma cidadezinha da Noruega; estranho e quiçá duvidoso. Os habitantes de Berlevaag, porém, achavam-lhe justificação na índole bondosa e pia das irmãs. Porque as filhas do Deão consagravam os dias e os parcos rendimentos a obras de caridade; à sua porta não batia em vão o infeliz ou o necessitado. E quando Babette veio bater àquela porta, havia doze anos já, era uma fugitiva, uma desamparada, a quem a dor e o medo haviam quase enlouquecido.
Mas a verdadeira razão da presença de Babette em casa das duas irmãs havia de achar-se em tempo mais recuado e em recessos mais íntimos do coração humano."
Karen Blixen (trad. Maria Jorge de Freitas), A Festa de Babette e outras histórias do destino, Edições Asa, 1995.
posted by luis Sexta-feira, Setembro 18, 2009
Quinta-feira, Setembro 17, 2009
Midas, Setembro, Pedro Costa
"Lançamento da monografia cem mil cigarros – OS FILMES DE PEDRO COSTA, edição de O SANGUE em DVD, reposição de O SANGUE em sala e reedição em DVD de ONDE JAZ O TEU SORRISO?"
Excertos de cem mil cigarros:
"O Negro é uma Cor, ou o Cinema de Pedro Costa, João Bénard da Costa, p. 26
“Nem Desnos nem Ventura reencontraram as mulheres. Nem Desnos nem Ventura receberam sequer resposta a essas cartas. Nem Desnos nem Ventura verão as mulheres que amaram com os vestidos que sonharam. Em lugar de tudo isso ficou aquele plano fantomático com que começa Juventude em Marcha, onde, para o saguão negro de uma ruína negra, uma mulher (a mesma? outra?) atira janela fora os restos dos pertences do marido. “Julgo que vou esquecer de mim” é a última linha da carta de Ventura. Não se esqueceu, na enganadora aparência da memória. Mas esqueceu-se no corredor escuro. De cor que era ao tempo d’O Sangue, o negro volveu-se na ausência de toda a luz. Sobreviver é repetir incessantemente uma carta de amor ou, como Vanda, repetir incessantemente a história do dia em que deu à treva a filha.”
Straub, Anti-Straub, Tag Gallagher, p. 42
“Os olhos são, de facto, quase tudo para cada um dos realizadores de que Costa gosta (e que têm um papel importante no seu primeiro filme). Pense-se nos olhos esbugalhados de Chaplin; a obsessão de Ford com os olhos. Os Straub até ensinam os seus actores como fixar o chão de forma a que lhes consigamos ver os olhos, Costa mostra-os a contar isto em Onde Jaz o Teu Sorriso?. Mas mesmo em Onde Jaz o Teu Sorriso?, só vemos Jean-Marie em planos gerais pouco iluminados, e quase nunca os olhos de Danièle.”
Política de Pedro Costa, Jacques Rancière, p. 53
“Como pensar a política dos filmes de Pedro Costa? Num primeiro nível, a resposta parece simples: os seus filmes têm aparentemente como objecto essencial uma situação que está no centro do que está em jogo, em termos políticos, no nosso presente: a sorte dos explorados, daqueles que vieram de longe, das antigas colónias africanas, para trabalhar nos estaleiros de construção portugueses, que perderam a família, a saúde, por vezes a vida nesses estaleiros; aqueles que se amontoaram ontem nos bairros de lata suburbanos antes de serem expulsos para habitações novas, mais claras, mais modernas, não necessariamente mais habitáveis.
A este núcleo fundamental vêm juntar-se outros temas sensíveis: em Casa de Lava, a repressão salazarista que enviava os opositores para campos situados no mesmo sítio de onde partiam os africanos à procura de um trabalho na metrópole; a partir de Ossos, a vida dos jovens lisboetas que a droga e a deriva social enviaram para os mesmos bairros de lata, para aí partilharem a mesma vida.”
Condenados à Morte, Condenados à Vida, Rui Chafes, p. 71
“Um país de ervas daninhas. Paisagens de ervas daninhas e rasteiras, feias charnecas sem fim. Longínquos trovões no céu. O país mais triste do mundo. Quero mostrar o país mais triste, mais desolado, vazio e pobre que existe à face da terra. Escuridão e árvores esquálidas, motoretas e triciclos motorizados. Tempestade, chuva, lama. Pegadas na terra encharcada. Um rosto de menino pobre a brilhar no escuro. Uma bofetada na cara. “Faça de mim o que quiser.” Cara muito séria. “O que digo ao Nino?” “Que morri.” Árvores despidas, negras, pavorosamente esquálidas. Como é possível existir um país assim? Um país que gostaria de não conhecer. Uma paisagem sem país. Aguardo. Olho. Espero. Sou uma aranha paciente. Não chego a estar triste, tenho o veneno da aranha. Observo, condenado a esta morte, condenado a esta vida.
“Não te perdes?”, perguntam-me. “Não.””
Ossos, João Miguel Fernandes Jorge, p. 157
“Ossos é um filme de grandes rupturas. Parece que nos fala de um post-humano português, se acaso as nacionalidades permanecerem na linguagem cifrada do replicante. Neste filme mostra-se como se ultrapassou um tempo histórico e social. Como a comunidade na qual nos inserimos já é outra. Como já não se situa no ponto exacto onde cada um de nós ainda a concebe. A ficção fílmica alastrou a toda a geografia portuguesa e, nisso, o filme tem também força documental.”
Histórias de Fantasmas, Thom Andersen, p. 172
“Depois de ter visto projectada a cópia em 35mm de Juventude em Marcha, comecei a identificar mais semelhanças com The Searchers do que com Sergeant Rutledge. Tal como Ethan Edwards, Ventura é um vagabundo, um “peregrino” à procura dos seus filhos perdidos. Quando o agente imobiliário, no apartamento dos prédios novos, lhe pergunta quantos filhos tem, Ventura responde: “Ainda não sei.” Tal como Monument Valley representa todo o Sudoeste em The Searchers, as Fontainhas e os novos bairros de realojamento representam o mundo inteiro de Ventura em Juventude em Marcha. Então, disse-lhe eu: “É como em The Searchers – mas melhor. É The Searchers refeito a partir do ponto de vista de Mose.” Costa respondeu: “Então acha que Ventura é louco?” E eu respondi: “Não, mas eu não acho que Mose seja louco.” Só me ocorreu mais tarde que Mose é a única personagem sã em The Searchers e, por isso, limitei-me a dizer: “É como num filme de John Ford com Francis Ford como protagonista.” Ele acabou por aceitar este elogio. Afinal, o irmão mais velho de John Ford é o mais nobre e amável dos actores com quem ele costumava trabalhar, e os melhores filmes de Ford são sempre aqueles em que Francis tem os melhores papéis. Poderia referir como exemplos My Darling Clementine (1946) ou The Sun Shines Bright (1953).” "
posted by luis Quinta-feira, Setembro 17, 2009
Quarta-feira, Setembro 16, 2009
Mais Mar Musa
O belo texto de Alexandra Lucas Coelho publicado no jornal Público na passada segunda-feira intitulado Mar Musa pode ser lido e mais visto aqui.
posted by luis Quarta-feira, Setembro 16, 2009
Terça-feira, Setembro 15, 2009
Abomino, assim mesmo, o termo rentrée, não posso mesmo com a palavra, com o seu significado e com alguns fogueteiros que andam por aí, que não são em nada diferentes do trabalho que Júlia, José e Jorge mostram.
O que eles fazem aos livros, tenho pena de alguns autores, tais devem ser as voltas na tumba, é o mesmo que os canais de televisão quando sintonizados fazem às tardes e às manhãs de cada dia.
Será que podíamos continuar a viver sem a rentrée?
Irei assinalar então aqui a rentrée, com algumas das novidades, comecemos pela Assírio & Alvim, previstas para 24 de Setembro estão, cujas capas são uma maravilha:
Título: O VIAJANTE SEM SONO
Autor: José TolentinoMendonça
Colecção: Poesia Inédita Portuguesa
Ano de edição: 2009 / Tema, classificação: Poesia
Bicicletas
Por muito tempo amarei casas que existam apenas
para guardar uma bicicleta ou os remos de um bote
As casas interessantes não têm pretensão nenhuma
Estão perto de nós na hora necessária
mas a qualquer momento
com mais clareza
afastam-se das certezas que perdemos
e da imensidão que se avista de lá
Um velho provérbio diz:
Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo
de uma estação clemente
para Jaume Sanahuja![]()
Título: CAROÇO DE AZEITONA
Autor: Erri De Luca
Tradução do Italiano: João Pedro Brito
Colecção: Testemunhos
Este livro propõe uma série de pequenas reflexões sobre textos da Bíblia, resultantes da meditação quotidiana do autor. A partir de um verso bíblico lido, ouvido, analisado e dissecado na sua língua original, Erri de Luca traz a lume considerações sobre grandes temas que dizem respeito ao homem e a toda a humanidade. Das suas páginas emerge sobretudo o fascínio pela imensidão dos sentidos que se descobrem, mesmo quando se permanece apenas à superfície das palavras.
Título: O PENDURA
Autor: Jules Renard
Tradução e Apresentação: Aníbal Fernandes
Colecção: O Imaginário
Jules Renard (1864-1910), homem com uma vida curta de quarenta e seis anos, autor de um Diário de publicação póstuma que escorreu golfadas de lava devastadora (Jean d’Ormesson levá-lo-ia para a ilha deserta: «Não nos arriscaríamos ao tédio»); autor de Poil de Carotte e de Histoires Naturelles, autor de L’Écornifleur (O Pendura), na sua época acusado de «insulto a tudo o que é honesto», história de fundos naturalistas enfeitados por um humor cruel, as efervescências que amolecem o coração humano desfeitas nos meandros de uma invenção verbal de singular acidez. Setenta anos depois da sua morte, Jean Paulhan pôs num texto a frase que ele teria gostado de ler: «Exerceu na prosa a mesma espécie de atracção que Rimbaud e Mallarmé exerciam nos poetas».![]()
Título: O CAMINHO DOS PISÕES
Autor: M.S. Lourenço
Edição: João Dionísio
Colecção: Documenta Poetica
Preparada ainda em vida do autor, esta edição reúne a obra poético-literária de M.S. Lourenço.
A olhar para poemas escritos há doze anos
E cuja autoridade se tem negado,
Sente-se que se mudou,
Que se é agora mais indulgente
Com esses imprecisos restos.
Escrevia-se poemas à Ulalume
Estimulando a impressão indefinida,
Insinuando um prazer vago.
A pedra continua imóvel e vê-se
Que não podia mover-se então.
Mas o tempo cura tudo:
Inúteis e pinturescos os nomes falsos,
Escrúpulos antigos!
Quando se amadurece,
O nó intrinsicado complica-se.
E assim a dúvida cresce de
Que se possa alguma vez conhecer
A ideia próxima de morte
Ou, lá fora, o barco a deslizar no rio.
Título: O SANGUE POR UM FIO — poemas
Autor: Sérgio Godinho
Desenhos: Tiago Manuel
Colecção: Poesia Inédita Portuguesa
Memória ao abandono
Memória ao abandono
a válvula do sono
aberta.
Desdobra panos
hélice, ela
a grande borboleta
se é por pousar
já pousou—
despejando o vento
na abertura do vulcão
encaminhando a lava
no sentido giratório.
Antes
tive medo de ter sono
agora
é planeta a planeta.
posted by luis Terça-feira, Setembro 15, 2009











































