Na capa da Revista do semanário expresso do dia 11/5: os 100 mais influentes quem marcou os últimos doze meses em Portugal.
Esta merda das listas dizem que é bom mas é como as mentiras que repetidas muitas vezes passam por ser verdade, e lá se coloca quem realpolitikamente se quer para. Adiante.
E lá vamos dar. Olha, olha. Olha quem. Ui. Cruzes. Enfim. O que é que se havia de esperar? Afinal é o expresso. Eheheheheh. Stop. Deixa ler. "Exportador de cérebros". Exportador de cérebros? Eheheheheh.
Pode ser que seja para mostrar as aberrações que este homem disse no "olhos nos olhos" oh, não. Pelo contrário.
E depois no dia 18/5 a crónica/recensão do inenarrável ex-director do mesmo semanário Henrique Monteiro também comentador na rádio renascença (quase não nos podemos distrair, somos logo bombardeados, Orwell, Orwell devia ver isto agora) sobre a maçonaria.
Tudo é mau. A palermice e a pouca vergonha já não têm limites. Tal como o ex-cardeal de Lisboa também este homem começa por querer exemplificar, ui, e vai daí a maçonaria como o futebol como um clube de futebol. Jasus. É lixo em cima de lixo, veneno.
Podia ter citado José Mattoso em vez das palermices e das parolices que escreveu.:
José Mattoso:
"O carácter secreto da fraternidade maçónica, em si mesma, também não é
incompatível com o ideal cristão, mas a ocultação das pessoas e dos meios de
acção favorece a ambição pessoal e a conquista do poder económico e político por
meio de processos ilícitos."
ou:
"A sabedoria cristã não acusa a fraternidade maçónica como tal mas também não
pode deixar de apontar os riscos, a perda dos critérios morais quando o
objectivo é favorecer um grupo secreto e excluir os seus concorrentes."
E ainda ninguém escreveu nada nos jornais portugueses sobre a crónica/recensão que o inenarrável e parolo Henrique Monteiro escreveu no passado sábado no Atual (caderno do espesso) sobre a maçonaria. Impressionante. Revoltante. Somos nada.
Houve muitos dias que esperei religiosamente pela noite também por causa dos episódios de séries de tv que considerava muito importantes: ajudavam-me a desfazer nós, a seguir por veredas e carreiros que me mostravam um olhar diferente sobre… a vida, digamos assim.
Acho que nunca tinha ouvido ou visto nas tvs qualquer referência a Flannery O`Connor. Comecei a seguir “Hannibal” com pouca curiosidade mas ainda assim para ver como é que eles iam tentar matar o Lecter Hopkins.
Surprise, surprise!
E depois. Depois.
Depois vemos Abigail acordar do coma e depois sentada na cama a ler.
Tem nas mãos a ´Antologia` de Flannery O`Connor que a Dra. Alana Bloom (“professora de psicologia, consultora do FBI e ex-aluna de Hannibal Lecter”) lhe deixou em cima da mesinha de cabeceira.
Desta vez não sabemos qual é o conto.
But.
E depois achei que seria interessante juntar algumas notas que Flannery escreveu sobre a televisão, dada a sua acutilante atualidade e também porque tem sido ela o centro das atenções nestes primeiros episódios e que.
Ora:
“No dia 30 [Maio de 1955] vou a Nova Iorque para, quem diria!, dar uma entrevista ao senhor Harvey Breit para um programa que passa na cadeia NBC. Também vão encenar/dramatizar a cena inicial de ´A vida que salvar pode ser a sua`. Achas que isto me vai corromper?
Todos os que leram ´Sangue Sábio` crêem que sou uma rude niilista, todavia penso passar a imagem de uma tomista desajeitada, ainda que, provavelmente, não serei capaz de pensar em nada para dizer ao senhor Harvey Breit que não seja ´Eh?` e ´Não sei`. Quando regressar se calhar terei de passar três meses dia e noite no galinheiro para lutar contra essas más influências.”
Junho de 1955:
“Na televisão foi medianamente horrível e estou encantada por estar de regresso com os frangos, que não sabem que acabo de publicar um livro.”
Março de 1961:
“As monjas estavam tão agradecidas por lhes ter arranjado um editor que me ofereceram um televisor portátil. É claro que fiquei atónita. Uma delas tem um irmão que lhe deu o televisor para que ela mo oferecesse. Elas não têm dinheiro próprio. Assim, finalmente a mamã e eu entramos no século XX. Agora posso contar-te tudo sobre medicinas como Geritol, Pepto-Bismol, Anacin, Bufferin, qualquer tipo de sabonete ou de cera para o chão, etc., etc. Afortunadamente, temos um canal educativo que passa programas interessantes.”
Novembro de 1963:
“A morte do presidente afetou muito o país. Todas a televisões comerciais pararam até ao fim do funeral, e, inclusivamente, os jogos de futebol foram cancelados, que é o maior símbolo de luto possível. A política sulista, que se inspirou e navegou muito sob a inspiração do ´maldito Kennedy`, tem agora de recolher as suas velas…”
Maio de 1964:
“Aquela operação de fevereiro reactivou-me o lúpus e há poucos dias estive no hospital outra vez. Agora estou em casa mas como diz a personagem da televisão «não faço nada, só estou ali sentada».”
Termino com S. João da Cruz: "Para chegar ao que não sabes,/hás-de ir por onde não sabes."
Aos trinta e um minutos e tal do segundo episódio de “Hannibal” exibido na tv fez a passda segunda-feira oito dias uma personagem sentada numa cama de um hospital lê para outra que está em estado de coma e uma outra que está a dormitar num sofá aos pés da cama acorda com a leitura.
O livro é uma antologia dos contos de Flannery O`Connor.
O conto que está a ser lido é “Um bom homem é difícil de encontrar”.
“Romper com o equilíbrio de todas as coisas e não poder fazer mais do que segui-lo ou fazer alguma maldade” diz Flannery “é a pedra angular que sustenta os meus contos”.
Nas palavras da autora “Um bom homem é difícil de encontrar é uma espécie de duelo entre a avó e as suas crenças superficiais e também um duelo entre o Inadaptado e a sua implicação com a ação mais profunda de Cristo, que o desequilibrou.”
Os contos de Flannery abordam sempre a nossa participação na vida divina, isto é, sobre a ação da graça que é, diz ela, “a única coisa capaz de provocar uma mudança de personalidade”.
Diz também: “parece-me que todos os bons contos tratam sobre a conversão, sobre a transformação de uma personagem. A ação da graça transforma a personagem. A graça não se pode experimentar em si mesma: por exemplo, quando vais comungar recebes a graça mas não sentes nada, se sentires algo não é a graça mas sim uma emoção produzida por ela. Portanto, num conto unicamente aquilo que podes fazer com a graça é mostrar que a personagem se está a transformar. Todos os meus contos tratam da ação da graça sobre uma personagem que não está disposta a aceitá-la.”
A personagem de Hannibal está em coma porque o pai, um serial killer, a tentou matar desferindo-lhe uma navalhada ou na carótida e/ou na jugular esvaindo-se em esguichos de sangue.
Em “Um bom homem é difícil de encontrar” diz a autora “o Inadaptado é tocado pela graça que provém da velha quando ela o reconhece como um filho seu, da mesma maneira que ela é tocada pela graça proveniente dele e do seu sofrimento.”
Em Portugal estão publicados os contos e as duas novelas.
Flannery O`Connor esteve uma vez em Portugal, numa viagem que fez à Europa em maio de 1958:
“O voo entre Roma e Lisboa foi nas Linhas Aéreas Argentinas. Não fomos a Fátima porque era um dia inteiro de viagem e R. estava bastante constipada. Os santuários da Virgem não parecem aumentar a minha devoção por elas e fiquei satisfeita por não ter ido. Sairam às oito da manhã e regressaram por volta das oito da tarde, todos esgotados excepto as irmãs B. que declararam sentirem-se muito melhor no fim da peregrinação do que no princípio.
Estou segura que poderia viver em Portugal por vinte e cinco centavos por dia.”
Ouvir falar de Bem Comum num país capturado e minado e amordaçado (oh!) por sociedades secretas, lojas maçónicas e opus dei, é de corar.
O desplante. O topete. O descaramento.
A falta de vergonha.
“Terra Prometida”, filme de Gus Van Sant, podia ser a introdução mas houve quem só visse e espalhasse que era sobre o Ambiente e multinacionais a querer retalhar uma pequena cidade/vila rural. Veja-se lá.
Não conseguiram ver o cerco avassalador, total, maquiavélico e travestido do demónio (que é quase sempre o primeiro a reconhecer a Graça) nem ver a angustiante, periclitante e decisiva resistência ao mesmo.
Como não se chegou lá mais vale ir logo directos ao assunto: as sete horas de “O Tango de Satanás”, de Bela Tarr.
Pois, é muito?
Não, nada.
No fim agradecemos prostrados.
Talvez o desplante, o topete, o descaramento e a falta de vergonha se vejam expostos ridícula e irremediavelmente.
Bando de parolos.
Desvendar o que quer que seja nunca é depressa ainda que urgente.
Um dia ouvi um prisioneiro de luxo dizer que mais tarde ou mais cedo todos tínhamos de pertencer ou escolher algum sítio ou lugar para estarmos/vivermos/nos realizarmos.
Que tínhamos de escolher. Que era inevitável.
(aquilo que me ia passando pela cabeça enquanto ouvia era República, Democracia, Bem-Comum, Cristianismo, por exemplo)
Fez-se entender bem embora travestido (à volta reinava um silencio reverente e castrador).
Eu não queria/não quero estar nesse sítio ou lugar, pelo menos daquela maneira.
Paulo Nozolino, Gloom #2, 2010
Depois passei uns dias a cantarolar --imagine-se, eu que não tenho nenhuma noção nem de ritmo nem qualquer afinação — Gotta Serve Somebody, de Bob Dylan:
"Well, it may be the devil or it may be the Lord
But you're gonna have to serve somebody.”
Hoje à noite e durante toda a semana quando o dia estiver quase a acabar quando terminar de rezar o Pai Nosso vou também lembrar e lembrar-me de Gus Van Sant.